​O sol da tarde iluminava a fachada de pedra do colégio particular. A calçada estava lotada de alunos que celebravam o fim das aulas de sexta-feira. Hadassah caminhava distratamente até o portão principal, ajeitando a alça da mochila no ombro, com Alycia ao seu lado falando sobre um trabalho de Biologia.

​— Ei, Hadassah! Espera aí! — A voz de Caio Monteiro ecoou pelo pátio. Ele correu até as duas, com a respiração um pouco acelerada e um sorriso galanteador no rosto. — Você sumiu essa semana. Não respondeu minhas mensagens.

​— Eu estava... ocupada, Caio — Hadassah respondeu, tentando manter a voz neutra, embora a tensão dos últimos dias em casa ainda pesasse em seus ombros.

​— Entendi. Mas fico feliz de te ver hoje — Caio deu um passo para a frente, diminuindo o espaço entre eles. Antes que Hadassah pudesse prever o movimento ou reagir, o rapaz segurou seu rosto com as duas mãos e a puxou para um beijo rápido e roubado nos lábios.

​Hadassah arregalou os olhos, surpresa, e colocou as mãos no peito dele para empurrá-lo. Mas o destino foi mais rápido.

​O som ensurdecedor de pneus cantando no asfalto chamou a atenção de todos na rua. O conversível preto de luxo de Jason Lioncort freou bruscamente rente ao meio-fio, quase subindo a calçada. A porta do motorista se abriu com violência. Jason saiu do veículo com os olhos injetados de fúria, a mandíbula tão travada que os músculos de seu rosto pareciam saltar.

​— Afaste-se dela agora! — Jason rugiu, a voz ecoando como um trovão pela rua movimentada do colégio.

​Antes que Caio pudesse processar o que estava acontecendo, Jason o segurou pelo colarinho da jaqueta com uma força brutal, empurrando-o para longe. Com a outra mão, ele segurou o braço de Hadassah com firmeza e a arrastou em direção ao carro.

​— Jason! Me solta! Você enlouqueceu?! — Hadassah gritou, tentando puxar o braço, mas o aperto dele era como uma algema de aço.

​— Entra no carro. Agora! — ele esbravejou, abrindo a porta do carona e praticamente jogando a ruiva para dentro do banco de couro.

​Alycia, que assistia a tudo em estado de choque, correu e pulou para o banco de trás antes que o irmão desse a partida. Jason bateu a porta, deu a volta no conversível e arrancou em alta velocidade, deixando Caio e os outros alunos estupefatos na calçada.

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​Dentro do carro, o vento cortava o ambiente, mas a atmosfera era sufocante. Hadassah estava trêmula, com as bochechas vermelhas de humilhação e raiva.

​— Você perdeu o juízo, Jason?! Quem você pensa que é para me arrastar daquele jeito na frente de todo mundo? — ela gritou, a voz embargada pela indignação.

​— Cala a boca, Hadassah! — Jason rebateu, sem tirar os olhos da estrada, apertando o volante com tanta força que as pontas de seus dedos estavam brancas. — Você não tem vergonha? Se agarrando no meio da rua com aquele moleque? Eu te dei um castigo e você me desobedece na primeira oportunidade!

​— Eu não me agarrei com ninguém! Ele me beijou à força! E mesmo se eu quisesse, a vida é minha! Você não é meu dono! — ela rebateu, com os olhos verdes faiscando de deboche e fúria. — Você é só um hipócrita egocêntrico que quer mandar em tudo!

​A palavra hipócrita fez a paciência restante de Jason evaporar. Ele freou o carro bruscamente no acostamento de uma avenida deserta e virou-se para ela, descarregando toda a frustração, o ciúme reprimido e a dor dos últimos dias da pior forma possível:

​— A vida é sua?! Você não tem nada que seja seu, Hadassah! — ele jogou as palavras na cara dela como bofetadas. — Olhe para você! Tudo o que você veste, o colégio onde estuda, a comida que consome... fui eu que paguei! Você esqueceu de onde veio? Esqueceu que estava revirando uma caçamba de lixo com fome e frio quando eu te achei? Eu te dei um teto, te dei um nome, gastei uma fortuna para te transformar em alguém, e é assim que você me paga? Agindo como uma garota de rua qualquer na porta do colégio?!

​O silêncio que se seguiu no conversível foi devastador.

​No banco de trás, Alycia levou a mão à boca, horrorizada. Hadassah parou de respirar por um segundo. As palavras de Jason ecoaram em sua mente, destruindo cada pedaço de segurança que ela havia construído nos últimos quatro anos. O deboche sumiu de seu rosto, substituído por uma palidez mortal. Ela não chorou. Apenas desviou o olhar para o painel do carro, mantendo-se em um silêncio absoluto e gélido pelo resto do trajeto.

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​Assim que o carro parou na garagem da mansão, Hadassah desceu sem dizer uma palavra. Ela passou por Marta e Olívia no hall como um fantasma e subiu direto para as escadas.

​Mas ela não foi para o seu quarto. Hadassah caminhou decidida até o closet de Jason. Ela abriu um armário nos fundos e puxou de lá a velha mochila desbotada que usava anos atrás. Abriu suas gavetas e ignorou todos os vestidos de grife, os pijamas de seda e as joias. Pegou apenas duas calças jeans simples, alguns moletons velhos e camisetas básicas.

​— Hadassah, pelo amor de Deus, o que você está fazendo? — Marta entrou no quarto com o rosto banhado em lágrimas, seguida por Alycia que soluçava. — O Jason é um idiota, ele não mediu as palavras, mas não faça isso, minha filha!

​— Eu não sou sua filha, dona Marta — Hadassah disse. Sua voz não tinha raiva; estava completamente vazia, o que era ainda mais assustador. Ela fechou o zíper da mochila. — O Jason tem razão. Eu passei quatro anos achando que fazia parte desta família, achando que o amor de vocês era real. Mas eu sou só um projeto de caridade dele. Um brinquedo que ele comprou no lixo e agora acha que é dono. Eu não fico mais um segundo sob o teto desse homem.

​Ela colocou a mochila nas costas e caminhou em direção à saída do quarto. No corredor, ela deu de cara com Jason. Ele parecia ter começado a processar o peso do que havia dito no carro; sua expressão misturava orgulho e o início de um desespero pânico.

​— Hadassah, pare. Você não vai a lugar nenhum — Jason disse, bloqueando a passagem e estendendo a mão para segurar o braço dela.

​ESTALO.

​A mão direita de Hadassah voou contra o rosto de Jason. O som do tapa ecoou pelo corredor imenso. A força do impacto fez a cabeça dele virar para o lado, e uma marca vermelha começou a se formar instantaneamente em sua bochecha.

​Jason congelou, os olhos arregalados em choque.

​— Nunca mais encoste a mão em mim — Hadassah sibilou, os olhos verdes fixos nos dele com um desprezo tão profundo que perfurou a alma do empresário. — Eu prefiro morrer de fome naquele beco a passar mais um dia olhando para a sua cara. Eu nunca mais quero ver você na minha vida, Jason Lioncort.

​Ela passou por ele como um furacão. No hall de entrada, Marta, chorando desesperadamente, segurou as mãos da menina e enfiou um bolo de notas de dinheiro e o celular no bolso do casaco dela.

​— Por favor, não me impeça, Marta... Se me ama, me deixe ir — Hadassah pediu, com a voz vacilando pela primeira vez. Marta soltou as mãos dela, sabendo que não havia como conter o orgulho ferido daquela jovem.

​Hadassah cruzou as portas da mansão e sumiu na noite de Nova York. Com o dinheiro que Marta a obrigara a levar, ela pegou um táxi e alugou um quarto simples, por alguns dias, em um hotel de classe média no centro da cidade, longe dali.

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​Na mansão, a tempestade desabou. Marta Lioncort virou-se para o filho com os olhos faiscando como nunca antes na vida.

​— Você é um monstro, Jason! — Marta gritou, batendo com a mão no peito dele. — Como pôde dizer aquilo para ela? Você jogou na cara daquela menina o passado que ela tanto lutou para esquecer! Você a destruiu por causa do seu ciúme doentio e do seu orgulho egoísta! Você foi um idiota completo! Se ela não voltar... eu nunca vou te perdoar!

​Marta subiu as escadas acompanhada por Alycia, deixando Jason sozinho no imenso hall escura.

​O peso da realidade desabou sobre os ombros do jovem empresário. Ele subiu para o seu quarto a passos trôpegos e trancou a porta. O silêncio do cômodo onde, dias atrás, ele havia dormido abraçado com ela, agora parecia sufocá-lo.

​Desesperado, Jason pegou o celular. Seus dedos tremiam. Ele discou o número de Hadassah.

​Chama... chama... chamada rejeitada.

​Ele tentou de novo. Chamada rejeitada. Na terceira tentativa, o celular dela já dava direto na caixa postal. Ela o havia bloqueado.

​Os dias seguintes se transformaram em um inferno particular para Jason. Hadassah não voltou para casa no sábado, nem no domingo. Na segunda-feira pela manhã, Jason ligou para o colégio para saber se ela havia aparecido nas aulas. A secretária confirmou que a cadeira de Hadassah Lioncort estava vazia. Ela não ia mais à escola.

​Jason jogou o celular contra a mesa do escritório, afundando o rosto nas mãos. Pela primeira vez em seus vinte e quatro anos, o homem de gelo sentiu uma lágrima quente escorrer pelo rosto. Ele a havia quebrado. Ele a havia expulsado. E, no processo de tentar afastar a ruiva de sua mente, ele acabara de perder a única pessoa que realmente possuía o seu coração.