O Resgate de Hadassah

10 O Reencontro e o Gelo



​A noite de gala da Logística Alfa celebrava uma década de sucesso no mercado de transportes. O grande salão do Metropolitan Hall estava decorado em tons de dourado e preto. O diretor da empresa, Sr. Álvaro, fizera questão de exigir traje de gala de todos os seus funcionários. Para ele, o sucesso da companhia dependia tanto dos diretores quanto dos assistentes.

​Hadassah, agora com 21 anos, retocava o batom no espelho do banheiro antes de entrar no salão. Ela vestia um vestido longo de cetim verde-esmeralda, simples, mas que contrastava perfeitamente com a brasa viva de seus cabelos ruivos, que estavam presos em um coque alto com algumas mechas soltas emoldurando seu rosto maduro. Ela respirou fundo, ajustou os óculos de leitura que costumava usar e caminhou em direção à festa.

​Enquanto isso, na entrada principal do salão, o burburinho aumentou com a chegada dos convidados de honra. A Lioncort Publicidade era a nova agência responsável pelo marketing da transportadora.

​Jason Lioncort entrou primeiro. Aos 30 anos, ele exalava um poder quase intimidador. O smoking preto sob medida parecia moldado em seu corpo atlético, e seu rosto, marcado por linhas de expressão mais duras, não esboçava o menor sentimento. Logo atrás vinham Marta, com um semblante visivelmente cansado e distante, e Alycia, cujos olhos atentos mapeavam o ambiente por puro instinto de investigadora.

​— Jason, por favor, vamos assinar esse contrato de publicidade logo e ir embora. Não estou com cabeça para festas — Marta sussurrou, ajeitando o xale.

​— É apenas uma formalidade, mamãe. Seremos rápidos — Jason respondeu, sua voz grave e desprovida de emoção.

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​Do outro lado do salão, o Sr. Álvaro avistou os novos parceiros de negócios e acenou, chamando sua assistente.

​— Hadassah, venha comigo, por favor. Quero que você organize a mesa de assinaturas e conheça os diretores da Lioncort. Eles vão cuidar da nossa nova campanha.

​Hadassah caminhou logo atrás de Álvaro, segurando uma pasta de couro contra o peito. Ela estava distraída, checando os papéis, até que o chefe parou diante do grupo de convidados.

​— Sr. Lioncort, Dona Marta, que honra tê-los aqui — Álvaro anunciou com um sorriso largo. — Esta é a minha assistente executiva, a mente por trás da organização da nossa empresa... Hadassah Telles.

​Ao ouvir o nome, a espinha de Jason congelou. Ele ergueu os olhos lentamente.

​O tempo pareceu parar no salão de festas. A orquestra ao fundo tornou-se um zumbido distante.

​Marta levou a mão à boca, deixando escapar um arquejo audível. Alycia deu um passo à frente, os olhos arregalados, as lágrimas ameaçando transbordar no mesmo segundo. Diante deles estava a ruivinha que havia sumido há seis anos. Mas ela não era mais uma adolescente assustada ou revoltada; era uma mulher deslumbrante, de postura ereta e um olhar intensamente focado.

​Jason sentiu o coração martelar contra o peito com tanta força que o ar lhe faltou. Era ela. A sua ruivinha. Ele deu um passo instintivo em direção a ela, os lábios entreabertos para pronunciar o nome que passara seis anos gritando no silêncio do quarto.

​— Hadassah... — o sussurro de Jason saiu carregado de uma dor e de um desespero trancados há anos.

​Hadassah, no entanto, não vacilou. Seus olhos verdes encontraram os azuis de Jason. Não havia raiva, não havia mágoa. Havia apenas um vazio absoluto, um gelo tão profundo que foi capaz de paralisar o empresário no lugar.

​— É um prazer conhecê-lo, Sr. Lioncort — Hadassah disse. Sua voz saiu perfeitamente profissional, fria e polida, como se estivesse cumprimentando um estranho qualquer. Ela estendeu a mão direita para ele, de forma puramente corporativa.

​Jason olhou para a mão dela, chocado com o distanciamento. Quando ele a tocou, sentiu a mesma descarga elétrica de anos atrás, mas Hadassah desfez o aperto em menos de dois segundos, cortando o contato físico.

​Antes que Jason pudesse dizer mais nada, Hadassah desviou o olhar para as duas mulheres atrás dele. Instantaneamente, a armadura de gelo desmoronou. Os olhos verdes dela se encheram de uma doçura genuína e calorosa.

​— Dona Marta... Alycia... — Hadassah quebrou o protocolo profissional, abrindo um sorriso que iluminou seu rosto.

​— Meu Deus, é você! É você mesma! — Alycia rompeu em lágrimas, jogando-se nos braços de Hadassah, apertando-a com força. Hadassah retribuiu o abraço com ternura, acariciando as costas da irmã de coração. — Eu te procurei por toda parte... por que você sumiu assim?

​— Eu precisei encontrar o meu próprio caminho, Aly — Hadassah sussurrou de volta, com carinho.

​Marta aproximou-se trêmula, tocando o rosto de Hadassah com as mãos finas. — Minha menininha... Você está tão linda. Tão forte. Minha promessa de rainha se cumpriu.

​— Obrigada por tudo o que a senhora me deu no passado, Marta. Eu nunca esqueci o amor de vocês — Hadassah respondeu, beijando a mão da matriarca.

​Jason assistia a tudo em um misto de agonia e exclusão. Ela era carinhosa com sua mãe, amorosa com sua irmã, mas para ele... para ele só existia o desprezo do anonimato.

​— Álvaro — Hadassah virou-se para o chefe, ignorando a existência de Jason por completo. — Vou preparar os documentos na mesa do mezanino para que os senhores possam assinar o contrato sem interrupções. Com licença.

​Ela fez uma reverência sutil para Marta e Alycia e caminhou em direção às escadas, sem olhar para Jason sequer uma vez.

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​Meia hora depois, a recepção formal havia terminado. Aproveitando que Marta e Alycia conversavam com outros empresários, Jason seguiu o rastro do perfume floral que ele reconheceria até no inferno. Ele a viu passar pelas portas de vidro que davam para o jardim de inverno do hotel, um espaço deserto àquela hora, iluminado apenas pela lua e por lanternas japonesas tênues.

​Hadassah estava de pé perto de uma fonte de pedra, olhando para a água, segurando um copo de água. O vento da noite balançava as mechas ruivas de seu cabelo.

​O som dos passos de Jason no cascalho fez com que ela não se movesse. Ela não precisava olhar para saber quem era.

​— Por que mudou de nome? — a voz de Jason ecoou, densa, pesada de emoção contida. — Hadassah Telles... Você apagou o nosso sobrenome. Apagou a sua história.

​Hadassah virou-se devagar. Ela apoiou o copo na borda da fonte e cruzou os braços, encarando-o com uma serenidade que o irritava profundamente.

​— Eu não apaguei a minha história, Sr. Lioncort — ela respondeu, enfatizando o título formal. — Eu apenas voltei para o lugar de onde nunca deveria ter saído. O sobrenome Lioncort era um empréstimo caro demais. O preço era a minha dignidade, e eu decidi que não podia pagar.

​Jason deu dois passos rápidos, diminuindo a distância entre eles. Seu rosto implacável estava fragmentado pela dor.

​— Você tem ideia do inferno que foram os meus últimos seis anos? — ele despejou, a voz falhando, os olhos azuis fixos nos dela com uma intensidade assustadora. — Eu não dormi uma noite sequer sem pensar no que te disse naquele carro. Eu fui um monstro, Hadassah. O ciúme me cegou, a porcaria do meu orgulho me transformou em um idiota! Eu passei cada dia da minha vida te procurando. Minha família desmoronou porque você levou a luz desta casa embora!

​Hadassah soltou um riso soprado, sem humor, balançando a cabeça.

​— Você continua o mesmo egoísta de sempre, Jason. Você não sentiu a minha falta. Você sentiu falta do controle. Sentiu falta do seu projeto de caridade bem-sucedido que ousou ter vontade própria e fugir da sua gaiola de ouro.

​— Não ousar dizer que foi caridade! — Jason deu mais um passo, ficando a centímetros dela. O calor do corpo dele a envolveu, e por um breve segundo, o coração de Hadassah vacilou, mas ela manteve a postura rígida. — Você sabe o que eu sentia por você... O que eu sinto até hoje! Eu me afundei em mulheres, em trabalho, em uísque, tentando arrancar você da minha mente, mas ninguém... nenhuma delas conseguiu chegar perto do que você é para mim. Eu te amo, Hadassah. Da forma mais errada, dolorosa e intensa possível, eu amo você.

​O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som da água da fonte. O impacto da confissão de Jason teria destruído a Hadassah de 15 anos, mas a mulher de 21 apenas o olhou com uma profunda e madura piedade.

​— Então o seu amor é uma doença, Jason — ela disse, com a voz mansa, mas cortante como uma lâmina de barbear. — Porque quem ama não joga na cara o prato de comida que deu. Quem ama não humilha. Você me salvou de um beco escuro quando eu tinha dez anos, e eu vou ser grata por isso até o dia da minha morte. Mas você me destruiu aos quinze. O garoto que me abraçava à noite e prometia me proteger foi o mesmo homem que me jogou de volta na sarjeta com palavras.

​— Eu mudei... Me deixa consertar, por favor — Jason implorou, e pela primeira vez, o poderoso empresário Lioncort estava de joelhos, metaforicamente, diante de alguém. Seus olhos suplicavam. — Volta para casa. Volta para mim.

​Hadassah deu um passo para trás, saindo do campo de alcance dele. Ela pegou seu copo de água e olhou para Jason uma última vez, os olhos verdes brilhando sob a luz da lua com uma determinação inabalável.

​— Eu já estou em casa, Jason. Minha casa é a minha liberdade, o meu trabalho e o nome que eu escolhi para mim. O seu tempo de mandar na minha vida acabou no segundo em que aquela garrafa de uísque quebrou na sua sala. Passe bem, Sr. Lioncort. Temos um contrato de publicidade para assinar lá dentro.

​Ela deu as costas e caminhou a passos firmes e elegantes em direção às luzes do salão, deixando Jason sozinho no jardim escuro, com o peito aberto e a dolorosa certeza de que o gelo que ele mesmo cultivara no coração da ruivinha agora seria o seu próprio inverno eterno.