O Recomeço.
2 Segredo
Notas iniciais
Shun estava tenso. Não sabia por onde começar a contar para seu irmão o que a Deusa havia lhe revelado. Precisava manter segredo, mas para seu irmão? Quase impossível.
– Vamos Shun... me diga o que ela te falou... – Ikki insistiu.
– Não! Me desculpe, irmão. Mas não posso... – disse Shun, angustiado. A voz sufocada o denunciava ainda mais. – Prometi a ela que guardaria segredo...
Ikki esquadrinhou o rosto do irmão e percebeu que o mesmo não mentia. Doía-lhe muito ver o fardo dado ao menor, e mais ainda o sofrimento de seu amigo.
– Shun... Sabe que pode contar comigo. Não vou dizer nem mesmo ao Seiya sobre o que quer que seja...
– NÃO! Ikki, por favor... não insista. Não posso.
Ikki rumou em direção à porta do quarto e saiu, batendo a mesma com força. Não acreditava que seu próprio irmão não confiava em si o bastante para revelar um segredo.
“- Se ele está evitando ao máximo contar... significa que pode ser algo pior do que aparenta.” – pensou ele.
No quarto de Seiya...
Shiryu fechava uma das bolsas de Seiya, que começava a mover os olhos, demonstrando estar prestes a despertar. Hyoga fez um sinal para que não falassem de Athena.
– O-o que houve...? Que dor é essa no meu rosto...? – Seiya perguntava mais à si mesmo que aos outros.
– Como se sente, Seiya? – perguntou Hyoga. – Está descansado para voltarmos à ativa?
Shiryu respirou aliviado ao ver que realmente Seiya parecia não conciliar o retorno ao Santuário com a partida de Saori.
– Estou bem... tirando a dor.. – tocou no rosto e notou um inchaço próximo ao olho esquerdo. – O que houve?
– Você caiu... Ficou muito tempo no Sol e quando entrou acabou desmaiando e caindo de cara no chão. – Shiryu respondeu, temendo que a mentira ficasse óbvia demais.
– Ah... entendi. Bem, quando partimos para o Santuário novamente? Tenho muitas coisas a perguntar ao Saga...
– Eu preciso ver o mestre Camus... há muito não o vejo... – sorriu Hyoga, retirando a blusa de frio para trocar.
– E eu... – disse Shiryu alongando os braços. -... Preciso ver o Shura. Mestre Ancião me pediu para entregar-lhe uma coisa.
Seiya bateu as mãos e deu um sorriso, apesar do inchaço e do arroxeado em um dos olhos.
– Então o que estamos esperando? Vamos, quero sentir a adrenalina das Doze Casas logo. Corrida até o banheiro?
Ele saiu correndo como um menino de cinco anos. Mal parecia ter o coração despedaçado. Shiryu olhou pela janela em direção ao céu, imaginando se algum dos Deuses teria retirado a dor de seu amigo.
Alguns minutos depois, os quatro se encontraram em frente ao carro que os levaria até o portal que ocultava o Santuário. Seiya sentiu um incômodo no peito quando avistou o local, e inconscientemente uma lágrima escapou-lhe dos olhos.
Shun reparou que o amigo até então animado, calara-se de repente. Respirou fundo e virou-se para ele.
– Seiya, o que houve?
Pégaso, perdido em pensamentos desconexos, só tinha olhos para o portal, lugar que muitas vezes viera com...
– Saori... – sussurrou ele.
Os outros quatro engoliram em seco quando ouviram o sussurro. Agora ele poderia saber a verdade a qualquer momento, ou seguir em frente.
Ikki acelerou o carro, parando em frente ao portal. Todos desceram e Seiya ficou paralisado. Um turbilhão de imagens e sentimentos desconexos se fazia em seu interior o deixando enjoado a ponto de se agachar e vomitar somente a bílis estomacal, tamanha era a vertigem que sentia.
Shun, Hyoga e Shiryu ficaram por perto, caso precisassem contê-lo, mas Ikki continuou a caminhar, passando pelo portal.
“- Não vou ficar vendo esse fraco chorando por quem o rejeitou. Ele precisa se reerguer sozinho, Shun. Aprenda a ser frio.” – disse Ikki ao irmão, usando o cosmo.
– Seiya, venha... Tenho certeza de que Saga adorará te ver depois de todo esse tempo...
Seiya deixava-se levar pelos amigos, enquanto lágrimas escorriam sem controle pelo seu rosto. Sentia agora que o peito lhe apertava cada segundo mais. Entendera o que Saori escolheu.
– Todo esse tempo... Todos esses anos sempre juntos. E ela simplesmente se vai... – lágrimas teimosas começam a rolar por seu rosto, sem que perceba. – Simplesmente me deixa aqui sozinho, será que ao menos passou pela mente dela o quanto... – Seiya fecha os olhos, sentindo a garganta arder pelo choro compulsivo que queria vir à tona -... O quanto a amo?
Ele se deixou cair ao chão, não suportando mais a dor em seu peito e chorou. Sentia como se o próprio coração deixasse de bater.
Shiryu, Shun e Hyoga se afastaram alguns passos, o deixando com seu sofrimento.
– Temo que ele logo apagará... – disse Shun em voz baixa.
– Não tenha tanta certeza, Shun. Seiya já nos surpreendeu tantas vezes que não se deve esperar nada. – rebateu Hyoga.
– A dor dele seria suportável para nós se estivéssemos em seu lugar? – Shiryu deixou a pergunta pairando no ar, e todos se calaram. Somente a respiração descompassada de Pégaso era audível.
Alguns minutos depois, Seiya se levantou, pegou sua mochila e a urna de sua armadura e silencioso rumou para o Santuário, tendo seus amigos logo atrás de si. Ao chegar no primeiro Templo, Áries, foi cumprimentado por Mu e com um aceno mudo, foi para Touro e em seguida Gêmeos, onde foi recebido por Saga, que fez questão de hospedá-lo.
– Saga, obrigado. Mas não quero dar o menor trab...
– Seiya, não será trabalho e muito menos incômodo. Logo que pisou aqui no Santuário, senti seu cosmo extremamente agitado e sua presença triste. Sei que precisa conversar, mas antes irá descansar e acalmar aqui... – tocou-lhe a testa, indicando a mente inquieta. –... E aqui. – tocou-lhe o peito, indicando o coração disparado.
Seiya olhou o geminiano nos olhos e lágrimas desceram novamente por seu rosto. Por fora mantinha-se normal, apenas sem sorrisos ou brincadeiras. Mas por dentro estava dilacerado, e Saga via isso. Todos no Santuário sabiam da verdade, menos os Cavaleiros de Bronze, com exceção de Shun.
No Templo de Virgem...
Shun era recebido por Shaka, e logo que entrou chamou o menor até o jardim das Árvores Salagêmeas, onde sentaram-se um de frente ao outro para conversar.
– Diga-me Shun... Ela também disse a vocês o motivo da partida, não?
Shun sabia que podia confiar no virginiano, então soltando o ar, respondeu.
– Não, somente eu sei.
– E suponho que queira confirmar se ela nos disse o mesmo, não é?
O menor afirmou com a cabeça, ficando levemente tenso. Porém sentiu-se calmo com o cosmo de Shaka que parecia envolvê-lo em um abraço fraterno. Respirando fundo, Shun responde firmemente.
– Zeus a chamou de volta para o Olimpo, para que ela ficasse um tempo com ele como a Deusa Athena e deixasse os humanos nas mãos dele por enquanto. Mas Shaka, ela parecia ter tanto medo! Há dias ela conversou comigo sobre isso e... Senti uma angústia tão grande vindo dela...
Shun fechou os olhos e por um instante pareceu relembrar àquele momento.
Flashback on:
“Saori estava inquieta. Chamara Shun para sair um pouco e conversar, pois sabia que qualquer outro revelaria à Seiya o que diria.
– Shun, sabe que confio meus segredos a vocês, mas hoje, quero que guarde um em especial. Ninguém poderá saber até o momento certo, e você saberá quando chegar. Zeus, meu pai, pediu para que eu retornasse ao Olimpo para ficar ao lado dele com a verdadeira face de Athena, então não sei onde ele deixará a mim, Saori. Pediu também para que eu deixasse a Terra nas mãos dele durante esse tempo, mas meu coração está inquieto, angustiado. Temo muito por vocês e...
– Saori... – disse Shun – Vá tranqüila. Se algo acontecer, nós saberemos como lhe encontrar e...
– Ah, Shun... – ela se rendeu às lágrimas. – Eu amo tanto o Seiya... Não vou conseguir dizer ‘adeus’ sem que ele perceba que vou talvez para sempre... Eu... Não quero perdê-lo...
Shun a ouvia atentamente, sentindo seu coração pequenino diante daquela dor.
– Quero que fique com isso... – ela retirou uma das pedras que adornavam sua roupa de Deusa Athena. – Entregue a ele no momento certo. Por favor, tomem cuidado e sigam diretamente rumo ao Santuário. Meu pai poderá fazer qualquer coisa e lá pelo menos estarão a salvo.
Shun ficou sem reação, olhando a pequena pedra na palma de sua mão enquanto ouvia os passos de Saori se afastando rapidamente.”
Flashback off.
Continua...
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