O Reflexo do Verão
28 A Cadeira Vazia
A ausência de Michael era um vazio palpável na casa de praia de Hamilton. Pela primeira vez em anos, o lugar de Michael à mesa estava ocupado por uma travessa de porcelana, e o silêncio que vinha daquela direção parecia gritar. Ele havia se mudado para o Canadá para jogar em uma nova liga, cortando os laços com o grupo e mergulhando em um isolamento que ninguém conseguia quebrar.
O jantar de Ação de Graças seguia com o barulho habitual de louças e risadas forçadas. Conrad tentava manter o ânimo, mas até ele olhava de relance para o lado, sentindo falta do companheiro de quadra. Ariel e os pais conversavam sobre os novos projetos da família, mas a energia estava fragmentada.
Sarah observava o vapor subindo do purê de batatas, mas seus olhos não focavam em nada. O tilintar de um garfo no prato de Marcus agiu como um gatilho, transportando-a para um passado que ela jurou esquecer.
Flashback: O Cuidado Antes da Tempestade
Vinte e quatro meses antes do escândalo no aeroporto, Sarah estava febril e desanimada. Era um Ação de Graças chuvoso. Enquanto todos os outros bebiam na varanda, Michael entrou no quarto dela com um balde de pipoca e uma pilha de DVDs de dramas clássicos.
— "Você deveria estar lá embaixo, Mike," — Sarah murmurou, enrolada em três cobertores.
— "Lá embaixo está barulhento e não tem filmes que fazem a gente chorar até soluçar," — ele respondeu com um sorriso gentil, ajeitando o travesseiro para ela. — "Eu vou ficar aqui. Vou garantir que você tome sua água e que não durma antes do final do filme."
Ele passou a noite inteira sentado no chão, encostado na cama dela. Cada vez que ela tossia, ele estava lá com um copo d'água. Ele não a tocou de forma romântica, não havia segundas intenções; era apenas um cuidado puro, uma proteção que a fazia se sentir a pessoa mais importante do mundo. Eles assistiram a três dramas seguidos, chorando e rindo baixo para não acordar os pais, selando uma cumplicidade que era a base de tudo o que Sarah amava nele.
O Retorno Abrupto
— Sarah? Querida, você está nos ouvindo? — A voz de Mônica cortou a névoa das lembranças como uma lâmina.
Sarah piscou, o rosto ligeiramente pálido. Ela percebeu que estava segurando o guardanapo com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Ela olhou para a mãe, tentando sintonizar a frequência do presente.
— Desculpe, mãe. Eu me perdi um pouco nos pensamentos sobre o cronograma de Milão — mentiu Sarah, recuperando a postura de modelo internacional que usava como escudo.
— Eu estava perguntando — continuou Mônica, observando a filha com uma preocupação intuitiva — sobre a nova capa da revista. É verdade que eles querem que você assine um contrato de exclusividade para a temporada de inverno?
— Sim, é verdade — respondeu Sarah, a voz agora firme, embora o coração ainda batesse no ritmo daquele filme dramático de anos atrás. — As negociações estão avançadas. Paris foi apenas o começo; agora o foco é o mercado global.
Ela forçou um sorriso e tomou um gole de vinho, sentindo o líquido gelado descer. O Canadá era longe demais, e Michael agora era apenas uma cadeira vazia e uma lembrança de um cuidado que não existia mais. O jantar continuou, mas para Sarah, o sabor da comida tinha se perdido em algum lugar entre o presente de luxo e o passado de acolhimento.
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