O Que Somos
80 Capítulo 77
Capítulo 77
A primeira coisa que Bella percebeu quando acordou foi o corpo de Edward à suas costas e seu filho chutando em sua barriga. Um gosto amargo marcava sua boca lhe dando fortes náuseas, se moveu com cuidado para não despertar o marido até conseguir ficar deitada de costas, aos poucos as últimas lembranças tomaram sua mente.
Não conseguia acreditar que realmente se lembrara de um pouco da sua infância. Ela conseguira se lembrar de Emmett, Alice e Edward. Seu amado marido a quem entregara seu coração mesmo antes de reconhecer o sentimento que os unia.
Assim como recordou daquele monstro, dos momentos de terror que passou em suas mãos, da crueldade que ele foi capaz de afligir a uma criança indefesa.
Suas mãos foram para sua barriga acariciando o local onde seu sapinho chutava com força, seu filho reconhecia quando a mãe não estava bem e nesses momentos sempre se movia, como se mostrasse que ela poderia sempre contar com ele, que sua pequena força a ajudaria a passar por toda e qualquer adversidade.
O céu estava laranja por trás das janelas quadradas, muitas aves já levantavam voo e graniam suavemente.
Com as costas doendo por conta da posição se levantou da cama fazendo o mínimo de barulho possível, não queria alertar Edward. Ele com certeza deveria estar preocupado, então o deixaria descansar por mais algum tempo.
A casa estava silenciosa, seus passos o único som em todo aquele ambiente.
Na cozinha procurou por uma xicara enquanto fervia a agua, conseguiu engolir algumas bolachas salgadas com o chá. Não entendia como seu filho poderia aceitar isso quando ela detestava essa agua quente sem gosto.
Como sentia falta do café.
Depois que seu pequeno Edward nascesse beberia tanto café que era perigoso ter uma ulcera. Se colaria a máquina de café e ninguém a separaria.
–Por Deus, Isabella.
A voz exaltada e febril de Edward a fez virar ainda mastigando suas bolachas. Engasgou com elas ao encarar o marido usando uma cueca samba canção rosa do Pinóquio, seu cabelo revolto caindo sobre sua testa.
–Você não deveria estar de pé. – rugiu com as mãos na cintura.
Aquela cena só aumentou o desejo de Bella em rir, mas se segurou a tempo.
–Estou com fome.
–Por que não me chamou quando acordou?
–Você parecia cansado.
Ele negou algo com a cabeça e coçou os olhos ainda nublados pelo sono.
–Ontem desmaiou, Isabella. Faz ideia de quão preocupado eu fiquei?
–Imagino. – sussurrou mordendo o lábio inferior – Eu... Eu e Alice conversamos um pouco... Bem... Eu comecei a escutar, mas...
–Ela te disse sobre o dia em que desapareceu.
–Sim.
Com dois passos ele a prendeu em seus braços e beijou seus cabelos.
–Quando Alice contou sobre esse dia foi como se uma comporta se abrisse e eu me lembrei de tanta coisa. – sussurrou energética contra seu peito – Parecia um filme, tudo ao mesmo tempo, várias lembranças correndo dentro da minha cabeça e por um segundo me senti como um computador que recebe muita informação e entra em pane.
–Do que se lembrou?
–De Alice, Emmett... Você.
–De mim?
–Sim. Você era muito bonito, atencioso... e gentil.
–O que mais?
–Não sei se foi uma lembrança, mas vi você marcando nossos nomes em uma arvore.
–A nossa árvore.
Bella ergueu a cabeça para encarar seus olhos.
–No meu aniversário ganhei um canivete do meu pai, eu queria te mostrar, você ficou tão ou mais empolgada que eu, tio Carlisle não gostou da ideia, então fugimos para o quintal do vovô e nos escondemos atrás da macieira, queria eternizar nossa amizade, escrevi a primeira letra do seu nome e do meu. Depois do que aconteceu no meu aniversário e no seu eu sempre ia até lá. Era um memorial para mim, para manter aquela menininha em meus sonhos.
–Se não fosse Melanie... Você ainda me amaria?
–Eu te amo independentemente de qualquer coisa.
–Eu sei, mas se eu não fosse Melanie e ela aparecesse.
–Mel é minha prima, se você não fosse ela e por ironia do destino essa menina aparecesse eu continuaria casado com você porque meu amor não tem medida, não tem condição. – suspirou a sentando em uma banqueta – Quase enfartei quando Alice disse que você tinha desmaiado depois que te contou o que tanto a carcomia por dentro. Deveria estar com você quando isso aconteceu.
–Não desmaiei por causa dela.
–Agora eu sei, mas quando ela me ligou e disse que tinha te contado tudo eu queria enterrá-la no quintal como os samurais japoneses faziam e deixar apenas a cabeça dela do lado de fora. – brincou beijando suavemente seus lábios.
–Queria saber mais sobre Mel... Sobre mim.
–Posso te contar algumas histórias sobre nossa infância.
–Seria excelente. – seus olhos brilharam – Podemos caminhar um pouco pelo campo.
–Mas sem estripulias, Sra. Cullen. Carlisle não quer que faça esforço, tanto ele quanto Gabriel temem que você entre em trabalho de parto prematuro por conta de todo o estresse que passou.
–Eles se preocupam demais, só isso.
As mãos firmes de Edward segurou em seu rosto enquanto seu nariz traçava a pele suave.
–Não queremos que nada aconteça com você ou o bebê.
–Se não parar de só me provocar, marido, o único perigo que corro é de entrar em combustão espontânea.
–Te recompensarei quando estivermos bem longe de todos.
–Buongiorno, Signore Cullen. Bella.
–Bom dia, Mariza.
Bella sorriu para a governanta observando seus movimentos na cozinha, o sol ainda nem nascera e a mulher já estava de pé.
–Querem alguma coisa especial para o café?
–Salada de frutas. – Edward pediu com o rosto colocado na curva do pescoço da esposa. – Iremos caminhar em breve.
A senhora começou a recitar os lugares que poderiam visitar pela propriedade, seu sotaque forte característico da Florença, a gesticulação e o sorriso que fazia com que Bella amasse aquele lugar como nenhum outro em qual colocara seus pés. Se pudesse viveria eternamente ali.
O passeio pela campina foi o melhor que ela já teve. Edward contou cada história sobre sua infância, sobre os momentos que passaram juntos. Era obvio que ele a conhecia melhor que qualquer outro, falava como se toda sua vida fosse passada juntos, ele descrevia o pouco da sua infância da mesma forma qual ela passou com Charlie e Renée.
Antes do meio dia se sentaram milhas depois das videiras o vento batendo sobre eles. Edward estava sentado contra uma enorme arvore e Bella com as costas no seu peito brincando com sua aliança.
Edward lhe contou sobre suas aventuras, desafios e escapadas para seu quarto durante a noite para que pudesse ler alguma estória qual a fazia adormecer antes de chegar ao meio. As fugas com Rufles para poderem brincar mesmo quando Carlisle quase enfartava de preocupação.
De uma forma estranha Bella se sentia uma espectadora de tudo o que ele relatava, não parecia ser a vida dela, sim de outra pessoa, mesmo que agora esse sen
–Quando voltarmos quero conhecer a macieira. – decretou se virando para encontrar seu olhar.
–Te levarei até ela. Tia Esme também quer abrir seu antigo quarto.
–Nunca o vi. – comentou surpresa.
–Até hoje é difícil para eles entrarem lá, tudo continua da mesma forma que quinze anos atrás, como um santuário.
–Sinto tanto por Esme ter passado por esse sofrimento, não quero ter a mesma experiência.
–Não teremos. – garantiu – Ninguém machucará nosso sapinho. Ninguém a machucara. Eu protegerei a ambos.
–E quem te protegerá?
Uma risada suave escapou por seus lábios antes de colar aos dela, suas mãos acariciando seu rosto com reverencia e carinho de um homem completamente apaixonado por sua esposa e encantado por seu filho ainda por nascer.
–Sou forte e temos um ao outro, podemos nos proteger mutuamente.
Ele se ergueu e a puxou para ficar em pé, seus olhos presos e um pequeno sorriso brincando em seu rosto.
–Quero te fazer uma promessa. Aqui, nesse lugar onde nos reconciliamos, onde fizemos nosso filho e onde deveríamos termos casado.
A respiração de Bella se suspendeu quando ele segurou no seu rosto, sentindo a intensidade das suas palavras.
–Que promessa?
–Eu prometo que não farei nada que a magoe, cuidarei de você, a amarei, protegerei. Serei o marido de quem você se orgulhe.
–Você já faz tudo isso por mim. – sibilou com os olhos lacrimejantes.
–Quero fazer mais. Sei que não sou perfeito e estou longe disso, contudo, meu amor por você me faz querer dar o melhor de mim.
–Eu também te prometo ser mais tolerante e menos teimosa, prometo que escutarei mais antes de julgar e me cuidarei.
–Agora temos que selar nossas promessas ao pôr do sol.
–E como faremos isso?
Edward a abraçou com o braço esquerdo enquanto que com a mão direita segurou em seu queixo para roçar seus lábios, um contato breve e suave. O suficiente para desestabilizar suas respirações e deixar suas pernas bambas.
Ela o amava demais, seu amor por aquele homem era imensurável, incontrolável e insano.
Quando retornaram para o jantar a família inteira estava reunida na sala conversando e rindo. Aquela cena sempre enchia o coração de Bella de carinho por eles. Havia passado quase uma vida toda se retraindo, tendo medo dos sentimentos e culpando seus pais biológicos por terem a abandonado e hoje, sabendo a verdade, todo esse tempo se assemelhava a um sonho ou uma realidade distante.
Não tinha mais medo. Era forte e com eles se sentia pronta para enfrentar qualquer atribulação, não era mais uma menina medrosa, era uma mulher guerreira que não temia o passado e sim admirava sua força própria para estar inteira.
Todos se preocupavam com ela, ainda mais depois do episódio do dia anterior, mas ao vê-la com um sorriso enorme concordaram que tudo não passara de um fato isolado e levando em conta suas lembranças até comum.
Durante duas semanas curtiram o vento da costa italiana, passeando pelas parreiras, se amando lentamente a frente da lareira enquanto uma música suave tocava no rádio e dançando a noite na sala de estar.
Os problemas esquecidos ficaram esquecidos, não se via necessidade em abordar eventos quais não tinham mais controle e ninguém queria quebrar o clima de paz e amizade. Mesmo com Carlisle e Charlie sempre resmungando por tudo não poderia desejar outra coisa.
Seu pequeno Edward se moveu e por instinto acariciou o local onde ele se fixara, o espaço para seu corpinho diminuía a cada dia e se tornava uma missão quase impossível mantê-lo em seu ventre.
O tempo havia mudado bruscamente, de manhã o sol nascera esplendoroso, contudo, com o passar de poucas horas nuvens negras carregadas o encobriram trazendo rajadas de vento que balançava os galhos das arvores e faziam os pequenos animais que habitavam no campo correrem a procura de abrigo.
Bella observava toda a mudança sentada na sala lendo seu livro e ocasionalmente olhando pela janela, odiava tempestades.
Esme e Renée se sentaram no enorme e confortável sofá branco de camurça e suspiraram em uníssono enquanto bebiam algo de uma caneca fumegante.
O tempo longe de casa as fez se aproximar muito e como filha de ambas ela adorava vê-las tão unidas e companheiras.
–Tudo bem, filha? – a Renée questionou ao notar que Bella soltou um pequeno gemido.
–Sim, só Edward que está se movendo demais e pressionando meu pulmão, esse é o lugar preferido dele.
–Faltam poucas semanas para ele nascer – Esme comentou se aproximando da filha para apertar sua mão –, você também era agitada quando estava na minha barriga, adorava pressionar minha bexiga.
Bella soltou um risinho e voltou a acariciar seu pequeno sapinho.
–Só é incomodo, não consigo respirar direito.
–Logo ele estará nos seus braços e tudo isso será uma lembrança, então você se questionará o motivo de ele não poder ficar protegido dentro da sua barriga por mais tempo.
–Desde que ele não queira substituir meu pulmão e nem minha bexiga pode ficar aqui pelo tempo que ele quiser.
Um barulho de motor e pneus deslizando pelo cascalho molhado fez com que Bella encarasse a vista do lado de fora da janela. Um carro SUV negro deslizava suavemente até a porta principal da casa.
Dois homens vestidos de terno saíram correndo para a soleira fugindo da chuva torrencial, um dos homens ela conhecia, era Laurent, o assessor de segurança da Cullen, mas o outro era um desconhecido.
Mariza foi recebê-los e os encaminhou diretamente para a sala. Bella se ergueu e os cumprimentou com um pequeno sorriso reticente, carregava um mau pressentimento no peito.
–Laurent, como vai?
–Estou indo bem, Esme, e a senhora?
–Estamos perfeitamente bem.
–Sra. Swan.
Renée fez um som com a boca, seu olhar analisando a ambos, assim como Bella fazia, um mal costume que ambas aprenderam com Charlie.
Edward entrou na sala usando uma calça de linho e camiseta negra, abraçou o homem negro e deu um aperto de mão no estranho.
–Não o esperava aqui, Laurent. Sente-se, por favor.
O homem sentou e cruzou as pernas, Edward abraçou a cintura da esposa e beijou seu rosto enquanto tomava um lugar no futon. Seu olhar impassível encarando o funcionário.
–Amor, esse é o nosso advogado de causas jurídicas, Joel.
–É um prazer conhece-lo.
O homem franzino de óculos apenas fez um aceno com a cabeça e repousou a pasta que carregava nas coxas, a perna esquerda se movendo inquietamente.
–O que o traz aqui?
–Tivemos um enorme problema em Manhattan e preciso notifica-lo.
Notando que o homem se sentia desconfortável em falar próximo as mulheres, Edward suspirou e abriu a boca para pedir que ele lhe acompanhasse até o escritório, mas o olhar que Bella lançou foi o suficiente para retroceder nesse pensamento.
–Fomos informados de algo com o Sr. Hunter.
Bella arfou e apertou as mãos do marido com força.
–O que James aprontou, Laurent?
–O sr. Hunter... James, foi encontrado morto no seu apartamento ontem a noite.
–Como?
–Ele foi assassinado com uma pancada na cabeça por um objeto pontudo, seu rosto estava desfigurado, isso foi feito por alguém que tinha um ódio mortal por ele.
O advogado se moveu desconfortável.
Bella arfou sentindo seu coração bater com toda força dentro do peito, o ar parecia espesso e difícil. Se forçou a ignorar a reação brusca de Esme e focou no assessor. Era isso? Ela estava livre daquele monstro?
–Por que você não me informou por telefone?
–Segundo a autopsia ele estava morto há semanas e há testemunhas de que o senhor foi ao prédio dele no dia da morte, desde então não ocorreu nenhuma visita mais.
A percepção a pegou mais forte, eles acreditavam que Edward tinha assassinado aquele verme?
–Quando ele foi morto? – questionou com a voz por um fio.
–Há duas semanas.
No dia em que viajaram. James tinha sido assassinado no dia em que pegaram o voo para Florença, no dia em que Edward sumiu e apareceu com hematomas nas mãos.
Seu olhar imediatamente atraído para o marido, querendo ver a confirmação de que isso era uma mentira e ele não tinha ido atrás daquele verme, que ele não seria capaz de matar alguém, contudo a ferocidade em sua expressão a fez duvidar de tudo.
Edward seria sim capaz de matar um homem, ele havia atirado em James meses atrás, queria justiça por ela e por seus pais, queria vingança. Não sabia como encarar o que ouvia e muito menos o que pensar.
–A promotora que cuida do caso quer seu testemunho, por isso estamos aqui.
–Eles acham que sou culpado?
–Não, mas querem uma declaração por escrito antes que seja divulgado a imprensa.
–Iremos estar em Nova York amanhã. Joel, prepare tudo sobre os laudos necessários e marque um encontro com a promotoria.
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