O Reinado da Escuridão
4 Vejo um campista bisbilhoteiro sumir na minha frente
Notas iniciais
Depois de todos esses acontecimentos estranhos não conseguia entender nada direito, mas também, nem ia tentar. Minha vida é sempre assim, desde que nasci.
Ah… Acho que sou a primeira aqui a me apresentar… Muito prazer! Sou a Cibelle, mas pode me chamar de Ci, ou Belle se preferir… Bem, não vim aqui para falar de mim! Voltando à história…
Logo depois que Apolo deixou o Acampamento, Quíron (que havia entrado em uma casa de fazenda grande e azul) veio nos receber com um sorriso simpático no rosto. Ao lado dele caminhava um homem que parecia o Bes (deus egípcio protetor das grávidas, crianças recém-nascidas e das famílias), só que com bochechas muito vermelhas, uma camisa havaina listrada como o pelo de um tigre (de um roxo berrante), uma bermuda cáqui, sandálias com meias até os joelhos e um olhar de quem estava passando muito mal, provavelmente por causa do ácool (ele cheirava a vinho). Ele estava de… como era o nome mesmo? Ah, sim. Ele estava de ressaca. Quando abriu a boca, disse:
– Bem-vindos ao Acampamento. Eu sou o sr D. e o Quíron, aqui ao meu lado, vocês já conhecem — ele disse isso apontando para o centauro, que se achava ao seu lado. — Ele lhes mostrará o lugar. Boa estadia.
Seu desânimo era tamanho que eu mesma, sempre saltitante e sorridente, não pude deixar de me contagiar com isso. Como alguém poderia ser assim tão mal-humorado? Para acalmar a indignação de todos, meu amigo de quatro patas explicou a situação depois que ele saiu:
– O sr D. desagradou Zeus, seu pai, e, como punição, foi condenado a ficar aqui. Por isso ele é tão rabugento.
Então o sr D. era filho de de Zeus e desagardou seu pai. Além disso, era, obviamente, alcoólatra.Provavelmente, gostava muito de vinho. Zeus… vinho… D... Mas é claro!
– Espera aí, quer dizer que o sr D. é Dionísio, o de...
Fui interrompida quando uma garota, que reconheci como a que gritou com Quíron na Assembleia, tapou minha boca.
– Ele não gosta que nós, meros mortais — ela revirou os olhos — o chamemos assim.
Metido esse deus, não?
Enfim, as caçadoras foram conduzidas ao chalé 8, o de Ártemis (delas por direito, já que a deusa não tinha herdeiros), enquanto eu e William fomos até o chalé 11 (dos filhos de Hermes). Entramos e nos vimos no lugar mais bagunçado do planeta. Nem o 21º Nomo (o mais lotado de todos) ficava assim depois de uma festa de final de ano! Diversos colchões e sacos de dormir se amontoavam pelos cantos onde não estavam os treliches (beliches seriam muito pouco para acomodar metade do chalé). Os lugares onde não havia nenhuma "cama" de campistas eram abarrotados de coisas diversas: tênis imundos de lama, calças jeans surradas e outros pertences dos filhos do deus mensageiro.
Havia um canto porém, onde caberiam dois colchões, extremamente limpo. Lá, repousavam duas espadas cruzadas. Uma era de aço e um material dourado, o bronze celestial. A outra era inteira dourada, com uma empunhadura decorada e onde lia-se Anaklusmos (Contracorrente, em grego antigo), a arma de Héracles. Não fazia ideia de onde vira essa informação, mas nem liguei.
Ao observar as duas lâminas cruzadas, senti uma onda de emoções me invadir, como saudade e medo. Senti também que alguém me observava pela janela e, quando fui descobrir quem era, jurei que havia visto o rosto de um garoto. Sua pele branca havia, claramente, adquirido um bronzeado por causa de anos exposto ao sol forte. Seus olhos eram verdes da cor do mar caribenho, porém, o tom era mais intenso. Seus cabelos lisos eram tão escuros como uma noite sem estrelas, o que o deixava incrivelmente mais bonito. Mas aqueles olhos... eram os mais lindos que já havia visto na vida e, por isso, acho que nunca os esquecerei.
Ele tinha um sorriso estampado no rosto, e vestia uma camiseta laranja, como os outros campistas, além de um colar com 5 contas (uma negra como seus cabelos, com um tridente verde nela; a outra continha um objeto dourado parecido com um cobertor; a terceira tinha a representação de um labirinto, a quarta continha o Empire State Building pintado nela e a quinta tinha um 7 apenas). Um típico campista, se não fosse o fato de ele ser translúcido. Quando me dei conta disso, levei um susto e dei um gritinho. Meu gesto fez com que ele, literalmente, desaparecesse.
Isso também fez com que Quíron e Will (que conversavam sobre a beleza e funcionalidade daquelas espadas) olhassem para a janela. Porém, ao contrário de mim, não encontraram nada e perguntaram o que eu tinha visto.
– Eu vi uma lagartixa comer uma mosca. — menti — Elas são nojentas!
Meu irmão concordou comigo e fomos procurar um canto para colocar nossos pertences (que incluíam: um saco de dormir, travesseiro e um kit de higiene pessoal para cada, além da bolsa de itens mágicos de William e minha kopesh). Entretanto, enquanto eles se ocupavam em encontrar um lugar para passarmos a noite, eu mergulhava em devaneios com o espião transparente. Por que só eu consegui enxergá-lo? Qual o motivo de ele ser translúcido? E, principalmente, quem era ele e o que fazia nos espionando? A única coisa que me deixava mais confusa que essas perguntas, era como conseguiria as respostas para elas. Só tinha uma certeza: eu atravessaria o centro da Terra para descobrir essas informações.
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