O Que Sinto por Você.
4 What Goes Around, Comes Around
Notas iniciais
Eu percebi alguns erros de escrita em cap. anteriores e sinto muito por ter deixado passar, coisa boba mas que faz diferença pra mim. Meu Word se recusa a funcionar então talvez esse tenha mais erros ainda, mesmo eu tendo checado 4 vezes. Sinto muito, e se divirtam.
Eu não lembrava a muito tempo como era jantar em família. Minha família era só eu na maior parte do tempo. Minha irmã viajava o tempo todo, minha mãe não dava notícia a muito tempo e meu pai eu nem queria saber onde estava. Mas aquela família parecia não perder uma única refeição unidos assim. E estava tudo tão bom.
A pedido da mãe, Ana contou todo seu dia, desde o problema com a temperatura até a parte da carona, que ela omitiu. Apenas disse que tinha voltado pra casa e estava tudo certo. Eu não sabia porque ela mentiu, mas não quis constrangê-la desmentindo. Então o sentido de super mãe atacou e ela virou sua atenção pra minha mão. — E essa mão querido, o que houve? Estava num vermelho muito vivo que até então ninguém tinha percebido, bem nas juntas dos dedos. — Foi só um treinamento de boxe, Isabel. Mesmo sendo uma resposta pra desviar o assunto, David resolveu falar. — Ah é? A quanto tempo pratica? — Ele me olhava como quem sabia da mentira. Me senti numa mesa de pôquer. — Desde os 8. Era a resposta de sempre, e todos ficavam admirados. Mas não era bem boxe, era apanhar desde os 8. O restante do jantar prosseguiu com mais calma, com assuntos triviais e de fácil conversação. No final eu insisti pra me deixarem ajudar com a louça, já que eles me alimentaram, Ana concordou e disse que poderia me ajudar. A ajuda dela parecia incluir uma longa conversa. Depois de separar cada elemento em sua devida pilha, comecei lavando os pratos. Cada prato ensaboado iria pra outra pilha (a de pratos ensaboados, claro) que depois seriam lavados e iriam pro escorredor na ordem contrária da segunda pilha. Ana observava cada movimento ritmado que eu fazia, quase como um robô. — Pra quê tanta organização pra lavar vasilhas? — Assim não ocorrem erros ou confusões. — Tipo agir como se fosse meu dono e bater nos amigos do meu padrasto? Ao ouvir isso deixei a faca que estava na minha mão escorregar, e isso me gerou um bom corte na palma. Eu grunhi e apertei a mão, enquanto Ana se desesperava e fechava a torneira. Ela não sabia o que fazer e parecia um pouco hematofóbica, então virei a palma pra baixo e pedi um anti-séptico e gaze. Depois de alguns instantes ela voltou com os itens e disse pra eu me sentar que ela cuidaria disso. Quando ela terminou de limpar a ferida, eu pensei ser a hora certa de me explicar, mas falar perto dela era sempre mais difícil. — Se eu tivesse seguido a organização, eu estaria com um prato na mão e o máximo que aconteceria era um prato quebrado. — Ela me olhou com uma cara de escárnio. — Mas o que eu estava fazendo era cuidar de você. Eu exagerei e peço desculpas, mas não me arrependo. Ela parou de enrolar a gaze pra me olhar diretamente. — Você me assustou e agrediu duas pessoas. Isso não é cuidado, e é algo que deveria se arrepender. — Ela baixou os olhos pra minha mão de novo e eu sentia como se houvesse um bloco de gelo no meu estômago. — E ainda veio jantar como se nada tivesse acontecido! Seu tom de voz já não indicava irritação, mas preferi não brincar de volta. Ela terminou o curativo e disse que terminaria com a louça, que era pra eu continuar sentado. Eu não sabia o que dizer, não sabia o que poderia me complicar ainda mais. — Essa casa se parece com a minha antiga. — Ela olhou pra mim por um instante. — Em Chastel, na França. — Quem me dera estar na França a essa hora. — A cozinha também era assim. Pia no canto, geladeira ao lado e fogão no lado oposto. Janela pro quintal e uma porta. E também era aberto pra sala de jantar. Só não tinha essa mesa no canto com duas cadeiras. — A mesa ficava mais pro centro, mas duas cadeiras quebraram, então tivemos que pensar em algo. Eu adorava a reação que o som da voz dela produzia em mim, mas isso me assustou. Levantei de súbito com uma sensação que já não era tão boa. — Eu devo ir agora. Ela se assustou mais com a fala do que com o levantar repentino. Seus olhos não mentiam pra mim, e eles pediam que eu ficasse. — Você não quer terminar suas pilhas? Eu posso acabar estragando tudo. Eu notei que ela seguia o modo com o qual comecei a limpeza. As pilhas estavam sendo lavadas como deveriam, e tudo estava exatamente como eu faria. Aquilo me despertou uma grande ideia. — Você está fazendo um trabalho excelente, Srta. Salles, pode continuar. Além disso... — Levantei a mão enfaixada até a altura dos olhos dela. — Tudo bem, deixa eu só... pegar a chave. Passando pela sala de jantar, retornei ao corredor de entrada. Minha mãe dizia ser rude ir na casa de alguém e ficar analisando tudo, mas não pude deixar de notar como tudo era muito parecido com minha antiga casa. As paredes com as cores desbotando em velocidades diferentes, a mesa quadrada no centro com diversos armários em volta. Tudo simples e aconchegante. Ana voltava pela outra parte do corredor, com um molho de chaves na mão. Ela passou por mim e abriu a porta. Eu disse um simples tchau, e teria ido sem olhar pra trás se ela não tivesse me chamado. Alguém parecia mais irritada que o habitual.
— Qual o seu problema?! Imaginei ter pisado no pé dela enquanto passava, mas não parecia ser isso. — Não entendo... — Claro que não Sr. Certinho! Você não parece ser muito inteligente pra quem estudou esse monte de coisa aí! — Gritar comigo não vai me ajudar a entender sua raiva Ana, precisa ser mais específica. — Até essa sua maneira de ser todo racional me irrita! Seu jeito de falar e de ser! Nada em você parece real, tudo parece sempre um maldito truque! — Ela abaixou os olhos e o tom de voz. — Inclusive o fato de eu não conseguir parar de pensar em você. Eu não tinha mais um bloco de gelo no estômago, era a própria Antártida. Mas não poderia ser assim, ela estava completamente certa. Ela precisava de alguém mais parecido com ela, e eu era exatamente o oposto. — Sinto muito por isso. Eu não suportaria ver o rosto dela depois disso, então já disse me virando sem hesitar. Dentro do carro eu coloquei o rádio no maior volume possível, cantei o mais alto que podia e batia as mãos no volante ao ritmo da música, mas nada disso tirava a voz dela da minha cabeça. Eu não minto para mim mesmo, eu estava triste, mas antes eu do que ela. Isso logo iria passar, e ela estaria mais preocupada com a faculdade e eu com o emprego. Mas isso talvez fosse demorar um pouco. Já haviam se passado 2 meses depois desse dia, e a formatura se aproximava. Junto com o compromisso, veio também a lembrança. Ana aparecia na minha cabeça com mais frequencia do que nunca. Naquela noite eu tinha feito meu jantar novamente, mas eu não sou um cozinheiro de mão cheia. Minha situação na empresa tinha se acertado, mas eu andava muito irritado e distraído. Quando terminei de enxugar a última faca, eu tentei pendurá-la no suporte magnético mas ela caiu, então a peguei bem irritado e coloquei com mais força no suporte. Ela caiu de novo e eu fechei os dois punhos com raiva. Eu não sabia porque tanta raiva mas procurei me acalmar. Aquilo não era normal e muito menos saudável. Com mais calma eu tentei novamente colocar a faca no suporte, um pouco mais pra esquerda e dessa vez ela ficou. Eu me virei mas parei na metade do movimento. Meu cérebro captou alguma coisa que eu não tinha entendido ainda. Observei o suporte com mais atenção e tentei relembrar exatamente tudo que tinha acontecido a alguns segundos. Eu estava no piloto automático, fazendo tudo sem prestar atenção, mas percebi o que tinha acontecido. Minha mente deslizou de volta pro dia que me despedi de Ana. Eu não queria ir, me sentia atraído por ela, mas não parecia dar certo. Eu era muito diferente dela... mas não era isso. Dois opostos se atraem, não se repelem! E uma faca tinha me mostrado isso! Talvez fosse isso, o jeito. Tentar fazer tudo as pressas ou forçado não iria ajudar, eu precisava tentar de um jeito mais suave. Talvez fosse muito vinho ou apenas a senilidade chegando mais cedo, mas se uma faca me deu uma ajuda no relacionamento, por que não tentar? Mas como reparar o estrago feito naquele dia? Eu me deixei levar pelo sentimento apenas uma vez, pois sabia que minha razão mandaria eu ficar. Eu precisei de alguns minutos de reflexão pra ter ideia por onde começar, mas precisava de um velho amigo me pagando um velho favor.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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