Notas iniciais
GENTEEE! Esqueci de falar e agradecer! A página de comentários virou! ♥--♥ Ai pessoal, que sonho! 19 comentários, que felicidade!!! Muito muito muito obrigada a todos que comentaram algum dia, e a quem ainda vai comentar! Um obrigadinha especial para a Gabi Jackson e para a Thais 2131 ◕‿◕

Apuro a audição e percebo um ´pi...pi` constante enchendo o silêncio quase insuportável no qual me encontro submersa. Apurando um pouco mais esse mesmo sentido, ouço o som de gotículas batendo na água, mas muito discretamente.

O ar pende para um levíssimo cheiro de rosas, e tem uma temperatura aconchegante. O que me sustenta é um colchão macio no qual estou praticamente sentada, pois pelo o menos três travesseiros sustentam minha cabeça e minhas costas.

Ao recobrar a noção de meu corpo, percebi que nas costas de minha mão e no antebraço esquerdo tenho a sensação incômoda e dolorida, que eu conhecia e detestava – agulhas sob a minha pele, despejando de maneira lenta e incansável soro e provavelmente mais alguns remédios em meu sangue. Torci a boca e gelei por um instante antes de abrir os olhos de maneira lenta.

A luz do sol entrava pela ampla porta de vidro que ia do chão ao teto e levava para a minha sacada. Era o meu quarto. Sobre a minha cabeça, descansava o dossel delicado, com as delicadas cortinas rosa transparentes amarradas em seus quatro pontos de apoio. Virei então meu rosto para o meu criado mudo, onde encontrei um copo com água e um mingau ao lado. Sem demoras, me estiquei para alcançá-lo, mas logo me arrependi quando a agulha se moveu de maneira dolorosa debaixo de minha pele. Arrependi-me ainda mais quando constatei que o mingau era tão aguado e insosso que nem valia o esforço. E ainda por cima estava frio!

De repente, a porta se abriu e Lily surgiu carregando uma bandeja tampada.

–Alteza!

–Lily!- respondi, enquanto ela vinha até mim e me dava um abraço. Ela começou a chorar e me soltou, olhando em meus olhos.

–Pensei que estivesse morta!- disse ela, enxugando as lágrimas.

–Eu também...-deixei escapar com tristeza. Lily me olhou com um olhar confuso, sem entender o que eu quis dizer. Mas logo ela sorriu e abriu a bandeja. Estiquei o pescoço, ansiosa e na esperança de me deparar com algo minimamente mais... Substancial, e senti meus ombros caindo quando me deparei apenas com inúmeros remédios; alguns em seringas, outros em xarope e outros ainda em drágeas.

Devo ter transparecido minha decepção, pois Lily soltou uma risada.

–Não teria algo mais...?- comecei, mas ela me interrompeu.

–Alteza, o médico recomendou que você se alimentasse apenas com coisas leves como caldos frios até seu organismo se recuperar.

Torci o nariz.

–Por que?

–Pois o seu organismo ainda está sensível pelas drogas que lhe deram.

–Que drogas?–disse, sem entender quando havia sido drogada.

Ela olhou um pouco em volta e chegou um pouco mais perto de mim.

–Alteza, durante os três meses e treze dias que você esteve desaparecida, você foi drogada...

–Não!- ri, com nervosismo.

Ela não disse nem fez nada, apenas me olhou e começou a preparar os meus remédios.

–Eu não fui drogada em nenhum momento! Talvez no último dia, umas horas antes de eles me encontrarem! E nem foi uma droga, tipo droga, estava mais para um sonífero...

Lily apenas virou os olhos castanhos para mim, o rosto ainda voltado para a bandeja. Ela mordeu o canto da boca e depois de entregar em minha mão 5 drágeas e um copo de água, foi até o pé da cama e tirou de lá a minha ficha.

–O exame que fizerem deu positivo. Você estava sendo drogada a pelo o menos duas semanas...- explicou ela, sem jeito, e logo depois me entregou a ficha. E, de fato era isso que nela constava. Bati o dedo encima da informação.

–Isso está errado!

–Alteza...

–Está errado!

Ela pareceu engolir suas palavras e se dirigiu para a porta. Antes de sair, disse apenas, com um sorriso que era ao mesmo tempo acolhedor e preocupado:

–Vou chamar seu pai. Ele está ansioso para vê-la.

E fechou a porta atrás de si.

Depois de alguns segundos fitando o mesmo local, voltei meus olhos para os papéis em minhas mãos, mas fui interrompida quando a porta se abriu bruscamente e o rei — que agora agia mais como um pai desesperado que como um rei controlado – entrou e veio até mim, me envolvendo em um abraço.

–Katherine... Katherine, minha menininha!- chorava ele, beijando meus cabelos.

–Papai...- funguei, enfiando o rosto em seu peito. Ele afastou meu rosto e olhou em meus olhos.

–Pensei que a houvesse perdido... Deveria saber que você jamais me abandonaria- disse ele, me puxando para um abraço mais uma vez. Foi nesse momento que senti uma pontada de culpa em meu já aflito coração – afinal, não era exatamente isso que eu estava fazendo quando me encontraram? Não havia decido e escolhido abandonar a tudo, incluindo meu pai?

Engoli o seco.

–Pai...-disse, e ele me soltou e se endireitou na cama, os olhos brilhando pelas lágrimas que acabara de deixar escapar.

–Sim?

–Há... Um erro nesta ficha médica.

Ele fez uma cara estranha e pegou com delicadeza a ficha de minhas mãos. Deu uma lida rápida e depois olhou para mim.

–Não estou entendendo, querida.

Coloquei o dedo na parte que afirmava eu ter sido drogada durante um longo período.

–Eu não fui drogada. Apenas tive um dardo de caça na minha perna um pouco antes de me encontrarem.

Meu pai achou um pouco de graça, mas riu de maneira triste.

–Estou falando sério, papai! Não fui drogada! Na verdade...Eu fui acolhida por um grupo rebelde, que cuidou de mim todos os dias, menos nesse último.

–Oh, querida... Creio que lhe drogaram mais do que imaginamos-disse ele, tocando minha bochecha. Soltei o ar de maneira indignada.

–Você não acredita em mim?!- perguntei a acusei ao mesmo tempo.

–Não filha, sinto muito. Mas é normal que durante o tempo em que você estava... Sob outro nível de consciência tenha tido sonhos ou até mesmo alucinações...

–Pai! Eu sei que foi real! Eu saberia se tivessem me drogado, pelo amor de Deus! As pessoas com quem estive eram muito boas e acolhedoras!

–Me fale um pouco sobre alguma dessas pessoas, então.

–Bom, tínhamos o Oliver, um garotinho bem pequeno de cabelos negros e pele escura... Ele queria que eu o ensinasse a ler...

–E o que houve com ele?

Senti um nó na garganta quando decidi omitir o motivo da briga.

–Saiu correndo quando... Briguei com ele.

Meu pai me olhava com dó e um olhar pensativo. Dava para ver que ele ainda não estava convencido. Eu estava cogitando sobre mencionar Conor, e quando ele ainda não havia acreditado depois de eu ter mencionado Darcy e Isaac, eu decidi que Conor era o mais real de todos.

–Também havia o Conor...

–Conor? Filha, você não acha que já chega?- perguntou ele, parecendo surpreso e pesaroso. Senti lágrimas em meus olhos.

–Ele me pediu em casamento! Até me deu um anel!

–E onde está esse anel?

Ergui a mão, feliz por ter uma prova sólida de que eu não era louca, porém me deparei com meu dedo anelar direito liso e sem o anel. Levei a mão à boca e comecei a entrar em pânico.

–Conor...-murmurei.

Minha única lembrança... Meu lindo Conor... Comecei a tatear a cama freneticamente, procurei debaixo dos lençóis e travesseiros. Procurei em todos os lugares ao meu alcance – e quase caí da cama em certos momentos.

–Ah não...- solucei, e comecei a chorar, cobrindo o rosto com as mãos.

–E o que houve com esse tal de... Conor? – perguntou ele, tocando meu joelho. Prendi o ar e olhei meu pai.

–Levou dois tiros tentando me proteger... Morreu!...

Meu pai pareceu chocado com a loucura de tudo o que eu havia lhe dito. Ele permaneceu calado enquanto eu chorava, e depois de algum tempo, o rei se levantou, beijou minha cabeça e disse que iria chamar o médico.

–_-_-_-_-_-_-_-_-_-_-_-_-_-_-_-_-

Os dias se passaram. Ninguém, absolutamente ninguém acreditava em mim. Todos estavam certos de meu acesso de loucura, e faziam questão de me confortar com palavras amorosas e sorrisos doces sempre que eu tentava dizer a verdade.

Agora eu estava cada vez mais convencida sobre as teorias de conspiração de Conor. Chegava a dormir de olhos abertos em algumas noites.

A vida no palácio não era mais a mesma; agora eu me sentia uma estranha por aqui. Nas mesas e nos jantares, eu mal comia, pois me sentia mal sabendo que eu tinha tudo aquilo e em lugares nem tão distantes as crianças nem sabiam o que era um sorvete ou um pedaço de bolo. Eu não conseguia mais usar saltos muito altos e meus olhos sempre lacrimejavam quando Lily me maquiava – igualzinho a pessoas que nunca usaram um pingo de maquiagem e em um belo dia têm que usar lápis de olho e delineador. Além disso, eu havia emagrecido oito quilos, e todos os meus vestidos precisavam ser ajustados.

Sempre que olhava em volta me sentia culpada por tudo o que tinha, assim como quando entrava na banheira de água quente de meu magnífico banheiro, para tomar banho na hora e durante o tempo que quisesse.

Ao olhar em volta e passear pelos amplos corredores, não sentia nada que não um vazio. Sentia-me linda novamente, mas eu agora era apenas linda. Eu não era mais o que havia sido; esperançosa, sonhadora, romântica, atrapalhada e linda. Foi como se com Conor tudo de bom em mim houvesse florescido como nunca, mas quando o sol que ele era em minha vida se apagou, meu jardim morreu. Minha vida morreu. Eu morri. Restara apenas uma casca, maquiada e ornamentada para tentar me remontar como antigamente.

Eu agora era mais fria e distante — era educada mas não alegre. Sorria, mas apenas pelos lábios, pois meus olhos pareciam sempre distantes e sem vida, sem brilho e tristes.

Agora já havia se passado um mês, e eu estava sentada diante da mesa de jantar quando meu pai pediu a atenção de todos, e houve um silêncio enquanto todos os olhos iam da comida para o rei Maxon.

–Meus caros colegas e estimados amigos, tenho um comunicado a fazer. Sei que estamos muito felizes pela volta de minha querida filha, e é em homenagem a ela que eu faço este anúncio.

Ele olhou para mim com um sorriso, que eu retribuí mais por educação que por qualquer outra coisa.

–Como todos sabemos, o desfile fatídico ocorreu em meio à Seleção, na qual Katherine deveria escolher um noivo. Eu não acredito que seja coerente refazermos todo o processo ao qual uma nova Seleção nos submeteria, então decidi junto com os parlamentares que o mais adequado seria fazer um baile, no qual filhos de diplomatas e príncipes estivessem presentes. Dentre todos esses, ela poderá escolher um noivo, com o qual se casará dentro de um prazo de duas semanas.

Enquanto todos aplaudiam, senti uma lágrima derradeira escorrendo pelo canto de meus olhos. Nada mais me passava pela cabeça senão o nome do meu lindo Oberon, de meu sol, de minha luz... Do homem que eu amava mais do que a mim mesma.

´´Conor...``

Mas eu sabia que não poderia dizer nada. Não adiantaria, e sabia que uma hora ou outra acabaria me casando, e saber disso era pior do que seria se eu não soubesse.

Meu pai estendeu a mão, convidando-me a ficar de pé ao seu lado, e eu aceitei.

–O que me diz, querida? Você aceita a proposta?

Com expressão neutra, voz distante e gelada e a coluna ereta, me expressei com apenas uma palavra, a qual tinha certeza que me assombraria pelo resto de minha vida.

–Sim.