O Rei Negro
2 Devaneio
Notas iniciais
A floresta parecia não ter fim, repleta de árvores e vegetação que, muitas vezes, dificultavam a passagem de Vórtice. Gabriel estava com uma das mãos abaixo do peito, sem se atrever a tocar o ferimento, como se o toque pudesse ajudá-lo a atenuar uma dor persistente e incômoda o bastante para atrapalhá-lo a pensar. Ainda assim, sua mente teimava em levantar todos os detalhes que poderiam ajudá-lo de alguma forma, tanto a entender como tudo funcionava, quanto e, principalmente, a encontrar um meio de voltar para a sua vida na Terra.
-A tal bruxa da floresta que curou sua irmã. – começou a falar com mais calma – Como ela é?
Kar o encarou de soslaio por alguns instantes. Naquele trecho sinuoso e acidentado, perto de um riacho, o cavalo apenas trotava.
-É uma velha enrugada, baixinha, com um cabelo armado feito um telhado de palha e nariguda. É sério, o nariz dela é muito grande.
Uma típica bruxa velha dos contos de fada, pensou ao imaginá-la conforme a descrição que ouvia.
-Ela tem… poderes ou coisa assim?
-Ah, tem! Pode enfeitiçar as pessoas e os animais com suas poções. Dizem que ela consegue se comunicar com os mortos de Valtara.
-Mortos de… onde?
-Verdade, você não sabe nada daqui. Como te explico…? Valtara era um continente que foi engolido pela Escuridão do Sul. E antes que pergunte, a Escuridão do Sul é muito mais do que o nome sugere, uma verdadeira cortina negra que se estende de leste a oeste, encobrindo a região Sul do mapa. Dizem que todos os que atravessaram a escuridão morreram ou voltaram completamente loucos.
-Essa escuridão engoliu um continente inteiro? – perguntou Gabriel, estupefato.
-Sim. Isso aconteceu no ano de dois mil, trezentos e trinta e dois. Estamos no ano de dois mil, quinhentos e vinte e sete, mas a ameaça segue firme e forte.
-Cento e noventa e cinco anos. – constatou o rapaz, ainda abismado – Mas então, Eastgreen está correndo perigo? Quero dizer, se essa tal Escuridão do Sul engoliu Valtara, pode fazer o mesmo aqui.
-Ah, não! – respondeu Kar com uma gargalhada – Todos os reinos se reuniram e criaram o Escudo do Mundo. Dois pilares, um aqui e outro em Moroeste, que se conectam e criam uma barreira contra a Escuridão do Sul. Não tem como ela nos alcançar.
Mas ele não se sentiu tão tranquilo quanto o outro. Teve uma sensação incômoda em seu âmago, contudo preferiu sacudir a cabeça e esquecer aquilo, ao menos por enquanto.
-Estou pensando que se essa tal bruxa pode falar com os mortos, deve ser muito poderosa. Talvez saiba de alguma coisa útil que possa me levar para casa.
-É possível, Tral. E desculpe, mas preciso te chamar assim, até para me acostumar, sabe?
-Tudo bem. Eu não quero a atenção que meu nome carrega. Ah, falando nisso, me conta sobre esse tal Rei Negro.
O riacho já estava distante e ainda não se conseguia ver nada além de árvores em todas as direções. Com uma trilha menos prejudicada, Vórtice, o cavalo, voltara a acelerar.
-Como eu disse antes, ele foi e ainda é o homem mais odiado de Calendria, mesmo após a sua queda. Obviamente, vocês tem o mesmo nome. – Kar parecia concentrado no caminho adiante e por causa disso, Gabriel não pôde ver seu rosto, nem identificar qualquer sentimento em sua voz inexpressiva – Dizem que ele invadiu Calendria, junto com um exército de rebeldes, e enforcou toda a família real em praça pública, sem poupar ninguém, nem mesmo as crianças e os idosos. Depois, se sentou no trono e subjugou os reinos de Aurora, dos elfos, Vale Verde, dos humanos e Stonehold, dos anões. Quem ousasse contrariar o Rei Negro, seria brutalmente punido para servir de aviso a todos. Ouvi dizer que ele não tinha misericórdia e quando era mais jovem, incendiou uma loja com a própria mãe dentro. De qualquer forma, o Rei Negro foi morto há vinte anos.
-Que merda… — desabafou Gabriel, perturbado – Ele era um monstro.
-É o que dizem. – proferiu Kar sem parecer dar muita importância – Estamos chegando, Tral. Bem-vindo a Vila dos Farrapos.
-Nome engraçado. – comentou disperso, dividido entre finalmente apreciar uma paisagem diferente da floresta e refletir sobre seu homônimo.
Quando Gabriel pôde olhar para o céu daquele mundo pela primeira vez, notou que era idêntico ao da Terra. Talvez, pela posição e intensidade do sol, deveria ser por volta de meio dia, uma suspeita que se concretizou quando sentiu o delicioso aroma de carne assada. Como estavam descendo a colina, ele teve uma visão privilegiada da vila, notando que possuía uma rua larga que a cortava de fora a fora, bem como outras quatro ruas paralelas e todas terminavam em um generoso espaço no centro, onde havia uma fonte feita com pedras, madeira e cordas. As construções também eram de madeira e a maior delas, uma taverna em frente a fonte, possuía uma grande placa onde se lia: Taverna do Pançudo. 2350 d.N.
Então eu também consigo ler aqueles caracteres estranhos, pensou consigo assim que chegaram no centro da vila.
-Vem, eu te ajudo a descer. – se ofereceu Kar.
Distraído com tantas coisas na cabeça, Gabriel não se deu conta da posição das mãos do rapaz ao aceitar sua ajuda, o que lhe custou uma dor ferrenha no peito quando o polegar dele pressionou a queimadura.
-Ai, caralho! – praguejou baixinho, tentando não chamar tanta atenção – Puta que pariu, cara!
-Desculpa aí, eu esqueci. – disse constrangido e esfregando uma das mãos na nuca – Sou meio desastrado às vezes. Espera aqui, deixa eu levar o Vórtice para o estábulo, não demoro.
-Tá bom. – respondeu seco, ainda comprimindo os olhos – Merda, isso tá doendo demais. – resmungou, mas já estava sozinho, perto da fonte e abaixado sobre os joelhos. Aquele desgraçado do fogo, será que era magia? Não tem como uma pessoa normal acender fogo na ponta do dedo. Ah, não importa, eu preciso de água mais do que preciso de comida nesse momento. Aquela taverna ali, parece ter comida da boa.
-Aí, idiota! – chamou uma voz de mulher – Se ficar no sol, esse ferimento só vai piorar.
Os olhos de Gabriel vasculharam até encontrar uma jovem na sombra de um barraco velho, sentada em uma escadinha de madeira que conectava o chão de terra a porta. Apesar do corpo pequeno, ela tinha olhos castanhos ferozes como os de um felino grande, algumas sardas na maçã do rosto, cabelos castanhos longos e presos, mas ligeiramente desgrenhados, além de usar roupas muito parecidas com as de Kar; calça marrom, camisa branca e botas cinzentas. O rapaz notou, ao se aproximar e ficar sob a mesma sombra da mulher, que haviam algumas cicatrizes naquela face amarrada.
-Obrigado! Eu sou Tral.
-Heler. – respondeu ela antes de cortar um pedaço de maçã com o que parecia uma faca improvisada, cujo cabo era feito de faixas de pano encardido ao redor de um pedaço qualquer de ferro – Tá um bagaço, hein! Como foi isso aí? – indagou se enrolando nas palavras, pois falava ao mesmo tempo em que mastigava.
-Um idio… um cara me deu isso de presente. – se corrigiu, pois pensou que começar a insultar aquele homem poderia pôr Kar e sua irmã em risco.
-Ah, o Jake! – ela revirou os olhos ao pronunciar o nome com desdém – Ele se acha muito macho com aqueles cretinos que vivem lambendo as bolas dele.
O rapaz ficou surpreso com o linguajar de Heler e sentiu vontade de rir, mas preferiu se controlar e a dor o ajudou a se distrair.
-De onde você é?
-Ah, eu moro em uma casinha mais ao sul. Estava viajando com meu grupo de teatro, mas a gente bebeu demais e de alguma forma, acabei ficando pra trás. Foi aí que o Kar me encontrou.
-Espera… — disse Heler de cenho franzido, fazendo explodir as paranoias de Gabriel – Como foi que você acabou virando alvo do Jake?
Eu já estou falando demais. Não deveria ter contado nada para alguém que sequer conheço. Acabei relaxando porque, por alguma razão, é muito fácil falar com ela.
-Por minha culpa, sua intrometida. – respondeu Kar – É melhor ficar esperto, Tral. Se deixar, ela vai investigar sua vida inteira.
-Não fode, idiota! – retrucou Heler, cortando outro pedaço de maçã e abocanhando – Eu só estava querendo saber mais sobre o forasteiro. Pelo visto, agora você deixa as pessoas sofrerem no seu lugar.
-Eu não deixo as pessoas sofrerem no meu lugar, imbecil! – replicou irritado.
-Mesmo? O que é isso no peito dele? Insolação? Vai se foder, Kar! Meu pai foi muito generoso com o seu pagamento e mesmo assim não conseguiu quitar o empréstimo. Seu irresponsável do caralho!
-Eu não ganhei nada de graça! O senhor Heitor me pagou pelo meu trabalho!
Gabriel notou que, apesar do clima tenso entre ambos, as pessoas em volta não pareciam dar muita importância. Uma ou outra até olhava, mas a sensação era de que aquele ‘espetáculo’ não era o primeiro que presenciavam.
-Sua irmã merece mais do que isso!
-Não vem falar da Liz! Eu sei o que é melhor pra ela!
-Aaai!
-Ai ai ai!
Heler e Kar começaram a gemer de dor quando tiveram suas orelhas puxadas pelas mãos gordinhas e peludas de um homem baixinho, quase careca e bigodudo, com uma barriga proeminente que empurrava o avental marrom, feito de couro. Gabriel sequer notou de onde ele veio, talvez dos fundos daquela casa, não soube exatamente.
-Mas que palhaçada é essa aqui, hein?! Estão brigando de novo? Heeeeeein?!
-Aaaaai, papai! Para!! – queixou-se Heler.
-Senhor Heitor, foi ela quem começou!
-Não me interessa quem começou! – disse o homem zangado e vermelho – Já disse mil vezes para resolverem suas diferenças como pessoas civilizadas!
Quando o homem finalmente largou as orelhas dos mais jovens, lançou seus olhos castanhos sobre Gabriel e começou a alisar a bigodeira, como se o analisasse.
-E você, meu rapaz, quem é?
-Eu sou Tral, senhor. Do grupo de teatro. – respondeu um tanto nervoso.
-Teatro? – estranhou Heitor.
-Isso mesmo, senhor. – interferiu Kar – Eu encontrei esse ator de teatro bêbado na floresta, vê se pode?! Tral me ajudou muito ao conseguir mais tempo para pagar meu empréstimo com o Jake, só que infelizmente acabou machucado. Agora preciso ajudá-lo a voltar para o seu grupo.
-É o mínimo, não acha, Kar?! Olha só para ele, ficará com a cicatriz pelo resto da vida. – ralhou o homem – Venha, Tral. Vamos dar um jeito nisso.
Mas antes que pudesse falar qualquer coisa, o senhor Heitor puxou Gabriel pelo braço, determinado a levá-lo até o interior da taverna. O rapaz até chegou a olhar para Heler e Kar, porém estes estavam ocupados demais massageando as orelhas vermelhas feito pimentões.
Madeira constituía toda a sustentação no interior do estabelecimento, bem como as mesas, as cadeiras, os bancos e o balcão. Tudo ali parecia ser realmente antigo e Gabriel teve consigo que nada tinha sido trocado desde dois mil, trezentos e cinquenta, que segundo a placa, foi o ano da fundação. O cheiro forte de álcool e comida se misturava, além disso, alguns clientes pareciam ter pouca aptidão a tomarem banho. Atrás do balcão, haviam vários barris deitados, todos com torneiras e exceto pela posição, não tinha nada para diferenciá-los. Nas paredes, duas das oito tochas estavam acesas, pois as janelas do fundo traziam um pouco da iluminação da tarde e algum vento.
Heitor jogou Gabriel sentado sobre uma das cadeiras, alisando a bigodeira enquanto analisava o ferimento.
-Heler, vai buscar algumas calêndulas no quintal. Traz também o pilão e algumas faixas.
-Já estou indo, papai.
-É, vai logo! – sussurrou Kar por pura implicância e a jovem lhe mostrou o dedo do meio.
-Está latejando, imagino. – supôs o homem, que parecia não ter percebido as provocações dos mais novos.
-Sim, senhor. – concordou Gabriel – Mas está tudo bem. Ele não me pediu para fazer nada, fui eu quem tomou a iniciativa.
-E por que isso? Vocês não se conheciam, certo?
-Acho que sou desses idiotas que agem por impulso. – improvisou, escondendo que o “ato heroico” tinha sido em benefício próprio – O importante agora é conseguir as moedas de ouro que faltam e pagar o Jake.
-Exatamente. Está vendo, Kar? Essa é a postura de um bom homem.
-Claro, claro… — concordou Kar, olhando para Gabriel de um jeito irônico e este retribuiu em igual tom.
-Assim não, menina! Deixa que eu faço. – brigou Heitor ao ver Heler tentando moer as plantas em cima do balcão e foi até lá para corrigir.
-O herói do outro mundo, um bom homem. – sussurrou Kar em deboche.
-Eu tenho os meus interesses, mas você deveria ser mais agradecido. Se eu estivesse na Terra, vai saber onde o Jake teria te enfiado aquele dedo quente. – retrucou Gabriel baixinho e sorrindo maliciosamente.
-Essa história de Terra e outro mundo ainda não me desceu.
-Você me falou de um continente que desapareceu e eu acreditei.
-É, você tem um ponto.
-O que estão cochichando aí? – indagou Heitor, trazendo o pilão com uma espécie de gosma verde, ligeiramente amarelada – Ah, antes precisamos lavar isso. Kar, pegue a garrafa!
-Garrafa? Garrafa de que? – interpelou Gabriel, inquieto ao já imaginar o que estava por vir.
Entretanto, o velho homem ignorou os apelos do rapaz, arrancou a rolha com os dentes amarelados e despejou um pouco do líquido em seu peito, o fazendo gemer de dor e arquear o corpo na cadeira.
-Isso! Isso! Vamos desinfetar, sim?! Tome, vai ajudar.
Quando Heitor enfiou o bico da garrafa na boca de Gabriel, este percebeu na hora que não conhecia aquela bebida, apesar de ter um teor alcoólico muito forte, suficiente para fazer sua garganta queimar e se esquecer, ao menos um pouco, da dor aguda que sentia no peito.
-Que droga é essa? – perguntou assim que a garrafa foi tirada de sua boca.
-Licor de dragão. – respondeu Heler, que agora tinha a posse da bebida – Não foi isso que tomou ontem junto com os seus amigos?
-Não, a gente tomou cachaça.
O taverneiro franziu o cenho e, por alguns segundos, até parou de aplicar as ervas moídas no ferimento.
-O que é cachaça, meu rapaz?
-É… como posso explicar?
-Diz o mesmo que me disse, Tral. – interviu Kar – Lembra? Sobre a bebida que você e seus amigos inventaram?
-Ah! – fingiu se lembrar, apesar de suar frio tanto pelo tratamento, quanto por causa da situação – Eles inventaram a bebida, eu só ajudei a nomear. É álcool puro, muito forte e te deixa bêbado bem rápido se não moderar.
O senhor Heitor ficou surpreso e tentou pronunciar o tal nome inventado várias vezes, enquanto Heler fitava ambos os rapazes fixamente.
Pouco tempo depois, o taverneiro serviu pedaços de frango, ovos e salada em uma tigela para Gabriel, que ainda se encontrava na mesma mesa. A movimentação no ambiente parecia ter aumentado um pouco, mas continuava quase vazio.
-Esse é por conta da casa, inventor da cachaça. Espero algum dia poder experimentar essa bebida. – disse o homem com um sorriso sob a bigodeira.
-Obrigado, senhor. Seria ótimo!
Eu sou uma fraude. Um mentiroso de merda.
-Já o seu, vai ser descontado do pagamento, Kar. E é melhor comer bem rapidinho, porque já estou precisando de ajuda com os barris.
-Sim, senhor. – respondeu tão disposto quanto uma preguiça.
-Heler! Vá levar um prato para a irmã desse aqui, por minha conta. Depois, trate de almoçar, está muito magra! Desse jeito, não vai ter forças para segurar o meu neto ou minha neta nos braços.
-Pai! – protestou – Eu não quero ter filhos.
-E desde quando os jovens sabem o que querem? Vocês falam isso e aquilo só até perceberem que estão começando a enrugar, daí vem o arrependimento, quando é tarde demais para fazer qualquer coisa. Vamos, menina! Quer matar a Liz de fome?
Bufando, a garota obedeceu e se retirou.
-Olha, alguém aqui tem bom apetite. – alegrou-se o taverneiro ao se dar conta que a tigela de Gabriel estava vazia – Quer mais?
-Não, senhor. Estou satisfeito e a comida estava ótima, obrigado! – respondeu gentilmente.
-Muito bom, Tral, você tem boas maneiras. Deveria ensiná-las para esse pestinha aí.
No entanto, Kar estava ocupado demais comendo vorazmente, sujando ao redor da tigela e dos lábios, então apenas deu de ombros. Quando o senhor Heitor voltou para a cozinha, que ficava através de uma porta do lado esquerdo do balcão, Kar olhou para Gabriel e ficou surpreso.
-Como consegue comer tão rápido e não se sujar?
-Bom… — começou meio desconcertado – A gente aprende de tudo quando não temos opções. Eu fui criado em um orfanato. – e se deu conta, pela expressão do outro, de que ele não sabia o significado daquela palavra – É… um lugar que acolhe os órfãos. Te dão o básico que você precisa para sobreviver e se tornar alguém dentro da sociedade, mas alguns sortudos têm a sorte de serem adotados antes de atingirem a maioridade. Eu só saí quando tive idade o bastante pra isso, então consegui um emprego e continuei a estudar.
-Esse seu… — antes de continuar, Kar olhou em volta e diminuiu a voz – mundo… parece bem acolhedor. Por aqui, crianças sem os pais vão parar nas ruas e quase sempre acabam morrendo ou se tornando criminosos.
-Ah, mas isso também acontece lá. A diferença é que já evoluíram o bastante para, pelo menos, enxergarem esses problemas e tentarem fazer algo a respeito. Eu… posso te perguntar uma coisa, Kar?
-Claro, manda.
-Você e sua irmã são sozinhos? Quero dizer, não tem mais ninguém da sua família?
Instintivamente, a mão esquerda do jovem sobrepôs a faixa amarela em seu braço direito, bem como seu olhar ficou perdido ao responder:
-Sim, somos só ela e eu. Mas nem posso reclamar, entende? Apesar de a gente passar por muitos problemas, moramos nessa vila e as pessoas daqui costumam se ajudar. O senhor Heitor, por exemplo, é quase como o nosso pai. Acha que é tão simples juntar cinquenta moedas de ouro? Ele me pagou três vezes mais pelos meus serviços. E agradeceria se não contasse para a Heler que eu disse isso, ela já é insuportável o suficiente. – porém, havia um pequeno sorriso genuíno estampado.
-Fica tranquilo, boca de siri.
-O que?
-Significa que vou guardar segredo. – esclareceu Gabriel, passando levemente a mão direita sobre a região do peito enfaixada – Escuta, Kar. Vamos trabalhar juntos essa semana e assim a gente vai conseguir reunir o dinheiro do Jake rapidinho. Quando esse problema estiver resolvido, preciso que me ajude a encontrar a bruxa da floresta. Obviamente, ela não vai querer abrir o bico de graça, então estarei preparado.
-Certo, cara. E se eu puder ajudar com qualquer informação ou sei lá… é só me falar.
No decorrer da tarde, ambos os rapazes se empenharam em levar os barris vazios para o quintal e trazer os cheios, bem mais pesados, até a cozinha. Gabriel se ofereceu para consertar a porta vai e vem de madeira da entrada, pois um dos lados estava prestes a desabar. Com alguns pregos e um martelo, ele prolongou o tempo do objeto.
-Tem certeza? – indagou Heler – Homens são tão moles, não deveria estar se esforçando.
-De onde tirou isso? – disse Gabriel suado e rindo – Um machucadinho desses não é nada.
-Se não é nada, por que gritou feito uma galinha lá na mesa?
-Experimenta se queimar e depois jogar álcool por cima. Ainda acho que não foi o melhor procedimento, mas foi o jeito que o senhor Heitor encontrou para me tratar e sou grato por isso.
Diante daquelas palavras, Heler, embora sem perceber, deixou escapar um sorriso, mas ele não notou, ocupado demais em testar a porta e garantir que estava tudo certo.
Quando a noite chegou e, com ela, a lua crescente em um céu completamente estrelado, Kar levou Gabriel até a pequena casa onde morava, no final da rua principal em direção ao Norte. Tinha três cômodos, sendo uma sala com dois sofás verdes e esburacados, um quarto pequeno com duas camas de solteiro e a cozinha, onde estavam penduradas algumas panelas e colheres. Havia também uma pequena mesa de madeira com quatro troncos em volta servindo de bancos e, num deles, estava sentada uma garota de olhos vivos, cor avelã, lábios volumosos, um cabelo farto e amarrado por uma faixa amarela que Gabriel notou ser idêntica àquela no braço de Kar. Este, por sua vez, se adiantou para segurar nos ombros dela e beijar sua bochecha.
-Como você tá, Liz?
-Muito bem, maninho. – respondeu ela num sorriso carinhoso.
-Esse é Tral, o encontrei na floresta. Ele me ajudou a conseguir mais tempo com o Jake.
-É um prazer, Tral! Desculpe todo o trabalho que meu irmão te causou. – disse gentilmente, mas logo se mostrou preocupada ao perceber o peito enfaixado do rapaz – Não me diga que isso aconteceu por causa do mano?!
-Não foi nada. – respondeu meio sem jeito – E eu é quem preciso me desculpar pela minha aparência.
-Não esquenta, cara. – disse Kar – No fundo da casa tem um banheiro, pode usar. Já vou pegar umas roupas minhas. Embora você seja um pouco mais alto, acho que vai servir.
Para Gabriel, usando baldes e uma bacia para se lavar, não foi uma experiência nova, exceto pelo cuidado com o ferimento. Houve ocasiões em que precisou se banhar assim no orfanato, fosse por um problema no encanamento ou nas vezes em que resolveram acampar. Além disso, a visão esplendorosa de um céu todo estrelado o fascinava, ao mesmo tempo em que o preocupava. Era a primeira vez que ficava sozinho desde que chegou naquele mundo e ainda não tivera tempo de pensar com calma a respeito de tudo o que tinha acontecido.
Aquele homem pequeno que eu pensei estar nos meus sonhos existe e foi o responsável por me trazer pra cá. Lembro de ver meu copo na mão dele, lá no apartamento, o que explica o sono profundo. Fui dopado. É possível que ele já estivesse escondido, só esperando o momento em que eu desmaiaria. E que luz roxa era aquela? Senti tanto medo quando a vi e não consigo entender o porquê. Minha esperança de voltar para casa está nas mãos da bruxa da floresta. Será que o tempo aqui corre igual o da Terra? Se for assim, terei no mínimo uma semana de atraso e vários problemas quando voltar. Ah, e tem a questão do meu homônimo. Que coincidência infeliz compartilhar o mesmo nome com um tirano assassino.
Horas mais tarde, quando os irmãos já estavam no quarto e Gabriel dormia no sofá, usando apenas a calça emprestada, deixando a queimadura exposta e com o corpo enrolado em um lençol branco, o silêncio na casa era quase absoluto, interrompido apenas pelo vento invadindo pelas frestas e o som dos grilos.
Ele estava em um navio mercante, repleto de marinheiros, caixas e muita movimentação. Apesar de ser noite, boa parte do mar estava iluminada pela lua cheia. Boa parte, sim, pois quando olhou à sua esquerda, viu o que se assemelhava a uma gigantesca cortina negra. Não importava para onde olhasse, aquele véu simplesmente parecia não ter fim e lhe causava arrepios intensos, como os que tinha sentido ao ver a luz roxa.
-Precisamos chegar mais perto! – anunciou uma mulher de longos cabelos castanhos, sardas na maçã do rosto e um livro na mão. Ele sentiu que já tinha visto um rosto muito parecido e não tardou a se lembrar de Heler – Podemos usar um telescópio para observar o interior, sem necessariamente adentrar à Escuridão.
-Esqueça, senhora Hallas! Já estamos na Linha da Morte e qualquer um que se atreva a olhar o que tem lá dentro pode acabar louco. – alertou um homem velho, careca, com uma barba grisalha que lhe tocava o peito e muito mais alto do que ela.
-Sendo assim, eu vou correr o risco, capitão Artgas. Caso fique louca, sabem onde me deixar. – tentou num sorriso maroto.
-Acho que você já está louca, senhora Hallas! – debochou o capitão – Eu jamais permitiria que se arriscasse assim. Suas pesquisas são valiosas, mas se estivermos mortos, do que adiantará?
Invaldarah…
Uma voz monstruosa e terrível ecoou em sua cabeça. Era centenas de vezes pior do que a sensação de ver o brilho arroxeado, despertava um pavor tão intenso que se sentia a beira de colapsar. Então, acordou e…
E…
O que é isso? O que está acontecendo? Não consigo falar, estou congelado. Sai de cima de mim! Sai de cima de mim agora!
Sentiu o peso de alguém sobre as suas pernas e mãos que deslizavam ao redor do seu pescoço, o pressionando cada vez mais. Estava imobilizado por muito mais do que um contato físico, era como se, mesmo acordado, não conseguisse se controlar. Contudo, o pior de tudo não era a sensação de impotência e sim aqueles olhos púrpuras o encarando tão de perto, em cima de si, arregalados e banhados pela mais distorcida loucura.
Me deixa falar, corpo! Mexa-se, boca! Estou sendo sufocado… eu…
Aos poucos, ia perdendo os sentidos conforme seu pescoço era estrangulado e o vasto oceano de pavor que estava sentindo se converteu em ódio.
Monstro desgraçado… o que pensa que está fazendo? Eu já mandei…
-Já mandei você sair de cima de mim! – vociferou um Gabriel enfurecido, segurando o corpo sobre o seu e o lançando com violência contra a parede.
Ele viu quando o brilho púrpura se apagou dos olhos daquela coisa que sequer conseguia enxergar por causa da escuridão.
Kar se levantou às pressas, acendeu uma vela e foi até a sala, porém quase caiu para trás. Em Gabriel, de joelhos sobre o sofá, viu um par de olhos vermelhos como sangue e uma expressão de fúria assustadora. Contudo, o pior estava no chão ensanguentado. Ao se dar conta, o rapaz gritou em desespero:
-LIZ!
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