O Reflexo do Verão
33 Onde as Ondas Encontram o Destino
O céu sobre a praia de Hamilton estava pintado com tons de violeta e laranja, um cenário de despedida que parecia ter sido encomendado pela própria natureza. Um ano havia se passado desde a partida de Mônica e Ricardo, e o quarteto, agora mais maduro e marcado pelas cicatrizes do tempo, estava reunido no lugar que guardava as memórias mais doces de sua infância e juventude.
O silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo ritmo constante do mar. Conrad segurava a urna com as mãos trêmulas, enquanto Ariel apoiava o braço em seus ombros. Sarah e Michael estavam logo atrás, mantendo uma proximidade que, nos últimos meses, havia se tornado o novo normal para ambos.
— "Eles sempre disseram que este era o lugar deles no mundo," — disse Conrad, a voz embargada. — "Agora, eles fazem parte dele para sempre."
Com um movimento suave, Conrad e Sarah espalharam as cinzas na beira da água. O mar as recebeu com uma carícia, levando-as para o horizonte. Ariel entregou uma flor branca a cada um, que flutuaram sobre as ondas.
— "Descancem em paz," — sussurrou Ariel, limpando uma lágrima. — "Nós vamos cuidar uns dos outros aqui."
Após alguns minutos de reflexão, o frio da brisa começou a apertar. Conrad olhou para a irmã, vendo-a estática diante da imensidão azul.
— "Sarah, vamos entrar? O jantar está quase pronto," — convidou o irmão.
— "Vão indo, Con. Eu preciso de mais alguns minutos aqui," — ela respondeu, sem desviar os olhos do mar.
Ariel sinalizou para Conrad que eles deveriam dar espaço a ela. Michael, porém, não se moveu. Ele apenas acenou para o casal e sentou-se na areia fria, a poucos centímetros de Sarah.
O Diálogo na Areia
O silêncio entre os dois durou longos minutos, até que Michael, observando o reflexo da lua que começava a surgir, quebrou o gelo.
— "Sabe, Sarah... olhar para esse horizonte me faz pensar no quanto a gente é pequeno," — ele começou, a voz profunda e calma. — "Passamos anos alimentando mágoas, construindo muros e nos escondendo em países diferentes por causa de erros que, comparados à eternidade desse mar, não significam nada."
Sarah finalmente olhou para ele, os olhos ainda úmidos.
— "Onde você quer chegar, Mike?"
— "Eu quero dizer que o amor deveria ser o suficiente," — ele continuou, virando-se para encará-la. — "A gente perde tempo demais tentando ter razão, tentando punir um ao outro. Mas a vida... a vida é esse sopro que acabamos de ver sumir na água. As pessoas deveriam dar chances, deveriam se permitir, porque um dia, Sarah, pode ser tarde demais para dizer o que realmente importa."
A Entrega e o Recomeço
As palavras de Michael ecoaram no peito de Sarah, derrubando o último tijolo da barreira que ela levou quinze anos para construir. Ela não via mais o traidor de sua juventude, nem o estranho de Paris; ela via o homem que esteve ao seu lado no escuro da sala, o homem que cruzou o continente para chorar com ela sobre o caixão de seus pais.
Com um movimento lento e decidido, Sarah estendeu a mão, segurando o queixo de Michael. Ela o puxou para perto e o beijou. Não foi um beijo de urgência como em Paris, mas um beijo carregado de promessa, de aceitação e de uma saudade que havia se tornado parte de seu DNA.
Ao se afastarem, ela manteve o rosto próximo ao dele, as testas encostadas.
— "Eu senti tanta saudade de você, Michael," — ela confessou, a voz trêmula. — "Passei todos esses anos querendo você ao meu lado, mesmo quando eu dizia que te odiava. Eu via você em cada passarela, em cada cidade que visitei. O erro do passado... ele ficou lá atrás. Ele não tem mais poder sobre quem nós somos hoje."
Sarah respirou fundo, olhando nos olhos dele com uma honestidade que nunca permitira antes.
— "Eu não quero mais seguir sozinha. Eu quero que a gente siga junto daqui para frente... se você ainda me aceitar, com toda a minha dureza e as minhas cicatrizes. Você aceita isso?"
Michael sorriu, o primeiro sorriso de felicidade plena em décadas. Ele envolveu o rosto dela com as mãos, selando o acordo com um beijo na testa antes de responder.
— "Eu esperei metade da minha vida por essa pergunta, Sarah. Eu nunca deixei de ser seu. Onde você for, eu estarei lá."
Naquela noite, na praia de Hamilton, o quarteto deixou de ser sobreviventes de uma tragédia para serem construtores de um futuro. Enquanto caminhavam de volta para a luz da casa, de mãos dadas, Sarah sabia que, finalmente, o verão eterno que eles tanto buscavam havia chegado — não como um lugar, mas como a pessoa que segurava sua mão.
Fale com o autor