O Reflexo do Verão

31 O Último Inverno em Hamilton


O erro do passado foi corrigido, e o nome do pai de Sarah foi ajustado para Ricardo. O clima de luto se tornou ainda mais denso com a presença de Michael, que cruzou fronteiras para estar ao lado dela.

​O silêncio na capela era interrompido apenas pelos soluços abafados de Ariel e o choro contido de Conrad, que abraçava a esposa com força, tentando ser o pilar que a família precisava. Sarah, porém, estava estática. Ela parecia uma estátua de mármore, as mãos pálidas repousando sobre os caixões fechados. Seus pais, Mônica e Ricardo, haviam partido juntos em um trágico acidente, deixando um vazio que nenhuma passarela ou capa de revista poderia preencher.

​A porta da capela rangeu. O vento frio da noite invadiu o ambiente, e com ele, uma figura alta, vestindo um sobretudo preto e com os ombros carregados pelo tempo. Michael, agora com 40 anos, havia cruzado o continente assim que soube da notícia.

​O Encontro no Luto

​Michael parou a alguns metros de distância. Ele viu Sarah, a mulher que ele amou, traiu e perdeu, agora desmoronando em silêncio absoluto. Ele se aproximou lentamente, sem dizer uma palavra. Quando Sarah sentiu a presença dele, ela não se esquivou. Ela não tinha mais forças para erguer muros.

​— "Eles se foram, Mike..." — a voz de Sarah saiu como um sussurro quebrado. — "Eles foram embora juntos, do mesmo jeito que viveram. O meu pai... o Ricardo... ele sempre dizia que não saberia viver um dia sem a minha mãe."

​Michael não aguentou. Ele deu o passo final e a envolveu em um abraço. No momento em que os braços dele a tocaram, a armadura de Sarah finalmente cedeu. Ela enterrou o rosto no peito dele, agarrando o tecido do seu sobretudo, e chorou. Não era o choro de uma supermodelo; era o grito de uma filha órfã.

​— "Eu estou aqui, Sarah," — Michael murmurou, as lágrimas também escorrendo pelo seu rosto marcado pelo tempo. — "Eu sinto muito... eu sinto tanto. O Ricardo era como um pai para mim também. Ele me ensinou mais sobre ser homem do que qualquer treinador que já tive."

​Diálogos de Desespero

​Conrad e Ariel se aproximaram, e por um momento, o quarteto estava unido novamente, mas sob a sombra da tragédia mais insuportável de suas vidas.

​— "Eles amavam você, Michael," — Conrad disse, a voz embargada, apertando a mão do amigo sobre o ombro de Sarah. — "O meu pai me disse, pouco antes do acidente, que ainda guardava aquela primeira bola de basquete que você deu para ele autografada."

​Sarah se afastou um pouco do abraço, olhando para o rosto de Michael.

— "Por que o destino faz isso? Por que ele nos traz de volta um para o outro só quando o mundo desaba?"

​— "Talvez porque, no escuro total, a gente precise de quem conhece a nossa luz original," — Michael respondeu, limpando uma lágrima do rosto dela com o polegar. — "Eu não vim como o jogador de basquete, nem como o homem que te magoou. Eu vim como o garoto que o Ricardo acolheu nesta casa."

​O Adeus Final

​A noite seguiu em uma vigília dolorosa. Sarah olhou para Michael e, pela primeira vez em quinze anos, não viu a traição ou o erro de Paris. Ela viu o único homem que conhecia a essência de quem ela era antes da fama.

​— "Você vai ficar para o enterro?" — Sarah perguntou, a voz sem vida.

​— "Eu vou ficar o tempo que você precisar," — Michael prometeu, segurando a mão dela com uma firmeza que dizia que, desta vez, não haveria fuga para o Canadá. — "Eu não vou a lugar nenhum, Sarah. Nem que seja apenas para carregar o peso desse silêncio com você."

​Ali, entre o cheiro de lírios e a dor da perda de Mônica e Ricardo, Sarah percebeu que, embora tivessem trilhado caminhos opostos, Michael Styles sempre seria o seu porto seguro nas tempestades mais devastadoras. O preço do reencontro foi a maior dor de sua vida, mas no abismo do luto, eles encontraram uma paz que só a finitude da vida é capaz de impor.