O RENASCER DA FLOR DE FERRO As Cinzas do Passado
19 A Ruptura e o Orgulho Ferido
A tensão entre Maurício e Elena atingiu o ponto de ruptura numa manhã nublada. O cheiro de fermento e farinha flutuava na cozinha, e o único som era o cantarolar suave de Elena, que tentava ignorar a sombra que pairava à porta.
Elena sovava a massa do pão com vigor, as mangas dobradas e o rosto sujo de farinha. Maurício entrou, os passos pesados ressoando no chão de pedra. Ele parou ao lado dela, observando-a com um desdém quase palpável.
— Esse cantarolar é para compensar a falta de habilidade nas mãos, Elena? — disparou ele, a voz carregada de veneno. — O pão da última semana estava duro como as pedras do castelo.
Elena continuou o serviço. O silêncio dela era a sua maior arma, o que irritava Maurício mais do que qualquer resposta atrevida.
— Ficou muda agora? — ele continuou, aproximando-se mais, invadindo o espaço dela. — Ou será que finalmente percebeu que, por mais que tente imitar os gestos de quem já viveu aqui, você não passa de uma cópia barata e malfeita?
Elena respirou fundo, fechando os olhos por um segundo, mas não parou de sovar a massa. A indiferença dela foi o estopim. Maurício, num movimento brusco, agarrou os pulsos dela, prendendo-os contra a mesa enfarinhada.
— Olhe para mim quando eu falo com você! — rosnou ele. — Você acha que esse cabelo ruivo te dá algum poder? Você é insignificante. Uma substituta descartável que eu mantenho aqui apenas para ter em quem descontar o meu tédio. Você não é nada, Elena.
O som do tapa ecoou por toda a cozinha. Foi rápido, preciso e carregado de anos de humilhação acumulada. O rosto de Maurício virou para o lado, a marca dos dedos dela começando a arder na pele pálida.
Elena soltou-se, os olhos em chamas, não de lágrimas, mas de fúria.
— Guarde a sua amargura para as paredes do seu castelo, Sr. Martinez. Eu me demito. Não passo mais um segundo sob o mesmo teto que um homem que morreu por dentro e tenta enterrar todos ao seu redor.
Ela saiu da cozinha sem olhar para trás.
O Confronto no Quarto
Minutos depois, Elena jogava suas poucas roupas dentro da mala de couro com movimentos frenéticos. A porta do quarto foi escancarada, batendo contra a parede. Maurício estava lá, a mão ainda tocando o rosto marcado.
— Você não vai a lugar nenhum! — ele gritou. — Eu proíbo a sua demissão. Você tem um contrato com esta fazenda.
— O seu contrato não compra a minha dignidade! — Elena rebateu, fechando a mala com força. — Saia do meu caminho, Maurício.
— Você acha que pode simplesmente me bater e sair andando? — Ele deu um passo à frente, bloqueando a porta. — Você vai ficar e vai aprender o seu lugar.
— O meu lugar não é sendo o saco de pancadas da sua saudade! — Ela gritou, chegando perto dele, o rosto a centímetros do dele. — Você não manda em mim. Você não é meu dono, não é meu marido e, graças a Deus, não é nada além de um patrão medíocre. Eu prefiro passar fome na estrada do que ver a sua cara todos os dias.
— Elena... — Ele tentou segurá-la novamente, mas ela desviou.
— Acabou. Fique com os seus fantasmas. Eles são a única companhia que você merece.
O Café da Manhã do Dia Seguinte
A mesa estava posta, mas o ambiente era de uma estranheza absoluta. O cozinheiro chefe, um homem velho e silencioso, serviu o café em vez de Elena. Heitor estranhou imediatamente.
— Onde está a Elena, Jorge? — perguntou Heitor, olhando para a cadeira vazia onde a governanta costumava organizar as bandejas. — Ela nunca se atrasa.
O cozinheiro hesitou, olhando de relance para Maurício, que encarava a xícara de café como se fosse veneno.
— Ela partiu ao amanhecer, Sr. Heitor. Pediu demissão ontem à noite. Disse que não queria nem o salário do mês, que a liberdade dela valia mais do que o ouro dos Martinez.
Heitor largou os talheres e olhou diretamente para o irmão. — Maurício? O que você fez desta vez?
Maurício deu um sorriso de canto, embora houvesse uma tensão estranha nos seus olhos.
— Ela é insolente, Heitor. Deu-me um tapa na cara na frente dos fogões porque eu critiquei o serviço. Uma serva que não conhece o seu lugar.
— Um tapa? — Jasmine interveio, incrédula. — Para a Elena chegar a esse ponto, você deve ter dito algo terrível, Maurício. Ela era a melhor pessoa que já passou por esta casa desde que a Rebekah...
— Não mencione esse nome! — Maurício interrompeu, batendo com a mão na mesa. — Elena foi embora porque é fraca. Não aguentou a pressão.
— Não — corrigiu Heitor, a voz pesada. — Ela foi embora porque você está tentando transformar esta fazenda num mausoléu. Você expulsou a única pessoa que ainda trazia um pouco de vida para estes corredores. E agora, Maurício? Vai continuar a lutar contra sombras até que não reste ninguém?
Maurício não respondeu. Ele levantou-se e caminhou até a janela, olhando para a estrada. Pela segunda vez em poucos anos, ele via uma silhueta ruiva desaparecer no horizonte. Mas, desta vez, não havia tristeza, apenas um vazio corrosivo que lhe dizia que, talvez, Elena tivesse razão: ele era o seu próprio carcereiro.
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