O RENASCER DA FLOR DE FERRO As Cinzas do Passado
18 O Reflexo Amargo
O tempo passou, mas o fantasma de Rebekah permanecia em cada canto da fazenda Nóbrega. Para tentar aliviar o peso sobre Maurício e preencher o vácuo deixado na organização da casa, Heitor tomou uma decisão prática, mas perigosa: contratou uma nova governanta para cuidar das alas que antes eram responsabilidade da irmã.
Seu nome era Elena. Curiosamente, ela também tinha cabelos ruivos, embora de um tom mais fechado, como folhas secas de outono. Aos 23 anos, era eficiente, direta e não se deixava intimidar pelo sobrenome Martinez.
A primeira vez que Maurício a viu na biblioteca, ele estancou na porta. Por um segundo, o coração dele parou, achando que a silhueta ruiva debruçada sobre os catálogos de botânica era ela. Quando Elena se virou, revelando olhos castanhos e um rosto estranho, a decepção de Maurício se transformou em uma fúria gelada.
O Primeiro Embate
Maurício entrou na sala como um furacão, jogando suas luvas de montaria sobre a mesa que Elena acabara de organizar.
— Quem te deu permissão para mexer nestes livros? — ele rosnou, a voz vibrando com a couraça de frieza que usava agora.
Elena não recuou. Ela ajeitou a postura e o encarou de frente. — O Sr. Heitor, senhor. Minha função é catalogar o que foi deixado para trás e garantir que o pó não destrua o que ainda tem valor.
— Nada aqui tem valor para você — Maurício rebateu, aproximando-se dela com um olhar predatório. — Saia desta sala. Agora.
— Com todo o respeito, Sr. Martinez, o senhor está sendo irracional — Elena respondeu, a voz firme. — Estes livros de botânica estão mofando. Se a sua saudade é tão grande que prefere ver tudo apodrecer a deixar alguém cuidar, o problema não é a minha presença, é o seu ego.
Maurício travou o maxilar. A audácia dela o lembrava demais de Rebekah, e isso o enojava. — Você é apenas uma serva. Não seja insolente.
— E o senhor é apenas um homem amargurado escondido em um castelo — ela disparou, voltando a organizar os papéis. — Eu não sou a mulher que partiu, senhor. Pare de me punir pelo erro dela.
Tensões na Cozinha
Dias depois, o clima na fazenda estava insuportável. Maurício criticava cada detalhe do trabalho de Elena, desde a forma como ela servia o chá até o modo como organizava as flores nos vasos — ele detestava ver flores colhidas agora.
No jantar, o confronto aconteceu diante de Jasmine e Heitor.
— Este guisado está intragável — mentiu Maurício, empurrando o prato. — Elena, você não consegue seguir uma receita simples?
Elena, que estava de pé perto do aparador, respirou fundo. — O guisado é a mesma receita que a sua mãe usava, Sr. Martinez. O problema não é o tempero, é o seu paladar que azedou nos últimos meses.
— Como ousa? — Heitor interveio, tentando manter a ordem, mas Maurício levantou a mão.
— Deixe-a, Heitor. Ela acha que os cabelos ruivos lhe dão o direito de ser atrevida — Maurício levantou-se e caminhou até Elena, parando tão perto que ela podia sentir o cheiro de fumo e uísque. — Você acha que pode ocupar o espaço dela, não acha? Acha que se organizar as gavetas e cuidar das flores, eu vou começar a olhar para você como olhava para ela.
Elena sustentou o olhar, embora estivesse tremendo de raiva. — Eu não quero o seu olhar, Sr. Martinez. Eu quero o meu salário e o respeito que qualquer trabalhador merece. O senhor olha para mim e vê um fantasma. Eu olho para o senhor e vejo um homem que desistiu de viver porque não teve coragem de impedir uma carruagem de partir.
O silêncio na mesa foi mortal. Jasmine arregalou os olhos. Ninguém nunca falara assim com Maurício.
— Saia da minha vista — Maurício sussurrou, a voz carregada de uma ameaça sombria.
Elena fez uma reverência curta e saiu da sala com a cabeça erguida.
O Ódio e a Proximidade
A relação entre os dois tornou-se um campo de batalha diário. Maurício a perseguia com ordens impossíveis, e Elena as cumpria com uma eficiência que o irritava. No entanto, havia momentos de silêncio compartilhado nos corredores escuros da fazenda que eram perigosos.
Maurício a odiava porque ela era um lembrete constante do que ele perdera. Elena o detestava porque ele a tratava como um objeto de punição. Mas, no fundo, a faísca de resistência dela começava a rachar a couraça dele, não por amor, mas por uma atração explosiva nascida do puro atrito.
Fale com o autor