O silêncio no quarto de Rebekah era pesado, quebrado apenas pelo som distante dos trabalhadores no campo. Jasmine entrou devagar, segurando um envelope de papel grosso, selado com o brasão oficial da Academia de Ciências Botânicas.


​Jasmine sentou-se na beirada da cama, observando a irmã, que encarava o jardim pela janela. Sem dizer nada, estendeu a carta. Rebekah rompeu o lacre com as mãos trêmulas. Seus olhos correram pelas linhas elegantes até pararem na palavra: "Aceita".

​— É para o internato na Capital, não é? — Jasmine perguntou, a voz suave, mas carregada de uma tristeza antecipada.

​— Sim. Começa no próximo mês — Rebekah respondeu, apertando o papel contra o peito.

​Jasmine suspirou, aproximando-se para segurar as mãos da irmã.

— Você sabe o que isso significa, Rebekah? Serão cinco anos. Cinco anos longe destas terras, longe de nossos pais... e longe dele. A formação em botânica é rigorosa. Você não poderá voltar para as colheitas ou para os festivais de inverno.

​Rebekah olhou para a irmã, e pela primeira vez, não havia deboche ou medo em seu olhar, apenas uma determinação lúcida.

​— Eu preciso ir, Jasmine. Se eu ficar aqui agora, eu nunca vou saber se o que sinto pelo Maurício é amor ou apenas o reflexo do mundo pequeno onde eu cresci. Eu sou uma menina que se apaixonou pelo único homem que a desafiou. Se eu for para a Capital, se eu conhecer o mundo, e se depois de cinco anos eu ainda quiser voltar para os braços de um Martinez... então eu saberei que é real.

​Jasmine sorriu, orgulhosa. — Você é mais sábia do que eu era na sua idade. Eu fui jogada no fogo; você está escolhendo o seu próprio caminho para se forjar.

​O Último Encontro no Pomar

​Rebekah encontrou Maurício no mesmo pomar onde tudo começou a mudar. Ele estava encostado na mesma macieira, mas sua expressão era sombria. Ele já sabia. As notícias voavam na fazenda Nóbrega.

​— Então, a passarinha finalmente resolveu usar as asas — ele disse, sem olhar para ela, a voz mais rouca do que o habitual.

​— Eu fui aceita, Maurício. Vou partir em duas semanas.

​Maurício finalmente se virou. O olhar dele era uma mistura de dor e admiração.

— Cinco anos, Rebekah. Quando você voltar, terá vinte e dois anos. Será uma mulher formada, uma botânica... e eu serei um homem de quase quarenta anos. Você vai conhecer jovens intelectuais, artistas, homens que não têm sangue nas mãos como a minha família.

​Rebekah caminhou até ele e, pela primeira vez, foi ela quem o segurou pelos punhos, invertendo o papel do encontro anterior.

​— Se você for mesmo a "peça de museu" que eu digo que é, então você estará aqui, intacto, esperando para ser redescoberto. — Ela sorriu com uma melancolia doce. — Eu não estou indo para fugir de você, Maurício. Estou indo para encontrar a mulher que merece estar ao seu lado sem medo.

​Maurício soltou um suspiro longo e a puxou para um abraço apertado, escondendo o rosto no pescoço dela, sentindo pela última vez o cheiro de maçãs verdes antes que ele se tornasse apenas uma memória de cinco anos.

​— Vá — ele sussurrou contra a pele dela. — Vá e aprenda tudo sobre as flores e as terras. Só não esqueça que, nesta fazenda, existe uma raiz que você plantou e que ninguém, nem o tempo, conseguirá arrancar. Eu vou estar aqui. Mesmo que eu vire pó, eu estarei aqui.

​Rebekah não chorou. Ela apenas o beijou com a promessa de quem sabe que o adeus é, na verdade, um "até breve" necessário. A flor de ferro estava indo para o jardim do mundo, e Maurício Martinez, o homem que ela um dia chamou de mestre, agora seria o seu horizonte.