Notas iniciais
Desculpem!!! Nem vou me demorar muito por aqui... Pois é gente, a Fic está chegando ao fim... Espero que estejam gostando, que comentem! Obrigada Gabi Jackson, Nat Campos e Ana Clarke Montini!

O céu estava escuro e chovia lentamente; uma chuva fria, que penetrava os ossos e congelava corações. As árvores do cemitério contrastavam suas copas cheias de folhas de um verde profundo com o tom de chumbo intenso que tinham as nuvens. Guarda-chuvas negros nos acolhiam enquanto dezenas e dezenas de pessoas se aglomeravam em lágrimas, gemidos doloridos... Todos à minha frente, em frente ao caixão de mármore, ornamentado em ouro e flores, que exalavam um leve perfume de lírios e rosas por essa tarde triste, em que homens e anjos choravam pela morte de alguém tão bom.

Meus sapatos negros encerados me mantinham firme no chão, mas eu me sentia sendo engolida por ele. Havia sermões, orações, discursos... Mas eu não prestava atenção a nada. Concentrava-me apenas nos pingos de chuva que caíam sobre o caixão, que encobria o corpo de Natan, meu único amigo – o único de nós que não merecia morrer.

Uma lágrima caiu pingou dos cílios em meu corpete negro. Uma faixa de cetim negra enlaçava minha cintura, como um dia ele o fez. Meu vestido me cobria, protegia, assim como Natan fez, um dia, quando me ouviu e me consolou, mesmo estando sofrendo.

Dei dois passos para perto da lápide, que exibia seu nome, data de nascimento e de morte... E uma foto. Beijei a ponta de meu dedo indicador e o pressionei contra a ela.

—Me desculpe...

E me virei, dando alguns passos para perto de Danny, que havia assumido minha guarda pessoal.

—Tire-me daqui, Danny. Por favor.

E sem dizer uma palavra, nos retiramos.

—_-_-_-_-_-

Chegando ao meu quarto, apenas me tranquei e continuei em silêncio enquanto a chuva chibatava quem estava sem um teto sobre si. Chibatadas... Conor. Preparei uma bacia de água quente, quatro toalhas e alguns remédios e unguentos com os quais o estava tratando. Geralmente, o visitava de manhã, mas não hoje. Hoje tive de comparecer a um enterro, e aqueles sentimentos de culpa, dor e tristeza ainda pairavam sobre mim, como uma tempestade pessoal, mas não poderia me deixar abater por isso, não hoje, nem agora... Era começo da noite, e eu me apressei.

Espantei-me ao constatar que a porta dos calabouços estava entreaberta. Meus braços amoleceram e derrubei tudo no chão, causando um barulho abafado pelo meu grito.

—CONOR!

Mais rápido do que imaginei ser possível, subi as escadarias, tropeçando, escorregando e caindo.

—CONOR!- gritei, mas ainda assim não obtive resposta. Os sapatinhos de boneca que usava me faziam escorregar, cortei as pernas e esfolei os joelhos. Cortei as palmas das mãos, os antebraços e cotovelos... Ele não me respondia, a cada passo, um chamado. A cada chamado sem resposta, mais uma parte de mim era consumida por um desespero tão profundo que me parecia um abismo.

Quando cheguei ao nível da sela, corri ainda mais, chamando seu nome com pulmões a fio. Minha voz ecoou pelo espaço, bateu nas paredes e se voltou contra mim.

Encontrei as grades de entrada escancaradas, e entrei lá com força, girando em torno de mim mesma, e quando pensei estar a beira de um enfarte, vi uma sombra sentada em um canto escuro.

—Ah, Conor!...- e por um brevíssimo momento, joguei meus braços nos ombros do homem que pensei ser Conor. Depois percebi que estes eram mais estreitos, ele era mais magro. Não tinha o cheiro de Conor, e sim de um perfume muito caro, importado.

Assustada, me afastei, e a luz da lua iluminou os cabelos grisalhos do Primeiro Ministro, enquanto ele soltava um riso zombeteiro, provocante, nojento.

—Onde está Conor?- cuspi as palavras com autoridade e acidez, o que o fez parar de rir.

—Por que não pergunta ao seu pai, Princesinha?

—Porque ele é uma marionete sua!- respondi, e seu semblante zombeteiro endureceu quando ele começou a se erguer.

—Touché, Majestade...- e ele veio se aproximando, mais e mais...

Ergui meu queixo e o fitei com altivez.

Onde ele está?

O ministro praticamente ignorou minha pergunta, começando a enrolar um de meus cachos em seus dedos finos e compridos.

Em um gesto rápido, peguei a faca que escondia na manga de meu vestido – aquela que esteve comigo desde que eu voltei – e fiz um longo corte de seus dedos até seu pulso. Ele recolheu a mão e grunhiu de dor, enquanto eu apontava-lhe a arma e perguntava mais uma vez, de maneira lenta e pausada.

Onde está meu Conor? E aviso-lhe, senhor Ministro, que esta será a última vez que perguntarei.

Ele olhou com arrogância para mim, como se ela pudesse esconder o medo que seus olhos exibiam.

—Deve estar muito, muito longe agora.

—_-_-_-_-_-

Escancarei a porta do escritório do Rei.

—O que fez com ele?- e fui me aproximando em passos firmes até a sua mesa. Como ele nem se dignou a tirar os olhos dos papéis!? Em um movimento brusco e rápido, passei o braço pela mesa dele, derrubando tudo violentamente no chão, e repeti a pergunta.

—O QUE FEZ COM ELE!? ONDE ELE ESTÁ?!

O Rei ergueu os olhos lentamente, e disse apenas:

—Longe- e juntou as mãos casualmente, como se nada daquilo realmente importasse.

—Tínhamos um trato- disse secamente, olhando dentro dos olhos dele, que eram como os meus. Via meu reflexo como que por um filtro de câmera, uma sépia.

—Sim, temos um trato. Eu cumpri minha parte.

—Cadê ele?

—Estou preparando seu casamento com Lorde Leonard, lembra-se dele? Ah, sim, e quanto aquele... Coner? Sim, ele está em um navio para muito longe...

—ESSE NÃO ERA O ACORDO! ONDE ESTÁ ELE, SEU VELHO MENTIROSO?!- interrompi berrando, e ele ficou de pé. Pude ver o ódio e dor nos olhos dele. Porém, sua voz saiu controlada – mas mesmo assim forte.

—Não me chame assim, minha filha. Eu cumpri minha parte. Não o matei, mas nunca disse nada sobre não o deportar. Agora, pelo que me lembre, você não iria me questionar, levantar a voz e principalmente se submeteria. Então agora apenas venha cá e dê um abraço em seu pai.

Meu rosto, meu interior, tudo se contorcia e queimava em raiva e indignação. Mas ele estava certo. Eu havia prometido isso. E eu iria cumprir.

Aproximei-me dele lentamente, e passei os braços ao seu redor. Ele me abraçou como se não houvesse dito nada que um pai não diria, como se quisesse meu bem, como se me amasse.

—Agora, minha garotinha, vá se arrumar. Temos um anúncio de noivado a fazer, hoje aqui em casa. Câmeras e repórteres estarão presentes para o anúncio oficial de seu noivado. Esteja pronta em duas horas.

E o Rei beijou o topo de minha cabeça gentilmente, como sempre fizera.

Respirei fundo e o larguei, andando controladamente para meu quarto. Quando abri a porta, lá estava Danny, sentado aos pés de minha cama.

—Eu juro que não sabia- e ele estendeu os braços e me amparou, enquanto me dissolvia em lágrimas. Não consegui me manter de pé, e fui desmanchando em seus braços. Ele sentou no chão e acomodou minha cabeça em seu peito largo, me ninando docemente.

—Ah, minha querida... Shh... Shhh...- e ele beijava meus cabelos enquanto eu encharcava seu uniforme com minhas lágrimas e o amassava com as minhas mãos, fechando os punhos em sua farda.

—A...Apenas prometa que... Que estará sempre comigo, não... Não me abandone você também... É a única família que me resta.

Ele soltou um riso triste.

—Jamais te abandonarei, minha irmã- mas sua voz saiu tão triste... Eu diria que soava culpada. Foi então que ele começou a chorar.

—Sinto muito... Sinto tanto...- e eu toquei seu rosto. Ele evitava olhar em meus olhos.

—Não... Não é culpa sua- solucei, mas ele pegou minhas mãos e as beijou. Ele balançava a cabeça, e mais lágrimas escorriam.

—Eu não sabia... Se soubesse jamais haveria escondido de você...- abri os olhos e o fitei em meio a escuridão de meu quarto.

—Me perdoe...- e Danny soltou uma de minhas mãos, colocou-a no bolso e a tirou de lá fechada. Depois olhou dentro de minha alma, virou a mão e estendeu a palma, revelando um aro delicado em tons de prateado. No centro, uma pedra delicada e rosada pulsava tão brilhante quanto a lua. Espirei.

—Conor...- e mordi o lábio inferior, enquanto levava as mãos ao coração e recomeçava a chorar baixinho.

—Querida irmã... Sinto muito. Tenho isso desde o dia em que nos reencontramos. Eu fui um covade. Tinha medo que me abandonasse, não acreditava sinceramente que esse era um amor real. Hoje sei do erro que cometi, e eu me arrependo tanto, a cada dia que passa... A cada sorriso que você deixa de dar... Fui um egoísta. E eu faria qualquer coisa para vê-la feliz novamente, mesmo que isso significasse que eu nunca mais a veria- e ele tomou minha mão direita na sua, e com delicadeza deslizou o anel pelo meu dedo. Fechei os olhos.

—Obrigada...

—_-_-_-_-_-

O vestido era estilo sereia de seda e cetim, rendado, cor de vinho. Tinha as mangas que deixavam a mostra meus ombros, com um decote um pouco mais profundo do que eu gostaria. Os olhos estavam maquiados em tons semelhantes ao do vestido, e a boca tinha ficado discreta. O vestido e a maquiagem valorizam a cor de minha pele e destacavam os cabelos, que estavam presos em um penteado elegante, e uma coroa de ouro com diamantes escuros adornava os cachos dourados.

—Alteza, está na hora...- chamou Lily, docemente. Danny então entrou no quarto. Havia trocado de uniforme, e me estendeu o braço com gentileza.

Saímos do quarto e andamos em direção ao salão de baile. Meus saltos dourados faziam um leve som ao tocarem o chão, e eu me sentia andando em uma corda bamba... Antigamente, teria medo de cair no chão, das escadarias... Mas hoje, isso me parece tão infantil e improvável... Havia feito isso muitas vezes e antes realmente me incomodava essa incerteza... Mal sabia eu que isso nem era motivo para tanto.

—Saúdem Sua Alteza Real, Katherine Calix Schreave, Princesa e Herdeira Legítima do trono de Iléia- anunciou a voz profunda, chamando a minha entrada. Soltei o braço de Danny e ergui o queixo, dando alguns passos à frente. Desci as escadarias com uma postura impecável, exibindo um rosto passivo, sem expressão.

Fria, arrogante, egoísta. Podiam pensar o que quisessem, mas eu não iria sorrir.

Lá embaixo, o Rei me recebeu e tomou com um sorriso minha mão, e eu fiz um leve movimento de cabeça por regras da etiqueta. Os lustres de cristal cintilavam acima, enquanto as janelas altas e amplas exibiam a noite escura, que se gabava por ter as joias mais preciosas e bonitas que se poderiam querer – as estrelas.

—Concede-me a honra de uma dança?- se aproximou o Lorde Leonard, fazendo uma reverência e estendendo-me a mão. Ele exibia um sorriso amigável e dentes brancos impecáveis, mas eu sabia que sua expressão era tão falsa quanto a minha resposta à sua pergunta, que foi um leve sorriso e um aceno de cabeça. Então ele tomou minha cintura e me trouxe um pouco mais para perto do que o adequado.

A música começou, e eu me deixei guiar por ele. Fazia muito tempo que não dançava, muito tempo que não havia motivos para isso... Enquanto ele me rodava com delicadeza, eu percebia todos os olhares em nós. Éramos nós a abrir o salão de dança; Nós éramos o motivo da festa... Nós éramos os noivos. A cada giro, eu tentava encontrar alguém que não nos encarasse... Das janelas, pensei ter visto a sombra de um menininho correndo, de lá para cá... O pensei ter visto acenar para mim.

E quando a música acabou, ele me soltou com delicadeza, e em meio aos aplausos, curvou-se e beijou as costas de minha mão.

—A senhorita é uma dançarina excelente...

—Obrigada, Lorde Leonard.

—E, acredito que será uma rainha maravilhosa.

Foi então que percebi que os aplausos paravam e diminuíam, enquanto as câmeras davam seus melhores zoons e procuravam seus melhores ângulos. Lorde Leonard ficou de joelhos, e tirou do bolso uma caixa vermelha de veludo, elegante e ornamentada.

Levei a mão ao peito, surpresa por ser tão rápido. Meu coração estava acelerado... Não parava de berrar o nome de Conor... Tive medo até que mais alguém ouvisse.

—Por favor, princesa Katherine... Poderia me dar a honra de me aceitar como seu esposo?

Ouve um suspiro geral, afinal, para todos, ele havia sido romântico. Se metade eles houvessem presenciado o pedido de casamento de Conor... E me lembrei de cada segundo que passei com ele... Uma lágrima escorreu pela minha bochecha.

Foi então que senti uma mão em meu ombro, e era meu pai. Ele trazia duas taças de champangne para nós. Com um sorriso, segurou o ombro de Leonard.

—Precisamos comemorar!- foi então que percebi que aplausos corrompiam meus ouvidos, que todos festejavam...

Em algum momento, eu havia dito ´sim`?