O Reinado da Escuridão

5 Encaro 8 zumbis "proféticos"


Notas iniciais
P.O.V Sarah

Estava em um canto da praia, perto do Riacho Zéfiro, um local bem tranquilo e reservado observando o pôr-do-sol refletido na água. Ainda pensava nos acontecimentos do dia, em como Quíron havia me enganado a minha vida inteira, e também na minha conversa com Anfitrite:

– Querida, não fique assim. Ele só estava tentando te proteger…

– Do quê? -respondi. Estava mais chateada com Quíron do que com raiva dele, por isso minha voz saiu chorosa.

– De mais monstros, divindades loucas e da magia. Assim como o nosso mundo é perigoso para os egípcios, o mundo deles é muito perigoso para os semideuses. Lá não temos defesa, já que o bronze celestial não mata monstros egípcios. Além disso, tenho que admitir, os magos, com todos aqueles amuletos e símbolos…

–Hieróglifos — corrigi

–Isso. — ela continuou. — Acontece que eles são mais poderosos que os semideuses.

Assenti, concordando com tudo o que ela dissera (mesmo irritada), pois finalmente havia entendido o motivo do centauro ter escondido todo aquele mundo de mim. Ele só se preocupava com o meu bem-estar… Ainda assim estava chateava por descobrir a verdade apenas quando um monstro apareceu em Manhattan. Meio tarde para me "contar", não?

Fui desperta de meus devaneios pelo som familiar que anunciava o jantar. Levantei-me e me dirigi ao refeitório, não sem antes praguejar por ter que jantar com o chalé 6.

Sabe, é que eu sou filha de Atena, mas nunca gostei muito da deusa ou dos meus "irmãos". Minha mãe é a deusa da sabedoria e da guerra justa, o que me dá consideráveis vantagens ao resolver uma prova ou entrar em uma batalha. Porém, o defeito fatal dela é o húbris, ou seja, acreditar que você pode fazer qualquer coisa melhor que qualquer outra pessoa. E esse também é o defeito fatal de quase todos os seus flihos. Resumindo, o chalé de Atena é um lugar onde um monte de "metidinhos" se reúnem para falar sobre como eles são superiores a todos os outros do Acampamento. Irritante e infantil. É por isso que eu ODEIO qualquer pessoa que esteja ou já tenha estado naquele chalé um dia.

A única excessão é uma filha de Atena que se destacou por ser humilde, mesmo tendo o húbris: Annabeth Chase. Ela é uma lenda no Acampamento. Dizem que era mais linda que a própria Afrodite e que sobriveu a uma travessia pelo Tártaro. Aposto que, se todas essas façanhas forem reais, ela está no Elísio nesse momento, ao lado de outra lenda: seu marido, Perseu Jackson.

Voltando ao jantar… cheguei ao refeitório e vi a careta de Jessica Johnson. Ela era minha meia-irmã e a pessoa que mais me odiava desde o dia em que chegou ao Acampamento (já mesmo que tendo lutado bravamente ao lado de George, o sátiro que a trouxe, eu, "acidentalmente", acabei por derrubá-la no lago de canoagem). Retribui com uma careta pior ainda e me voltei para a pira de oferendas, onde deixei uma a Anfitrite. Ela era muito próxima a mim desde que nos conhecemos. Eu sabia que com ela e Poseidon eu estava em casa. Meu lugar não era no chalé 6. Eu era uma filha do mar, pertencia a ele. Mesmo que todas as evidências dissessem o contrário.

Depois de me sentar e comer quieta meu jantar enquanto os outros discutiam sobre arquitetura e história, chegou a hora do Caça-Bandeira, que estava mais "moderno". O jogo funciona da seguinte maneira:

1. Os chalés de Atena e Hefesto iniciam escolhendo os times;

2. Cada time poderá montar cerca de 10 armadilhas para proteger a sua bandeira, além de bombas de fogo grego e outros artifícios para distrair seus adversários;

3. Além das proteções mecânicas e químicas, os times contam com 2 cães infernais a seu dispor, um par de canhões (escondidos nas trincheiras em volta da área da bandeira) e 4 metralhadoras, além de quantos armamentos "tradicionais" (espadas, adagas, escudos e armaduras) precisarem;

4. É proibido aleijar ou matar qualquer campista ou juiz. Caso essa regra seja descumprida, a vitória será do time adversário;

5. Ganha quem atravessar as linhas inimigas, pegar a bandeira adversária e retornar ao seu lado do campo de batalha primeiro;

6. Não é possível utlizar-se de nenhum ser marinho e/ou encher as trincheiras de água;

7. Sátiros, ninfas e outras criaturas mitológicas que quiserem participar ficam do lado oposto ao chalé de Hermes;

8. Os perderores limparão os banheiros até que uma nova edição do jogo seja feita.

Rapidamente, os times foram formados: Atena, Hermes, Hades, Poseidon e os visitantes contra Hefesto, Afrodite, Ares, as criaturas mitológicas do Acampamento e os deuse menores, além das caçadoras. Os times parecem desiguais, mas se você visse a quantidade de filhos que Hermes tem, descobriria que os times estavam igualmente dividos.

Nos posicionamos do lado oposto ao Refeitório, próximo ao punho de Zeus. Tínhamos uma estratégia simples, mas eficaz. As armadilhas se concentrariam no centro do campo de batalha, enquanto time se dividiria em 3: um terço ficaria como defesa da bandeira, um terço atacaria pela esquerda e os restantes, pela direita, cercando o time adversário. Então eu, a corredora mais veloz do time azul, renderia o guarda próximo à bandeira e depois, correria com a bandeira até nosso lado. É claro que, nesse momento, alguns já teriam escapado de nossa armadilha, portanto, eu me pouparia ao máximo até o momento de voltar ao lado do time azul, quando estariam me perseguindo como a um coelho por uma raposa.

Não narrarei o Caça-Bandeira em detalhes, pois ele é irrelevante comparado aos fatos que o sucederam. Porém, posso orgulhosamente dizer que nosso plano correu como o esperado, e que ganhamos das caçadoras, algo que não ocorria desde a última vez que apareceram por aqui (o que, coincidentemente, foi em um inverno, há muito tempo atrás, quando Ártemis desapareceu caçando um monstro. Mas essa é outra história…).

Quando ganhamos, vi até o sr D. comemorar e gritar que nós éramos os melhores. Estranhei seu comportamento e pergunte-me se não estaria bêbado, mas então lembrei que ele não podia beber, como parte de seu castigo.

No meio da comemoração, ouvimos alguns passos arrastados e todos nos viramos. No mesmo instante, todos os gritos cessaram e as expressões de felicidade transformaram-se em puro horror. Um grupo de 8 idosos caminhava em nossa direção, liderados por Rachel Elizabeth (nosso oráculo). Não fazia ideia do que ela poderia fazer ali, sendo que não tínhamos profecias a muito tempo.

Só então percebi o porquê de todos estarem apavorados. Os 7 velhinhos cheiravam a carne pútrida e tinham larvas na pele. Eles eram como os mortos-vivos dos filmes de terror. Porém, cada um deles era mais diferente do que o outro. Da direita para a esquerda, havia um senhor de origem asiática, que carregava um arco e flecha nas costas. Ele tinha cabelos muito brancos e olhos castanhos, além de uma barba, como um sensei. De mãos dadas com ele, caminhava (ou melhor, se arrastava) uma mulher que parecia ser centenária. Sua pele era da cor de chocolate amargo, seus olhos eram âmbar e seus cabelos brancos e curtos eram cheios de cachos. Ela devia ter sido muito linda no passado.

Ao lado da senhora-zumbi, achava-se o mais jovem dos mortos. Ele deveria ter por volta dos seus 40 anos. Seu cabelo cor de chocolate era levemente cacheado, e combinava harmoniosamente com sua pele bronzeada. Suas roupas estavm chamuscadas e sujas de graxa, e ele usava um cinto de ferramentas, como se fosse um acessório. Ao vê-lo, algumas das campistas do chalé de Hefesto começaram a chorar. Nesse momento, eu o reconheci: era um semideus da Profecia dos 7. O nome dele? Acho que você já deve imaginar, não é mesmo?

No centro havia uma senhora com cabelos compridos presos em uma trança. Ela tinha algumas penas entrelaçadas ao cabelo. Vestia um suéter com padrões indígenas muito surrado e um pouco sujo de terra. Caminhando junto à ela, havia um homem com os seus 70 anos. Ele vestia uma camiseta roxa escrito "SPQR" em amarelo. Definitivamente era um romano. Foi olhando para a sua camiseta que percebi o enorme ferimento de espada que lhe atravessava o abdomen. Próximo de seu umbigo um gládio, deduzi, estava cravado até a empunhadura em sua carne. Voltei-me para o seu rosto, antes que eu vomitasse com a grande quantidade de larvas saindo daquele corte. Seus olhos eram azuis tempestuosos, belos e frios (aliás, eram a única coisa bela naquele cadáver). A esquerda, vinham dois zumbis que me fizeram ficarà beira das lágrimas. Ele, com cabelos brancos, uma camiseta laranja do Acampamento como a minha, e olhos verdes como o mar caribenho. Ela, que se apoiava em seu ombro, tinha o cabelo ondulado como o mar na altura dos ombros. Seus óculos meia-lua estavam mal posicionados e quase caíam de seu rosto. Notei que apenas uma das órbitas estava preenchida com um olho mais cinzento que qualquer nuvem de tempestade que eu já vira em minha vida. Nesse momento, senti as lágrimas rolando descontroladamente por minhas bochechas. Senti Ed, meu melhor amigo e filho de Hermes, limpando-as e sussurando, para que ninguém soubesse que eu eu estava chorando por eles:

– Fica calma. Não são eles. Eles estão no Elísio agora.

Essas palavras me acalmaram um pouco, mas não conseguia parar de sentir-me deprimida pela situação em que os meus ídolos de infância se encontravam. Principalmente Annabeth Chase.

Apesar de perdida em pensamentos, notei que o senhor asiático abrira a boca para dizer algo. Mas o que saiu não foi uma voz masculina.