​O sol de janeiro castigava o jardim dos Santiago, mas a brisa que vinha da piscina de borda infinita trazia o alívio necessário. Michael Styles estava submerso até o peito, observando seu melhor amigo, Conrad, e sua irmã, Ariel, trocarem carinhos discretos em uma das espreguiçadeiras.

​Os três estavam no auge do ano da formatura. O futuro parecia traçado: faculdade, festas e a vida adulta batendo à porta. Para Michael, aquele era o último verão de tranquilidade absoluta.

​— Vocês dois podiam arrumar um quarto, não acham? — Michael brincou, jogando água na direção do casal.

​Ariel riu, ajeitando os óculos escuros. Ela e Conrad namoravam há tempo suficiente para que as famílias Styles e Santiago fossem praticamente uma só.

— Deixa de ser chato, Mike. Você está assim só porque vai sentir saudade de ser o vela oficial da gente na faculdade.

​Conrad deu um soco de leve no ombro de Michael.

— Ele está é nervoso porque não sabe como vai sobreviver sem a minha organização na República.

​A risada geral foi interrompida pelo som do portão de vidro da varanda se abrindo. Uma figura atravessou o gramado em direção a eles.

​Ariel parou de rir imediatamente, sentando-se na espreguiçadeira para enxergar melhor. Ela cutucou o namorado e apontou para a menina que se aproximava.

​— Conrad... — Ariel sussurrou, chocada. — Quando foi que a sua irmã ficou tão linda?

​Michael, que estava prestes a mergulhar novamente, parou no meio do movimento. Ele olhou para a direção que a irmã apontava.

​Era Sarah. Mas não a Sarah que ele guardava na memória — a menina de aparelhos nos dentes e roupas largas que vivia pedindo para jogar videogame com eles. A garota que caminhava em direção à piscina usava um biquíni azul-celeste que parecia ter sido feito sob medida para ela. O cabelo castanho caía em ondas naturais pelos ombros, e ela carregava uma confiança que Michael nunca tinha visto ali.

​— Oi, gente — disse Sarah, parando à beira da água. O sol refletia em seus olhos, deixando-os mais claros. — Minha mãe mandou avisar que o almoço sai em vinte minutos. Ricardo e Marcus já abriram o vinho.

​Conrad, agindo como o irmão protetor de sempre, apenas acenou.

— Valeu, Sarah. Já estamos indo.

​Mas o olhar de Michael estava travado. Ele sentiu um nó estranho na garganta. Pela primeira vez em anos, ele não viu a "irmãzinha do Conrad". Ele viu uma mulher. Sarah percebeu o olhar fixo dele e sentiu as bochechas queimarem. Ela deu um sorriso tímido, quase imperceptível, direcionado apenas a Michael, antes de se virar para Ariel.

​— Adorei o biquíni, Sarah! — elogiou Ariel, ainda impressionada com a transformação da cunhada. — Você está maravilhosa!

​— Obrigada, Ari — Sarah respondeu com a voz suave, dando meia volta para retornar à casa.

​Michael acompanhou cada passo dela até que ela cruzasse a porta de vidro. O silêncio dele foi tão óbvio que Ariel não deixou passar. Ela olhou para o irmão e deu um sorriso de canto, percebendo que o "pirralho" dos Styles tinha acabado de notar que a "pirralha" dos Santiago não existia mais.

​— Cuidado, Mike — Ariel provocou em voz baixa, para que só ele ouvisse. — O sol hoje está forte demais para você ficar hipnotizado desse jeito.

​Michael mergulhou fundo na água gelada, tentando espantar o pensamento proibido que acabara de nascer. Mas, lá no fundo, ele sabia: aquele verão seria tudo, menos tranquilo.