O Relicário

26 Capítulo 26 - O Obelisco


QUANDO OS PRIMEIROS RAIOS DE SOL entraram pela janela do quarto de Helena, eles já a encontraram acordada. A garota estava sentada no chão no centro do quarto com a mesma pedra achatada na cabeça e rodeada pelo mesmo pergaminho que, assim como na cabana, cobria cada centímetro do chão do quarto. Helena passara horas lendo e mal dormira, no entanto estava satisfeita consigo mesma, pois lera quase três metros sem que a pedra caísse de sua cabeça.

Ao perceber o sol surgir, Helena parou de ler. Apesar de querer continuar estudando magia, era preciso manter as aparências. Ela pôs a pedra no chão e soltou o papel: o pergaminho imediatamente começou a se enrolar, rolando sozinho por todo lado até que parecia novamente um simples e inocente papel enrolado e amarelado. Guardou a pedra e o pergaminho dentro da mochila da escola e foi para o banheiro.

Enquanto a água quente caía por seu corpo, Helena pensava em tudo que havia lhe acontecido nessas semanas. Seus dedos finos tocaram nos lábios ao se lembrar dos beijos de Nícolas. Tanto tempo esperando que ele se declarasse e o seu namoro não chegara há durar uma semana. Externamente Helena fazia tudo em silêncio, vestia-se, tomava o café da manhã, caminhava para a escola, mas seus pensamentos não poderiam ser mais barulhentos. Era como se mil vozes sussurrassem em seus ouvidos.

No meio do caminho para a escola Helena viu Nícolas não muito longe a sua frente, o rosto do garoto estava com olheiras visíveis e uma expressão cansada. Ela pensou em se aproximar e tentar convencê-lo da verdade. Mas então se lembrou do olhar decepcionado de Nicolas daquela noite e desistiu da tentativa. Ninguém a ouviria antes que pudesse desmascarar Elisa. Helena decidiu faltar a escola e se encaminhou para a floresta. Nesses últimos dias sua cabeça andava muito mais barulhenta, cheia de ideias e medos. Mas quando estudava magia ela conseguia paz.

Dessa vez Helena usou a trilha normal que levava ao rio e a área do piquenique. O lugar lhe lembrou daquele domingo, que parecia ter sido há séculos, quando ela estava com seus amigos e tudo lhe parecera perfeito. Se quisesse ter seus amigos de volta, então ela tinha que se dedicar ainda mais em derrotar Elisa.

Nóctua lhe ensinara que a magia era baseada em único princípio, a concentração. Ela lhe mostrou um exercício simples, mas que Helena tinha muita dificuldade em executar. A garota jogou a mochila numa das mesas de piquenique, sentou-se na grama com as pernas cruzadas em posição de meditação e fechou os olhos.

No início, Helena continuou ouvindo os pássaros e insetos ao redor, e sua mente definitivamente não estava limpa: imagens de Elisa, Nicolas e seus amigos passavam velozes pela sua mente.

— Concentre-se... concentre-se...

Aos poucos Helena conseguiu limpar sua mente e seus sentidos passaram a sentir a natureza, sobrepondo todo o barulho dos seus pensamentos.

Helena pôde ouvir o sussurrar do vento passando pelas copas das árvores e o barulhinho gostoso da água correndo pelo rio; o cheiro da grama ao seu redor e da terra molhada na margem do rio. Logo Helena conseguiu sentir o batimento do seu coração e ouvir o som da própria respiração, e uma sensação de paz começou a invadi-la. Sua mente livre de qualquer pensamento ou medo.

Era uma sensação nova. Mesmo antes de Elisa chegar, a cabeça de Helena sempre fora barulhenta. Havia a pressão de ser a garota mais rica da cidade, descendente da fundadora, filha do homem mais poderoso da região. Helena não queria decepcionar o pai nem os habitantes da cidade que um dia dependeriam dela, responsabilidade herdada há séculos por sua família. Quando conheceu Nicolas tudo melhorou e piorou ao mesmo tempo. O garoto sempre lhe dera confiança, mas havia o medo de nunca conseguir expressar seus sentimentos a ele. Mas agora, pela primeira vez em sua vida, Helena conseguia silenciar sua mente.

Helena estava se sentindo completamente leve agora. Era como se sua mente fosse um lago de águas calmas e cristalinas brilhando ao sol. Mas de repente algo perturbou seu lago mental: começou com uma gota de escuridão que manchou as águas. Essa gota foi se embrenhando pelo lago, agora parecida com uma raiz do mal crescendo e se alongando. Helena sentiu um frio dentro do peito que não pôde ignorar e abriu os olhos.

Por um instante, o sol ofuscante a confundiu: como podia ter um sol tão forte sobre si e ainda sentir aquela frialdade no peito?

Helena se levantou e olhou ao redor. A natureza parecia perfeitamente normal, igual há todos os dias que estivera ali antes. Helena fechou os olhos novamente e foi lentamente se virando ao redor de si. De repente ela parou de girar quando o frio se intensificou. Era dali que vinha o frio. Helena começou a andar nessa direção. Às vezes o frio diminuía, então Helena fechava os olhos e girava em si para sentir novamente o ar, e quando sentia o frio novamente ela abria os olhos e seguia nessa direção.

Helena andou por quase uma hora desse jeito, andando e parando, até chegar numa clareira aberta no meio da floresta. No centro da clareira havia uma alta pedra negra. Parecia um obelisco esculpido de um pedaço da noite, tão escura era a rocha. Marcados ao longo da rocha, de alto a baixo, estavam runas que Helena desconhecia, mas que por algum motivo, lhe davam arrepios. A garota ficou confusa: algo dentro dela lhe dizia que o obelisco não era a origem do frio, mas as palavras rúnicas gravadas na pedra.

— Então você também sentiu.

Era Nóctua. A cigana, hoje usando um xale púrpura, surgiu do lado oposto da clareira. Ela parecia mais interessada na reação de Helena do que no obelisco.

— Essa é a prova, já começou...

— Começou o que? Que pedra é essa?

— Eu não lhe ensinei essas runas e jamais ensinaria. São runas criadas por magos das trevas e tudo o que fazem é espalhar o mal. Essas runas em especial — e apontou para o obelisco — São usadas para feitiços muito poderosos. Tente tocar no obelisco. Não se preocupe, não acontecerá nada com você.

Helena estava assustada com descoberta dessas runas e ficou com medo de tocar na rocha negra. Sob o olhar penetrante de Nóctua, a garota estendeu a mão, mas seus dedos não puderam tocar no obelisco. Ela forçou seus dedos, mas nada de chegar mais perto nem que fosse um milímetro. Parecia haver ar solidificado cobrindo o obelisco, frio como a própria rocha que protegia. Intrigada, ela olhou para Nóctua.

— Esse não é um feitiço qualquer, é magia de alto nível. É um escudo protetor que impede não apenas o toque físico, mas quaisquer tentativas mágicas de modificar o objeto. Essa nem a é a pior parte...

— Uma rocha negra com runas das trevas protegida com magia de alto nível... como poderia ser pior? — disse Helena num tom agudo meio exasperado.

Nóctua não respondeu imediatamente. Seu olhar era arguto e temeroso.

— A rocha não foi esculpida na forma de obelisco apenas por beleza estética. Esse é um feitiço usado em raras ocasiões, porque as condições de poder usá-lo são difíceis de executar.

— O que um obelisco encantado faz? — perguntou Helena curiosa.

— Um obelisco amplia o raio de ação dos efeitos de um feitiço, conseguindo que um único encanto afete muitas pessoas ao redor. Inicialmente esse encanto foi criado para proteger as casas da aproximação de feras mágicas e outros perigos. O problema maior é que um conjunto de obeliscos pode ser usado para afetar uma região muito ampla. Esse é apenas um obelisco, mas devem ter outros colocados em equilíbrio num círculo perfeito grande o bastante para comportar toda a cidade.

Helena tinha até medo de perguntar.

— Significa...

— Significa... — disse Nóctua sombriamente, seus olhos analisando a rocha negra — Que seja qual for o plano de Ophidia Heid, não se trata apenas de você e de Nícolas. Isso me incomodava. Com todo respeito, mas Ophidia não se meteria em intrigas adolescentes. Ela uma vez tentou conquistar o mundo e separar você do namorado é algo muito pequeno e mundano. Agora começa a fazer sentido: o plano de Ophidia abrange a cidade inteira. Todos os habitantes de Nova Borgeby estão em perigo! Todos!