O Que Somos
74 Capítulo 71
Capítulo 71
Vinte e quatro horas se passaram lentamente, mais lentamente do que qualquer dia entendiante, Edward não conseguia deixar a mão de Isabella nem mesmo para comer, sentia falta dela, falta de sua voz e de seus beijos, as conversas noturnas quando o bebê não a deixava dormir. Simplesmente sentia falta de sua menina.
Garret já estava bem, seus ferimentos tinham sido superficiais, já que o carro bateu na traseira do Bentley e ele logo após passar por diversos exames havia sido liberado, o que o tranquilizava bastante, afinal, aquele homem era quem protegia sua esposa enquanto estava longe.
Não suportava mais ficar naquele hospital, aquele cheiro de éter o incomodava e só piorava o fato de sua mulher não acordar, por mais que os médicos garantissem que ela estava bem e que iria acordar em breve, não conseguia se tranquilizar, orava todo o tempo para que ela voltasse.
Ninguém tinha conseguido fazê-lo sair do seu lado, Esme trazia suas roupas e Renée cuidava de alimentá-lo devidamente, ambas pareciam ter dado uma trégua a guerra que viviam e, pelo menos, conversavam sobre coisas essenciais, o que já se mostrava excelente conhecendo o gênio forte de ambas.
Um gemido baixo e rouco o fez levantar a cabeça atordoado. Logo depois outro. Suspirando acariciou os cabelos de Bella sussurrando em seu ouvido que estava tudo bem e que precisava dela.
Em minutos ela voltou a seu sono pacifico e ele pode se deixar cair naquela poltrona horrível.
Bella sentia seu braço doer horrivelmente, assim como sua cabeça. Parecia que tinha bebido um bar todo e estava de ressaca, não que conhecesse essa sensação, mas , já havia se acostumado ao cansaço por causa da gravidez, mas não se lembrava de ter sentido o corpo mole. Deixou sua mente à deriva e aos poucos as lembranças inundaram sua mente. A conversa com Edward em seu escritório, a vontade de falar com Esme para acertar as últimas pontas soltas na confusão que era sua vida, contudo seu celular tinha caído e tudo ficou escuro e sombrio.
Com medo do que poderia encontrar abriu os olhos, a luz estava amena e o ambiente era desconhecido. Aparentemente seu corpo não tinha coordenação motora e tudo parecia confuso e estranho.
–Edward... – sussurrou o reconhecendo ao seu lado.
A cabeça dele estava na cama em cima de suas pernas e parecia estar dormindo. Se questionava quanto tempo teria ficado inconsciente, uma vez que seu marido parecia horrível e exausto.
–Edward...
Ele levantou a cabeça pensando que estava sonhando, mas assim que a viu acordada um sorriso enorme se abriu em seu rosto.
–Graças a Deus você voltou, Bella.
Sem se conter deixou um beijo longo em seu rosto, Enfim suas preces haviam sido atendidas.
–Não faz mais isso comigo, pequena, pensei que iria te perder.
–Desculpe... – sussurrou cansada – Garret? O que aconteceu?
–Ele está bem. Um motorista bêbado bateu na traseira do veículo.
Como fora instruído tantas vezes, enquanto atormentava as diversas enfermeiras que faziam rondas durante sua vigília, apertou o botão ao lado da cama para chamar uma enfermeira.
–Meu bebê?
–Ele está bem. – acariciou sua barriga – Não parou de mexer um minuto sequer, mas parece que agora foi dormir um pouco.
Bella sorriu fracamente levando a mão esquerda para o rosto do marido, havia sentido saudade dele, mesmo que estivessem juntos todos os dias ele ainda fazia falta nas horas que ficavam sem se falar ou se ver e em seu amago aparentava ter ficado longe por mais um mil anos. Por uma eternidade.
Uma enfermeira gordinha e de cabelos brancos entrou no quarto dando um sorriso condescendente e foi até ela medindo sua pressão e tomando anotações dos aparelhos ao seu redor.
–Boa noite, querida. Como está se sentindo?
–Cansada... Com sede e um pouco de dor.
–Eu vou terminar de fazer a avaliação primária e irei pegar um pouco de agua pra você.
Edward aproveitou que Isabella estava entretida com as perguntas da enfermeira e logo depois do médico e ligou para a família, avisando que ela tinha acordado. Todos ficaram felizes e queriam ir vê-la, mas como o horário de visitas já tinha se passado há muito tempo se resignaram a aguardar pelo dia seguinte. Renée estava emocionada pelo telefone e queria de qualquer jeito falar com a filha, precisava ter certeza de que ela estava bem. Esme também queria ir até lá, mas como não sabia a forma que seria recebida se contentou com a noticia de que ela estava bem.
Os questionamentos dos médicos pareciam não ter fim e Bella queria voltar a dormir, seria bom aproveitar que o bebê estava dando um pouco de descanso, no entanto, com todos ali não podia fazer isso.
–Estou cansada.
–Faltam apenas mais alguns exames, Sra. Cullen, e depois poderá descansar.
Rolando os olhos para o obstetra se pôs a observar o quarto. Sorriu com os vasos de flores posicionados próximos a janela, sempre gostou do cheiro que eles deixavam no ambiente e morar no casarão com aquele jardim imenso sempre arrancava uma sensação de paz em seu interior. Se sentia mais próxima de casa.
Quando finalmente todos saíram pode respirar aliviada, a enfermeira traria algo para comer e depois poderia dormir o tanto quisesse ou conseguisse o que no fim dava no mesmo.
–Você parece cansado.
Seu marido estava com profundos círculos escuros sob os olhos e um ar abatido que conseguia ler de longe.
–Vou ficar melhor agora que você está bem.
–Como estão todos?
–Preocupados. Todos queriam vir imediatamente para ter certeza de que você está bem.
–Sinto falta deles, queria vê-los.
–Posso garantir que também sentem a sua falta. – pegou sua mão a levando aos lábios – Talvez quando sair daqui possamos fazer um almoço lá em casa.
Ela assentiu com um pequeno sorriso, queria muito reunir a família toda, sentia saudades do tempo em que ficavam juntos e unidos, parecia que aquele tempo ficava em um passado distante e não há apenas algumas semanas.
Os momentos que passou com eles ainda ressoavam em seu coração e queria de volta tudo o que perdeu.
–Quero a minha mãe. – resmungou sentindo lágrimas invadirem seus olhos.
–Ninguém pode vir agora, o horário de visitas já passou há muito tempo. – a abraçou do melhor jeito que dava – Amanhã ela estará aqui.
–Eu tive tanto medo...
–Do que pequena?
–De perder o nosso bebê, de perder o que temos. – Sem nem perceber grossas lágrimas já corriam pelo seu rosto – Não quero perder você.
–Você nunca vai me perder. – garantiu tentando em vão secar suas lágrimas – Eu te amo. Não vou deixar você sair da minha vida. Eu falhei em te proteger, pequena, me desculpe.
–A culpa não foi sua, foi uma fatalidade, eu só quero minha família de volta, depois disso ficarei completa, depois de saber que eles estão bem.
–Nossa família está bem, todos estão com você.
Ela acariciou seu rosto áspero por causa da barba por fazer e tentou explicar tudo o que estava sentindo.
–Eu preciso da nossa família inteira. – sussurrou – Não posso ficar longe de Esme e Carlisle. Não consigo. Quero todos de volta.
Edward não sabia se ela pode perceber, mas aquelas palavras serviram como um balsamo, foi como se o peso do universo saísse de cima de seus ombros.
–Eles sempre estiveram com você, fico feliz que queira retomar o relacionamento que tinha com eles.
–Preciso ver Esme. – pediu aos prantos – Por favor, eu preciso vê-la.
–Agora não dá, amor. – tentou acalma-la – Amanhã eu ligo e peço pra ela vir, mas agora os médicos não vão deixar que ela entre.
–Por favor, Edward.
–Amor, você acabou de acordar.
–Por favor.
O seu choro estava tão forte e sentido que ele temia fazer mal para ela ou o bebê, nenhuma palavra de consolo parecia fazer efeito.
–Eu vou ligar pra ela. – disse por fim – Vamos ver se tio Carlisle consegue que eles entrem para te visitar agora, mas não garanto.
–Então tenta.
–Primeiro se acalma. – pediu secando suas lágrimas – Isso não faz bem pra você.
–Eu prometo. Agora liga.
Com um suspiro de inquietude discou o número da casa dos tios e esperou pacientemente que atendessem, pelo horário já deveriam estar dormindo.
–Edward? O que aconteceu? Bella está bem? Ela piorou não foi? Eu sinto que ela piorou... Oh meu Deus fala logo.
–Não tem como eu falar se você não deixa, tia.
–Claro, claro. – ele pode ouvir claramente ela respirar fundo – Estou mais calma.
–Bella quer falar com vocês.
A linha ficou muda por poucos segundos que ele temeu ter matado a mulher mais velha do coração, a entendia completamente, há dois dias Isabella não queria nem escutar o sobre a possibilidade de socialização com os Swan e os Cullen e agora a chama, era pra deixar qualquer pessoa louca, mas devia dar um desconto por parte dessas alterações serem culpa da gravidez.
–Você tem certeza? – sua voz saiu hesitante e instável.
–Sim, você e tio Carlisle podem vir agora? O horário de visitas já passou há muito, mas vou falar com a enfermeira ou com o próprio diretor do hospital para liberar a entrada.
–Claro. Já estamos saindo de casa, em vinte minutos estaremos aí.
Nem uma palavra a mais e desligou o telefone. Edward estava cansado, pela primeira vez na vida se sentia velho. Sua mente tinha dado um nó gigantesco e não fazia ideia de como desemaranhar, tudo era uma confusão de acontecimentos ainda desconexos.
–Ela vai vir?
–Sim, pequena. Daqui a pouco ela vem.
A enfermeira escolheu aquele momento para entrar no quarto com sua refeição, uma sopa leve e um copo de suco, não sabia como aquilo poderia matar a fome de alguém, precisaria de três pratos no mínimo para sanar seu apetite.
Por algum tempo conseguiu se distrair com a comida enquanto Edward saiu para conversar com a enfermeira, precisava mesmo ficar um pouco sozinha para colocar a mente em ordem. Antes do acidente, tinha decidido conversar com Esme, esclarecer algumas coisas, ela era sua mãe afinal de contas e não poderia ignorar isso, e, agora ao acordar sua resolução apenas aumentou. Esse desejo cresceu depois do sonho louco que teve enquanto inconsciente, um sonho louco qual se encontrava com Mel e ela a mostrava sobre o que realmente era o certo, falava sobre o sentimento imensurável que era o amor. O verdadeiro amor.
–Você acha que estou tomando a decisão certa, bebê?
Seu filho respondeu com um chute potente, não havia melhor conselheiro que ele, sempre a escutava, imaginar se ver separado do seu pequeno Sapinho era doloroso demais, apenas o pensamento a deixava sem ar, Esme havia sentido a perda na carne, a incerteza de saber se a filha estava viva, a dor por ter confiado na pessoa errada, não podia lhe condenar, ainda mais agora que seria mãe também.
–Você limpou o prato, Sra. Cullen. – o tom brincalhão de Edward a fez sorrir – Não está cansada?
–Não. – foi traída por um bocejo involuntário e ele ergueu uma sobrancelha – Um pouco, mas preciso falar com Esme primeiro.
–Vocês podem conversar amanhã. – se sentou ao seu lado acariciando seu cabelo – Já passamos por coisas demais hoje.
–Tem que ser hoje. – seu braço direito estava começando a doer, deveria estar na hora de outra dose dos medicamentos.
–Você está cansada e com dor, por favor, pequena, amanhã vocês conversam melhor e com a cabeça fria.
–Eu preciso fazer isso agora. Amanhã pode ser tarde demais.
Ele deu um pequeno sorriso e beijou levemente seus lábios.
–Quando voltarmos pra casa, vamos ficar deitados em frente à lareira por dias. Só nós três.
–E o Red?
–Sim, aquela bola de pelos também.
–Eu te amo, Edward.
–Eu também te amo.
Uma pequena batida na porta os arrancaram da bolha de paz que se encontravam, Edward se endireitou na poltrona desconfortável e pediu para que entrassem, uma enfermeira entrou com um sorriso um pouco forçado e aplicou o medicamento na bolsa do soro.
–É para dor. Vai te dar um pouco de sono.
–Eu não quero dormir agora.
–Quanto mais você descansar, mais rápido sairá daqui.
A proposta era altamente tentadora, mas tinha que resolver logo esse assunto, não suportava mais pontas soltas na sua vida e já era hora de assumir a direção e mostrar que não era uma garotinha, a muito havia se tornado mulher e precisava provar isso com suas atitudes.
Estava cansada, seu corpo pedia por descanso urgentemente, não poderia dormir tinha a necessidade de resolver sua vida.
Edward se aproximou mais da esposa e começou a cantarolar uma cantiga de ninar em seu ouvido, ela poderia ficar brava depois, mas sabia que o descanso era essencial para sua recuperação. Ele precisava dela bem e saudável, sempre tinha sido obvio que se ela estava bem ele também ficava e agora mais que nunca.
A porta se abriu fazendo um pequeno barulho e ele ergueu a cabeça dando um sorriso para a tia, via nos olhos dela o alivio e a felicidade, com poucos passos cruzou o espaço até eles e mal lhe deu atenção, Bella tinha acabado de dormir.
–Que bom que puderam vir. – se levantou e fez com que a tia sentasse – Ela acabou de pegar no sono.
–Eu entendo, não consegui pregar o olho. – suas mãos estavam tremendo e fechou para tentar conter o nervosismo – Ela pediu mesmo para que víssemos?
–Sim. – confirmou caminhando até seu tio que continuava parado na porta imóvel – Ela quer conversar com os dois.
–Você acredita que ela vai nos dar uma chance?
Carlisle não estava muito convencido de que Isabella iria escuta-los, seu último encontro não havia sido positivo para nenhum dos dois, ainda temia uma nova discussão ou rejeição e devia confessar que não se sentia pronto para nenhum dos dois.
–Não posso ter certeza. – disse sinceramente – Ela está abalada por causa do acidente, os hormônios da gravidez e tudo o que está acontecendo, sei que ela está sofrendo o que está acontecendo e quer acabar com a guerra que nossa família vive.
–Seria bom ter um pouco de tranquilidade. – sua voz baixou observando a esposa acariciar os cabelos da filha – Esme está muito triste, não come, não dorme...
–Bella não está muito melhor. Ela fala tanto com o bebê que o coitado ou vai nascer paranoico ou pronto para se tornar psiquiatra.
O homem mais velho soltou uma risada chamando a atenção da esposa.
–Vamos esperar que ela acorde. Duvido que Esme queira ir para casa.
–Também duvido, aceita um café?
–Claro. Amor, vamos tomar um café, qualquer coisa me liga.
–Tudo bem.
Esme viu seu marido sair do quarto junto com o sobrinho e pode soltar um suspiro de alivio, ele sempre se preocupava de forma demasiada, esse era um traço presente na genética Cullen, a possessão. Todos eles tinham esse traço, sempre acompanhado da necessidade de cuidar e proteger a família.
Bella se moveu incomodada por não conseguir uma posição confortável para dormir e abriu um olho, a dor ainda não tinha cessado no todo, não conseguiria dormir com essa distração. Procurou Edward pelo quarto, mas em seu lugar estava uma mulher, demorou alguns segundos para poder focalizar e identificar Esme.
–Oi.
Com um movimento atrapalhado Bella se sentou e a abraçou, um abraço desengonçado e estranho por causa do braço dolorido, foi impossível não relaxar com Esme por perto, desde que a conheceu se sentia segura e em casa com ela, logo lágrimas invadiram seus olhos.
–É tão bom ver que você está bem. – a afastou para olhá-la melhor – Você... Você queria falar comigo?
–Sim... – agora que tinha Esme ali na sua frente as palavras escaparam de sua mente – Primeiro; queria me desculpar pela forma que tratei você e... Pelo que falei. Sei que te magoei e me arrependo muito.
–Não tem pelo que se desculpar. Você agiu querendo proteger Charlie e eu entendo isso. Todos estávamos com os ânimos exaltados e erramos, principalmente com você.
–Não, eu poderia ter sido mais madura e conversado com vocês quatro, deveria ter pensado no quanto estava magoando vocês, mas não o fiz, não agi corretamente.
–Filha, você agiu corretamente, eu e Carlisle cometemos um erro por antecipação. Ele agiu pela emoção e eu não discordei... Todos nós fomos culpados. Eu falhei como mãe quando você foi tirada de mim... Falhei duplamente ao agir daquela forma. Sou eu quem deveria te pedir perdão.
Bella fungou tentando engolir o choro, já bastava de lágrimas.
–Já passamos por muita coisa, Esme... Todos nós. – refletiu apertando sua mão – Eu sempre me considerei sua filha, sempre a amei e tenho orgulho por ter tanto vocês quanto os Swan. Quero apenas a paz entre todos, não vou escolher entre um e outro. Ou eu tenho todos ou não vou ter nenhum.
Esme concordou apertando a moça em seus braços. Não iria cometer os mesmos erros, havia perdido a filha duas vezes faria o que estivesse ao seu alcance para corrigir as últimas semanas,
–Eu vou estar com você, filha, prometo que vou estar ao seu lado para tudo, não te machucarei novamente.
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