O Resgate de Hadassah
8 O Estopim
O sol da tarde iluminava a fachada de pedra do colégio particular. A calçada estava lotada de alunos que celebravam o fim das aulas de sexta-feira. Hadassah caminhava distratamente até o portão principal, ajeitando a alça da mochila no ombro, com Alycia ao seu lado falando sobre um trabalho de Biologia.
— Ei, Hadassah! Espera aí! — A voz de Caio Monteiro ecoou pelo pátio. Ele correu até as duas, com a respiração um pouco acelerada e um sorriso galanteador no rosto. — Você sumiu essa semana. Não respondeu minhas mensagens.
— Eu estava... ocupada, Caio — Hadassah respondeu, tentando manter a voz neutra, embora a tensão dos últimos dias em casa ainda pesasse em seus ombros.
— Entendi. Mas fico feliz de te ver hoje — Caio deu um passo para a frente, diminuindo o espaço entre eles. Antes que Hadassah pudesse prever o movimento ou reagir, o rapaz segurou seu rosto com as duas mãos e a puxou para um beijo rápido e roubado nos lábios.
Hadassah arregalou os olhos, surpresa, e colocou as mãos no peito dele para empurrá-lo. Mas o destino foi mais rápido.
O som ensurdecedor de pneus cantando no asfalto chamou a atenção de todos na rua. O conversível preto de luxo de Jason Lioncort freou bruscamente rente ao meio-fio, quase subindo a calçada. A porta do motorista se abriu com violência. Jason saiu do veículo com os olhos injetados de fúria, a mandíbula tão travada que os músculos de seu rosto pareciam saltar.
— Afaste-se dela agora! — Jason rugiu, a voz ecoando como um trovão pela rua movimentada do colégio.
Antes que Caio pudesse processar o que estava acontecendo, Jason o segurou pelo colarinho da jaqueta com uma força brutal, empurrando-o para longe. Com a outra mão, ele segurou o braço de Hadassah com firmeza e a arrastou em direção ao carro.
— Jason! Me solta! Você enlouqueceu?! — Hadassah gritou, tentando puxar o braço, mas o aperto dele era como uma algema de aço.
— Entra no carro. Agora! — ele esbravejou, abrindo a porta do carona e praticamente jogando a ruiva para dentro do banco de couro.
Alycia, que assistia a tudo em estado de choque, correu e pulou para o banco de trás antes que o irmão desse a partida. Jason bateu a porta, deu a volta no conversível e arrancou em alta velocidade, deixando Caio e os outros alunos estupefatos na calçada.
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Dentro do carro, o vento cortava o ambiente, mas a atmosfera era sufocante. Hadassah estava trêmula, com as bochechas vermelhas de humilhação e raiva.
— Você perdeu o juízo, Jason?! Quem você pensa que é para me arrastar daquele jeito na frente de todo mundo? — ela gritou, a voz embargada pela indignação.
— Cala a boca, Hadassah! — Jason rebateu, sem tirar os olhos da estrada, apertando o volante com tanta força que as pontas de seus dedos estavam brancas. — Você não tem vergonha? Se agarrando no meio da rua com aquele moleque? Eu te dei um castigo e você me desobedece na primeira oportunidade!
— Eu não me agarrei com ninguém! Ele me beijou à força! E mesmo se eu quisesse, a vida é minha! Você não é meu dono! — ela rebateu, com os olhos verdes faiscando de deboche e fúria. — Você é só um hipócrita egocêntrico que quer mandar em tudo!
A palavra hipócrita fez a paciência restante de Jason evaporar. Ele freou o carro bruscamente no acostamento de uma avenida deserta e virou-se para ela, descarregando toda a frustração, o ciúme reprimido e a dor dos últimos dias da pior forma possível:
— A vida é sua?! Você não tem nada que seja seu, Hadassah! — ele jogou as palavras na cara dela como bofetadas. — Olhe para você! Tudo o que você veste, o colégio onde estuda, a comida que consome... fui eu que paguei! Você esqueceu de onde veio? Esqueceu que estava revirando uma caçamba de lixo com fome e frio quando eu te achei? Eu te dei um teto, te dei um nome, gastei uma fortuna para te transformar em alguém, e é assim que você me paga? Agindo como uma garota de rua qualquer na porta do colégio?!
O silêncio que se seguiu no conversível foi devastador.
No banco de trás, Alycia levou a mão à boca, horrorizada. Hadassah parou de respirar por um segundo. As palavras de Jason ecoaram em sua mente, destruindo cada pedaço de segurança que ela havia construído nos últimos quatro anos. O deboche sumiu de seu rosto, substituído por uma palidez mortal. Ela não chorou. Apenas desviou o olhar para o painel do carro, mantendo-se em um silêncio absoluto e gélido pelo resto do trajeto.
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Assim que o carro parou na garagem da mansão, Hadassah desceu sem dizer uma palavra. Ela passou por Marta e Olívia no hall como um fantasma e subiu direto para as escadas.
Mas ela não foi para o seu quarto. Hadassah caminhou decidida até o closet de Jason. Ela abriu um armário nos fundos e puxou de lá a velha mochila desbotada que usava anos atrás. Abriu suas gavetas e ignorou todos os vestidos de grife, os pijamas de seda e as joias. Pegou apenas duas calças jeans simples, alguns moletons velhos e camisetas básicas.
— Hadassah, pelo amor de Deus, o que você está fazendo? — Marta entrou no quarto com o rosto banhado em lágrimas, seguida por Alycia que soluçava. — O Jason é um idiota, ele não mediu as palavras, mas não faça isso, minha filha!
— Eu não sou sua filha, dona Marta — Hadassah disse. Sua voz não tinha raiva; estava completamente vazia, o que era ainda mais assustador. Ela fechou o zíper da mochila. — O Jason tem razão. Eu passei quatro anos achando que fazia parte desta família, achando que o amor de vocês era real. Mas eu sou só um projeto de caridade dele. Um brinquedo que ele comprou no lixo e agora acha que é dono. Eu não fico mais um segundo sob o teto desse homem.
Ela colocou a mochila nas costas e caminhou em direção à saída do quarto. No corredor, ela deu de cara com Jason. Ele parecia ter começado a processar o peso do que havia dito no carro; sua expressão misturava orgulho e o início de um desespero pânico.
— Hadassah, pare. Você não vai a lugar nenhum — Jason disse, bloqueando a passagem e estendendo a mão para segurar o braço dela.
ESTALO.
A mão direita de Hadassah voou contra o rosto de Jason. O som do tapa ecoou pelo corredor imenso. A força do impacto fez a cabeça dele virar para o lado, e uma marca vermelha começou a se formar instantaneamente em sua bochecha.
Jason congelou, os olhos arregalados em choque.
— Nunca mais encoste a mão em mim — Hadassah sibilou, os olhos verdes fixos nos dele com um desprezo tão profundo que perfurou a alma do empresário. — Eu prefiro morrer de fome naquele beco a passar mais um dia olhando para a sua cara. Eu nunca mais quero ver você na minha vida, Jason Lioncort.
Ela passou por ele como um furacão. No hall de entrada, Marta, chorando desesperadamente, segurou as mãos da menina e enfiou um bolo de notas de dinheiro e o celular no bolso do casaco dela.
— Por favor, não me impeça, Marta... Se me ama, me deixe ir — Hadassah pediu, com a voz vacilando pela primeira vez. Marta soltou as mãos dela, sabendo que não havia como conter o orgulho ferido daquela jovem.
Hadassah cruzou as portas da mansão e sumiu na noite de Nova York. Com o dinheiro que Marta a obrigara a levar, ela pegou um táxi e alugou um quarto simples, por alguns dias, em um hotel de classe média no centro da cidade, longe dali.
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Na mansão, a tempestade desabou. Marta Lioncort virou-se para o filho com os olhos faiscando como nunca antes na vida.
— Você é um monstro, Jason! — Marta gritou, batendo com a mão no peito dele. — Como pôde dizer aquilo para ela? Você jogou na cara daquela menina o passado que ela tanto lutou para esquecer! Você a destruiu por causa do seu ciúme doentio e do seu orgulho egoísta! Você foi um idiota completo! Se ela não voltar... eu nunca vou te perdoar!
Marta subiu as escadas acompanhada por Alycia, deixando Jason sozinho no imenso hall escura.
O peso da realidade desabou sobre os ombros do jovem empresário. Ele subiu para o seu quarto a passos trôpegos e trancou a porta. O silêncio do cômodo onde, dias atrás, ele havia dormido abraçado com ela, agora parecia sufocá-lo.
Desesperado, Jason pegou o celular. Seus dedos tremiam. Ele discou o número de Hadassah.
Chama... chama... chamada rejeitada.
Ele tentou de novo. Chamada rejeitada. Na terceira tentativa, o celular dela já dava direto na caixa postal. Ela o havia bloqueado.
Os dias seguintes se transformaram em um inferno particular para Jason. Hadassah não voltou para casa no sábado, nem no domingo. Na segunda-feira pela manhã, Jason ligou para o colégio para saber se ela havia aparecido nas aulas. A secretária confirmou que a cadeira de Hadassah Lioncort estava vazia. Ela não ia mais à escola.
Jason jogou o celular contra a mesa do escritório, afundando o rosto nas mãos. Pela primeira vez em seus vinte e quatro anos, o homem de gelo sentiu uma lágrima quente escorrer pelo rosto. Ele a havia quebrado. Ele a havia expulsado. E, no processo de tentar afastar a ruiva de sua mente, ele acabara de perder a única pessoa que realmente possuía o seu coração.
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