O Que Somos
64 Capítulo 61
Capítulo 61
Renée olhou atentamente para a filha sentada a sua frente no balcão da cozinha, tentava desesperadamente encontrar alguma semelhança nela com os Cullen e ficou assustada com as muitas que apareceram, não entendia como pode não enxergar esses pequenos detalhes antes. Como tudo parecia tão real depois de dezesseis anos?
Uma vez tinha lido em algum lugar uma frase que se enquadrava muito bem agora: “Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão”. E, realmente era assim, Bella havia sido entregue a sua família quando mais precisava e voltou para os Cullen depois de crescida e forte, talvez esse tenha sido o seu destino: salvar aquela menininha perdida, mas nem que o inferno congelasse iria devolvê-la para eles. Faria o que fosse necessário para não perder sua filha, só sairia da sua vida caso ela mesma pedisse.
–Não gosto da forma em que você me olha, mãe.
Na verdade, Bella não suportava mais o silencio dentro daquele apartamento, seu pai, irmão e marido estavam trancados na biblioteca há mais de uma hora, sua mãe parecia que estava em outro planeta, bem distante dali a encarando como se houvesse nascido duas cabeças em seu pescoço.
–Desculpe, bebê. Estou um pouco cansada.
–Carlisle está relacionado com o motivo de o papai estar estranho?
–Sim. – se inclinou na bancada – Todos estamos. Você conhece seu pai e sabe que ele se preocupa com tudo e todos, ele e o Dr. Cullen entraram em uma discussão acalorada, nunca o tinha visto assim.
–Queria saber o que está acontecendo. – coçou a cabeça – Essa sensação de ser mantida no escuro não me agrada em nada.
Renée suspirou e foi até a filha segurando firme em suas mãos.
–Filha. Às vezes ser mantido no escuro é a melhor coisa, existem situações em que não sabemos como ou o que dizer. – a mulher mais velha estava quase chorando – Não queremos que você se preocupe em antecipação, por favor, entenda.
Bella olhou para a mãe com o cenho franzido, não entendia nada e sua cabeça doía quando imaginava as inúmeras opções do que poderia estar acontecendo. Seus instintos mandavam que invadisse aquela maldita biblioteca e exigisse respostas, que fizesse uma birra, caso necessário. Só não podia continuar a ser tratada como uma incapaz, no entanto, sua mente pedia para manter a calma porque sabia que os três homens da sua vida nunca agiriam de uma forma que pudesse magoa-la.
Cansada de tentar encontrar uma solução e não chegar a lugar nenhum caminhou até a varanda e olhou para aquela imensidão de prédios, queria voltar para a ilha, ficar lá pelo resto da vida, tudo parecia tão mais simples naquele paraíso, estavam longe dos problemas, imunes da confusão que acontecia em NY.
Agora acreditava que nunca teria mesmo paz, talvez essa pequena palavrinha de três letras, não tivesse sido incluída na sua genética e teria que enfrentar turbulências pelo resto da vida. Não gostava de viver em uma montanha russa emocional, onde haveria momentos que ficaria feliz e outros tristes, sempre oscilando entre o bom e o ruim, entre o bem e o mau. Como poderia dar uma vida estável para seu filho se a sua própria era uma confusão sem tamanho?
Talvez, apenas talvez, devesse aprender a deixar os problemas do lado de fora da sua porta e a ignorá-los ou enlouqueceria. Sim, essa era uma boa ideia, afinal.
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Edward coçou a barba que estava nascendo enquanto olhava para o sogro e o cunhado. Tinham acabado de jantar praticamente em silêncio, já que só ele e Bella comentavam sobre a lua de mel e a tranquilidade que a ilha passava. Depois os acompanhou até a biblioteca com a desculpa de beberem alguma coisa mais forte e terem uma conversa de homens.
Os homens Swan eram estranhos e calados ao extremo, queria abordar aqueles papéis que tinha visto em cima da mesa de centro ao mesmo tempo em que desejava ir atrás do tio para cobrar uma explicação. Um dos dois teria que explicar o que diabos acontecia porque não era burro e sabia bem que isso envolvia sua esposa.
–Você tinha uma prima não é, Edward? – seu cunhado parecia sério e não parava de beber – Além de Alice.
A pergunta o deixou levemente atordoado. Nunca passou pela sua cabeça que esse assunto seria abordado tão bruscamente e de forma inesperada.
–Sim. – deixou o copo de lado – Mas por que você quer saber sobre ela?
Charlie virou o copo de whisky cheio e colocou mais um pegando seus papeis e jogando na sua frente, Edward os pegou abrindo a pasta, ainda bem que não estava bebendo porque teria engasgado.
–É Melanie.
Por tudo o que era mais sagrado, era sua priminha que estava ali naquelas fotos. Seu pequeno e delicado rosto estava machucado e cheio de hematomas. Passou pelas imagens tentando conter o horror em ver aquilo.
–Como você conseguiu?
–Essa é Isabella. – sorriu sem humor.
Na realidade, o Chefe Charlie Swan, Juiz de Última Estancia do Tribunal de Justiça Infanto-Juvenil, estava quase chorando, era visível uma dor profunda em seus olhos, não conseguia entender nada.
Edward riu incrédulo olhando mais para a foto, não era possível. Não fazia sentido, ele teria reconhecido Bella se ela fosse sua priminha. Ele teria sentido.
–Não. Isso não é verdade.
–Olha essa porcaria direito, Cullen. – Gabriel bateu com as mãos nos vidros da janela com força fazendo-a estremecer – Essa merda toda está acontecendo e precisamos ter certeza de que isso é verdade. A garotinha da foto é sua prima ou apenas se parece com ela?
Não sabia dizer. Fazia anos que não se lembrava com detalhes do rosto de Melanie, mas aqueles olhos tristes...
Estava passando mal. Sentindo uma vertigem se apoiou na cadeira e respirou fundo. Aquilo não fazia sentido algum, era apenas um sonho bizarro.
–Eu não posso garantir, faz anos que não vejo uma foto de Mel. Foi por isso que Carlisle veio aqui?
–Seu tio veio aqui me acusar de sequestro e receptação de menor. Eu preciso entender como isso é possível, se, isso é possível.
Sua cabeça latejava, realmente precisava de uma bebida, virou o copo esquecido se servindo de mais uma dose.
–É complicado. – falou entre a terceira e a quarta dose – Minha prima... Melanie... Ela tinha pouco mais de quatro anos quando foi sequestrada de dentro da casa dos meus avós por um amigo da família. Nunca soubemos o que tinha acontecido com ela, até que alguns meses atrás, o colocamos contra a parede e ele confessou tudo.
Se levantou inquieto andando pelo cômodo, nunca havia se sentido tão preso antes, tão encurralado.
–Ele disse coisas horríveis. Que tinha sequestrado Mel e a assassinado, assim como os meus pais. Não conseguimos encontrar provas contra ele. Acreditamos que estava falando a verdade.
–Se você visse Isabella quando a encontramos também acreditaria que ela estava morta. – seu cunhado parecia totalmente confuso e desnorteado – Isso aí são apenas fotos, não mostram nada. Eu ainda me lembro da forma que ela me olhou quando a encontrei.
Isso era uma droga. Ainda não fazia sentido, como aquilo era possível?
–Bella é minha prima?
–Precisamos ter uma prova primeiro. Vocês querem ir falar isso pra minha irmã sem nenhuma evidencia concreta?
Gabriel tinha razão, não poderiam basear tudo em possibilidades.
–Isso é loucura. – se jogou novamente na cadeira – Não posso deixa-la fora disso. Prometi que iriamos compartilhar tudo. Jurei pra ela e não posso voltar atrás.
–Eu não sou a favor de mentiras, conheço minha irmã, mas nesse momento, ela é a pessoa mais envolvida nisso, só que... Use sua cabeça, ela não suporta ouvir falar sobre seus pais biológicos e se isso for verdade vocês são primos. Vamos, pelo menos, prepara-la antes de começar a falar com ela sobre esse assunto e não jogá-la aos lobos.
Gabriel estava certo, na lua de mel quando tocou nesse assunto ela quase fugiu para o mar, não poderia jogar isso de uma vez, era um assunto delicado para ambas as famílias e sua esposa era a principal interessada, a vitima em tudo, para adicionar mais os problemas ela também estava grávida.
–Seu tio vai iniciar um processo contra meu pai, se ele o fizer, e, vai fazer, essa merda toda vai estourar. Converse com ele e peça, ao menos, que use o sigilo. Não precisamos que todo mundo saiba de assuntos que desrespeitam apenas a nossas famílias.
Droga, seus problemas estavam apenas começando pelo jeito. Teria que encontrar uma forma de amenizar tudo com seus tios, os conhecia bem e sabia que no dia seguinte era capaz de estarem na sua casa para conversarem com sua esposa.
Só de pensar nisso bebeu mais um copo, precisava chegar a alguma estratégia, pensava que quando passasse o casamento sua vida iria ficar mais calma, mas parecia que só piorava.
–Vou pra casa. – se levantou – Amanhã irei falar com Carlisle e não vou deixar que isso venha a publico, Isabella não suportaria, não agora.
–Eu não me importo se ele tire tudo o que tenho em um tribunal, Edward. – Charlie parecia quebrado – Só não quero que no meio disso magoemos Isabella, aquela menina é minha filha, mesmo não tendo o meu sangue e eu a amo, faria tudo por ela novamente. Cometeria todos os erros e acertos, não mudaria nada.
–Eu sei disso, Charlie. Não se preocupe. É melhor você vir se despedir dela, não quero que Bella fique mais cismada do que já deve estar.
–Tenho dó de você que vai dormir com ela. – seu cunhado era tão otimista – Ou no sofá.
Edward rolou os olhos enquanto saía da biblioteca, ignorar as provocações de Gabriel era o melhor com tantos problemas que tinha para solucionar.
Chegaram à sala e encontraram Renée sozinha, sentada e olhando para o nada, todos estavam preocupados com o que estava acontecendo.
–Cadê Bella? – questionou.
–Na varanda, ela está nervosa e ansiosa.
Respirando fundo Edward caminhou até lá parando na porta de vidro para observá-la, Bella estava encostada no parapeito da janela e olhava para o nada, era difícil pra ele encontrar sua mulher assim tão calada.
–Hey, pequena. – a chamou – Vamos pra casa?
Ela lhe olhou com um pequeno e relutante sorriso, não queria se preocupar demais com o que estava acontecendo, mesmo não gostando da situação confiava nos homens de sua vida e o máximo que poderiam fazer era colocar mais um segurança no seu encalço, o que já não se importava mais.
–Vamos. – segurou a mão dele – Estou cansada.
Edward observou a esposa durante todo o caminho para casa, não queria pensar no que estava acontecendo ou ficaria louco, todo esse assunto já era bizarro demais para sua cabeça.
Bella tinha permanecido em silencio por todo o caminho olhando pela janela, seus dedos pareciam bem mais atraentes do que enchê-lo de perguntas, até porque sabia que não teria as respostas, então era melhor evitar futuros aborrecimentos e pelo bem estar do seu bebê e o seu próprio evitaria entrar em confrontos diretos, mas também não fingiria que tudo estava bem.
Não conseguia esquecer que todos escondiam informações importantes sobre ela e principalmente porque sentia que era melhor assim, pelas palavras de Renée a ignorância seria uma benção e não tinha como refutar esse argumento.
Foi preciso um longo banho quente para conseguir abandonar por alguns instantes seus pensamentos confusos.
–Amanhã vou ter uma reunião bem cedo. – acariciou seu rosto quando estavam deitados na cama – Só para o caso de acordar e não me encontrar.
–Tudo bem.
–Já marcou a data de retorno para nova ultrassonografia?
–Na quarta.
Bella estava cansada de o marido ficar tentando puxar assunto e se comportar como se nada tivesse acontecendo. Virou as costas pra ele e encarou a fotografia dos dois emoldurada no criado mudo. Adorava aquela foto, ela sempre a tranquilizava, os enormes sorrisos retratavam seus poucos dias em alto mar, ela estava sentada entre as pernas de Edward.
O sono não a encontrava de forma nenhuma, talvez por causa do fuso horário, o cochilo que tinha tirado antes de irem para casa dos seus pais ou apenas os velhos hábitos horríveis que mantinha antes de se mudar. Sempre que ficava nervosa não conseguia dormir direito e sentia uma fome monstruosa, por fim, se levantou da cama ignorando Edward e foi pra sala.
Red estava jogado no tapete e levantou a cabeça quando notou sua presença trotando em sua direção. A normalidade a tranquilizava, manter uma rotina sempre tinha sido o ponto forte para quando precisava de um ponto de equilíbrio.
Se deitou no sofá olhando para o teto impecavelmente branco e suspirou, seu cachorro deitou em suas pernas e se pôs a acariciar suas orelhas deixando sua mente vazia, ignorando as vozes dentro de sua cabeça que imploravam para que fosse exigir uma reposta.
–O que eu faço, bebê? – sussurrou triste – Você ainda é tão pequenininho e já sabe que sua mãe é uma louca, cheia de neuras. Acho que preciso de um psicólogo, com ele iriamos ter momentos de eterna reflexão, você bem que poderia se candidatar, afinal teremos longos meses pela frente.
–Vem pra cama, Bella.
Edward estava apenas com a calça do pijama encostado na parede da sala a observando, seu casamento nem havia começado e já tinham um enorme desafio pela frente. Para ele, o fato de Isabella ser Melanie ou não de nada importava porque não tinha se apaixonado por um nome e sim pela mulher que conheceu, amava a alma bondosa e despretensiosa.
Não gostava de manter esse segredo dela, ainda mais que a envolvia totalmente, sabia que quando tudo estourasse Bella seria a pessoa mais prejudicada. Temia sua reação, acima de tudo tremia até os ossos em pensar de perder o seu amor.
Foi até ela e se sentou no chão ao seu lado acariciando sua barriga, ambos tinha adquirido o habito de conversar com o bebê, só que ele sempre conversava quando a esposa dormia.
–Hoje foi um dia bem conturbado. – começou – Amanhã vou à casa dos meus tios, você quer ir comigo?
–Não sei. Eu tenho que pensar em algumas coisas e vou examinar algumas coisas do trabalho... Preciso investigar... Digo, analisar algumas coisas pendentes.
Imediatamente o rosto de Bella corou, na verdade queria era examinar os detalhes do relatório de James, nem que precisasse invadir os servidores da empresa iria descobrir sobre isso, precisava voltar a praticar seus dons de hacker, com o tempo presa dentro de um escritório havia esquecido muita coisa.
–Você está tramando alguma coisa, Sra. Cullen.
Bella não conseguiu segurar o riso o leve que soltou.
–Não estou tramando nada, é que deixei muitos problemas para resolver já que você adiantou o casamento. – bateu com o dedo em seu nariz – Então, tenho que começar a verificar tudo isso enquanto você cuida de todos os problemas que já nos atormentam.
Edward fez uma careta com suas palavras. O peso que estava em sua consciência aumentou drasticamente com suas palavras.
–Eu estou tentando pensar no melhor caminho para nós. Não quero decepcioná-la.
–Você nunca iria me decepcionar, Edward. Eu amo você e confio nas suas palavras... Nos seus atos. Mas, você também sabe o que meus pais me escondem, não é?
–Sei. – confirmou beijando seu rosto – É um assunto delicado e complexo.
–Não gosto quando mentem pra mim, Edward, como podemos começar nosso casamento já com a barreira de um segredo entre nós? Eu não sei o que pensar, tento fazer minha mente aceitar, mas é difícil.
–Me dê um pouco de tempo e eu te explico tudo. – implorou se ajoelhando para colar suas testas – Só te peço isso. Por favor, Bella.
–Você promete?
–Eu juro, amor. Eu te juro. Vou consertar isso.
Com um suspiro resignado ela beijou seus lábios levemente e colou suas testas.
–Eu te amo, Edward. Confio em você.
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