O Reflexo do Verão
32 A saudade
A sala estava mergulhada em um silêncio denso, quebrado apenas pelo som abafado que vinha da tela da televisão. Sarah estava encolhida no sofá, a luz azulada do monitor refletindo nas lágrimas que teimavam em descer por seu rosto. No vídeo, uma tarde ensolarada de décadas atrás ganhava vida: os pais dela, Ricardo e Mônica, riam ao lado dos pais de Michael e Ariel, todos reunidos ao redor da piscina em Hamilton.
O quarteto era apenas um grupo de crianças cheias de energia. Sarah, a mais nova com seus 10 anos, corria freneticamente com uma aranha de borracha na mão, perseguindo uma Ariel que gritava de pavor, enquanto Conrad e Michael tentavam, entre gargalhadas, mediar a confusão. Era uma época em que a maior preocupação de Sarah era qual seria a próxima brincadeira, e o luto era uma palavra que não existia em seu vocabulário.
Michael desceu as escadas em silêncio, a garganta seca, buscando um copo d'água. Ele parou no meio do caminho ao ver o vulto de Sarah iluminado pelas memórias. Ele não acendeu a luz; apenas se aproximou e sentou-se no chão, encostado no sofá, ao lado dela.
— "A Ariel quase caiu na piscina naquele dia por causa dessa aranha," — Michael sussurrou, a voz carregada de uma nostalgia doce. — "Você sempre foi a maior encrenqueira daquela rua."
Sarah soltou um riso curto e embargado, secando o rosto com a manga do casaco. — "Eu só queria que ela parasse de ser tão certinha. Olhe para o meu pai, Mike... ele parecia tão invencível ali. Como tudo pôde mudar tanto?"
Michael suspirou, olhando para a imagem de Ricardo no vídeo. Ele estendeu a mão e a colocou sobre a de Sarah, que repousava no sofá. — "O tempo é um ladrão, Sarah. Mas ele não consegue levar o que está guardado nesses vídeos, nem o que está em nós. Eu estou aqui. Sei que não sou o seu pai, e sei que muita coisa quebrou no caminho, mas eu não vou deixar você sozinha no escuro."
Sarah olhou para o perfil de Michael, agora um homem de 40 anos, cujas marcas de expressão contavam histórias de invernos rigorosos e batalhas em quadra. Naquele momento, enquanto sentia o calor da mão dele e a segurança de sua presença firme, uma percepção avassaladora a atingiu: ela não conseguia mais imaginar a vida sem ele. Não era sobre paixão juvenil ou sobre os erros de Paris; era sobre a paz que só ele conseguia trazer para o seu caos.
Ela não disse nada. Não era hora para confissões ou promessas que o destino adora testar. Sarah apenas inclinou a cabeça, encostando-a no ombro de Michael, fechando os olhos enquanto o vídeo continuava a rodar. Ela apenas aproveitou a sensação de ter seu porto seguro de volta, permitindo-se, pela primeira vez em muito tempo, simplesmente descansar na certeza de que ele estava lá.
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