O Resgate de Hadassah

11 Sob o Comando do Inimigo



​O anúncio da venda da Logística Alfa caiu como uma bomba no setor administrativo. Parada diante da mesa do homem que havia lhe dado uma chance no mercado de trabalho, Hadassah sentia o estômago se revirar em nós apertados.

​O Sr. Álvaro ajeitava os últimos porta-retratos dentro de uma caixa de papelão, com um olhar que misturava alívio e melancolia.

​— Eu sinto muito pelo susto, Hadassah, mas a proposta da holding Lioncort foi astronômica — Álvaro explicou, soltando um suspiro cansado. — Eles não compraram apenas as nossas ações de marketing; compraram a empresa inteira. O próprio Jason Lioncort assumirá o papel de CEO a partir de hoje. Ele quer modernizar toda a frota.

​Hadassah engoliu em seco, mantendo a postura ereta, embora suas mãos estivessem geladas dentro dos bolsos do blazer azul-marinho.

​— O senhor sabe que eu... que eu tenho um passado complicado com essa família, Sr. Álvaro — ela confessou com a voz baixa. — Eu me sinto acoada aqui dentro agora. Parece uma armadilha.

​Álvaro parou o que estava fazendo e olhou para ela com sincera consideração.

— Se você quiser, eu posso tentar uma recomendação para você na empresa do meu cunhado. Mas, para ser honesto, Telles... No contrato de transição, o próprio Lioncort exigiu uma cláusula de retenção de talentos. O seu nome estava no topo da lista. Se você se demitir agora, perderá os direitos trabalhistas do seu tempo de casa. Não deixe o seu orgulho te fazer passar necessidade de novo. Mostre a ele que você é uma profissional insubstituível.

​Hadassah respirou fundo, ajustando os óculos de leitura no rosto. As palavras "passar necessidade" ecoaram como um alerta. Ela se lembrava de como era não ter o que comer e prometera a si mesma nunca mais depender da caridade de ninguém.

​— O senhor tem razão — ela disse, a voz endurecendo com determinação. — Eu não vou fugir. Eu conquistei o meu espaço aqui com o meu próprio suor. Se o Sr. Lioncort quer jogar esse jogo corporativo, ele vai ter que lidar com a funcionária Hadassah Telles, não com a menina do passado.

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​Três dias se passaram. A transição foi rápida e implacável, bem ao estilo de Jason. O escritório da presidência, antes decorado com madeiras quentes e tapetes clássicos por Álvaro, foi completamente reformulado em quarenta e oito horas: tons de cinza industrial, vidro escuro e uma atmosfera minimalista e gélida agora ditavam o ambiente do novo CEO.

​Hadassah revisou a pasta de relatórios de auditoria interna pela terceira vez. Ela sabia que aquele momento chegaria. Como assistente sênior da diretoria, era sua obrigação entregar os documentos diretamente ao novo chefe.

​Ela caminhou pelo corredor do andar da presidência. Suas redes sociais e o e-mail corporativo estavam inundados com a nova assinatura de Jason. Ela parou diante da imensa porta de vidro opaco e bateu duas vezes com os nós dos dedos.

​— Entre — a voz grave, profunda e terrivelmente familiar ecoou através do sistema de som da sala.

​Hadassah abriu a porta e entrou. Jason estava de pé, de costas para ela, olhando a vista panorâmica da cidade através da imensa parede de vidro. Ele vestia apenas a calça de alfaiataria preta e uma camisa social branca com as mangas dobradas até os cotovelos. A postura imponente continuava a mesma, mas havia uma tensão evidente em seus ombros.

​— Aqui estão os relatórios de auditoria e o balanço do último trimestre que o senhor solicitou, Sr. Lioncort — Hadassah disse. Sua voz foi um exemplo de frieza e polidez profissional. Ela caminhou até a mesa de vidro e depositou a pasta com um estalo seco.

​Jason virou-se devagar. Seus olhos azuis, antes duas pedras de gelo para o mundo, ganharam um brilho intenso e desesperado ao focarem nela. Ele ignorou completamente a pasta sobre a mesa e caminhou até parar a dois passos de distância de Hadassah.

​— Você não pediu demissão — ele constatou, e havia um fio de alívio genuíno em seu tom de voz. — Eu passei as últimas setenta e duas horas esperando a sua carta de renúncia chegar à minha mesa. Achei que você preferiria queimar esta empresa a trabalhar para mim.

​Hadassah sustentou o olhar dele, impassível.

— Eu não misturo a minha vida pessoal com a minha carreira, senhor. Eu preciso deste emprego para pagar o aluguel do meu apartamento e as minhas contas. E, francamente, o senhor comprar uma empresa de logística inteira apenas para tentar me cercar me parece um investimento muito alto e pouco prático para os acionistas da Lioncort.

​Jason soltou um meio sorriso, aquele mesmo sorriso cansado que ele carregava há seis anos.

— Eu sou o acionista majoritário, Hadassah. Eu faço o que for preciso. Se comprar a Alfa era a única forma de fazer você ficar no mesmo teto que eu sem fugir... então valeu cada centavo do meu patrimônio.

​— Isso não é persistência, Jason. É assédio textual e obsessão — ela rebateu, cruzando os braços, a voz cortante. — O que o senhor quer de mim? Quer que eu assine os papéis? Já estão na mesa. Se não houver mais nenhuma ordem direta sobre o faturamento, eu gostaria de voltar para a minha mesa.

​Jason deu mais um passo, quebrando a distância de segurança profissional. O perfume floral dela o invadiu, e ele sentiu uma urgência avassaladora de tocá-la, de segurar suas mãos, mas lembrou-se do tapa e do gelo no jardim do hotel e conteve-se. Suas mãos fecharam-se em punhos ao lado do corpo.

​— Eu quero você de volta, ruivinha — ele sussurrou, a voz caindo para um tom íntimo e rouco, despido de qualquer autoridade de CEO. — Eu comprei essa empresa porque não aguentava mais o silêncio. Eu quero te provar que o homem que te machucou aos quinze anos morreu. Eu quero te conquistar, Hadassah. Da forma certa. Sem ordens, sem castigos, sem o peso do dinheiro. Me deixa te levar para jantar hoje. Como dois adultos. Um recomeço.

​Hadassah olhou para o rosto dele. Ela viu as linhas de expressão, o arrependimento sincero e a paixão perigosa que faiscava naqueles olhos azuis. Por um breve segundo, a lembrança do garoto que a protegera na infância tentou amolecer seu peito. Mas a imagem dele gritando no conversível e humilhando-a no hall foi mais forte.

​Ela deu um passo atrás, restabelecendo a distância corporativa. Seus olhos verdes por trás das lentes dos óculos eram puro deserto.

​— O homem que me machucou pode ter morrido para você, Sr. Lioncort, mas as cicatrizes dele continuam bem vivas em mim — ela disse, com uma calma avassaladora. — Não existe 'recomeço' entre nós. O que existia foi quebrado e os estilhaços foram jogados no lixo de onde você me tirou. Eu sou sua assistente das nove às dezoito horas. Fora desse horário, o senhor não existe para mim.

​— Hadassah, por favor, não seja tão dura... — ele implorou, dando um passo em falso.

​— O senhor precisa assinar a terceira página do relatório até o final da tarde para que eu possa enviar ao setor de compliance — ela o interrompeu, ríspida, apontando para a pasta sobre a mesa com total indiferença. — Com sua licença, chefe.

​Hadassah deu as costas com uma elegância gélida e caminhou em direção à porta de vidro. Ao sair, ela não bateu a porta; apenas a fechou com um clique suave e definitivo.

​Sozinho em seu imenso escritório, Jason Lioncort desabou na cadeira de couro. Ele puxou o ar com força, sentindo o peito doer. Ele agora era o dono da empresa, o chefe absoluto dela, mas, ao olhar para a pasta de documentos que ela deixara para trás, ele percebeu a ironia cruel de sua situação: ele podia controlar o destino de mil funcionários, mas não tinha poder algum sobre a única mulher que ditava o ritmo de seu próprio coração.