O Resgate de Hadassah
6 Linhas Perigosas
O silêncio na mansão Lioncort após o grandioso baile de quinze anos era quase palpável. Em seu quarto, Hadassah já havia retirado o vestido monumental e a maquiagem. Vestindo um pijama de cetim leve, ela encarava o teto, com a mente ainda girando com as luzes, os aplausos e, principalmente, a intensidade do olhar de Jason durante a valsa.
De repente, a maçaneta girou. Hadassah sentou-se na cama de imediato.
Jason entrou. Ele havia tirado o paletó do smoking e a gravata borboleta; os primeiros botões da camisa branca estavam abertos, e ele parecia carregar o peso de pensamentos densos. Sem dizer uma palavra, ele caminhou até a imensa cama e deitou-se ao lado dela, apoiando a cabeça no travesseiro e olhando para o teto.
— Jason? — Hadassah sussurrou, surpresa. — Aconteceu alguma coisa?
— Nada... Só cansaço — a voz dele saiu baixa, rouca. — Só queria um pouco de paz. A festa foi linda, não foi?
— Foi perfeita — ela respondeu, deitando-se novamente, virada para ele. — Eu nunca imaginei ter uma noite assim. Obrigada por me fazer sentir uma princesa.
Jason virou a cabeça, os olhos azuis fixos nos dela na penumbra do quarto.
— Você não precisa de uma festa para ser uma, ruivinha.
A conversa continuou em sussurros, um diálogo suave sobre os convidados, os planos para o colégio e o futuro. À medida que o cansaço da noite vitoriosa os vencia, a distância entre os dois diminuiu. Jason passou o braço longo por baixo do pescoço de Hadassah, puxando-a para o seu peito. Ela acolheu-se ali, sentindo o perfume dele e o bater compassado de seu coração. Abraçados, o homem implacável e a jovem ruiva adormeceram, imersos em uma calmaria que parecia suspender o tempo.
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O sol mal havia nascido quando Jason despertou. A claridade da manhã iluminava o rosto sereno de Hadassah, que ainda dormia profundamente com a cabeça apoiada em seu peito.
Jason congelou. Ele observou os cílios longos dela, os lábios entreabertos e os fios ruivos espalhados pelo travesseiro. Uma onda avassaladora de desejo, posse e culpa o atingiu como um soco no estômago. Aquilo estava errado. Ela era a menina que ele adotara; ela tinha apenas quinze anos. Sentir o coração acelerar daquela forma ao olhar para ela era um território perigoso que ele não podia cruzar.
Ele respirou fundo, contendo a respiração, e afastou-se com extremo cuidado para não acordá-la. Saiu do quarto a passos rápidos, a mente em completo caos.
Duas horas depois, Jason já estava na Lioncort Publicidade. A atmosfera corporativa, no entanto, não conseguia apagar a imagem de Hadassah de sua mente. Possesso e frustrado consigo mesmo, ele apertou o interfone de sua mesa.
— Milena, venha à minha sala. Agora.
Segundos depois, sua assistente executiva entrou. Milena era uma mulher atraente, ambiciosa e sabedora do magnetismo que o jovem chefe exercia.
— Algum problema com o relatório, Sr. Lioncort? — ela perguntou, fechando a porta atrás de si.
Jason não respondeu. Ele se levantou, caminhou até a porta e girou a chave, trancando-a. O clique do ferrolho ecoou no silêncio da sala. Antes que Milena pudesse processar o gesto, Jason a prensou contra a madeira da porta, segurando-a pela cintura com força desmedida.
— Sr. Lioncort... Jason... — ela arfou, surpresa com a intensidade repentina.
Ele não deu espaço para palavras. Seus lábios tomaram os dela em um beijo brutal, selvagem, desprovido de qualquer romance. Era pura urgência física. Jason a despiu ali mesmo, com pressa, empurrando-a contra a imensa mesa de vidro do escritório. O sexo que se seguiu foi rápido, bruto e instintivo. Ele usava o corpo de Milena como uma distração anestésica, descarregando toda a sua frustração e raiva reprimidas, fechando os olhos com força em uma tentativa desesperada de arrancar os olhos verdes de Hadassah de seus pensamentos.
Quando terminou, ele se afastou, arrumando o próprio terno com as mãos trêmulas, enquanto a assistente, ainda tentando recuperar o fôlego, começava a se vestir.
— Volte ao trabalho. E nem uma palavra sobre isso — ele ordenou, a voz fria como gelo, a máscara de empresário implacável firmemente de volta ao lugar.
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No final daquela tarde, os portões do colégio particular se abriram. Hadassah caminhava ao lado de Beatriz quando um carro esportivo parou na calçada. Do banco do motorista saiu Caio Monteiro, um jovem de 17 anos, carismático e filho de um dos principais acionistas da agência de Jason.
— Ei, Hadassah! — Caio chamou, aproximando-se com um sorriso confiante. — Parabéns pela festa ontem, você estava maravilhosa. Olha, alguns amigos e eu estamos indo ao cinema ver o novo filme de suspense mais tarde. Quer ir com a gente?
Hadassah hesitou por um segundo, mas Bia lhe deu uma cotovelada sutil nas costelas.
— Ela vai sim, Caio! — Bia respondeu por ela.
Hadassah sorriu, sentindo as bochechas corarem de leve. — Tudo bem, Caio. Eu aceito. Que horas você me pega?
— Passo na sua casa às oito — ele piscou, voltando para o carro.
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Às nove e meia da noite, Jason cruzou a entrada da mansão Lioncort. Ele jogou a pasta sobre o aparador e afrouxou a gravata, exausto. Marta estava sentada no sofá da sala, tomando um chá.
— Boa noite, meu filho. Trabalhou até tarde hoje — disse a matriarca.
— O mercado não para, mamãe. Cadê a Hadassah? Quero ver como ela passou o dia.
Marta soltou um suspiro nostálgico, com um sorriso leve nos lábios. — Ah, a nossa pequena ruiva está crescendo tão rápido, Jason... Ela saiu. Está em seu primeiro encontro com o Caio, filho do Ricardo Monteiro. Foram ao cinema.
O corpo de Jason enrigidceu no mesmo instante. Seus punhos se fecharam com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Uma fúria cega, misturada com um ciúme possessivo que ele mal conseguia compreender, subiu por sua espinha.
— Um encontro? Com dezessete anos? Ela tem quinze, Marta! — Jason rugiu, a voz ecoando pela sala alta.
— Jason, acalme-se! É apenas um filme com o filho de um amigo da família... — Marta tentou argumentar, assustada com a reação violenta do filho.
— Eu não quero saber! — ele cortou, ríspido. — Vou esperá-la aqui.
Jason caminhou até o bar da sala. Pegou uma garrafa de uísque escocês e serviu-se de um copo cheio, bebendo tudo de um trago só. O líquido queimou sua garganta, mas não apagou a imagem de Hadassah sorrindo para outro rapaz.
Passava das dez da noite quando a porta da frente se abriu. Hadassah entrou, com as bochechas levemente coradas pelo frio e um sorriso doce nos lábios. O sorriso morreu no instante em que ela viu Jason de pé no meio da sala escura, os olhos azuis faiscando de puro ódio.
— Onde você pensa que estava? — a voz dele chicoteou o ambiente.
Hadassah deu um passo para trás, assustada com a agressividade. — Eu... eu fui ao cinema com o Caio, Jason. A dona Marta sabia...
— Eu não me importo com o que a minha mãe sabia! — Jason deu um passo em direção a ela, a postura imponente e ameaçadora. — Você não tem autorização para sair com garotos. Você é uma criança! Se comportando como uma qualquer por aí!
As palavras dele feriram Hadassah profundamente. As lágrimas arderam em seus olhos verdes, substituídas rapidamente por uma onda de indignação.
— Uma qualquer?! Jason, eu só fui ver um filme! Por que você está falando comigo desse jeito? Você não é o meu pai!
— Mas sou o chefe desta casa e o seu protetor! — ele esbravejou, apontando o dedo na direção das escadas. — Suba agora para o seu quarto. Você está de castigo. Sem telefone, sem saídas e sem conversas por tempo indeterminado. Suma da minha frente, Hadassah!
— Eu te odeio! — Hadassah gritou, a voz embargada pelo choro. Ela virou as costas e subiu as escadas correndo, o som de seus passos e o bater violento da porta de seu quarto ecoando pela mansão.
Sozinho na sala, a respiração de Jason estava opressa. O ciúme e a frustração de não poder tê-la, misturados com a culpa de desejá-la, explodiram dentro dele. Com um rugido de fúria, ele ergueu a garrafa de uísque quase cheia e a arremessou contra a parede de mármore da lareira.
O vidro estilhaçou-se em mil pedaços, e o líquido escuro escorreu pela parede como o sangue de uma ferida aberta. Jason apoiou as mãos na mesa do bar, de cabeça baixa, ofegante, sabendo que a barreira que ele havia construído para proteger Hadassah de si mesmo acabara de desmoronar por completo.
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