O Que Somos
22 Bônus
–Gabriel, se não sairmos agora vamos nos atrasar.
A voz de sua mãe o fez bufar. Odiava aquela cidade pequena no meio do mato, odiava datas comemorativas estudantis tolas e com certeza não gostava de estar vestido como Abraham Lincoln com aquela cartola idiota.
–Já estou indo. – Respondeu emburrado.
Desceu as escadas com passos duros, não podia acreditar que se deixou convencer a fazer isso, era um idiota e seria, com certeza, a piada da escola por semanas.
–Olha o meu menino, como está lindo. – Renée o abraçou apertado e beijou sua bochecha. Ele tinha crescido tão rápido, nem parecia com aquele bebê de bochechas rosadas que trouxe do hospital para casa.
–Mãe, por tudo o que é mais sagrado, não fale isso na frente dos meus amigos. – implorou saindo dos seus braços – Já basta essa roupa ridícula.
–Abraham Lincoln foi um grande homem filho. – Charlie falou entrando na sala e pegando os casacos e abrindo a porta da frente. A noite estava fria – Não precisa ter vergonha disso.
–Pai, eu tenho quase quatorze. – pegou o casaco e saiu esperando o pai trancar a porta – Isso pra mim é totalmente dispensável e vergonhoso, uma real afronta a minha masculinidade.
Charlie riu e abriu a porta do carro para sua esposa, enquanto seu filho ainda resmungava e entrava no banco de trás. Dirigiu mais devagar do que o de costume por causa da chuva forte. Parou no estacionamento da escola, que já estava relativamente cheio, e saíram correndo para o interior quente. Renée reconheceu uma de suas amigas e foi cumprimentá-la; Gabriel rolou os olhos e foi atrás de seus amigos.
O único ponto positivo em uma apresentação de escola era o fato de não ser o único a vestir uma roupa ridícula, riu ao reconhecer seu melhor amigo Augie com a roupa de Napoleão. Augie era baixinho, loiro, com os olhos castanhos que escondia atrás dos óculos de armação redonda. Eles se conheciam desde o jardim de infância e eram obrigados a admitir estarem apreciando ver vários dos idiotas da escola com roupas piores que a sua.
–Gabe, você está ótimo. – Augie colocou o chapéu na cabeça ajeitando os óculos no rosto – Preferiria ter uma cartola a usar essas calças de lycra me apertando.
Ele riu tirando a cartola e passou a mão pelos cabelos, nervoso. Caminharam juntos até a sala do teatro rindo dos outros garotos a sua volta. Gabriel não era popular, estava longe disso, era um nerd, gostava de ciências e queria ajudar as pessoas, possivelmente seria um advogado como seu pai ou até mesmo um médico. Não queria se prender ao colégio e às pessoas idiotas sem futuro e acabar naquela cidade pequena para o resto de sua vida enquanto trabalhava no bar local. Almejava bem mais do que qualquer um ali.
–Swan. Você se superou, está mais idiota do que normalmente.
A voz sarcástica de Mark Coulson se fez escutar. Esse era o mais burro, imbecil e capitão do time da escola. Gabe não sabia como as garotas podiam babar por um imbecil desses. Mas essa era a vida, mulheres fúteis gostavam de homens mais fúteis ainda. A roupa verde do exército italiano retratando Mussolini destacava seus braços fortes demais para sua idade e seus olhos escuros demonstravam o sarcasmo de poder constrangê-lo.
–Parece que nossas fantasias apenas realçam quem realmente somos. – sorriu de lado – E você é quem? Hitler?
Todos as pessoas que estavam ao redor e tinham parado para assistir a pequena discussão riram. Era sempre assim, Coulson o provocava e Gabe revidava. A verdade é que era o único que tinha coragem suficiente para bater de frente com os garotos do time e defender aos outros.
–Sou Mussolini – falou entredentes – Hitler tem o bigode, esqueceu?
–Não, mas pensei que você tivesse esquecido ou que o tanto de ar na sua cabeça devia sugado o bigode para dentro do seu cérebro. Agora pelo menos o espaço destinado a ele não estaria vazio e o pequeno caroço de ervilha teria companhia.
Novamente risadas foram ouvidas e o garoto mais alto avançou pra ele. Gabe não moveu o corpo um centímetro esperando o ataque eminente, mas antes que o primeiro dedo fosse colocado nele a professora os chamou para tomar seus lugares. Soltou um sorriso sarcástico para o colega e entrou. Foram os trinta minutos mais torturantes da sua vida, ficar em cima de um palco com todas aquelas pessoas o olhando como se fosse algum animal no zoológico.
A peça era basicamente sobre os principais líderes e suas influências no mundo moderno, falaram sobre seus principais feitos e fizeram uma discussão em volta de uma mesa redonda. A maioria do texto formava uma comédia, mas, ainda sim, se sentiu melhor quando acabou e as cortinas abaixaram. Os aplausos do lado de fora fizeram os meninos sorrirem orgulhosos.
–Gabe, você estava incrível. – Não podia acreditar que Lily estava falando com ele, logo a menina por quem era apaixonado desde os oito anos. Com sua pele bronzeada, a maquiagem marcando abaixo dos olhos e aquela roupa de Cleópatra.
–É... Hãm... Obrigado. – encontrou sua voz – Você estava fantástica, Lily.
–Obrigada. Queria te agradecer por participar – Sim, ele tinha participado porque ela pediu e não se envergonhava em admitir – Com certeza não existe ninguém melhor para o papel do que você.
Gabe sentiu suas bochechas corarem e desviou o olhar envergonhado, não sabia o que dizer pra ela, sorriu um pouco sem graça e percebeu que ela estava se aproximando para beijar sua bochecha. Em um ato inconsciente, Gabe virou o rosto e seus lábios se encontraram em um contato inocente, mas demorado. Seu coração parecia dar pulos dentro do peito. Assim como apareceu, Lily entrou no meio da multidão e o deixou ali sozinho com um pequeno sorriso no rosto e com os dedos nos lábios.
Mais feliz do que poderia um dia estar, Gabe correu atrás de seus pais. Havia, com certeza, ganhado o dia, a semana, o mês. Talvez o ano. Sorriu para alguns professores que também participaram da organização e viu seu pai em pé no corredor segurando a cintura de sua mãe. Os olhos dela, azuis como os seus, brilhavam de alegria incontida e não pode se importar menos quando se viu preso em um abraço forte com vários beijos sendo depositados em seu rosto. Apertou a mão de seu pai, reconhecendo o gesto de respeito que aquilo demonstrava para os homens Swan e o abraçou.
Após a peça houve uma pequena recepção com alguns aperitivos, riu com os meninos da equipe de xadrez sobre como agora ele iria ser respeitado na escola e trocou vários olhares com Lily. Assim que tivessem um tempo a sós a pediria em namoro, não deixaria que um idiota como Coulson a namorasse. No fim da noite voltaram para casa. Ainda chovia, não tão forte quanto antes, mas ainda parecia uma chuva persistente. O aquecedor do carro estava ligado no máximo. Pararam na fila de carros formada, provavelmente, por algo que a chuva tinha derrubado, criando um bloqueio na estrada praticamente escura.
–Mas você se divertiu querido? – Renée olhou pra ele do banco da frente.
–Sim, você tinha razão, eu precisava fazer isso. – colocou novamente a cartola na cabeça – Eu serei um bom presidente no futuro.
–Com certeza será. – Charlie confirmou – O melhor e mais justo que poderíamos ter.
O menino sorriu com o apoio dos pais e encostou a cabeça no vidro frio, estava exausto e assim que chegasse em casa ia cair na cama. Sem vídeo game por hoje. No canto da estrada viu um pequeno vulto e algo parou na guia, parecia um animalzinho, limpou o vidro embaçado da janela e forçou sua vista a enxergar melhor. Estava muito escuro, mas mesmo assim conseguiu reconhecer perfeitamente o que estava do lado de fora na chuva. Abriu a porta do carro andando apressado entre os outros veículos escutando os gritos de sua mãe e os prováveis passos de seu pai. Chegou até a pequena criança sentada e reparou que era uma menina, uma menina muito pequena que estava roxa de frio. Tirou seu casaco grosso, se ajoelhou na frente dela e colocou o agasalho até encobri-la toda.
–Está tudo bem – garantiu com a voz suave quando ela se afastou dele e apertou o casaco mais forte – Não vou te machucar.
–Gabriel, por que você correu filho? – Charlie estava sem fôlego, não tinha idade para correr atrás de criança.
Parou subitamente ao avistar o pequeno embrulho que o garoto tinha feito, sua boca ficou aberta ao se dar conta de que se tratava de uma menininha, era promotor da vara de infância, mas sempre se surpreendia quando encontrava alguma criança nessas condições. Quem em sã consciência deixaria uma menininha naquele lugar perigoso e escuro, ainda mais na chuva? Se ajoelhou ao lado do filho e a olhou, ela se afastou deles pronta para correr, mas segurou sua pequena mão.
–Oi pequena. – falou carinhosamente – Não se preocupe. Não vamos te fazer mal, vem comigo. Vamos sair dessa chuva.
Ela os olhou com desconfiança e segurou na mão do menino que tinha entregado seu casaco. Charlie a pegou no colo e caminhou até o carro. Sua esposa o fitou surpresa quando entrou no automóvel e colocou o embrulho pequeno no banco de trás. Olhou os cabelos cacheados castanhos, os olhos verdes cautelosos e a pequena mão que segurava firmemente a de seu filho.
–Onde ela estava? – indagou aflita.
–Lá fora. Na chuva e sozinha. – Ele tirou o casaco e enrolou nela também tentando fazer com que ela parasse de tremer. – Temos que ir a um hospital, ela precisa de ajuda médica. Tentar encontrar a família dela.
Renée concordou com a cabeça e abaixou um pouco os agasalhos em volta da menina vendo as marcas roxas no pequeno rosto e o corte no lábio. Mordeu o próprio lábio para conter o grito de horror. Como poderiam fazer isso com uma garotinha indefesa?
–Mãe? – Gabriel viu os olhos de sua mãe encherem de lágrimas – Ela vai ficar bem, não vai?
–Claro que vai. – garantiu com um sussurro rouco – Como se chama anjo?
A menina se encolheu mais no abraço de Gabriel e escondeu seu rosto no peito dele com medo da mulher. Ela sabia que os adultos a machucariam, mas ali estava quente e estava confortável, por mais que seu corpo não parasse de tremer.
–Charlie. – Ele olhou para a mulher por um instante e voltou a prestar atenção no transito que começou a andar. – Ela está machucada, alguém bateu nela. Não podemos entregá-la de volta para esse animal.
–Não vamos. – falou decidido – Te prometo.
Ele dirigiu o mais rápido possível até o hospital da cidade, estacionando o carro de qualquer jeito. Pegou a garotinha nos braços e a enrolou mais forte para protegê-la do ar frio. Assim que colocou o pé na recepção uma enfermeira foi até eles questionando o que tinha acontecido. Em poucas palavras explicou e pediu para que Renée esperasse com Gabriel na recepção enquanto acompanhava os exames. Mas quando seu filho soltou a pequena mão ferida, a menina se contorceu no seu colo chorando alto, desesperada. Não confiava naquele homem, o outro já tinha ferido-a e este poderia fazer o mesmo. Precisava escapar.
–Meu filho pode ir conosco? – pediu percebendo que apenas com a presença dele ela ficaria mais calma – Pelo menos até medicá-la.
Não eram as normas do hospital, mas a enfermeira permitiu mostrando a ele onde deitar a menina. Mediu a temperatura dela, comprovando o estado crítico de hipotermia, inflação pulmonar, desnutrição, desidratação e pneumonia. Chamou o médico e aplicou um sedativo, a menina estava muito agitada, pediu para que os rapazes saíssem e trocou o vestido rasgado e sujo por uma camisola do hospital.
Charlie voltou para a recepção segurando o ombro de Gabriel, ainda não sabia como interpretar o que tinha acontecido, era simplesmente demais que em uma noite com a família seu filho tenha encontrado uma pequena menina machucada. Pediu para usar o telefone do hospital e ligou para o seu gabinete, pediu para que um dos estagiários procurasse registros de crianças desaparecidas e queixas de agressão naquela região, chamou o chefe de polícia que garantiu não ter nenhum alerta para crianças desaparecidas em pelo menos três cidades vizinhas. Não existia nenhum registro de uma menina desaparecida com as características dela. Passou a mão pelo cabelo, frustrado, e suspirou. Tinha visto as incontáveis marcas de agressão no corpo dela quando a enfermeira retirou os casacos, queria encontrar aquele monstro e fazê-lo pagar pelo que tinha feito. Na maioria desses casos eram os próprios pais que cometiam esses crimes.
–Sr. Swan? – um homem de uns cinqüenta anos, vestido de branco parou na sua frente.
–Sim.
–Sou Dr. Lambert. – estendeu a mão que Charlie apertou – Verifiquei a menina que você me trouxe. Ela está em estado crítico, mas é bem forte, a temperatura já se normalizou e os medicamentos estão fazendo efeito. Encontramos vários hematomas e cortes, principalmente nas mãos e nos pés, ela tem um corte profundo na nuca, precisou levar cinco pontos, aparentemente foi de alguma pancada que ela levou e ainda não tenho certeza sobre sequelas. Fizemos uma ressonância magnética e tudo parece estar bem. Se permanecer assim em dois dias ela vai para casa. O senhor sabe quem são os pais?
–Não, não sabemos. Meu filho a encontrou na beira da estrada na chuva, estou investigando sobre isso no momento, mas não se preocupe que ela fica sob a minha proteção.
–Muito bem, então qualquer alteração no estado dela eu entro em contato com você.
Ele concordou e foi atrás de sua família, não sabia como encarar seu filho e dizer que não tinha nada que pudesse fazer por aquela menina. Encontrou-os enrolados em um cobertor. Ambos dormiam. Charlie beijou a testa de sua esposa e ela abriu os olhos vermelhos e inchados. Sentiu seu peito se comprimir, ele sabia exatamente o que ela estava sentindo.
A abraçou e acordou Gabe, não tinham nada o que pudessem fazer no momento a não ser aguardar. O caminho pra casa foi silencioso, cada um preso em seus próprios pensamentos, parou o carro na garagem e entraram acendendo as luzes. Depois de um banho quente e garantir que seu filho estava dormindo, ele fora se deitar.
–Encontrou alguma coisa sobre ela? – a voz baixa e rouca de Renée mostrava o quanto tinha chorado.
–Nada. É como se ela não existisse no sistema. – suspirou – Já falei com alguns colegas de Seattle amanhã vou enviar os relatórios médicos, talvez quando ela acordar possa nos dizer seu nome e quem fez isso com ela.
–Como alguém pode fazer aquele tipo de crueldade? – fungou – Ela é só um bebê. Vamos entregá-la ao Estado para que eles a devolvam para os pais biológicos e ela acabe morta em uma valeta?
–Não podemos fazer mais nada por ela. A partir de agora é o Estado que é o responsável. Não temos o poder divino nas mãos, só podemos orar por ela.
Durante a noite a família Swan não conseguiu pregar os olhos e assim que as luzes claras apareceram estavam de pé na cozinha, Charlie se serviu de uma dose de café ainda pensando em uma solução para aquela criança, não poderia deixar que a entregassem para o lugar de onde ela veio. Com toda sua experiência, sabia que, se isso acontecesse, na próxima vez que o chamassem não a encontraria viva. Sua esposa estava brincando com a xícara de chá. Escutou um barulho de coisas caindo na sala e olhou para a porta vendo seu filho entrar com uma caixa não mão e ergueu uma sobrancelha.
–Está se mudando?
–Não, eu queria levar essas coisas para aquela menina no hospital hoje. – explicou colocando a caixa com dificuldade em cima da mesa – Acho que ela vai gostar.
Renée sentiu seus olhos encherem de lágrimas, seu menino estava sendo tão atencioso com aquela criança que nem sabiam o nome, caminhou até ele e deixou um beijo nos cabelos molhados do banho recente.
–Tenho certeza que sim. Eu e seu pai vamos nos trocar e depois iremos, tudo bem?
Ele concordou com a cabeça e seguiu para cozinha, mexeu nos armários até encontrar uma vasilha e colocou um pouco do seu cereal de chocolate favorito e pegou uma garrafa pequena de leite, ajeitou da melhor forma possível na caixa e foi para a garagem.
–Você acha que isso é bom pra ele? – Charlie questionou preocupado.
–É sim, Gabe é um excelente menino e salvou uma vida na noite passada, ele só quer saber se ela vai ficar realmente bem. – sua mulher sussurrou seguindo o filho pelos corredores do hospital. A enfermeira já tinha liberado a entrada e seu pequeno rapaz caminhava apressado com a caixa na mão.
Gabriel estava ansioso para ver se a menininha estava bem, tinha separado algumas de suas coisas para ela e esperava que ela gostasse e que não tivesse medo dele, abriu a porta lentamente a vendo sentada na enorme cama branca, dava para perceber de longe que ela tinha medo daquele lugar, foi até ela com passos calmos, deixou a caixa em cima da cama e parou ao seu lado.
–Oi. – falou baixo – Meu nome é Gabe. Se lembra de mim?
Ao ouvir a voz dele, a menina levantou os olhos ansiosos e assentiu uma única vez, se sentia segura com ele, mesmo que tivessem outros adultos a sua volta, eles a resgataram daquele monstro, então deveriam ser bons.
–Qual é o seu nome?
Ela o olhou por um momento perdida, suas lembranças eram caóticas e nubladas, tudo o que se lembrava era do medo, abriu a boca, mas não tinha palavras, se afastou mais na grande cama e apertou o cobertor contra o seu corpo. O menino, vendo que ela provavelmente não tinha um nome, olhou para os pais que estavam em pé abraçados ainda na porta e se voltou para a pequena garotinha, pegando sua mão machucada. Ela não recuou ao seu toque e ele sorriu ao confirmar que ela confiava nele.
–Está tudo bem. – garantiu. – Tem muita gente que não tem nome, então precisamos encontrar um para você. Um bem bonito.
Sorriu mais e ela retribuiu com um pequeno, mas seus olhos ainda cautelosos com sua aproximação. Ele se sentou na beirada da cama e puxou a caixa para mais perto. Pegou a vasilha com cereal e o leite.
–Você já tomou café?
Ela negou apressadamente, estava faminta e quando a vasilha foi colocada em sua mão praticamente engoliu o alimento, fazia muito tempo que não comia e aquilo era muito bom, Gabriel aproveitou que ela estava distraída com o cereal e mexeu na caixa tirando tudo de dentro. Pegou um grande cachorro marrom de pelúcia que vestia uma camiseta vermelha do seu time de baseball favorito, o bicho era quase do seu tamanho e mostrou pra ela.
–Esse aqui é o Red. Meu pai me deu ele quando tinha seis anos. – colocou no colo dela – ele é seu agora, para te proteger.
–Obrigada. – a pequena voz frágil fez a boca de Renée se abrir e ela caminhar até a cama. Se sentou do outro lado, acariciou os cabelos chocolates.
–Você sabe quantos anos tem? – perguntou quando ela se encostou no seu corpo apreciando o carinho, ela fez uma careta pensativa e mostrou quatro dedos da mãozinha machucada.
–Eu tinha assim antes. – sussurrou e mordeu o lábio – Vocês vão me entregar pra ele?
As lágrimas já escorriam pelo seu pequeno rosto ao pensar que voltaria para as mãos daquele homem horrível.
–Não. – Charlie falou firme – Mas quem é Ele?
–O monstlo. – se enrolou na palavra.
–Ele fez isso com você?
Ela assentiu e escondeu o rosto no pescoço de Renée chorando, não queria voltar, ele a machucaria mais.
–Ele é o seu pai?
Por um momento ela não sabia o que responder, então deu de ombros e voltou a olhar o homem alto parecido com aquele menino que ainda segurava sua mão.
–Eu trouxe uma camiseta pra você – Gabriel quebrou o silencio que se formou no quarto – É da minha banda de rock preferida. Está pequena em mim agora, mas vai caber perfeitamente em você.
Charlie fez um sinal para Renée acompanhá-lo até o lado de fora e deixou seu filho falar sobre as músicas e bandas preferidas para a menina, fechou a porta para que não pudessem escutar o que iriam conversar.
–Quero tentar uma coisa e preciso saber o que você acha. – falou rápido, nesse momento parecia a melhor atitude a se tomar – Podemos ficar com a guarda provisória dela, até que encontremos alguma pista.
–Será que essa é a melhor opção pra ela? Essa menina precisa de carinho e compreensão e será que podemos dar tudo isso?
Ele pegou suas mãos e as levou aos lábios, era a mesma pergunta que se fazia, mas parecia a coisa certa para se fazer.
–Quando nos casamos você me disse que tínhamos que confiar nas vontades de Deus, porque Ele sabia o melhor para nós e que durante o percurso do nosso casamento ganharíamos presentes, como o Gabriel, e também desafios. Ele nos deu essa menininha para cuidarmos, talvez essa seja nossa missão, dar amor para ela, instrui-la de que no mundo há muito mais que apenas dor.
Os olhos da mulher se encheram de lágrimas e abraçou ao marido com força, ele tinha razão, aquela menininha assustada chegou a eles, haviam dezenas de carros parados na estrada e apenas o seu filho tinha conseguido enxergá-la. Deveria confiar na vontade do Senhor. Sim, aquilo realmente era a melhor decisão a ser tomada.
Retornaram ao quarto encontrando seu filho sentado na cama mostrando um álbum de fotografias antigo para a menininha que ainda segurava o grande cachorro de pelúcia com força, concentrada nas palavras de Gabriel. Ele olhou para cima e sorriu para os pais.
–Mãe, escolhemos um novo nome para ela.
–Sério? E qual é?
–Isabella. O nome dela agora é Isabella!
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