O Reflexo do Verão

29 A Estrela e o Exílio


Os meses seguintes àquele Ação de Graças foram marcados por um contraste brutal: enquanto a imagem de Sarah dominava os telões de Nova York, Michael se tornava um fantasma em Vancouver. A comunicação do grupo agora era um campo minado de silêncios e frases evitadas.


​Sarah estava no camarim de um evento em Manhattan, cercada por assistentes e o som constante de sprays de cabelo. Ela segurava o celular, observando a chamada em vídeo de Ariel e Conrad, que tentavam manter a tradição de se falarem aos domingos.

​— "Você viu o outdoor na Times Square, Sarah? É surreal!" — Conrad exclamou, a voz ecoando pelo viva-voz. — "Eu quase bati o carro quando vi sua cara ocupando um quarteirão inteiro."

​— "É apenas trabalho, Con," — Sarah respondeu, tentando manter a voz neutra enquanto um maquiador retocava seu batom. — "Mas e vocês? Como estão as coisas na liga?"

​Houve uma pausa desconfortável. Conrad e Ariel trocaram um olhar que Sarah captou através da câmera.

​— "Nós falamos com o Michael ontem," — Ariel soltou, com a cautela de quem pisa em gelo fino. — "Ele está jogando bem no Canadá, Sarah. Mas ele parece... diferente. Mais fechado. Ele quase não pergunta mais nada, só ouve."

​Sarah sentiu um aperto no peito, mas sua expressão permaneceu gélida. — "Ele fez a escolha dele, Ariel. O Canadá é um bom lugar para quem quer se esconder do mundo."

​A Ligação para Vancouver

​Mais tarde naquela noite, foi a vez de Conrad e Ariel ligarem para Michael. Ele atendeu com a câmera desligada, apenas a voz rouca preenchendo o ambiente.

​— "Mike? Cara, liga essa câmera," — pediu Conrad. — "Queremos ver se você ainda tem cara de jogador de basquete ou se já virou um urso aí no norte."

​— "Estou cansado, Con. O treino hoje foi pesado," — a voz de Michael veio baixa, desprovida da energia que costumava ter. — "Como estão as coisas por aí?"

​— "Nova York parou por causa da Sarah hoje," — Ariel disse, tentando testar o terreno. — "O lançamento da linha dela foi um sucesso absoluto. Ela está... em todos os lugares, Mike."

​Houve um longo silêncio do outro lado da linha. O barulho do vento gelado de Vancouver parecia vazar pelo microfone de Michael.

​— "Eu sei," — ele finalmente respondeu, um sussurro carregado de uma dor que ele não conseguia mais esconder. — "Eu vi as fotos. Ela merece tudo isso. Ela sempre foi maior do que aquele vale onde a gente cresceu."

​— "Você não vai ligar para ela? Nem uma mensagem de parabéns?" — Ariel insistiu.

​— "Para quê, Ariel? Para ela lembrar do erro que eu fui? Paris me mostrou que eu não tenho mais lugar na vida dela. Deixem ela brilhar. Eu vou focar no jogo."

​O Fim da Linha

​De volta ao hotel, Sarah releu uma mensagem antiga de Michael que nunca teve coragem de apagar. Ela pensou em digitar algo, talvez um "parabéns pelo jogo no Canadá", mas seus dedos travaram. A memória do cuidado dele no passado ainda lutava contra a frieza que ele demonstrou em Paris.

​— "Ele ainda é seu irmão de alma, Conrad," — Sarah disse ao telefone com o irmão, minutos antes de dormir. — "Mas para mim, ele agora é apenas um estranho que joga em outro país."

​— "Eu sei, Sarah," — Conrad suspirou. — "Só é triste ver o melhor de nós dois vivendo vidas tão separadas quando tudo o que queríamos era estarmos juntos."

​Sarah desligou o celular e olhou para a vista de Manhattan. Ela tinha o mundo, mas no silêncio do quarto, a ausência daquele cuidado simples de Michael era a única coisa que o dinheiro e a fama não podiam preencher. No Canadá, Michael fechava os olhos, vendo o rosto dela no outdoor, sabendo que o preço do seu exílio era assistir ao sucesso da mulher que amava sem nunca mais poder tocá-la.