O Resgate de Hadassah
7 Gelo Contra Fogo
Os dias seguintes na mansão Lioncort ganharam a tensão de uma corda prestes a arrombar. O castigo imposto por Jason não quebrou o espírito de Hadassah; pelo contrário, despertou nela uma faceta que ninguém conhecia. Aquela garotinha indefesa e grata havia dado lugar a uma adolescente de catorze anos extremamente inteligente, de língua afiada e fria como o inverno.
No café da manhã de terça-feira, o silêncio na mesa de jacarandá era cortante. Marta tentava focar em sua xícara de chá, fingindo não notar a guerra fria entre os dois lados da mesa.
Jason entrou na sala de jantar vestindo um terno cinza-escuro. Suas olheiras eram visíveis, reflexo de noites maldormidas. Ele se sentou na cabeceira e olhou diretamente para a ruiva.
— Bom dia — Jason disse, sua voz grave ecoando no ambiente.
Marta respondeu com um aceno sutil. Alycia murmurou algo. Hadassah, no entanto, sequer levantou os olhos de seu prato. Ela cortou calmamente um pedaço de panqueca e o levou à boca, mastigando com uma lentidão provocativa.
— Eu falei com você, Hadassah. Bom dia — Jason repetiu, o tom de voz subindo um oitavo, a paciência já no limite.
Hadassah finalmente ergueu os olhos verdes. Não havia medo neles, apenas um vazio gélido e deboche puro. Ela largou o garfo com um estalo suave contra a porcelana.
— Ah, desculpe, Sr. Lioncort — ela soltou um sorriso cínico, apoiando o queixo na mão. — Achei que estivesse ocupado demais gerenciando o meu cronograma de prisioneira para notar a minha presença. Bom dia. O café está excelente, caso queira saber, ou isso também infringe as regras da casa?
Alycia engasgou com o suco de laranja, soltando uma risada abafada atrás do guardanapo. Ela olhou para a irmã de coração com os olhos brilhando de puro orgulho pela audácia.
Jason trincou os dentes, os nós dos dedos ficando brancos ao redor da xícara de café. — Monitore o seu tom, Hadassah. Eu ainda posso confiscar os seus livros se você continuar com esse deboche.
— Sinta-se à vontade — ela respondeu na mesma hora, dando de ombros com total indiferença. — Afinal, trancar e privar as pessoas parece ser o seu único talento fora da agência ultimamente. Dá licença, mamãe. Perdi o apetite.
Hadassah levantou-se com elegância, arrumou a saia do uniforme do colégio e saiu da sala de jantar sem olhar para trás. Alycia a seguiu logo em seguida, sussurrando um "Você foi incrível!" assim que cruzaram a porta.
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Para Jason, a frieza de Hadassah era uma tortura psicológica que ele não sabia como aplacar. O ciúme que sentira dela com o filho de Monteiro ainda ardia, mas o desprezo nos olhos verdes da menina o destruía por dentro.
Para tentar arrancar aquela obsessão da mente, Jason transformou suas noites em um borrão de excessos. Ele não voltava cedo para casa. Todas as noites, frequentava os clubes mais exclusivos de Manhattan e saía de lá acompanhado. Modelos, socialites, mulheres cujos nomes ele sequer se dava ao trabalho de lembrar na manhã seguinte.
No quarto de um hotel de luxo, os lençóis estavam bagunçados. Uma mulher loira e deslumbrante tentava puxá-lo de volta para a cama, arrastando as unhas pelas costas dele.
— Fica mais um pouco, Jason... A noite ainda não acabou — ela ronronou.
Jason se afastou abruptamente, vestindo a camisa social com pressa, o rosto rígido. O sexo havia sido selvagem, bruto, mas completamente vazio. Enquanto os corpos se enfureciam na cama, a mente dele permanecia estagnada na imagem de Hadassah. Ele usava aquelas mulheres como anestesia, mas o efeito passava rápido demais.
— Vista-se e peça um táxi. O quarto está pago — ele disse, frio e impessoal, jogando um maço de notas sobre a mesa de cabeceira antes de sair, deixando a mulher frustrada para trás. Ele sentia nojo de si mesmo, mas a perspectiva de voltar para a mansão e enfrentar o silêncio punitivo de Hadassah era ainda pior.
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Na noite de quinta-feira, a paciência de Jason esgotou-se. Ele precisava quebrar aquele gelo. Passava das dez da noite quando ele caminhou até o quarto de Hadassah. Ele não bateu; apenas girou a maçaneta e entrou.
Hadassah estava sentada na cama, usando fones de ouvido e lendo um livro de literatura clássica. Ao ver a figura imponente de Jason interromper sua privacidade, ela retirou os fones devagar, mantendo o indicador entre as páginas para não perder a marcação.
— O que é? Esqueceu de trancar a minha cela por fora? — ela desdenhou, sem demonstrar o menor abalo.
Jason fechou a porta atrás de si e caminhou até a beirada da cama, parando de pé diante dela, os braços cruzados.
— Já chega desse teatro, Hadassah. Passaram-se quatro dias. Você não olha na minha cara, me ignora nas refeições e me trata como um estranho.
— E o que você esperava? — ela rebateu, fechando o livro com força e jogando-o de lado. Seus olhos verdes faiscaram. — Que eu corresse para os seus braços e agradecesse por ter me humilhado na frente da sua mãe e da Alycia? Por ter me chamado de 'qualquer' só porque eu fui ao cinema com um amigo?
— Eu fiz o que fiz para te proteger! — Jason deu um passo à frente, a voz tensa. — Você é jovem demais, não sabe as intenções daqueles garotos. O Caio Monteiro não é para você.
Hadassah soltou uma risada curta, carregada de puro sarcasmo.
— Ah, claro. O grande Jason Lioncort, o homem mais frio da cidade, agora finge que se importa com a minha vida social. Sabe o que eu acho, Jason? — Ela se levantou da cama, ficando cara a cara com ele, mesmo sendo bem mais baixa. O deboche em sua voz era quase palpável. — Acho que você está projetando os seus próprios hábitos em mim. Só porque você passa as suas noites em claro saindo com uma mulher diferente a cada dia — ela apontou para o pescoço dele, onde uma leve mancha de batom de outra mulher ainda era visível —, acha que todo mundo tem a mesma mente suja que a sua. Mas a verdade é que você só queria exercer controle. Você adora mandar, não é?
Jason sentiu o sangue ferver. A audácia de Hadassah em confrontá-lo sobre suas noites e sua hipocrisia o atingiu em cheio. Ele segurou os ombros dela com firmeza, os olhos azuis cravados nos dela.
— Você não sabe nada sobre as minhas noites, Hadassah — ele sussurrou, a voz perigosamente baixa, a respiração pesada. — E não ouse falar comigo nesse tom dentro da minha casa.
Hadassah não recuou um milímetro. Ela sustentou o olhar, um sorriso de lado surgindo em seus lábios.
— Então me bota de castigo de novo, Sr. Lioncort. É só o que você sabe fazer quando não consegue o que quer. Agora, sai do meu quarto. Você está me dando tédio.
O silêncio que se seguiu foi sufocante. Jason a encarou por mais alguns segundos, os dedos apertando o tecido do pijama dela antes de soltá-la abruptamente. Ele percebeu, com um misto de fúria e desespero, que quanto mais tentava controlá-la e afastá-la de seus pensamentos, mais Hadassah assumia o controle absoluto sobre ele. Sem dizer mais nada, ele deu as costas e saiu batendo a porta, deixando a jovem ruiva vitoriosa em sua frieza no centro do quarto.
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