O Relicário

27 Capítulo 27 - Os Segredos de Ophidia


UM MÊS HAVIA SE PASSADO desde o incidente com o círculo alienígena, mas o assunto ainda não se desgastara. Cidades pequenas são assim, os assuntos duram bastante. Provavelmente, muito tempo depois, os alienígenas voltariam a conversa, requentado e reimaginado, assim como a cidade as vezes ainda comenta e sente medo do misterioso pirata que por ali veio morar há mais de 100 anos.

Havia poucos eventos sociais públicos em Nova Borgeby, mas todos eles eram muito esperados, como ilhas de emoção em um mar de tédio. Depois do grande jogo no reinício das aulas, o grande evento seguinte é a Parada da Independência. O dia começa com o “Hino á Independência” tocado precisamente às seis horas da manhã. Antigamente esse despertador único era tocado pela banda municipal, mas desde 2002, a prefeitura tinha atualizado para potentes caixas de som instaladas na praça e que a partir de um aparelho de som digital, acordava todos os habitantes, principalmente aqueles que moravam próximos à praça. Nícolas era um deles.

Nícolas jamais se acostumara com essa tradição. Todos os anos sua mãe preparava um café da manhã reforçado para a família suportar o ritmo do evento que durava a manhã toda, e desta vez, sem comida. Não era uma festa alimentícia. Uma vez, e somente uma vez, Dona Célia admitiu que detestava que o hino fosse usado como despertador da cidade. Numa cidade tão pequena, todos os eventos eram festas, não importava o incômodo que causassem.

“Brava Gente Brasileira,

Longe vá, temor servil”

Era a terceira vez que o hino se repetia e algumas frases começaram a fazer Nícolas refletir.

— Ser bravo não é tão fácil quanto parece... — pensou Nícolas sozinho no quarto mal iluminado.

“Ou ficar a Pátria livre,

Ou morrer pelo Brasil.”

— Isso é mais fácil de entender — pensou — Independência ou Morte, né? Mas no meu caso é Silêncio ou Feitiço?...

Então Nícolas teve uma ideia. O dia era perfeito para passar despercebido. Ele não teria outra chance. O garoto sabia que não teria muito tempo, então seu cérebro começou a trabalhar nas palavras certas para dizer.

Quando Nícolas terminou de se vestir, seu irmão não tinha sequer acordado (ele sortudamente tinha sono pesado).

— Está na hora de eu merecer o título de Herói de Nova Borgeby — disse a si mesmo mirando-se no espelho na porta do guarda-roupa.

Nícolas tomou o café da manhã e saiu junto com o pai para a Praça da Fundadora. Eles ficaram juntos observando a multidão se avolumar na praça. O pai, como todos os anos, explicava a história da independência do Brasil começando com o descobrimento do Brasil... ah, sim... seu pai fazia um resumo dos trezentos anos do Brasil Colônia antes do desfile começar... e incrivelmente ele sempre repetia o mesmo discurso. Sério! Dava até para decorar as palavras dele. Mas todo esse patriotismo fervoroso do Adelfo Geremaro não era exclusividade dele. Os nova-borguianos valorizavam os festejos não apenas por afastarem o tédio. Veja: acostumadas como estavam a esses eventos, as pessoas se apegavam a eles e por isso elas de fato gostavam de participar deles.

Quando deram oito horas da manhã, o prefeito Henrique iniciou os festejos com um longo discurso, começando por um resumo rápido (cerca de meia-hora) da história do Brasil Colônia até a independência. Depois do discurso inflamado seguiam-se aos desfiles dos estudantes. Alunos do Ensino Fundamental do Colégio Lizeu, do quarto ao nono ano, marchavam em fileiras com seus uniformes escolares brancos brilhando ao sol. Depois deles vinha a Força Policial de Nova Borgeby (todos os 20 oficiais) e a Frota Policial (os dois carros de patrulha). Mesmo considerando as poucas atrações, levaria a manhã toda para o desfile terminar por causa dos comentários que ora os vereadores ora o próprio prefeito, faziam acerca da história ou dos próprios desfilando, que ficavam marchando no mesmo lugar esperando que o comentarista terminasse de falar.

Nícolas não ficou para assistir nem a marcha dos estudantes. Ainda durante o discurso inicial, ele aproveitou um momento de distração do pai, que corrigia alguns fatos históricos do discurso do prefeito, e se meteu entre a multidão verde e amarela e se afastou da praça.

A tensão de Nícolas era tão grande do que estava prestes a fazer, que ele sequer ouvira o discurso do prefeito. A única coisa que notara era que Helena não estava ao lado do pai. Claro que a garota não estava animada em participar de um evento público em que todos a olhariam torto. Na verdade, Nícolas estava contando com isso. Ele nem sabia se a ex-namorada o receberia, mas era muito importante que ela aceitasse.

Nícolas tocou a campainha da casa de Helena e esperou. A voz que veio do interfone foi fria como ele nunca ouvira antes:

“O que você quer?”.

— Precisamos conversar.

Silêncio.

“Nós não temos nada para conversar. Você deixou bem claro o que pensa de mim da ultima vez em que nos vimos”.

— Helena, desculpe-me se eu fui muito frio daquela vez. Mas olha... — Nícolas silenciou por alguns segundos e balançou a cabeça, impaciente —... Helena, por favor! Precisamos conversar! Abra, por favor!

Silêncio novamente.

Clack! O portão se abriu com um estalo.

Nícolas passou e fechou o portão.

Helena abriu a porta em silêncio e levou o garoto para a sala de visitas. Foi um momento muito constrangedor quando os dois se encarando sem saber direito o que dizer. Eles sentaram-se em sofás opostos, um de frente ao outro. Bem acima e a esquerda da garota Nícolas reparou num porta retrato em que Helena e o prefeito estavam abraçados e sorrindo em algum evento municipal. Em um instante ele se lembrou de tudo que já vivera com Helena e se entristeceu pela situação ter chegado a esse ponto.

— Então... — disse Helena.

O garoto criou coragem e disse:

— Eu quero falar sobre Ophidia Heid.

O clima que já estava frio entre os dois, de repende ficou congelante.

— Vim dizer o que eu sei sobre ela. Assim você não precisará exagerar de novo...

Helena se remexeu incomodada no sofá, mas sorriu triunfante e disse com confiança:

— Fiz o que era necessário. Não é como se eu tivesse matado alguém.

Dessa vez foi Nícolas quem se remexeu no sofá.

— Não, não matou. Fez pior. Mesmo sabendo que Ophidia poderia castigar Elisa por passar informações torturando-a, você não hesitou em continuar. Elisa levou uma semana para se recuperar da tortura, mas não totalmente, pois eu sei que ainda hoje ela sente uma pontada ás vezes, mas tenta disfarçar. Ela é tão vitima quanto nós dois.

— Não venha me julgar pelo que fiz. Aquilo foi certo. Só você não vê que Elisa e Ophidia são a mesma coisa. Tudo aquilo de moça inocente que nunca teve amigos era só teatro. Ela é falsa e eu vou provar.

— Não é teatro! — disse Nícolas tão alto que sua voz grave ecoou pela casa vazia — Ela sofre. Do meu ponto de vista, você é quem está se mostrando falsa e insensível, dizendo que gosta de mim, mas atacando uma pessoa inocente.

Helena não suportou essa. Levantou-se e também disse gritando:

— Foi pra isso que veio aqui? Para defender a sua namorada e me ofender?

Nícolas baixou os olhos, esfregou o rosto com as mãos e respirou fundo enquanto afundava no sofá.

— Não! — gritou. Então respirou fundo novamente e disse num tom muito mais baixo, trazendo a conversa de volta a um nível aceitável — Desculpe, desculpe! Não, foi para isso que eu vim.

Nícolas baixou as mãos e ergueu a cabeça. Helena sentara-se novamente, mas desta vez com um olhar muito desconfiado, como um gato assustado que se coloca em posição de ataque esperando que o inimigo avance sobre ele.

— Como eu já disse. Eu vim para falar sobre Ophidia. Eu te direi tudo o que sei e você não tenta nada de... perigoso... de novo!

Helena continuou em silêncio.

— Ophidia Heid é uma maga das trevas muito poderosa que tentou conquistar o mundo há mais de oitocentos anos. Mas ela foi impedida por outra maga poderosa, a Grande Selene. Apesar de forte, Selene não pôde derrotá-la e aprisionou Ophidia dentro de um relicário. E é lá que Ophidia está até hoje, no relicário de prata que Elisa trás no pescoço. Além disso, eu não sei muito mais. Ophidia não é das mais simpáticas, sabe?

Helena continuou em silêncio por mais alguns segundos absorvendo o que ouviu.

Até agora as conjecturas de Nóctua estavam corretas, então de se supor que as outras também estavam.

— Uma pergunta: como o relicário de Ophidia acabou no pescoço de Elisa?

— Elisa me explicou isso há algumas semanas. Depois que Ophidia foi aprisionada, Selene descobriu que o Relicário não era perfeito como prisão. Ou talvez fosse que a própria Ophidia que era demasiado forte. Seja como for, a joia não consegue conter completamente o poder de Ophidia, que pode influenciar quem se aproximar dele. Por causa disso, Selene ficou temerosa que a joia fosse simplesmente escondida, pois qualquer pessoa que por ventura se aproximasse desse esconderijo, poderia ser manipulado pela maga das trevas. A solução foi entregar o Relicário para um mago de grande força que pudesse evitar a influência de Ophidia. A família de Elisa foi então escolhida por Selene para realizar essa tarefa e a joia tem passado de mãos em mãos através dos séculos por todos os primogênitos de sua família. Não digo todos os Heinz, pois nem sempre sua família se chamou assim, mas o nome original é sueco e não sei pronunciar.

Helena ponderou o que ouviu e lembrou-se de algo que lera naqueles velhos livros na biblioteca do Colégio Lizeu: então era realmente uma gigantesca coincidência. A tal família que fora para a Inglaterra, e que era temida pelas outras pessoas, era mesmo a família da Elisa. O temor que sentiam com certeza era por causa do Relicário, a prisão de Ophidia. Mas e se não fosse coincidência? Será?

— Nícolas, só mais uma coisa. A família de Elisa eram os portadores do Relicário de Ophidia Heid, tá, entendi. Mas, se assim é, o que ela está fazendo aqui em Nova Borgeby? Porque ela incitou Elisa a vir para cá? Porque raios ela decidiu sair da Inglaterra e vir estragar a minha vida aqui no Brasil?

Nícolas fez uma expressão sinceramente confusa e respondeu:

— Isso... eu... não sei!

De repente muitos fogos de artifícios foram ouvidos, e tantos e tão alto, que os dois se assustaram e se levantaram olhando para os lados. Então, percebendo o que os fogos significavam, Nícolas disse simplesmente “Preciso ir”, e em segundos saiu da sala e foi embora.

Os fogos de artifícios faziam parte da finalização do evento na praça. Era como o prefeito animava as pessoas depois de tê-las entediado durante horas.

Acalmando-se depois do susto, Helena sentou-se novamente enquanto repassava mentalmente tudo o que ouvira e percebeu que a história de Nícolas se encaixava perfeitamente em tudo o que ela descobrira por seus próprios meios. Só faltava descobrir a parte principal: por quê?

Mais importante do que saber o que Ophidia estava planejando para a cidade, Helena queria saber por quê? Porque ela estava fazendo tudo isso? Por quê? Por quê?

Notas finais
Comentem, por favor *-*