O Que Sinto por Você.
3 When I Look at You
Ele não precisava ter feito tudo aquilo. Eu confesso que acabei por me perder um pouco quando ele tirou a camisa, mas qual a necessidade? Era visível a diferença entre os dois. Mas eu não teria ido embora por causa disso, foi esse sol todo que me fez passar...
Eu precisei vomitar de novo. Maria estava do meu lado me ouvindo contar o que houve e segurando o balde pra mim. Eu não queria que ninguém me visse desse jeito. Atrás da arquibancada eu achei várias pontas de cigarro, algumas latas de cerveja e uma camisinha usada. Quando eu olhei pra essa coisa nojenta de novo eu vomitei outra vez.
— Amiga, isso parece insolação. Você precisa ir pra enfermaria. – Maria sempre parecia pronta pra fazer uma piada, mas dessa vez ela estava tão séria que aceitei sua ajuda e tentei andar, quando acabei perdendo os sentidos.
A melhor parte de um desmaio é que você não sabe o que aconteceu. A pior parte, é que não saber o que aconteceu. Ponto positivo: eu estava na enfermaria. Ponto negativo: me olhando muito preocupado estava o Laurent sentado na cadeira de frente pra minha cama. Eu quis desmaiar de novo. Fechei os olhos rapidinho imaginando que ele não tivesse visto, mas eu olhei diretamente nos olhos dele, ele tinha me visto. Mas ele apenas se levantou e pelo barulho dos passos foi pra perto da porta. Em seguida alguns passos rápidos e Maria chamou meu nome. Quando eu abri os olhos, ela estava com a cara colada na minha, dava até pra sentir o hálito de menta dela. E Laurent estava de plano de fundo, a expressão séria com aquele boné preto me arrepiou. Maria começou a falar mais que eu quando estou nervosa, e nisso eu parei pra reparar na enfermaria. Minha cama era como de hospital, haviam 2 cadeiras a minha esquerda, sendo uma mais perto do pé da cama e outra bem ao meu lado. Uma pequena cômoda encostada na parede oposta e uma janela pro céu com nuvens, mas com um sol radiante. Uma cortina separava minha cama da cama ao lado, tendo mais uma terceira, todas vazias. Laurent fechou a cortina e pelo barulho saiu pela porta e a fechou em seguida. Maria parou de falar por um instante, deu uma espiada pela cortina e voltou pra mim com um sorriso no rosto:
— Ele te carregou!
Eu senti meu rosto ficando muito quente, e no ar condicionado daquele lugar, isso significava muita coisa. Eu puxei a coberta e escondi meu rosto gemendo de vergonha. Maria puxou a coberta de volta e disse que eu era muito pesada pra ela, e que ele foi o primeiro que ela viu.
— Podia ter me arrastado, não ligo. Mas tinha que ser ele?
— Achei que gostava dele.
Eu voltei a me esconder com a coberta, pensando em quem notaria minha amiga voando pela janela. Ela começou a implicar comigo dizendo que eu gostava e que ele era um partidão.
— O homem mais gato dessa cidade, eu diria até do Brasil, com dinheiro suficiente pra comprar essa PUC toda e você aí de frescura.
— Eu não quero o dinheiro dele. E não ligo pra beleza externa.
— Que conversa fiada. Pode até não querer o dinheiro, mas não venha me dizer que prefere Guilherme do que ele.
Guilherme era o filho do professor de educação física. Gatinho, mas não do jeito que eu gosto. Tinha um nariz muito grande e olhos muito separados. Algumas, digo, a grande maioria, nem nota isso e acha ele um gato, mas eu não tenho toda essa queda por ele. Ao contrário dele por mim, que desde a primeira semana já me olhava e só depois de um mês veio falar comigo, já que eu não caí nos gracejos do Don Juan da PUC. Então com certeza eu prefiro meu perfeitinho do que ele.
— Não quer dizer nada. Mas se ele é tão bonito assim, fica pra você
— Tá maluca amiga? Eu deixei você bater a cabeça, mas você...
— VOCÊ FEZ O QUÊ?
— ... tá delirando se acha que vou querer ele pra mim. Você que gosta dele, eu vou ser a cupido de vocês dois.
— Eu não gosto dele. Aliás, ele nem é grande coisa assim.
Ele entrou na enfermaria de novo, acompanhado do Sr. Curcio, o doutor de plantão. Ele era literalmente doutor, e ajudava os alunos que estavam passando mal além de dar aula.
— Como se sente?
— Bem, doutor.
Ele era bem mais baixo que Laurent, e com os ombros bem menores.
— O Sr. Chastel me disse que você pegou chuva esses dias.
— Mas foi bem pouquinho.
— Seu nariz estava vermelho. – A voz dele indicava seriedade como eu nunca tinha ouvido antes. Ele parecia realmente preocupado com meu estado. Além disso, Sr. Chastel? Então esse era o sobrenome dele? E esse Sr. seria de um homem casado? Ele não tinha aliança, além de estar vindo me ver. Mas isso não queria dizer nada, ou queria?
— Eu estou bem Laurent. – Eu disse sem pensar, e acabei chamando-o pelo primeiro nome, o que me fez corar de novo. – Sr. Chastel, desculpe.
Ele sorriu e estendeu a mão pra mim. Era uma mão forte e quente, além de ter o dobro do tamanho da minha. Ele segurou minha mão e deu uma leve balançada enquanto dizia:
— Bernardo Laurent Chastel, um prazer.
Eu engoli completamente minha língua. Ainda estava segurando a mão dele quando Maria tocou na minha perna sem ninguém ver, e eu soltei.
— Ana Moreira Salles, prazer.
Mas ele já sabia meu nome. Idiota mil vezes! Ele só fazia sorrir, e já parecia muito mais relaxado do que antes. O doutor Curcio parecia satisfeito e me liberou para tomar um banho acompanhada da Maria, e nós só sabíamos rir da minha cara ou falar do Bernardo. Bernardo Laurent Chastel. Eu gravaria esse nome mais facilmente que qualquer fórmula matemática.
Quando saí do vestiário Bernardo conversava com José, o coordenador. Eles estavam exatamente no centro da cúpula, por onde eu passava sempre que precisava ir pra qualquer lugar, apenas porque eu amava aquele lugar. Bernardo me viu primeiro, e José acompanhou seu olhar. Eu tinha ido com um vestido florido e uma jaquetinha jeans por cima, apenas pra não atrair muitos olhares. Mas acabei atraindo o de Bernardo, que de novo parecia preocupado.
— Ana, que bom te ver bem.
— Não 100% José, mas vou ficar.
Ele sorriu como um bom coordenador, e se despediu de mim com um aceno de Bernardo com um aperto de mão. Eu quase berrei pra ele não me deixar sozinho, mas não deu tempo. Bernardo já se virava pra mim e eu não conseguia tirar os olhos dele.
— Me permite te levar para casa?
Eu gelei da base da espinha até os cabelos. Ele me levaria pra casa? Calma aí rapaz, que se minha mãe o visse, ela iria surtar. Nem sei o que meu padrasto faria!
— Acho melhor não...
— Pra você entrar em um ônibus ardendo e desmaiar de novo?
Ele parecia ter razão, mas estava muito quente pra pensar. Eu quase podia sentir meu cérebro derretendo pela orelha. Ou era só suor mesmo.
— Eu... tudo bem.
Eu o segui até o estacionamento e pensei em perguntar qual era o dele, quando percebi que não precisava. Eu não sou muito boa com nomes de carros, mas meu pai era apaixonado na marca Jaguar. Dizia que um dia teria um desse e até que me daria um desse. Eu concordava só pra ele continuar falando, porque eu adorava ver meu pai daquele jeito. Feliz. Vivo. O estacionamento era composto praticamente todo por carros populares, então o dele se destacava muito. Era um F-Type Coupé, e eu nem precisava perguntar. Conhecia todo os carros da marca. Custava por volta de meio milhão.
— Então, qual o seu? – Eu tentei soar divertida, mas acabou saindo mais menosprezante.
— Esse que você está em frente. – Ele disse sem deixar transparecer se achou graça ou ficou ofendido, o que eu achei péssimo sinal.
Ele destrancou o carro e abriu a porta pra mim. Um verdadeiro cavalheiro. Deu a volta pela frente e se sentou com toda graça do mundo ao meu lado. Quando ele ligou aquela máquina, o ronco do motor me fez apertar o encosto da porta, e ele me advertiu a colocar o cinto. Eu imaginei que ele iria correr com o carro, mas fez uma viagem muito tranquila até minha casa, enquanto apenas eu falava pra onde ir e a mulher na rádio falando sobre o tempo maluco. Eu comecei a me sentir desconfortável, e a situação piorou quando ele começou a olhar pras minhas coxas. Eu segurei com força na maçaneta da porta, mas não tentei abrir. Meu vestido não era muito longo, então quando eu me sentava, metade da minha coxa aparecia. Ele não parecia muito amigável. Eu comecei a me desesperar, mas tentei manter a mente calma. Era um lugar movimentado e faltavam poucos metros pra minha casa.
— É difícil pra fazer retorno, pode me deixar aqui mesmo.
Ele reduziu a velocidade.
— Esse vestido não está bom. Curto desse jeito, vai chamar a atenção indesejada.
Aí meu medo foi embora, virou repulsa. Como assim estava muito curto? Foi uma escolha minha e ele não precisava dizer isso. Ele não tinha a menor ideia de como é difícil ser mulher. Posso sair com qualquer roupa que eu vou ser assediada de todo jeito.
— Obrigada pela carona, mas eu quero descer agora.
Ele parou o carro abruptamente e colocou a marcha no P, as portas se destrancaram e eu saí do carro sem dizer mais nada. Que cara idiota, eu nem podia acreditar que ele tinha dito isso. Foi tão ridículo e eu estava tão brava que não percebi o perigo. Na porta da minha casa tinham 2 homens. Eram amigos do meu padrasto. O carro de um deles estava bem na frente da minha casa, e eles pareciam embriagados ou algo assim. Maicon me chamou:
— Nossa Aninha, você cresceu hein!
A risada deles me gelou a alma. Eu não queria passar por eles, mas tinha que entrar em casa.
— Não lembrava dessa sua coxa ser tão branquinha.
O outro cara eu não conhecia, e era o que me dava mais medo. Ele tinha realmente uma cara de maníaco. Quando ele começou a andar na minha direção eu me encolhi e só pensei em começar a gritar, mas ele não tocou em mim. Largou a cerveja no chão e entrou no carro com Maicon, passando bem longe de mim. Ele cantou pneu na hora de sair, e estava muito rápido para quem tinha acabado de beber. Eu não entendia o que tinha acontecido, mas quando segui o carro com meu olhar, acabei vendo Bernardo com a porta aberta, ao lado do carro dele. Ele olhou pra mim com tantos sentimentos sendo expressos ao mesmo tempo que eu não sabia qual era pior. Raiva, medo, tristeza. Mas a decepção foi o pior. Ele tinha acabado de me dizer isso, talvez por ter visto os dois na porta da minha casa, e eu nem pensei em perguntar pra ele o porquê daquilo. Depois de me olhar por 3 segundos, entrou no carro e também saiu muito rápido, o que significa muito pro carro dele. Eu me recuperei do choque e corri pra dentro de casa, enjoada por conta da adrenalina, e com medo de contar pro meu padrasto o que tinha acontecido. Eu corri pro meu quarto e tranquei a porta. Me sentei no chão e ali mesmo eu chorei. Não sei por quanto tempo, mas minha mãe deu uns toques de leve para me chamar pra janta. Não sei se ela ouviu o choro, mas eu respondi que já estava indo. Acho que ninguém presta muita atenção na própria casa, mas eu amava a minha. Meu pai morreu muito cedo, eu tinha apenas 8 anos. Minha mãe teve uma vida dura, por causa do meu avô que não a deixava estudar. Quando ela conheceu meu pai, tínhamos uma vida razoável. Morávamos num bairro bom, numa casa boa, tínhamos um carro na garagem e comida na dispensa. Depois que meu pai morreu, tudo complicou, e muito. Mas minha mãe deu a volta por cima. Nunca deixou faltar amor e carinho pra mim, nem estudos, apesar de as vezes não termos a janta. Conforme eu ficava mais velha, entendia nossa situação e me esforçava cada vez mais em estudar, para poder reverter isso. Mas ela conheceu meu padrasto, o David. Ele é ótimo e faz bem pra ela. Ainda moramos em casas separadas, cada um cuidando da própria vida, mas eles já dizem em se casar morarmos na casa do David, que tem mais condições do que nós. Eu nunca me importei com dinheiro, e sei que minha mãe também não. Estamos juntas, e apenas isso importa. Mas o David quer nos dar uma boa vida, porque ele realmente gosta de nós duas. Pensando nisso tudo eu tirava a maldita roupa que causou isso. Eu me censurei, não tinha sido a roupa, tinham sido os amigos do meu padrasto. Eu iria denunciá-los sem contar nada a ninguém. E o que será que Bernardo estaria fazendo? O que será que ele fez que os assustou tanto? Eu coloquei a jaqueta e o vestido no armário, pendurados em cabides. Não tinha muito lá dentro, nem era um armário grande. Peguei um short e uma blusa de pijama pois já estava pronta pra dormir. Meu quarto tinha uma cama, o armário, e uma cômoda com alguns livros e cadernos. Tudo muito rosa pro meu gosto, mas eu amava. Abri as cortinas (rosas) e olhei pra rua, nenhum sinal do Bernardo ou do Maicon. Quando eu estava me virando para sair do quarto, eu vi um carro estacionando em frente de casa. Era o carro do Bernardo. Eu saí correndo do quarto e acabei passando pela porta da cozinha, quando minha mãe me chamou e perguntou o que houve. Eu gritei de volta que era nada, e ao mesmo tempo alguém bateu na porta. Alguém pra minha mãe, Bernardo pra mim. Eu gritei que atendia a porta, que estava tudo bem, mas não estava. Eu estava pirando, tanta coisa pra absorver em pouco tempo ia me enlouquecer. Eu abri a porta e lá estava ele, com as mãos pra trás, sem o boné, com uma cara de cachorro sem dono.
— O que está fazendo aqui?
— Vim te ver.
De novo isso não.
— Já me viu, estou bem, obrigada, tchau.
Quando eu tentei fechar a porta a mão dele estava segurando, me impedindo.
— Eu queria me explicar.
— Não precisar Bernardo, sério, tá tudo bem.
— Bernardo?
Minha mãe estava na curva do corredor, com um pano de prato enxugando as mãos e as rugas nos olhos do sorriso no rosto. Minha mãe era tão linda que deveria ter sido modelo. Parecia comigo em muitos aspectos, mas principalmente no rosto.
— Sra. Moreira. – Ele abriu o melhor sorriso dele e estendeu a mão por mim. Cachorro.
— Só Isabel querido. – Ela estendeu a mão pra ele e apertou. Querido? – Quer entrar? Já íamos jantar.
— Adoraria!
Entrar? Jantar? Ele me olhou como quem pedia permissão, e com aquele olhar eu não podia negar. Cachorro duas vezes.
Depois de tudo que tinha acontecido naquele dia, eu ainda teria que jantar com Bernardo ao meu lado, meu padrasto na minha frente com cara de poucos amigos (o que era uma piada já que ele era mais franzino que o Guilherme, mas deixei ele se sentir) e minha mãe toda natural ao lado do David, mas eu sabia que ela estava delirando por dentro. Meu dia tinha sido muito longo para encerrar assim, mas tinha sido o aquecimento pra esse grand-finale.
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