O Rei Negro
1 Uma dívida de fogo
Notas iniciais
Gabriel estava exausto após um dia de muito trabalho e, ainda, por estudar até altas horas os livros que tomara emprestado da biblioteca. De bruços sobre a cama de solteiro, ele tinha perdido a noção entre os sonhos e a realidade, principalmente depois de ver uma figura baixinha caminhando para lá e para cá. Ah, aquilo era fruto da sua imaginação, sentia que sim. Não poderia existir a remota possibilidade de um indivíduo pequeno, com bigode alaranjado e narigudo, estar em seu apartamento, o observando, tendo na mão diminuta o mesmo copo que usara para beber seu chocolate quente durante os estudos.
O rapaz sentiu como se seu corpo estivesse sendo arrastado lentamente e apenas se entregou, inerte, à sensação de alívio por não precisar fazer nada, afinal, estava dormindo. De repente, teve a impressão de girar várias vezes para frente, como se entrasse em um loop de cambalhotas. Sua mão direita era puxada por outra menor, apesar de ser bem mais grossa, como se alguém o guiasse para algum lugar até então desconhecido.
-Não! Não! Maldição-re!
De quem era aquela voz grave e rouca? Soava aflito, para não dizer desesperado. E agora, seu corpo parecia girar descontroladamente, muito diferente de antes, ao passo em que já não sentia a pequena mão o segurando e tampouco escutava qualquer palavra desse ou daquele lado. Imerso na escuridão, sentiu-se incapaz de tomar qualquer atitude, preso em um estado de profunda sonolência, onde seus braços e pernas estavam dormentes.
Gabriel viu uma luz e desejou se aproximar para entendê-la. Quanto mais perto ficava, mais arroxeado se tornava o brilho, lhe causando calafrios estranhos e um pavor crescente como nunca tinha sentido antes e foi aí que seus olhos finalmente se abriram totalmente. Queria se afastar, queria rejeitar aquele brilho e não entendia o porquê de todo aquele medo, contudo, só precisava que isso acabasse o mais rápido possível.
Era como se tivesse dormido por horas na pior posição, pois seu corpo inteiro doía e estalava a cada movimento. O cheiro de grama causou estranheza e aos poucos o rapaz foi abrindo as pálpebras, revelando seus olhos tão verdes quanto a natureza que o cercava. Tossiu, como se tivesse engolido muita água, ainda que seus pulmões estivessem secos. Pouco a pouco, ele foi se levantando e percebendo toda a densa floresta que o cercava, com árvores muito grandes, raízes traiçoeiras para se caminhar sem prestar atenção e alguns feixes de luz que invadiam pelas copas. Já era dia.
-Ô esquisito!
A voz vinha de trás e Gabriel se virou de supetão, encarando confuso o sujeito de calça marrom, camisa branca, botas também marrons e uma faixa amarela amarrada no braço direito. Aquele indivíduo o encarava fixamente com seus olhos castanhos, num ar de julgamento e tinha a pele na cor preta, bem como os cabelos presos num rabo-de-cavalo.
-Qual o problema dessas roupas? Se perdeu do seus amigos do teatro?
Ele não está falando o meu idioma e mesmo assim eu consigo entender, como isso é possível? Que lugar é esse? E por que ele se veste como se estivéssemos nos tempos medievais?
-É mudo, seu esquisito? Tô falando com você! – irritou-se o outro rapaz.
Gabriel respirou fundo e adotou uma expressão séria quando finalmente respondeu:
-Aqueles cretinos me largaram pra trás. Quero só ver como vão se apresentar sem mim. – estava improvisando, mas sabia que qualquer pergunta do estranho poderia quebrar sua mentira. A bermuda preta e a camisa azul que usava para dormir o colocaram naquela situação atípica, em que sequer teve tempo para compreender e se preparar.
-Hum… então você é mesmo do teatro. – constatou e pela expressão de alívio, Gabriel teve consigo que tinha conseguido convencê-lo – Meu nome é Kar. Por dez moedas de ouro, te levo no meu cavalo até a vila.
Dez moedas de ouro? Meu corpo e minha cabeça doem, sem falar que eu não faço a mínima ideia de onde ou quando estou. Não consigo saber se esse cara é confiável, nem quanto valem dez moedas de ouro. Que situação de merda.
-Meu… — começou em um tom pouco convincente, um tanto tímido, mas logo se corrigiu e passou a falar com mais convicção – Meu nome é Gabriel e eu não tenho nenhuma moeda no momento, mas…
Espera… espera! O que eu falei de errado? Gabriel não entendeu o porquê da perplexidade no rosto de Kar, nem a razão para que o rapaz recuasse um passo. Cogitou a possibilidade de ter dito algo errado naquele idioma estranho, ainda que as palavras surgissem com muita facilidade em sua mente, como se desde sempre pudesse falar fluentemente aquela língua, fosse qual fosse. Ou será que não ter nenhuma moeda soava assim tão assustador para que ele fizesse aquela cara? A incerteza o angustiou, sentiu como se estivesse confinado dentro de quatro paredes, sem saber o que fazer.
-Está tudo bem, Kar?
Arriscou. Tinha que arriscar. No entanto, o outro continuava a olhá-lo como se fosse um fantasma e, boquiaberto, era incapaz de dizer uma palavra inteira. Então, Kar lhe apontou o dedo indicador e Gabriel percebeu na hora o quanto ele tremia.
-Você… você disse mesmo… você…
-Sim… eu…? Eu disse mesmo…? – falou com cuidado, como se tentasse ajudar o outro a continuar – O que eu disse? E por que você está me olhando assim?
-Só pode estar de sacanagem! Se alguém te ouvir, vão cortar sua cabeça e espetá-la em uma estaca dentro de Calendria! Você é retardado por acaso?
-Só porque eu não tenho dinheiro?
-Não, porra! Por causa desse nome! Sério, qual o seu problema?
Entendo, então meu nome é um tabu nesse lugar. Merda, onde é que eu tô? Será que aquele sonho esquisito não foi só um sonho? Kar… parando pra pensar, esse não é um nome comum. Nesse caso, o melhor que posso fazer é…
-Desculpa, acho que ainda estou bêbado. – justificou-se Gabriel rindo de nervoso e esfregando a mão sobre a nuca – Eu não deveria brincar com uma coisa dessas, de jeito nenhum. Mas sua reação foi bem engraçada.
-Não fode, seu idiota! – retrucou Kar com a mão no peito e se lembrando de respirar – Eu quase tive um treco. Olha, não faz isso de novo.
-Tá bom, vai com calma. Escuta, meu nome é Tral. – contou em tom descontraído, falando o primeiro nome maluco que veio em sua mente – Estava indo fazer o papel de bobo da corte, por isso essas roupas, mas confesso que já estou ficando constrangido por ser visto assim. Agora eu não tenho moedas, os vagabundos do meu grupo ficaram com todas, mas prometo que te pago assim que conseguir.
-Um bêbado, que faz papel de bobo da corte em peças de teatro, está prometendo que vai me pagar. Olha, tá insultando minha inteligência, hein? Te sento a mão! – advertiu um Kar de cenho franzido, como se fizesse esforço para soar ameaçador.
-O que quer que eu diga, cara? Não tenho uma moedinha. – disse Gabriel de ombros encolhidos, soando envergonhado e tristonho – Olha, se me levar até a vila, posso conseguir um trabalho por lá. Fora a comida, todo o dinheiro que eu receber vai direto para a sua mão.
A desconfiança em Kar era quase palpável, pois enquanto tamborilava os dedos nos braços cruzados, parecia pouco inclinado a aceitar aquela proposta. Contudo, em algum momento ele mudou, como se alguma boa ideia tivesse alcançado seus neurônios.
-Estou indo para o Lago da Morte pegar alguns ingredientes. Se você me ajudar, terá sua carona.
Gabriel notou na hora o sorriso capcioso do outro e acabou fechando o semblante sem se dar conta. O nome do lugar, Lago da Morte, era indubitavelmente suspeito, mas parando para pensar, toda aquela situação se mostrava atípica.
Talvez esse cara não esteja sozinho e tudo isso seja uma armadilha. Se eu aceitar ou recusar, não dá para saber o que vai acontecer. Na melhor das hipóteses, caso ele simplesmente fosse embora, eu não saberia para onde ir nessa floresta que mais parece um labirinto. Sozinho, nunca vou descobrir como voltar para casa. Caralho, eu tô muito fodido.
-Pode ser, então. – respondeu a contragosto.
-Isso! – animou-se Kar – Mas antes, dá uma sacudida nas suas roupas e levanta a camisa.
-É o que?
-Anda logo, cara! Não confio em você, pode estar armado.
O rapaz bufou, mas fez o que lhe foi ordenado, dando meia volta enquanto sacudia e levantava a camisa, chacoalhava a bermuda e dava alguns pulinhos também.
-Nossa, você tem gingado. – debochou Kar, fazendo o outro cerrar os dentes.
-Vai ficar me sacaneando? Eu não tenho nada, só as roupas do corpo.
-Ótimo! Então, vamos!
A poucos metros dali estava um cavalo marrom com manchas brancas sem sela, apenas com o freio em sua boca. Gabriel ficou admirado, pois era a primeira vez que chegava tão perto de um animal daqueles, porém buscou se conter, afinal, não poderia relaxar naquelas circunstâncias. Ainda assim, se distraiu de novo ante a destreza do sujeito ao montar e tentou imitá-lo, mas escorregou para o outro lado e se espatifou sobre alguns galhos secos. Kar gargalhou tão alto que alguns pássaros começaram a gorjear.
-Não é assim, cara. Precisa usar os joelhos para se prender no meu cavalo, o Vórtice, além disso, deve se segurar na minha camisa.
Tral se levantou e começou a bater nas vestes, encarando o sujeito com contida irritação. Preciso dele, não vou xingá-lo por enquanto. E que tipo de nome é Vórtice? Não combina!
Na segunda tentativa, o rapaz quase caiu, mas se lembrou de comprimir as pernas em volta do cavalo e encheu as mãos com a camisa branca de Kar, que deu uma batidinha com os calcanhares no animal e este tão logo começou a trotar. E como era difícil se equilibrar, parecia que ia cair com a menor das curvas e o terreno acidentado, com certeza, não ajudava. Apesar da dificuldade, ele percebeu como aquelas árvores eram diferentes de todas que já tinha visto – e não eram muitas, afinal tinha crescido na cidade grande –, além do clima ameno, ar fresco e muito fácil de respirar.
-Como se chama seu grupo? Vocês devem ter um nome, é óbvio.
-Hum… — nesse instante, os neurônios de Gabriel trabalharam a todo vapor para bolar uma resposta que não causasse suspeitas – As Estrelas do Rei.
-Uau, belo nome! Onde vão se apresentar?
Outra vez os neurônios dele entraram em atividade, mas só tinha escutado o nome de um local e era diferente demais para se lembrar sob pressão. Cal… Calin… Droga, não consigo, preciso desconversar.
Porém, não deu tempo. Ele percebeu que o cavalo estava acelerando, ao passo em que o corpo de Kar se inclinava mais sobre o animal.
-Por que estamos correndo? – questionou em alta voz.
-Estão nos seguindo! – respondeu Kar, visivelmente preocupado.
Foi nesse momento, quando parou para escutar com mais atenção, que Gabriel percebeu os sons de outros cavalos vindos dos dois lados. Quando olhou mais atentamente, nos curtos intervalos entre as árvores, flagrou os sujeitos em cavalos marrons e pretos. Havia um… dois… e atrás um terceiro. Percebendo que poderia cair a qualquer instante, acabou pressionando ainda mais as pernas ao redor de Vórtice e apertando com muita forca o tecido da camisa do sujeito que o conduzia.
Era realmente difícil perceber qualquer coisa com tantas árvores e, mais ainda, saber como todos aqueles cavalos conseguiam evitar as diversas raízes altas e as rochas que serviam de obstáculos pelo caminho.
-Quem são eles? – indagou Gabriel.
-Pessoas que não podem me encontrar ainda. – respondeu um Kar aflito – Puta que pariu!
Um quarto indivíduo, montado em seu cavalo preto, surgiu de trás de uma grande árvore e bloqueou o trajeto de Vórtice com labaredas de fogo que assustaram o animal, o fazendo relinchar alto. Por causa da parada abrupta, Gabriel escorregou outra vez e caiu em um monte de folhas secas.
-Então o passarinho estava certo. Aonde as donzelas pensam que estão indo? – disse um deles. Era corpulento, barbudo e com algumas cicatrizes pelo rosto.
-Estavam, melhor dizendo. – corrigiu outro homem, careca e caolho – Agarradinhos em cima do cavalo, que coisa fofa.
-Não queremos problemas. – falou Kar, já de pé em solo firme e erguendo as mãos em rendição.
-A gente também não ia querer se fossemos vocês. – retrucou o terceiro dos homens, bem mais magro do que os demais e com traços faciais que lembravam um roedor. Esse tinha a voz realmente fina.
Gabriel ficou de pé, notando que o gordo, o caolho e o magricelo com cara de rato carregavam espadas na cintura, além das facas que faziam questão de exibir nas mãos numa tentativa óbvia de amedrontar por pura diversão, a julgar pelos sorrisos amarelados. Porém, seus olhos verdes logo pairaram sobre o quarto homem, responsável por impedir a fuga, de queixo quadrado, barba rala, alta estatura e cabelos castanhos. Ele era diferente, não parecia estar se divertindo e tinha um olhar severo diante daquela situação, além do detalhe de que era o único ainda montado. Quando falou, sua voz estava carregada de frieza e indignação:
-Um mês, Kar. Esse foi o prazo que eu te dei para pagar o empréstimo de cinquenta moedas de ouro e, com juros, sua dívida é de sessenta. Mas a julgar pela sua tentativa de escapar, você ainda não tem essa quantia.
-Eu já tenho as cinquenta moedas de ouro, Jake. Cinquenta e duas, para ser mais exato. – apelou o rapaz, visivelmente preocupado – Estava indo até o Lago da Morte pegar ingredientes para…
-Chega! – cortou Jake – Não quero ouvir desculpas.
-Mas é verdade! – desesperou-se Kar, gesticulando com as mãos como quem clama por credulidade – Se eu conseguir os ingredientes, vou poder preparar minhas poções e…
-Poções? – interrompeu o sujeito corpulento – Todo mundo sabe que você é um picareta, Kar. Se suas poções fossem assim tão boas, não precisaria ter recorrido à bruxa da floresta. Foi ela quem curou sua irmã e foi o Jake que te deu o dinheiro para que isso acontecesse, então deveria ser mais grato, otário.
Então é isso, constatou Gabriel em pensamento.
-Sei onde sua irmã está. – ameaçou Jake, semicerrando os olhos castanhos.
-Não se atreva, seu… — num rompante, Kar se mostrou muito agressivo, porém Gabriel o puxou pelos braços – Me solta, cara! Ele está ameaçando a minha irmã!
-Olha só… então você é homem, apesar de não honrar suas dívidas. – provocou o sujeito com cara de rato.
-Calma, porra! – bradou Gabriel ao sacudir o jovem, então encarou o sujeito montado a cavalo – Olha, eu tenho uma proposta. Meu nome é Tral e...
-Que se dane o seu nome, só quero saber se vou receber meu dinheiro ou não. – irritou-se Jake – Já estou ficando cheio disso, Kar. Acha que é esperto o bastante para me dar um calote? Vai ter que nascer de novo, seu filho de uma puta!
Kar o encarava de dentes cerrados, mas Gabriel continuava segurando em seu braço, agora apenas com uma das mãos, como quem tenta dizer silenciosamente para o outro se acalmar.
-Jake, você vai receber as sessenta moedas de ouro. Tudo o que eu peço são duas semanas. Serei o fiador do Kar e se em duas semanas você não receber, então eu arcarei com as consequências no lugar dele.
-O que você está-
-Cala essa boca, Kar! – disse com seriedade antes de se voltar para Jake – Duas semanas.
Diante disso, o sujeito desceu do seu cavalo e caminhou calmamente até os rapazes. Gabriel ofereceu a mão direita para um aperto, esta a qual o homem segurou, puxou e lhe acertou uma joelhada na barriga. De joelhos, atordoado pela dor, o rapaz ainda conseguiu ver quando os três sujeitos imobilizaram Kar no chão, ao mesmo tempo em que Jake girava o dedo indicador e acendia na ponta uma pequena chama.
Os pássaros do entorno alçaram voo quando o grito de Gabriel ecoou, graças a queimadura que tinha atravessado a camisa azul e alcançado a derme do seu peito esquerdo.
-Uma semana e nem um dia a mais. – decretou o homem, acenando com a cabeça para que os demais montassem nos cavalos – Tenho contatos em toda parte, Tral, mas espero não ter que usá-los. E eu espero, para o seu bem, que a sua palavra tenha mais valor do que a desse imbecil. Assumir a dívida de alguém como ele é a coisa mais idiota que eu já vi nos últimos tempos.
Minutos após a partida dos homens de Jake, Kar ainda estava perplexo, enquanto que o jovem em supostas roupas teatrais encontrava-se sentado no chão, o suor preenchendo sua testa e o pescoço, tal como a dor da queimadura se apossava do seu rosto.
-Você é louco? Por que fez isso? Quero dizer, acabamos de nos conhecer, não tem motivos para me ajudar e correr um risco tão alto. – interpelou.
-Ah, isso. – começou o rapaz em forçosa voz tranquila, enquanto se levantava para fitar o outro – De fato, não tenho motivos para te ajudar, afinal, a gente não sabe nada um do outro. E esse é o problema.
Kar teve uma sensação estranha, pois apesar do sofrimento daquele que o defendeu, seus olhos verdes que pouco piscavam pareciam seguros demais, diferentes de outrora, quando o encontrou mais ao sul.
-O que quer dizer?
-Quero dizer que você vai me ajudar. Eu vou te contar toda a verdade e você vai me ajudar, não importa o que escute.
Embora aquele tom o deixasse receoso, Kar respirou fundo e balançou várias vezes a cabeça para cima e para baixo antes de dizer:
-Depois do que acabou de fazer, pode me pedir qualquer coisa, cara. Porra, isso deve estar doendo pra cacete!
Sem dizer uma palavra, Gabriel caminhou em volta de algumas árvores, se certificando de que não estavam sendo observados e ao se dar conta disso, o outro rapaz fez o mesmo, porém esse falou:
-Essa dor deveria ser minha. Eu que não arquei com a minha dívida, deveria ter trabalhado dia e noite sem dormir. Como sou irresponsável, coloquei minha irmã e alguém que acabei de conhecer em perigo.
-Sinta-se responsável mesmo. – alfinetou o rapaz ao tirar a camisa com cuidado para não tocar a queimadura – Você tomou emprestado de gente como ele e não conseguiu pagar, isso significa tirar sua irmã de um perigo e colocar em outro muito pior. Mas isso não me importa e não foi por isso que te ajudei. Só o que eu quero é voltar pra casa e isso requer conseguir muitas respostas.
-Tá bom, tá bom, pode perguntar.
-Lá atrás, quando eu disse que me chamo Gabriel, foi como se você tivesse visto uma assombração. Também me disse que eu poderia ser decapitado e ter minha cabeça espetada dentro de um reino que, francamente, não lembro o nome. Por quê?
-O que…
-Sem rodeios. – interpelou Gabriel, que abrira mão do seu disfarce – Responda.
-É que… — Kar tomou um bom fôlego antes de prosseguir – Gabriel é o nome do Rei Negro, o sujeito mais odiado de Calendria. Você não sabia? E… como também não sabe o nome do reino mais poderoso de Eastgreen?
Dessa vez, foi o jovem forasteiro que precisou tomar fôlego.
Então é verdade, eu estou em outro mundo. Cheguei a pensar que tinha viajado para o passado, mas não me lembro desses nomes nos livros de história. Além disso, esse idioma estranho que consigo falar e aquele sujeito pequeno só reforçam que este solo em que estou pisando não é da Terra.
-Eastgreen é o nome desse planeta?
A confusão no rosto de Kar era tão densa quanto a floresta que os cercava.
-Do… continente… cara, quem é você?
O cavalo marrom de manchas brancas se mostrava bem interessado em um monte de grama e algumas plantas ao redor. Enquanto ele se banqueteava, Gabriel contava a Kar tudo o que tinha acontecido desde quando começou a estudar os livros emprestados da biblioteca, até o momento em que se encontraram. Esse último, ouvindo palavra por palavra, não escondia o quão abismado estava, contudo, o primeiro simplesmente ignorava e continuava a contar.
-[…] e aqui estamos nós. Se o que está dizendo é verdade, e não duvido que seja, meu nome pode me causar problemas nessas terras. Significa que preciso tomar muito cuidado antes de falar e, mais importante, descobrir uma forma de voltar pra casa.
-Porra, velho… — Kar esvaziou os pulmões, se curvando com as mãos nos joelhos como quem precisa descansar – Já ouvi muitas coisas doidas, só que essa vai além. Eu nem sabia que existiam outros mundos. Calma, me deixa processar, é muita informação. – pediu, rindo de nervoso.
-Não temos tempo para isso. – negou com certa frieza – Esse Rei Negro e o tal reino de Calendria… não, ainda não, melhor a gente falar disso depois, o tempo é curto. A vila é o local habitado mais próximo de onde me encontrou?
-Sim. Como fica no caminho entre a Cidade Sombria e Calendria, muita gente passa por lá.
-Ótimo, vou tentar conseguir informações.
-Mas eu preciso apanhar alguns ingredientes e...
-Aquele cara falou que suas poções não funcionam, então pare de perder tempo. – repreendeu. A dor parecia ter acabado com o seu estoque de paciência.
-Tá bom, calma… — disse um Kar chateado.
Gabriel amarrou a camisa azul em volta da cintura e montou no cavalo logo após o outro. O ferimento ardia e latejava, lhe servindo de lembrete acerca da hostilidade daquele mundo. Ainda assim, muitas perguntas se amotinavam em sua cabeça e a sensação desagradável de impotência por simplesmente não saber o que estava acontecendo era um combustível para o seu interesse em investigar. Era também uma farpa, pois enquanto estivesse ali, sua vida na Terra iria desmoronar dia após dia.
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