O Rebelde
25 Casamento
Notas iniciais
Estava paralisada em frente ao espelho. O recinto estava cheio de mulheres, criadas, todas arrumando a saia do meu vestido, alisando o longo véu e ajeitando meus cachos por debaixo dele.
O branco gelo do vestido rendado estava impecavelmente limpo. O decote em V era delicado e raso, e uma renda levíssima e discreta seguia dele até o pescoço, chegando também aos pulsos, e seus pequeninos diamantes pareciam fazer que minha pele cintilasse, como se fosse feita de gelo. O corpete se ajustava em meu corpo e o espartilho deixava minha cintura minúscula. Por cima do véu, uma coroa de diamantes foi encaixada em minha cabeça, e senti no mesmo segundo a gravidade me puxando para o chão, para realidade.
´´Você é uma princesa``
Essa frase. Era ela que me vinha à cabeça quando eu pensava em nós, alguns meses atrás... Era o que eu queria esquecer. Era esse o fato que eu queria mais do que tudo poder mudar. Era isso que me prendia aqui e principalmente, era o que me impedia de estar com Conor.
Uma lágrima silenciosa desceu pela minha bochecha.
—A senhorita está realmente maravilhosa...- disse Lily, tocando meu ombro. Achava que a lágrima era de emoção... E não estava completamente enganada, mas o motivo era o errado. Dei um sorriso gentil e distante, enquanto todas elas elogiavam o vestido que usava, os cabelos dourados, a maquiagem prateada... A boca desenhada a perfeição em vermelho.
A cada palavra, sentia a corrente de prata gelada debaixo de minhas vestes, e, pendurado nela como um pingente, o anel de noivado com o qual Conor me presenteara. Nunca mais o tiraria de perto de meu coração...
A porta do quarto foi aberta, e entraram o Rei e minha mãe. Ela, em passos rápidos e dançantes veio até mim, um sorriso de orelha o orelha.
—Ah, minha querida filha... Está magnífica!- ela passou os braços ao meu redor, e eu retribuí o abraço. Mas o fiz de maneira tão fria e distante que ela logo me soltou, segurando meu rosto em suas mãos. Seus olhos estavam brilhantes e ela beijou meu rosto.
—Filha... Está maravilhosa, digna de uma rainha, de um Lorde respeitável como Leonard- meu pai afirmou, chegando perto, com os olhos brilhando de orgulho. Ele sempre fora tão insensível e só hoje reparei? Dizia aquilo como uma lembrança do que eu deveria fazer? Por pura inocência, por acreditar que eu o perdoaria tão cedo?
—Obrigada- murmurei, mas não sorri.
Ele apenas fechou brevemente o olhar e eu virei meu rosto.
—-_-_-_-_-_-_-_
—Nobres de todos os cantos do mundo vieram presenciar o casamento de nossa belíssima Princesa Katherine com Lorde Leonard! Os preparativos estão a todo o vapor enquanto estamos em contagem regressiva até a hora do casamento!- Gavril sorria para a câmera enquanto pessoas iam de um lado para o outro atrás dele. Estava no castelo, acompanhando de perto tudo o que acontecia, parando pessoas e empregados para breves perguntas e entrevistas. O tempo passava e mais e mais nobres e diplomatas iam entrando, sentando-se nas cadeiras elegantes e cumprimentando-se entre si com cortesia e classe.
Uma orquestra com violinistas, violoncelistas e pianistas tocavam com elegância as músicas clássicas mais belas, todas escolhidas pela mãe da noiva. Petiscos delicados eram servidos em badejas, o belíssimo bolo de vinte e cinco andares adornava o local, juntamente com lindas flores perfumadas, e o sol de fim de tarde entrava pelas janelas dando a tudo um semi natural.
—E, afinal, nada mais do que ela mereça! Depois de todos os acontecimentos, finalmente, se casar e ser feliz com seu grande amor!- terminou Gavril.
Eu andava em passos lentos e majestosos em direção ao altar, passando por centenas e mais centenas de pessoas em pé, com sorrisos e olhares encantados, tudo isso sendo guiado e orquestrado pela música Canon.
Meu pai me dera o braço, e sorria. Sua alegria era visível, e contagiosa para todos... Exceto para mim. Enquanto isso, lágrimas grossas e lentas escorriam por debaixo do longo véu estilo drop.
Um vulto passou na minha visão periférica, porém quando virei meu rosto levemente, não vi nada.
Então meu pai soltou-se de mim com delicadeza, e eu subi sozinha os três degraus que demarcava o começo do altar.
Dei as mãos para meu noivo, que as segurou com um sorriso e cochichou que eu estava linda. O padre começou seu demorado sermão e palavras de casório.
—Você, Katherine Schreave aceita...
Por trás dos ombros de Lorde Leonard, o vi. Um garotinho de cabelos desengrenhados, ombros estreitos e grandes olhos expressivos...
Meu coração acelerou.
—Oliver...- murmurei, e então percebi que o padre havia parado de falar.
—Algum problema, Alteza?- perguntou ele com delicadeza.
—O que?- virei o rosto para e fitei o lugar em que Oliver estava, ou me parecia estar. Agora, não se via nada além da imagem do horizonte distante que exibia o sol que se punha.
Chacoalhei a cabeça rapidamente, me desculpei e pedi que continuasse, e ele assim o fez.
De momento em momento, eu tentava encontrar o menino novamente, mas depois de algum tempo, me convenci de que aquilo não passava de um truque de minha mente. E então chegou o momento da troca de alianças.
Leonard pegou minha mão esquerda, e olhando para ela, começou a deslizar o anel pelo meu dedo anelar. A cada milímetro, me sentia mais presa, perdida, arrependida... Perdia o ar.
Mas a sua mão paralisou quando gritos começavam a ecoar, todos começavam a se levantar e os mais espertos se jogavam no chão, enquanto tiros começavam a quebrar vidros e a rasgar o ar.
Meus olhos se arregalaram, e Lorde Leonard saiu correndo escoltado por sua guarda pessoal, me deixando sozinha no altar entre os tiros.
Abaixei-me e cobri minha cabeça com os braços, e nesse segundo senti a mão de Danny me puxando e me erguendo.
—Protejam a família real!- ordenou ele por sobre os tiros, passando os braços ao meu redor e me protegendo.
Eu sabia que eles estavam lá. E sabia também que nunca fariam isso. Então me soltei de Danny com determinação.
—CONOR!- chamei seu nome o mais alto que pude, aos prantos, em desespero. Foi então que Danny me puxou para o chão e caiu por sobre mim, protegendo-me de um tiro.
—O que está pensando!?- gritou ele segundos depois, me levantando e me erguendo enquanto eu permanecia paralisada pela quantidade de sangue e pelos poucos que jaziam no chão inertes – mortos. A maioria conseguira fugir ou se esconder.
Saímos do salão de entrada e ele me puxou em direção à pista de pouso, onde um helicóptero com hélices já em funcionamento nos esperava.
—Conor!- chamei mais uma vez, sendo arrastada para longe dos tiros.
—Esqueça Katherine, use o senso!- berrou Danny, e eu consegui nesse momento me soltar dele, dando alguns metros de distância entre nós.
—NÃO VOU PERDÊ-LO NOVAMENTE!- gritei, e Danny ficou sem reação.
—Kat... Katherine, os rebeldes não vão demorar para chegar aqui, temos que ir agora- disse ele, com calma e escolhendo bem as palavras.
Senti meus ombros caírem.
—Danny, meu irmão... Eu te amo e o entendo, mas não vou deixá-lo novamente. A única coisa que pode fazer é me ajudar a encontrá-lo, pois eu juro que ninguém vai conseguir me fazer embarcar nesse helicóptero sem ele.
Sem saber o que fazer e ainda atônito pelas minhas palavras, ele se aproximou e segurou minha mão, olhando em meus olhos e dizendo com veemência:
—Vamos encontrá-lo.
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