A partida de Rebekah deixou um vácuo de silêncio na fazenda que nem mesmo a agitação do pequeno Átila conseguia preencher. O momento em que a carruagem subiu a estrada de terra, levantando poeira sob o sol da manhã, marcou o início de uma espera que duraria meia década.


​A Despedida na Estrada

​Maurício não se aproximou da carruagem. Ele ficou parado no topo da colina, montado em seu cavalo, observando de longe. Jasmine, porém, segurava a mão da irmã através da janela do veículo.

​— Escreva sobre as flores, Rebekah — disse Jasmine, com os olhos marejados. — Mas escreva sobre você também. Não se perca nos livros a ponto de esquecer o caminho de volta.

​Rebekah olhou para o alto da colina, vendo a silhueta solitária de Maurício. — Eu nunca esqueceria, Jasmine. O problema é saber se, quando eu voltar, o caminho ainda será o mesmo.

​A carruagem partiu. Rebekah viu a fazenda diminuir até virar um ponto verde no horizonte, sentindo o peso do medalhão do anjo escondido sob o corpete.

​Dois Anos Depois: Noites de Inverno

​A rotina na fazenda Nóbrega continuava, mas Maurício parecia ter se tornado ainda mais reservado. Ele era o pilar da administração, garantindo que as terras de José fossem as mais prósperas da região.

​Certa noite, enquanto tomavam vinho perto da lareira, Heitor observou o irmão analisar um mapa de irrigação com uma seriedade quase doentia.

​— Você trabalha como se estivesse tentando construir um império para alguém que não está aqui, Maurício — comentou Heitor.

​Maurício nem levantou os olhos do mapa. — Estou apenas garantindo que, quando a botânica da família voltar, ela encontre solo fértil para suas experiências. Não quero que ela tenha motivos para reclamar da "mobília antiga".

​— Já faz dois anos — interveio Jasmine, costurando uma manta para Átila. — As cartas dela dizem que a Capital é fascinante. Ela mencionou que um jovem professor de taxonomia a convidou para uma expedição nas montanhas.

​O som do papel sendo amassado na mão de Maurício foi o único sinal de sua irritação.

— Espero que o tal professor saiba que Rebekah não precisa de ajuda para subir montanhas. Ela sempre foi melhor em escalar do que qualquer um de nós.

​— O ciúme é uma peça de museu muito feia, irmão — provocou Heitor, rindo.

​— Não é ciúme — retrucou Maurício, levantando-se. — É apenas zelo pelo investimento educacional da família. Vou checar os estábulos.

​Quatro Anos Depois: O Amadurecimento

​Na Capital, Rebekah já não era mais a menina que usava camisas largas do pai. No laboratório da Academia, cercada de microscópios e pergaminhos, ela conversava com sua mentora.

​— Você tem um talento raro, Rebekah — disse a Professora Elena. — Há uma oferta para você estagiar nos Jardins Reais de Versalhes após a formatura. Por que insiste em voltar para uma fazenda no interior?

​Rebekah olhou para um desenho de uma maçã verde em seu caderno. — Porque na Capital as plantas crescem em vasos, professora. Na minha casa, as raízes são tão profundas que atravessam o peito da gente. Existe um "anjo" que me protege lá, e eu prometi que voltaria para ver se ele ainda tem asas.

​O Quinto Ano: A Véspera do Retorno

​Maurício estava no pomar. A macieira onde tudo começou estava carregada. Ele agora tinha 39 anos. Havia alguns fios grisalhos em suas têmporas que lhe conferiam um ar ainda mais imponente e perigoso.

​José aproximou-se dele, apoiando a mão em seu ombro. — Ela chega na próxima semana, Maurício. Você está pronto?

​— Pronto para quê, José? — Maurício perguntou, fingindo indiferença.

​— Para descobrir se a menina que partiu é a mesma mulher que está voltando. Ou se você terá que conquistar uma desconhecida.

​Maurício olhou para a estrada. — Eu passei cinco anos cuidando desta terra para ela. Se eu tiver que conquistá-la de novo, farei isso campo por campo, árvore por árvore. Eu não esperei meia década para ser apenas um "tio" que recebe visitas.

​O vento soprou, trazendo o cheiro de chuva e terra. O tempo de espera estava acabando. A fera estava voltando para casa, e o museu nunca esteve tão ansioso para abrir suas portas.