Três meses se passaram e Mousse continuara atormentado como se fosse uma criança que perdera a esperança, sem saber que rumo seguir e a quem recorrer, afinal sua mãe ficara demasiadamente chocada após a perda de memória do filho e caira em profunda depressão. A vida daquele rapaz realmente paralisara no tempo e espaço...

O jovem estava desnorteado, caminhando entre os turistas e moradores com passos lentos e pesados naquela enorme e movimentada cidade chamada Pequim. Caminhou até parar em frente a uma galeria de lojas. Ele não tinha se alimentado antes de sair da sua casa e sentia a barriga reclamar por comida. Aquilo havia se tornado uma rotina: Mousse saía bem cedo para buscar informações sobre seu passado e somente regressava no seu lar ao anoitecer.

Ao seguir em frente, Mousse parou para se alimentar e retomou sua caminhada. De repente, uma senhora sentada na entrada de uma loja, chamou por ele.

– Hei jovem, está com algum problema? – comentou – Você me parece bastante triste e abatido. Venha para cá, talvez eu não resolva os seus problemas, mas ao menos posso aliviar o peso que você carrega nas suas costas.

– Eu só quero saber quem eu sou – Mousse respondeu, sem ânimo.

– Me explique isso melhor – disse.

Mousse ficou pensativo por alguns instantes, no entanto, áquela altura do campeonato ele precisava urgentemente compartilhar suas dores e angústias com alguém, mesmo sendo para uma total desconhecida.

A senhora gentil conduziu-o para os fundos de sua pequena loja de objetos antigos, oferecendo um lugar para sentar, um singelo copo de chá e um prato de aperitivos típicos daquela região. Depois de muito desabafar, Mousse sentia-se mais leve e aliviado.

– Você ao menos sabe o seu nome? – a senhora indagou, tomando um gole do chá.

– “Mousse”, segundo minha mãe – Mousse respondeu.

– Então pelo menos você sabe quem é a sua mãe – comentou.

– Não – disse com sofreguidão – ela que diz “ser” minha mãe, mas eu não consigo lembrar de nada, nem dela e nem de ninguém...

– E o seu pai? – perguntou.

– Minha mãe disse que ele saiu ainda jovem para treinar nas montanhas Bayankala e nunca mais retornou – respondeu – acha que meu pai morreu e por isso nunca mais voltou para casa...

– Bayankala... – comentou, meditativa – diz uma lenda que ali existem fontes amaldiçoadas e quem cair em alguma delas, ganhará a forma daquele que morreu afogado, seja humano ou animal...

– E eu sou um exemplo vivo... – falou, abaixando a cabeça.

– Você se afogou naquelas fontes? – indagou, surpresa.

– Eu também fiquei assustado num dia que choveu e eu estava sem guarda-chuva e me transformei num... – completou – pato.

– Mas como isso foi acontecer? – questionou, confusa.

– E parece que eu só ganho forma de pato quando levo banho de água fria e volto ao normal quando tomo banho de água quente... – explicou, sem graça.

– Espere – pediu, calmamente.

A senhora levantou-se com a ajuda de sua bengala e desapareceu no estreito corredor. Com um pouco de demora, retornou onde estava Mousse, entregando a ele um objeto que aparentava ser um pingador de colírio.

– Pingue somente uma gota em cada olho – explanou, colocando um copo d’água da torneira – e faça o teste depois.

Mousse atendeu prontamente ao pedido daquela senhora tão misteriosa. Mal sabia ele que até pouco tempo atrás quando ainda não tivera perdido sua memória, tentara a qualquer custo livrar-se daquela maldição ridícula. Em seguida, jogou a água na cabeça e fechou as pálpebras por força de hábito, esperando a transformação acontecer.

– Eu – Mousse abriu um olho e disse, bastante surpreso – eu não me transformei...

– Que ótimo – a senhora mudou rapidamente de expressão e disse – agora só falta você recuperar sua memória...

– Quem é a senhora afinal? – indagou, desconfiado – Por que está tão preocupado com um estranho?

– Eu já sei – ela ignorou as últimas perguntas do Mousse e disse – Venha comigo, eu quero te mostrar uma coisa.

A senhora conduziu-o para subir as escadas que dava acesso ao sóton. O local era sombrio e empoeirado, incomodando as narinas alérgicas do Mousse. Aquilo parecia uma casa mal assombrada, cheio de teias de aranhas e remendas improvisadas nos buracos com pedaços de madeira.

– Pronto chegamos – a senhora disse, acendendo uma antiga lamparina para iluminar os arredores.

Mousse quis comentar sobre aquele lugar imundo, porém limitou-se a seguí-la até parar diante de um enorme armário velho que cabia perfeitamente um adulto. A senhora testou a porta daquela estante e apontou para ele entrar.

– Entre – a senhora disse.

– Eu não entendi... – Mousse comentou.

– Você quer ou não quer recuperar a sua memória? – indagou, séria.

– Mas eu estou sem dinheiro para pagar a senhora... – confessou, receoso.

– Pode ser depois que tudo se resolver, vamos anda logo e não me peça mais explicações.

– Tudo bem – indagou, humildemente – será que ao menos eu posso saber o que vai acontecer comigo depois de entrar nesse armário?

– Você voltará para o passado – insistiu – agora chega, vamos – acrescentou – assim que eu fechar, poderá sair.

Mousse suspirou, e olhando para a misteriosa anciã, tomou coragem e entrou no velho armário quase caindo aos pedaços. Sabia que era arriscado demais apostar sua vida a uma total desconhecida, infelizmente não lhe restava alternativas a não ser confiar nela, embora ela tivesse curado sua maldição como num passe de mágica...

A senhora esperou o jovem sumir no armário e murmurou: — Ele realmente é parecido com você...

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Shampoo não podia mais esconder sua inquietação diante da sua bisavó e dos seus colegas com relação ao sumiço do seu amigo de infância. Estava tão apreensiva, distraída e agitada que não conseguia se concentrar no trabalho em Cat Café. Vivia derrubando bandejas, quebrando pratos e trocando os pedidos dos clientes.

Os dias se passaram e a amazona continuava sem ter notícias do Mousse. Tentou matar seus sentimentos, ignorar os fatos e seguir em frente mesmo sem a presença daquele que ela desprezara durante muitos anos.

A resposta do desaparecimento veio em forma de uma carta escrita escondida debaixo da sofá velha onde ele passara as noites, uma carta simples que Shampoo fez questão de ler em voz alta:

– “Quando você ler esta carta, provavelmente eu já estarei na minha terra natal. Eu treinarei como um louco para tirar você dos braços do Ranma Saotome, por isso não me procure (eu sei que sua cabeça está cheia dele e não vai me procurar). Creio eu que estarei de volta em três meses. Do seu eterno apaixonado: Mousse” – disse para si mesma – Você nunca vai ganhar do Ranma, seu baka...

Shampoo tornou a respirar aliviada. “Como eu não tinha pensado nisso antes?” Pensava ela. Voltou a sorrir para os clientes, trabalhar com a consciência leve para a felicidade da Cologne por mais que sentisse falta de Mousse.

Três meses correram desde a descoberta da carta e ele não regressara como escrito na carta, assim completara meio ano de ausência. A anciã começara a sentir um mal pressentimento quanto ao seu empregado. Um homem que amara tanto a sua neta durante toda sua vida, não cumprira a promessa de regressar conforme o combinado. Apesar de ter todos os defeitos da face da Terra Mousse era um jovem de compromissos principalmente com relação a Shampoo...

– Estranho – Cologne disse – ele já deveria ter voltado...

– Aquele – a amazona comentou, desinteressada – aquele pato inútil pode treinar mil anos que não vai ganhar do Ranma.

– Então vá buscá-lo logo se acha que esse treino não vai dar em nada – sugestionou.

– Eu não quero saber de um homem fracassado que não consegue me derrotar – respondeu, varrendo o chão.

– Escute querida – desabafou – não tem nada de errado você seguir as leis do clã Amazonas, mas às vezes na vida nós temos que deixar o coração falar mais alto – completou – até porque não somos criaturas frias sem alma.

– Mas eu... – a anciã não permitiu que Shampoo a interrompesse.

– Fique tranquila que você não irá sozinha, eu acompanharei você e levarei o seu noivo também – disse – sinto que aconteceu algo com o Mousse...

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Enquanto a amazona, mesmo contrariada, aprontava suas malas para viajar rumo a China, Cologne tinha ido a casa da família Tendo. A anciã encontrou os dois praticamente de saída e rapidamente abordou eles, explicando o motivo de sua visita para o casal.

– Deixo ver se eu entendi – Ranma prosseguiu – você quer que eu e a Akane vá para resgatar o Mousse na China?

– Exatamente – Cologne assentiu com a cabeça e sinal positivo.

– E por que eu tenho que ir salvar aquele pato? – Ranma indagou, bocejando.

– Pense que está indo passear com sua namorada – Cologne insistiu, piscando para a karateca.

– Mas ele não é... – Akane notou sua face arder e disse – eu quero dizer, ele é meu namorado...

– Hei, não entra na conversa dessa velha – Ranma ficou tão enrubescido quanto sua prometida e afirmou – ela só está tentando nos enrolar...

– Bom – Cologne suspirou e disse – agora que está tudo decidido, amanhã cedo estaremos partindo para a China.

– Pára de decidir as coisas sozinha sua velha folgada – Ranma bufou, irritado – eu ainda não falei que ia com vocês!

– Mas não seria melhor a sua neta ir sozinha? – Akane falou, pensativa – Eu acho mais convincente para o Mousse voltar para cá...

– Já ouviu falar em orgulho de mulher? – a anciã não esperou a karateca responder e continuou – aliás, você deve saber muito bem o que é isso...

Após todo aquele falatório, Ranma e a karateca estavam convencidos e eles começaram os preparatórios para a viagem repentina sem saberem que uma desagradável surpresa lhes aguardavam no país vizinho...