O tempo passou, mas o fantasma de Rebekah permanecia em cada canto da fazenda Nóbrega. Para tentar aliviar o peso sobre Maurício e preencher o vácuo deixado na organização da casa, Heitor tomou uma decisão prática, mas perigosa: contratou uma nova governanta para cuidar das alas que antes eram responsabilidade da irmã.

​Seu nome era Elena. Curiosamente, ela também tinha cabelos ruivos, embora de um tom mais fechado, como folhas secas de outono. Aos 23 anos, era eficiente, direta e não se deixava intimidar pelo sobrenome Martinez.


​A primeira vez que Maurício a viu na biblioteca, ele estancou na porta. Por um segundo, o coração dele parou, achando que a silhueta ruiva debruçada sobre os catálogos de botânica era ela. Quando Elena se virou, revelando olhos castanhos e um rosto estranho, a decepção de Maurício se transformou em uma fúria gelada.

​O Primeiro Embate

​Maurício entrou na sala como um furacão, jogando suas luvas de montaria sobre a mesa que Elena acabara de organizar.

​— Quem te deu permissão para mexer nestes livros? — ele rosnou, a voz vibrando com a couraça de frieza que usava agora.

​Elena não recuou. Ela ajeitou a postura e o encarou de frente. — O Sr. Heitor, senhor. Minha função é catalogar o que foi deixado para trás e garantir que o pó não destrua o que ainda tem valor.

​— Nada aqui tem valor para você — Maurício rebateu, aproximando-se dela com um olhar predatório. — Saia desta sala. Agora.

​— Com todo o respeito, Sr. Martinez, o senhor está sendo irracional — Elena respondeu, a voz firme. — Estes livros de botânica estão mofando. Se a sua saudade é tão grande que prefere ver tudo apodrecer a deixar alguém cuidar, o problema não é a minha presença, é o seu ego.

​Maurício travou o maxilar. A audácia dela o lembrava demais de Rebekah, e isso o enojava. — Você é apenas uma serva. Não seja insolente.

​— E o senhor é apenas um homem amargurado escondido em um castelo — ela disparou, voltando a organizar os papéis. — Eu não sou a mulher que partiu, senhor. Pare de me punir pelo erro dela.

​Tensões na Cozinha

​Dias depois, o clima na fazenda estava insuportável. Maurício criticava cada detalhe do trabalho de Elena, desde a forma como ela servia o chá até o modo como organizava as flores nos vasos — ele detestava ver flores colhidas agora.

​No jantar, o confronto aconteceu diante de Jasmine e Heitor.

​— Este guisado está intragável — mentiu Maurício, empurrando o prato. — Elena, você não consegue seguir uma receita simples?

​Elena, que estava de pé perto do aparador, respirou fundo. — O guisado é a mesma receita que a sua mãe usava, Sr. Martinez. O problema não é o tempero, é o seu paladar que azedou nos últimos meses.

​— Como ousa? — Heitor interveio, tentando manter a ordem, mas Maurício levantou a mão.

​— Deixe-a, Heitor. Ela acha que os cabelos ruivos lhe dão o direito de ser atrevida — Maurício levantou-se e caminhou até Elena, parando tão perto que ela podia sentir o cheiro de fumo e uísque. — Você acha que pode ocupar o espaço dela, não acha? Acha que se organizar as gavetas e cuidar das flores, eu vou começar a olhar para você como olhava para ela.

​Elena sustentou o olhar, embora estivesse tremendo de raiva. — Eu não quero o seu olhar, Sr. Martinez. Eu quero o meu salário e o respeito que qualquer trabalhador merece. O senhor olha para mim e vê um fantasma. Eu olho para o senhor e vejo um homem que desistiu de viver porque não teve coragem de impedir uma carruagem de partir.

​O silêncio na mesa foi mortal. Jasmine arregalou os olhos. Ninguém nunca falara assim com Maurício.

​— Saia da minha vista — Maurício sussurrou, a voz carregada de uma ameaça sombria.

​Elena fez uma reverência curta e saiu da sala com a cabeça erguida.

​O Ódio e a Proximidade

​A relação entre os dois tornou-se um campo de batalha diário. Maurício a perseguia com ordens impossíveis, e Elena as cumpria com uma eficiência que o irritava. No entanto, havia momentos de silêncio compartilhado nos corredores escuros da fazenda que eram perigosos.

​Maurício a odiava porque ela era um lembrete constante do que ele perdera. Elena o detestava porque ele a tratava como um objeto de punição. Mas, no fundo, a faísca de resistência dela começava a rachar a couraça dele, não por amor, mas por uma atração explosiva nascida do puro atrito.