O Resgate de Hadassah
18 O Silêncio dos Estranhos
Os dias que se seguiram transformaram a mansão e a agência Lioncort em um território de trégua silenciosa, onde o orgulho operava como uma fronteira invisível. Depois do episódio na piscina, o jogo de gato e rato cessou. Não havia mais fugas debaixo de mesas, não havia provocações baratas ou emboscadas planejadas. Hadassah e Jason simplesmente pararam de se procurar.
Contudo, a convivência forçada transformava cada pequeno encontro em um teste de resistência. Quando cruzavam os corredores da empresa ou quando dividiam a mesa de jantar na casa grande, os olhares que trocavam eram densos, pesados, carregados de uma eletricidade estática que parecia gritar por mais. Cada "Bom dia, Sr. Lioncort" proferido por ela com polidez milimétrica e cada "Obrigado, Telles" respondido por ele com voz rouca carregavam o eco das noites em que seus corpos haviam se incendiado. Eles eram como dois vulcões adormecidos, fingindo que a lava sob a superfície não estava prestes a explodir.
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Na tarde de quinta-feira, o equilíbrio frágil desmoronou. Hadassah caminhava pelo andar da diretoria com uma pasta de relatórios de exportação que precisavam da assinatura do CEO antes do encerramento do expediente bancário. Ela parou diante da porta de vidro opaco e, por puro hábito corporativo, girou a maçaneta sem bater, assumindo que ele estivesse sozinho.
A porta se abriu sem ruído, e o mundo de Hadassah parou.
Jason estava de pé, escorado contra a borda de sua mesa de vidro. À sua frente, com as mãos espalmadas no peito dele, estava uma das novas estagiárias do setor de criação, uma jovem de cabelos escuros e saia curta. Jason a segurava pela cintura com firmeza, e seus lábios estavam colados aos dela em um beijo que parecia o prelúdio de algo muito maior. A camisa dele já estava desalinhada, e a atmosfera na sala exalava a urgência de uma conquista barata.
O clique da porta fez os dois se afastarem abruptamente. A estagiária olhou para trás com o rosto vermelho e a respiração curta. Jason estancou o olhar em Hadassah, os olhos azuis arregalando-se em um misto de flagrante e um desespero repentino ao ver quem havia entrado.
Hadassah sentiu o impacto no centro do peito, como se o ar tivesse sido arrancado de seus pulmões por um soco físico. Suas mãos tremeram levemente contra o couro da pasta, mas sua mente, moldada por anos de abandono e orgulho, blindou suas feições em menos de um segundo. Seus olhos verdes tornaram-se duas lâminas de vidro fosco.
— Peço desculpas pela interrupção, Sr. Lioncort — ela disse. Sua voz saiu assustadoramente calma, linear, desprovida de qualquer vestígio de ciúme ou dor. — Os documentos de fechamento podem esperar por amanhã. Continuem o que estavam fazendo.
— Hadassah, espera... — Jason deu um passo à frente, a voz falhando, largando a estagiária como se ela tivesse se transformado em brasa.
Mas Hadassah já havia fechado a porta.
Ela caminhou pelo corredor com passos firmes, sem correr, mantendo a cabeça erguida até entrar em sua própria sala. Uma vez lá dentro, ela não chorou. Apenas guardou o tablet na bolsa, pegou seu casaco e recolheu seus pertences pessoais.
— Telles? Já vai? Ainda faltam vinte minutos para as dezoito — o supervisor do corredor perguntou ao vê-la passar pela recepção.
— Não estou me sentindo bem, Lívia. Vou compensar essas horas amanhã — ela respondeu com um sorriso mecânico e saiu.
Ao chegar na propriedade dos Lioncort, Hadassah ignorou a casa grande. Entrou direto na casa da piscina, girou a chave no trinco pelo lado de dentro e passou o ferrolho. Caminhou por todos os cômodos puxando as cortinas pesadas, bloqueando cada fresta de sol da tarde, mergulhando o ambiente em uma penumbra protetora. Ela queria o silêncio. Queria a escuridão para digerir a certeza de que, não importava o quanto seu coração acelerasse por ele, Jason sempre seria o homem que usava outras mulheres para preencher os vazios que ela deixava.
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A manhã seguinte trouxe uma névoa cinzenta sobre a cidade. O despertador tocou, e Hadassah vestiu seu terno de alfaiataria cinza, prendeu o cabelo em um coque perfeitamente alinhado e colocou os óculos. A maquiagem escondia a noite em claro. Ela era uma profissional. Uma Lioncort por criação, uma Telles por direito, e nenhuma cena de escritório a faria demonstrar fraqueza.
Ela pegou o elevador do subsolo do edifício da agência para subir ao andar da presidência. As portas de metal escovado estavam prestes a se fechar quando uma mão imponente barrou o sensor.
Jason entrou.
Ele usava um terno preto impecável, mas o rosto estava pálido e as olheiras profundas denunciavam que ele também não havia dormido. Os primeiros botões de sua camisa estavam fechados com rigor, e ele exalava o perfume forte e caro de sempre.
As portas se fecharam, prendendo os dois no cubículo espelhado.
O silêncio que se instalou entre eles era diferente de todos os outros. Não era o silêncio do pique-esconde ou o silêncio pesado da luxúria pós-piscina. Era o silêncio do luto. O visor digital marcava os andares subindo lentamente: 4... 5... 6...
Jason olhou para o reflexo dela no espelho. Hadassah mantinha os olhos fixos na linha da porta de metal, a postura rígida, a respiração compassada. Ela não olhou para ele. Não buscou sua mão. Não fez menção de deboche.
— O relatório de exportação... — Jason começou, sua voz saindo baixa, rouca pelo uso excessivo de uísque na noite anterior. — Eu assinei o que ficou na mesa da recepção.
— Obrigada, Sr. Lioncort. Vou encaminhar ao compliance assim que chegar à minha mesa — ela respondeu de pronto. A voz era polida, profissional, desprovida de passado. Era a voz de uma funcionária que falava com um superior que mal conhecia.
Jason engoliu em seco, sentindo o peito queimar. Ele queria gritar que a cena com a estagiária tinha sido um ato de desespero, uma tentativa patética de provar a si mesmo que ainda tinha controle, que podia sentir desejo por outra pessoa que não fosse ela. Queria dizer que a expulsara da sala trinta segundos depois que Hadassah saíra. Mas o gelo na expressão da ruiva deixava claro que qualquer explicação seria inútil. Ela já havia erguido o veredicto.
10... 11... 12.
O elevador bipou e as portas se abriram no andar da diretoria.
Hadassah deu um passo à frente com elegância. — Tenha um bom dia de trabalho, senhor.
— Bom trabalho, Telles — ele respondeu, a voz quase sumindo na garganta.
Cada um caminhou para um lado do corredor. Jason entrou em sua imensa sala de vidro e fechou a porta, afundando o rosto nas mãos, sentindo o peso do carma esmagar seus ombros. Do outro lado, Hadassah sentou-se em sua cadeira, ligou o computador e organizou suas canetas com precisão cirúrgica, ignorando a lágrima solitária que teimou em escorrer por trás de suas lentes.
Eles não se tocavam mais. Não se agrediam com palavras ou tapas. Agora, eram apenas dois estranhos que se cruzavam no elevador, fingindo que não sabiam o sabor do beijo um do outro, fingindo que não dividiam o mesmo teto, enquanto seus corações, à distância de algumas salas de concreto e vidro, continuavam sangrando e se amando no mais absoluto e doloroso anonimato.
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