O Resgate de Hadassah

19 O Aniversário e as Sombras no Vidro



​O camarote da Obsidian, uma das boates mais exclusivas e requintadas de Manhattan, estava decorado com arranjos minimalistas e luzes de neon azul-escuras que cortavam a penumbra. Era o aniversário de 23 anos de Alycia, e ela fizera questão de usar todo o seu estoque de chantagem emocional para garantir a presença de Hadassah.

​— Sem desculpas de relatórios ou de cansaço, Hadas — Alycia ordenara no início da semana, segurando suas mãos. — Você é minha irmã de alma. Eu não vou comemorar mais um ano de vida sabendo que você está trancada naquela casa da piscina fingindo que o mundo lá fora não existe. Por favor, vá por mim. Se divirta.

​Hadassah cedera. Naquela noite, ela parecia uma pintura viva em meio à escuridão da boate. Vestia um vestido de alfaiataria preto, com um decote sutil nas costas que deixava sua pele alva em evidência. Os cabelos ruivos estavam soltos, caindo em ondas pesadas pelos ombros, e ela dispensara os óculos de leitura, usando apenas uma maquiagem marcante que destacava a frieza expressiva de seus olhos verdes.

​No centro do camarote, Alycia brindava com os amigos da faculdade e Marta sorria, sentada em um dos sofás de couro, feliz por ver a família reunida de alguma forma. Mas a verdadeira dinâmica do ambiente acontecia no silêncio.

​Jason estava encostado na parede de vidro do camarote, segurando um copo de uísque com gelo. O terno escuro estava sem a gravata, e os dois primeiros botões da camisa abertos davam-lhe um ar perigosamente despojado. Do outro lado do espaço, Hadassah conversava formalmente com alguns convidados.

​Eles não se falavam, mas os olhares cruzavam o ambiente como linhas de alta tensão. Toda vez que os olhos azuis de Jason encontravam os verdes dela, o barulho ensurdecedor da música eletrônica e as risadas ao redor pareciam desaparecer. Era um magnetismo destrutivo; a intensidade com que se mapeavam à distância dava a sensação de que o mundo inteiro poderia desabar ao redor deles, e nenhum dos dois se moveria. Eles continuavam se amando e se odiando no mais absoluto segredo dos olhos.

​---

​Sentindo o peso daquela vigilância silenciosa sufocar seu peito, Hadassah pediu licença e desceu os degraus de mármore do camarote em direção ao balcão principal do bar, no andar de baixo. O balcão era esculpido em quartzo iluminado, e o movimento ali era um pouco menor.

​— Um Dry Martini, por favor — ela pediu ao barman, apoiando os cotovelos no balcão de pedra fria.

​— Faça o mesmo para mim, e coloque na minha conta — a voz grave, rouca e densa de Jason ressoou logo atrás dela, fazendo os pelos da nuca de Hadassah se arrepiarem instantaneamente.

​Ela não se sobressaltou. Apenas manteve os olhos fixos nos movimentos do barman que preparava as bebidas. Jason deu um passo à frente, ocupando o banco vazio logo ao lado dela. O aroma da colônia cara dele, misturado ao cheiro de uísque, a invadiu.

​— O camarote está cheio de importações caras de champanhe, Telles. Não sabia que preferia o isolamento do balcão — Jason começou, a voz saindo em um tom baixo, cortante, mascarada pelo som da batida da música ao fundo.

​Hadassah recebeu sua taça, girou a azeitona no palito com elegância e tomou um gole pequeno antes de virar o rosto devagar para encará-lo. Seus olhos verdes eram puro deserto.

​— O isolamento do balcão me permite respirar um ar menos hipócrita, Sr. Lioncort — ela respondeu, a voz linear, fria e perfeitamente polida. — No camarote, eu sou obrigada a fingir que a sua presença não me causa um profundo tédio profissional.

​Jason trincou a mandíbula, os nós dos dedos clareando ao redor do copo que trouxera lá de cima. A frieza dela continuava sendo a sua maior tortura.

​— Você passou a noite inteira me olhando, Hadassah. Não tente mentir para si mesma — ele desceu o tom da voz, inclinando-se ligeiramente na direção dela. O calor do corpo dele quase a tocou. — Cada vez que eu olhava para você, os seus olhos estavam em mim. Você pode usar o terno que quiser, pode mudar o seu nome para o que bem entender, mas nós dois sabemos o que acontece quando ficamos trancados no mesmo espaço.

​Hadassah soltou um riso soprado, sem qualquer vestígio de humor, apoiando o queixo na mão enquanto sustentava o olhar dele com uma audácia gélida.

​— Você confunde os meus sentimentos, Jason. Eu não estava olhando para você porque sinto falta de algo. Eu olho para você do mesmo jeito que um cientista olha para um espécime em um laboratório. Estou apenas observando até onde vai o seu desespero para tentar recuperar o controle que perdeu. Como está a estagiária do setor de criação, a propósito? Ela assina os relatórios com a mesma... dedicação que demonstrava na sua mesa?

​O golpe foi certeiro. O rosto de Jason empalideceu levemente antes de assumir uma expressão de pura amargura.

​— Aquilo não significou nada. E você sabe disso — ele sibilou, a voz trêmula pela linha tênue do autocontrole. — Foi um erro. Um ato de um homem que está ficando louco porque a mulher que ele ama o trata como se ele fosse um fantasma no corredor.

​— Um homem que ama não precisa de corpos descartáveis para se lembrar de quem é, Sr. Lioncort — Hadassah rebateu no mesmo segundo, a lâmina de suas palavras cortando qualquer tentativa de defesa dele. Ela largou a taça no balcão com um estalo seco. — Você não sabe amar. Você sabe possuir. E como eu não sou mais um objeto de posse da sua agência ou da sua fundação de caridade, você recorre ao que é mais fácil e acessível para o seu ego. Passe bem. O aniversário é da Alycia, e eu prometi a ela que me divertiria, não que perderia o meu tempo servindo de psicóloga para os seus complexos de culpa.

​Hadassah pegou sua bolsa do balcão e fez menção de se levantar, mas o reflexo de Jason foi mais rápido. Ele segurou o pulso dela com firmeza por baixo do balcão, onde ninguém podia ver. O toque físico, o primeiro em dias, desencadeou uma descarga elétrica violenta no peito de ambos. Hadassah prendeu a respiração, o coração acelerando de forma traiçoeira.

​— Me solta, Jason — ela ordenou em um sussurro tenso.

​— Só depois que você me olhar nos olhos e disser, sem essa máscara de gelo, que não sente mais nada — ele implorou, os olhos azuis fixos nos dela, despidos de qualquer arrogância de CEO. Havia apenas o homem de trinta anos que estava quebrado por dentro. — Diz que o meu toque não faz o seu coração bater desse jeito. Diz que você não quer voltar para o meu quarto hoje à noite, Hadassah. Se você disser olhando nos meus olhos, eu te deixo em paz para sempre.

​Hadassah olhou para a mão dele em seu pulso, depois subiu o olhar para o rosto dele. Ela viu a dor, o arrependimento sincero e o amor doentio que o consumia. O peito dela doeu, a vontade de ceder e se jogar nos braços dele quase venceu a barreira de seu orgulho. Mas a memória da humilhação, da estagiária e das palavras no carro de anos atrás agiram como um escudo de ferro.

​Ela forçou um sorriso cínico, desprovido de qualquer calor, e aproximou o rosto do dele, sussurrando perto de seus lábios:

​— O seu toque, Sr. Lioncort... só me lembra o quanto eu precisei crescer para aprender a ter nojo de homens que acham que podem comprar o sentimento de alguém. Você não é mais o meu protetor. Você é só o meu chefe das nove às dezoito. Agora, tire a mão de mim antes que eu faça uma cena que a dona Marta não vai esquecer.

​Jason a encarou por três segundos eternos. O desprezo calculado na voz dela foi a resposta mais dolorosa que ele poderia receber. Devagar, os dedos dele afrouxaram o aperto no pulso dela, soltando-a.

​Hadassah ajeitou o blazer preto com um movimento elegante, pegou sua taça e deu as costas, caminhando a passos firmes de volta para a escadaria do camarote, deixando que a multidão a envolvesse.

​Sozinho no balcão do bar da boate requintada, Jason Lioncort virou o restante de seu Martini de uma só vez. Ele olhou para o copo vazio e depois para o camarote, onde a ruiva voltava a sorrir para Alycia como se nada tivesse acontecido. Ele sentia na pele a verdade mais amarga de sua vida: ele podia ter todo o dinheiro de Manhattan e o controle da maior holding de logística do país, mas para a única mulher que realmente importava, ele continuaria sendo apenas um estranho invisível na multidão.