O Rebelde
14 Fuligens De um Coração
Notas iniciais
Entre devaneios passei os momentos seguintes – na verdade, acho que se passaram horas. Elas se passaram de forma lenta e nostálgica, de dor e de sofrimento... Foi como se o meu senso de realidade fosse arrancado de mim enquanto eu era chacoalhada e meu corpo batia no chão, que tinha certeza ser de madeira, pois o cheiro era inconfundível. Uma finíssima garoa me atingia em alguns momentos, e um vento frio que me penetrava os ossos me gelava – talvez fosse apenas uma consequência da estação em que nos encontrávamos, talvez fosse pelo fato de minha vida sem Conor ser nada mais que fria e sem expectativas... Talvez ambas as coisas.
Cenas do acontecido me passavam pela mente. Conor... Meu lindo Conor jazia imóvel na terra... Dois tiros... As lágrimas que me escorriam pelas faces pareciam letárgicas e dessa maneira ficavam tão sofridas quanto se não estivessem. Eu via meus sonhos e meu coração queimando e se esfarelando, as fuligens negras que antes se baseavam nas mais lindas esperanças e desejos voando pelo vento, deixando para trás apenas a casca vazia que agora era meu corpo e mente.
Minha última esperança era de que, ficado quieta e calada, como se não mais existisse, eu pudesse desaparecer. Quem sabe acordar em outra vida do lado de Conor...
Então, meu corpo foi jogado contra uma das quatro paredes de onde eu estava e o que estava entes me chacoalhando parou ao mesmo tempo em que gritos e tiros ecoavam, parecendo tão distantes quanto minha mente estava.
Nem fiz questão de me mover quando abriram com gritos e de maneira brusca uma porta pequena, de onde uma luz fraca e tosca, como a de um dia nublado, entrava e tornava minha visão ainda mais embaçada que antes. Aos gritos, puxaram-me pelos braços e senti de maneira bem menos dolorosa do que seria se estivesse em meu juízo meu rosto sendo arrastado pelo ´chão`de madeira. Fui jogada nos braços de outra pessoa e quase caí.
Me sentia ainda mais cega de os olhos abertos do que mantendo-os fechados. Apenas ouvia gritos roucos e nada nítidos, sons de balas e de corpos caindo no chão. Senti que quem me carregava corria para longe, mas que segundos depois começou a ser seguido, pois após ouvir o som de um tiro, ele caiu no chão sobre o meu corpo, e seu peso sobre mim me fez perder o ar da mesma maneira que acontesse quando se leva soco na barriga. Eu tentava mover meus braços para tirá-lo de cima de mim, mas era como se eles não soubessem o que fazer e os únicos movimentos com potencial para me ajudar não tivessem força o suficiente para se concretizarem.
Perdendo cada vez mais ar e sentindo um vento frio e uma garoa fina caindo sobre mim, não percebi quando alguém se aproximou e aliviou o peso daquele homem sobre meu corpo, e meu único instinto foi o de tomar o máximo de ar que pude.
–Katie!- ouvi uma voz preocupada e surpresa, e logo depois uma mão masculina tocando minha bochecha com cuidado e carinho. Reconheci a voz e quis abraçá-lo, porém não tive forças para isso.
–Danny...- murmurrei, entre lágrimas enquanto ele me erguia em seus braços, dedicando a mim o cuidado e delicadeza que se dedica a uma borboleta. Ele beijou minha testa e comecei a ouvir o som de passos se aproximando, vozes e exclamações ao me ver nos braços de meu querido Danny.
–Chamem o helicóptero, agora- disse ele, com a voz firme e grave, imediata e autoritária. Com certeza, ele se dirigia aos soldados. Foi então que sua voz ficou mais baixa, e senti o calor de sua fala perto de meus ouvidos, soando delicada, mansa e calmante.
–Vamos cuidar de você, irmãzinha. Descanse- e ele beijou meus cabelos.
Foi como se meu corpo houvesse esperado que alguém dissesse isso, pois assim que Danny o fez, o resto de energia que eu dispunha acabaou subitamente, e eu simplesmente desmaiei.
Apesar de estar muito grata por estar nos braços de Danny – que eu amo e confio — , não pude deixar de me entristecer, pois quem eu queria que me acalentasse não estava mais comigo.
A última coisa que senti antes de meu corpo entrar em estado de dormência foi o vento forte do helicóptero que se aproximava e, principalmente, a lágrima solitária que me escorreu pelo canto do olho – uma lágrima para Conor.
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