O Que Somos
73 Capítulo 70
Capítulo 70
O lado direito do carro estava destruído e o transito parado por causa do acidente. Equipes de paramédicos trabalhavam para tirar o motorista das ferragens do que tinha sobrado da caminhonete preta que já tinha sido afastado do Bentley.
O som de pneus derrapando fez com que muitos olhassem para o lado vendo um Volvo prata parar de qualquer jeito no meio da rua e dois homens saírem correndo, passando pelo cerco policial sem se importar com os protestos que viram dos homens uniformizados.
Edward com muito esforço conteve um grito de horror ao ver a situação em que o Bentley se encontrava, tudo o que queria era encontrar Isabella e ter certeza de que ela estava bem. Quando recebeu o telefonema de Jared no escritório informando que um motorista bêbado tinha atravessado o sinal e batido no carro onde sua mulher estava parecia que o chão tinha desaparecido. Foi preciso Félix o arrastar para fora do prédio para saberem o que realmente estava ocorrendo porque senão ainda estar paralisado lá olhando para o nada.
Ao fundo de sua mente escutou alguns policiais reclamarem por ultrapassarem as fitas amarelas que isolavam a faixa e seu segurança conversar com eles, suas pernas mal se moviam com medo do que pudesse encontrar. O banco traseiro do carro estava vazio.
–A mulher que estava no carro. – perguntou a um dos paramédicos com um fio de voz – Onde ela está?
–Você é algum parente?
–Marido.
–Certo, senhor. Ela está na ambulância recebendo os primeiros socorros e será encaminhada para o hospital. – explicou, sua voz mostrava claramente compaixão.
–Ela está bem?
–Está inconsciente. É melhor correr porque já vão sair. – mostrou a ambulância e Edward correu até lá encontrando sua menina.
Por um minuto completo não conseguiu respirar.
Bella estava com o rosto arranhado e um corte na testa, seu pescoço estava imobilizado com o cordão cervical, uma cânula auxiliava sua respiração e em seu braço já havia varias agulhas com medicação intravenosa, sua barriga já grande parecia intacta e conteve a vontade de tocá-la para sentir o bebê mexer, precisava de um sinal de que ela realmente estava bem, de que tudo acabaria bem.
Em poucos segundos impôs ao médico que iria com eles e mesmo com as objeções do socorrista se negou a qualquer possibilidade de deixar sua esposa e seu filho longe das suas vistas, por fim, vendo que não havia como convencê-lo ordenou que a ambulância saísse pelas ruas em alta velocidade.
Os médicos falavam entre si realizando testes e colocando mais medicação no soro que pendia ao seu lado. Se sentia impotente, mesmo com todas as providencias não fora capaz de protegê-la e ao seu filho, seu pequeno sapinho, não sabia como se comportar porque na última meia hora havia perdido totalmente o controle da sua vida.
Ao chegarem ao hospital médicos e enfermeiros cercaram a ambulância discutindo seus ferimentos e fazendo anotações, queria ficar com sua mulher, mas logo que ultrapassaram a porta da emergência o impediram de passar.
–Eu tenho que ficar com ela.
–Senhor, estamos realizando todos os exames necessários. – Uma enfermeira de cabelos brancos disse calmamente – Apenas médicos podem entrar, logo viremos falar com o senhor.
–Você não entendeu. É minha mulher e meu filho lá. – exasperado passou as mãos pelo cabelo– Eles precisam de mim.
–Sinto muito, senhor, mas terá que aguardar aqui.
A contra gosto se jogou na cadeira de plástico batendo o pé nervosamente no chão, não conseguiria ficar ali sem fazer nada, sem ter certeza de nada, precisava estar lá dentro segurando a mão de Bella, dando força. Tudo o que necessitava era ver se sua esposa estava realmente bem para que tudo no mundo voltasse a fazer sentido novamente.
Se assustou quando seu celular tocou, nem se lembrava dele.
–Edward, está tudo bem? – a voz angustiada de Esme o fez querer chorar – Estou com um mau pressentimento que não passa.
–Eu estou, tia, mas... – respirou fundo – Isabella sofreu um acidente e está no hospital.
Ouviu um ofego e logo depois parecia que o telefone caiu no chão. Chamou o nome de Esme várias vezes até que ela voltou a pegar o telefone com a voz de choro.
–Ela está bem? O que aconteceu? O bebê?
–Não sei. – sussurrou angustiado começando a caminhar pelo extenso corredor – Ela estava voltando para casa com Garret e Jared quando um motorista bêbado atravessou o sinal vermelho... Não... Não me deixaram entrar com ela.
–Em qual hospital vocês estão?
–No Central na ala de emergência. – conseguiu falar.
–Estou indo aí.
Antes que pudesse responder qualquer coisa o telefone foi desligado. Queria poupar sua tia dessa noticia, ainda mais depois do desejo de Bella em falar com ela assim que saiu do seu escritório, tudo parecia estar contra eles.
Já não bastava toda a pressão que sofriam nos últimos meses, agora acontecia isso.
Não sabia se era forte o suficiente para suportar mais um desastre que atravessava seu caminho, só suportou tudo porque Bella estava ao seu lado e precisava dele, contudo se a perdesse...
Não! Ele não poderia pensar o pior.
Sua menina era forte e superaria mais essa adversidade, tanto ela quanto seu filho passariam por mais essa prova e ficariam juntos no final. Era nisso que precisava focar seus pensamentos, apenas na melhora de ambos.
Deveria ligar para Renée e Charlie, avisá-los sobre o que estava acontecendo, Isabella precisava de todos os que amava perto e faria isso por ela.
O telefone de casa chamou até cair na secretaria eletrônica, ligou mais duas vezes, precisava ser persistente porque não teria coragem de ligar mais tarde caso recebesse uma noticia ruim. Estava quase desistindo quando a voz de Renée soou do outro lado da linha.
–Oi, Renée é Edward.
–Oi, Edward. Como está?
–Estou bem, obrigado.
–Bella já está te deixando louco?
Sua garganta se fechou brevemente e forçou as lágrimas a descerem. Desejava muito que sua esposa teimosa o estivesse enlouquecendo por causa da comida gordurosa ou dos seus hábitos noturnos.
–É por causa dela que estou ligando.
–O que ela fez agora?
–Bem... Bella está no hospital.
–Hospital? Meu bebê está bem? Foi algo com sapinho? Ele está bem?
–Aconteceu um acidente e ela estava no carro. Só liguei pra te avisar.
–Onde vocês estão?
–Hospital central.
Antes que pudesse falar qualquer coisa a ligação foi interrompida.
Sem forças se deixou cair na cadeira de plástico olhando em volta, sabia que Bella estava sofrendo com a separação da família, quando descobriram a verdade também se sentiu pressionado e com uma faca de dois gumes no pescoço e que a qualquer momento ela iria lhe matar e tirar aquilo que lhe era mais precioso.
Todas as noites depois que Isabella dormia ficava acordado velando seu sono conversando com o Sapinho, seu filho sempre lhe respondia com chutes fortes. Orava a Deus para que os dois ficassem bem, não suportaria ter que perder um dos dois ou até mesmo...
Não poderia pensar nisso agora, pensamentos negativos traziam coisas negativas e sua menina e seu pequeno Sapinho ficariam bem. Faria que eles ficassem bem, mesmo que fosse preciso trocar sua vida pela deles.
A porta foi aberta e com um passo estava frente a frente com um médico, um senhor de cabelos brancos e olhos cansados.
–Você é o marido de Isabella Cullen?
–Sim. – sua voz ficou entalada na garganta – Ela está bem? O bebê está bem?
–Sou o doutor Cooper. E sim, senhor Cullen. Ambos estão bem. Os ferimentos de sua esposa foram centrados na cabeça e no ombro, ela teve uma pequena lesão no ombro direito, mas logo estará bem, e, um trauma nível um, realizamos testes e não há nenhuma anormalidade cerebral.
–Então ela vai ficar bem?
–Sua esposa é uma mulher forte, só precisará de tempo e descanso.
–Posso vê-la?
–Claro.
O médico falava diversas coisas, com certeza, importantes, mas sua mente não conseguia registrar nada, o seu mundo todo estava deitado em uma cama enorme para seu pequeno e frágil corpo, seu braço esquerdo com vários fios intravenoso ligado a medicamentos. O som da maquina que media seus batimentos soava em um ritmo constante mostrando que sua menina estava bem, que ela estava viva.
–Quando ela vai acordar? – caminhou até o seu lado segurando sua mão fria e a levando aos lábios.
–Quando ela se sentir pronta. – o homem mais velho arrumou os óculos sobre os olhos – Não irá durar muito, seu corpo e sua mente precisam descanso. Vou deixa-la em observação pela noite e acompanharemos seu progresso hora-a-hora.
–Tudo bem.
Sozinho no quarto Edward puxou a gravata que ainda usava e a tirou deixando do seu lado na poltrona desconfortável, queria ir para casa, deitar em frente à lareira, abraçar seu amor e não sair mais de lá. Seria capaz de mudar seu escritório para casa só para ficar com ela em todos os momentos que precisasse.
Durante o tempo que estava ali sentado duas enfermeiras entraram fazendo medições e anotando alguns resultados, queria enche-los de perguntas, mas sua mente parecia em branco, não conseguia fazer nada além de segurar a pequena mão entre as suas e sussurrar ocasionalmente em seu ouvido que tudo ficaria bem.
Sua mão não saia de cima do ventre de Bella, seu filho se movia inquieto, como sempre, mostrando que estava bem e que em alguns meses o deixaria louco com seu gênio forte. Uma batida na porta fez com que levantasse a cabeça e sorriu triste ao ver Esme parada com lágrimas nos olhos.
–Posso entrar?
–Nem precisa pedir, tia. – estendeu sua mão pra ela a abraçando.
Sentia exatamente o que ela sentia, o sentimento torturante de não poder fazer nada, para Esme era mais difícil, ela não via Isabella há quase um mês e agora a reencontrar em uma cama de hospital não estava sendo fácil.
Olhou para sua pequenina deitada imóvel e pacifica e se separou do sobrinho indo até ela segurando suavemente sua mão. Foram mais de quinze anos desejando esse contado, sonhando com o dia em que reencontraria sua menininha, no entanto, nunca chegou a passar por sua mente que tudo aquilo fosse acontecer.
Queria ter explicado a Isabella que ela e Carlisle estavam agindo apenas por causa da dor e do desespero, todo o sofrimento que passaram após seu desaparecimento os fizeram ver muitas coisas de forma diferente, os mudaram de forma irreparável. Não se ressentia por ela ter escolhido um lado, ela mesma tinha agido como se a pedisse para escolher de qual ficaria. Queria apenas esclarecer tudo e fazer com que suas vidas entrassem no eixo correto e dessa vez de forma definitiva.
–O médico disse alguma coisa?
–Bella teve um trauma na cabeça, por isso está inconsciente. Ela e o bebê estão bem, é só questão de tempo para que acorde.
Esme sorriu e limpou suas lágrimas, essa era uma noticia excelente. Queria tocar sua barriga proeminente, mas se conteve, sua mão parada no meio do caminho e olhou para Edward como se pedisse permissão. Ele apenas sorriu assentindo.
Logo que seus dedos tocaram em cima da camisola sentiu um leve movimento. Sua neta não gostava de se mexer, mesmo depois de nascida era calma e dorminhoca, mas parecia que esse pequeno não dava sossego.
–Ele é sempre assim? – questionou abrindo um sorriso.
–O tempo todo. – Edward voltou a se sentar na poltrona pegando a mão de sua esposa – Bella o chama de Sapinho, ele nunca fica parado. O horário de sono dele é totalmente o inverso ao nosso.
–Mel também era assim. – murmurou para si mesma – A genética é forte.
–Com certeza. – concordou acariciando os cabelos chocolate de Bella.
Para ele, ela sempre seria o seu amor. Não importava o nome ou seu passado. Era certo que, por vezes, se sentia estranho ao começar pensar mais a fundo e ter ciência de que ela era sua priminha, a pequena menina travessa que protegia quando criança, de certo modo parecia estranho e errado, aí se lembrava do forte sentimento que os unia, o destino os tinha trago de volta para onde pertenciam e não abriria mão dela por nada no mundo.
–Eu preciso falar com ela. – Esme sussurrou sentindo as lágrimas voltarem – Explicar os nossos motivos e talvez fazê-la entender que isso não é para o seu mal. Eu e Carl sabemos que a magoamos.
–Tia, Bella ama vocês dois. – Edward explicou calmo – Ela entende o que sentiram, ainda mais depois de tudo o que James aprontou, só que ela esta confusa e perdida entre o amor por vocês e a lealdade com os Swan. Eles a criaram, amaram e naquele dia no na sua casa todos vocês deixaram claro que ela teria de escolher entre um e outro. Sua decisão foi feita por todo o conjunto do que tinha acontecido. Bella pensou em todos antes de ir falar com vocês.
–Como assim? – Sabia que de tudo o que seu sobrinho falou, ainda sim não entendia completamente sobre a forma de Isabella de pensar.
–Quando ela escutou de Carlisle que era filha de vocês ficou em choque. – limpou a garganta incomodado – Ela saiu porta a fora caminhando sem direção por horas, quando achei que ela já tinha tido o suficiente para pensar sozinha fui até ela e conversamos por um longo tempo. De inicio estava incrédula, mas quando finalmente se deixou analisar tudo gostou da novidade, pra ela descobrir que era sua filha a deixou feliz porque amava você e ao tio.
Seu olhar subiu para seu tio que se mantinha em silencio ainda na porta e sorriu minimamente.
–Ela queria conversar com vocês, para ela naquele momento não havia outra possibilidade a não ser que tudo acabaria bem e ela, finalmente, teria seu final feliz.
–Estraguei tudo com minha briga com Charlie. – Carlisle constatou suspirando.
–Você não fez essa bagunça sozinho, Carl.
–Bella estava decepcionada com a forma que agiram, mas ela também entende a dor que passaram ao perder uma filha, assim como sabe de como o amor e proteção de Charlie a ajudou. – sua cabeça começava a doer e se forçou a respirar fundo para não desabar – Ela fez aquilo para que pudessem pensar no que ganhariam e perderiam agindo sem pensar nela.
O homem mais velho assentiu concordando enquanto encostava-se à parede, o choque de realidade que levou daquela menina realmente abriu seus olhos e faria o impossível para não ver aquela expressão desolada no rosto da sua filha novamente.
–Senti tanto a falta dela.
–Ela também sentiu a sua, ainda mais agora que está começando realmente a se sentir mãe. Ela precisará muito de você.
Esme concordou veemente, um sorriso aparecendo em seu rosto ao imaginar o futuro com sua filha e seus netos.
–Ela será uma boa mãe. – sussurrou.
–Se ela seguir os exemplos que tem não poderá ser mais perfeita.
Tinha se esquecido de avisar a tia que havia ligado para Renée e a qualquer momento ela também estaria ali, mal abriu a boca e a viu na porta olhando intrigada a forma carinhosa que Esme falava com Isabella, apenas palavras calmas e de incentivo.
Ela não sabia o que fazer, parte sua, uma grande parte, desejava pular em seu pescoço e tirá-la dali, porém uma pequenina compreendia o afeto de mãe colocado em sua filha, amava sua pequena e entendia completamente o sentimento de Esme.
Entrou no quarto calmamente e perguntou a Edward como ela estava, Charlie se mantinha impassível ao seu lado, na correria de sair de casa ligou pra ele e o arrancou de uma disputa de guarda no tribunal. Sentiu os braços dele a sua volta ouvindo atentamente o que seu genro falava, um pouco mais calma foi até o outro lado da cama e deixou um beijo no rosto da filha, evitando o curativo em sua testa onde havia uma contusão.
Essa cena a lembrava de quando Gabriel tinha a encontrado na chuva e no frio, ainda podia se recordar com exatidão de tudo o que se passou por sua mente, o amor incondicional por uma pequena criatura inocente qual um monstro havia danificado, uma menininha desconhecida que com um olhar roubou o coração de toda a sua família e ainda hoje continuava a fazer.
–Como vai, Renée?
A voz doce e suave de Esme parecia hesitante, não suportava toda aquela briga, o distanciamento de sua filha, precisava de um pouco de normalidade.
–Bem. E você?
Ela estava péssima, mas se resignou a dar de ombros e encarou os olhos azuis da mulher a sua frente. Em seu olhar estava refletido apenas aquilo que desejava: Que tudo isso passasse.
–Será que quando isso terminar poderíamos conversar?
–Claro. Creio que será uma longa e duradoura conversa.
–Sim, isso será e muito esclarecedora também. Para nós duas.
–Uma conversa de mãe para mãe.
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