O Que Sinto por Você.
1 Like a mirror.
Notas iniciais
Meu nome é Bernardo Laurent Chastel. Filho de André Chastel? Não. Parente de Jean Chastel? Também não. Só vim da comuna francesa de Chastel, toda minha família veio de lá. Nascido e criado, mas indo embora para Paris para estudar na École Polytechnique. Como eu entrei numa das melhores faculdades da França? Eu sempre fui um bom nerd que você encontra em todo lugar, mas não se engane quanto a meu sucesso, ele não foi tão fácil.
Os presidentes não estavam satisfeitos com meu discurso. Não queriam saber de onde eu era ou o quanto eu lutei pra chegar ali, eles queriam resultados e eu não estava entregando. Diretor executivo da maior fábrica de automóveis do Brasil, segunda maior do mundo, que não conseguia explicar como a produção caiu de 2200 carros diários, para 2000. Eu sabia que eles não queriam dados técnicos, queriam que o peixinho novato em meio a tubarões velhos ficasse com medo o suficiente para fugir do cargo. Mas isso não ia acontecer. Abaixei os olhos da tela na minha frente e olhei pela janela em seguida, admirando toda a extensão do lugar. Não era bonito – só galpões em tons claros – mas era enorme. Eu sempre gostei de grandes construções, como o prédio que me encontrava. No décimo andar, com uma enorme janela panorâmica que me permitia ver todo o pátio, eu não me sentia grande ou acima de algo ou alguém. Eu me sentia pequeno, muito pequeno.
Meu nome é Ana Moreira Salles. Parente de algum Moreira Salles ricão? Não. Minha mãe brinca que o resto da família só esqueceu da gente, mas na verdade meu nome é Ana Moreira, e foi uma coincidência que o sobrenome tenha sido Salles...
Enquanto eu falava, todos me olhavam com mais pena do que tudo. Meu nervosismo era visível, com as mãos batendo nas pernas e as risadas que saiam sem querer. Eu sempre tive um problema pra falar em público. Mas falar em público, na escola nova, em outro estado era pedir demais. Eu estava quase surtando quando a professora me ajudou. Olhando por cima dos óculos na ponta do nariz, a Sra. Odete chamou minha atenção com um aceno:
— Srta. Salles, queira fazer a gentileza de se sentar agora, obrigada.
Bem, ela ajudou, mas a suavidade da sua voz era como uma pedrada. Sentei na primeira cadeira da primeira fila, meu lugar em toda sala de aula. Lá ninguém notava minha presença e eu tinha bastante privacidade. Dois toques no meu ombro foram como o mundo desabando nas minhas costas.
— Ei você, veio de onde mesmo?
Eu me virei pra ver uma garota atrás de mim com olhos tão azuis que eu jurava serem lentes, que pelo visto realmente tinha prestado atenção no que eu disse, mais que eu mesma.
— É... eu vim da...
Um “silêncio” da Sra. Odete foi o suficiente pra eu me virar rápido de mais e esbarrar no material que estava na minha mesa, derrubando tudo e fazendo mais barulho. A Sra. Odete solicitou com toda a suavidade característica dela que eu fosse tomar uma água enquanto os alunos se apresentavam. Eu reuni todo o material o mais depressa que consegui e coloquei na mesa, pra depois sair a passos largos da sala, sentindo o rosto quente de vergonha. Eu não ia suportar aquele lugar por muito tempo. Algo tinha que me salvar.
Eu andei pela redondeza do campus Betim da PUC Minas, onde eu fazia engenharia de produção. Eu gostava do curso e do lugar, mas sabia ao mesmo tempo que não era pra mim. Gostar e pertencer são duas coisas diferentes, então pensei por muito tempo o quanto valia pena estar ali, depois de todo esforço para entrar. Acabei por chegar na minha parte favorita do campus, o centro de toda a construção: um enorme salão com uma cúpula de vidro que mostrava a chuva torrencial que caía. Olhei pra cima por um momento, tendo meus sentidos preenchidos pelo afervoramento que o barulho da chuva e a dança das gotas no teto de vidro causavam. Naquele momento, com tudo que passava pela minha cabeça, eu me senti pequena. Muito pequena.
Sem perceber o quanto demorei passeando pelo campus, voltei quase correndo pra sala. Olhei pelo vidro da porta e meu coração falhou uma batida, já que a sala estava vazia, exceto pela garota dos olhos azuis. Ela estava dormindo, só a reconheci porque o material dela ainda estava na cadeira, enquanto ela dormia na minha. Eu abri a porta sem fazer barulho, mas mesmo assim ela se levantou e de novo aqueles olhos me fizeram parar por um instante. Ela deu um sorriso e perguntou se eu tinha passado em casa. Eu respondi que não com uma expressão interrogativa, então o sorriso dela ficou maior ainda e ela disse que eu demorei de mais pra quem não foi em casa, almoçou e escreveu um livro. Rindo mais de desespero do que dela, eu tinha acabado de conhecer minha futura melhor amiga.
Já haviam 3 meses que a aula tinha começado e esse fatídico dia se passado, mas ele ainda me assombrava como qualquer lembrança vergonhosa. Como o dia que eu dei sinal para o ônibus errado, ou quando a moça que me entregou o café na cafeteria do campus me disse “bom apetite” e eu disse “pra você também”. Maria me deu dois toques no ombro como naquele dia, eu virei a cabeça pra ver aquelas bolas azuis enormes que ela chamava de olhos me encarando de perto. Ela sussurrou:
— Eu queria ter a coragem da Sra. Odete de vir com essa roupa, e a força dos botões da camisa dela.
Ela acabou deixando escapar uma risada da própria piada, e a Sra. Odete se virou pra ver quem tinha feito isso. Eu já tinha me acostumado com minha amiga, então fingi estar olhando pela janela, mas dessa vez não resolveu.
— Srta. Salles, compartilhe a piada da qual você riu com a turma.
Eu ouvi todas as cabeças se virando em minha direção, enquanto desviava meu olhar da janela pra Sra. Odete, que descontente, me olhava por cima dos óculos. Eu acabei olhando pra camisa dela, que realmente parecia uma bomba relógio. Em algum momento aqueles botões iriam sair voando, e com receio eu curvei a cabeça um pouquinho pra esquerda.
— Eu não estava rindo Sra. Odete.
— Mas eu ouvi, quer dizer que estou mentindo?
— N-Não Sra. O-Odete.
Eu sempre gaguejava quando estava sobre pressão. Sem perceber, comecei a balançar a perna também. Mas a Sra. Odete viu, e com suavidade, me pediu para passar na sala do CCA, que ficava no prédio administrativo, e que ela já estaria indo pra lá.
Eu me levantei com as pernas trêmulas, já que qualquer advertência formal resultaria na minha expulsão do campus. Maria segurou minha mão e me olhou como quem dizia que era injusto e que ela iria se entregar, mas eu não pensei que seria boa ideia. De todos os professores, a Sra. Odete era a única que não gostava de mim, portanto ela não acreditaria e as coisas poderiam ficar piores. Apertei a mão dela pra indicar que estava tudo bem e fui até a sala, fazendo o caminho maior pois queria passar – pelo que poderia ser a última vez – pelo salão com a cúpula de vidro. Quando cheguei em frente a porta branca, como qualquer outra em todo o campus, com o vidro na altura do rosto e os dizeres numa placa cinza logo acima: “CCA – Centro de Coordenação de Alunos” e “Entre sem bater logo abaixo”, eu me desesperei pela gravidade da situação e pensei em entrar me ajoelhando e saudando quem quer que fosse o coordenador implorando pra ele não me dar uma advertência. Mas quando abri a porta, vi dentro daquela saleta com a parede repleta de livros em estantes, uma mesa de escritório com duas cadeiras. Numa, o coordenador me olhava com mais espanto do que raiva, e de costas pra mim tinha um homem, que ao me ouvir entrar estava se virando. Quando nossos olhares se cruzaram, um choque me acertou. Bem, parecia um choque, nunca levei um de verdade, mas todo meu corpo fico rijo, e eu não sabia nem como falava. Tive medo de não estar respirando enquanto olhava aqueles olhos que pareciam já ter visto tudo e não se contentou. Ele tinha um rosto tão suave que parecia que passava mais tempo cuidando da pele do que eu. A barba era bem feita e aparada como alguém com muita perícia faria, as sobrancelhas mais ainda, além de um cabelo liso, curto nas laterais e um tanto grande em cima, cortado no estilo social. Comparado com toda a vestimenta e o jeito dele, eu diria que o cabelo era a última resistência rebelde dele frente todo o resto.
— Obrigado. – Ele disse com uma voz num tom normal, mas com leve divertimento no olhar. A voz dele era o que eu tinha de mais clara lembrança do meu pai. Uma voz que indica perícia no que está dizendo, mas sem arrogância.
— Perdão? – Só então eu percebi que eu realmente tinha dito aquilo em voz alta, então fechei os olhos e fiz uma expressão de quem bate o dedo na quininha do móvel, e abri um olho para ver ele sorrindo dessa vez.
— Minha irmã fez meu cabelo, e ela disse exatamente a mesma coisa, mas sem o seu carisma. – Os olhos dele estavam diretamente nos meus, e eu sentia que ele olhava cada movimento meu, até quando eu respirava.
Eu engoli seco e prendi a respiração. Não conseguia falar mais nada, quando o coordenador chamou minha atenção com um pigarro forçado.
— Srta. posso te ajudar?
Eu tive que me esforçar pra lembrar porque tinha ido ali, e mais ainda para tirar os olhos daquele homem e olhar pro coordenador.
— A Sra. Odete...
— Solicita uma advertência para essa mocinha.
Eu tomei um susto como nenhum outro na vida, já que a bruaca estava diretamente atrás de mim e falou isso alto, bem ao lado do meu ouvido direito, enquanto empurrava aqueles peitos enormes contra meu braço querendo entrar na sala. Eu terminei de abrir a porta e dei passagem pro balão que ela guardava na blusa poder passar, e assim como eu ela travou ao ver o homem que agora tinha virado toda a cadeira e prontamente se levantado. Indicou o lugar como um cavalheiro e pediu que ela se sentasse. Eu os olhei com uma cara de traída, era pra eu estar ali! Ele tinha que ter oferecido lugar pra mim! Ela sorria pra ele com tantos dentes na boca que parecia até anormal, mas o homem já não sorria como antes, agora era apenas educação. O coordenador tomou a palavra:
— Perdão, o que deseja mesmo?
O sorriso da peituda sumiu e seu olhar endureceu. Ela se virou contra mim e repetiu que queria uma advertência por péssimo comportamento, já que eu era apenas uma baderneira na aula dela. O coordenador tomava nota no computador em sua mesa enquanto o homem olhava pela janela com as mãos no bolso. Ele vestia um terno super bem-cortado, com sapatos brilhosos e um relógio bonito no braço. Mesmo estando com essa roupa, tudo parecia muito natural nele, como se ele dormisse daquele jeito, o que era impossível, já que o terno estava com vincos perfeitos. Ele tornou a olhar pra mim, e quando eu vi que ele iria me dizer algo, notei que de novo eu tinha dito aquilo em voz alta, a partir do terno.
— Obrigado. – Ele disse como na primeira vez – Minha irmã também é responsável pela escolha de terno e sapato. Já o relógio era do meu pai. – Ele disse enquanto levantava o braço e analisava o relógio, como se tivesse acabado de perceber que estava usando.
Eu notei que tanto minha professora quanto o coordenador paravam pra olhar pra ele sempre que ele dizia algo, mesmo que fosse proveniente desse meu pequeno problema de não perceber quando estou dizendo algo ou apenas pensando. O coordenador terminou de anotar o que a Sra. Odete disse, e informou que realizaria a solicitação dela. Ela se levantou triunfante e depois de apertar a mão do coordenador, piscar pro homem de terno e me olhar de cara feia, saiu da sala batendo a porta. Eu fiquei estática no canto, pois era muita coisa pra processar de vez. Enquanto o homem olhava pela janela e o coordenador mexia em seu computador, eu comecei a notar alguns detalhes do quadro a minha frente. Realmente haviam muitos livros pela sala, e alguns pareciam mais velhos que eu. O coordenador tinha um crachá escrito José Bezerra, e três “pintas de velho”, como minha mãe chamava, na cabeça. Ele vestia uma blusa polo azul surrada, mas tinha a mesma confiança daquele homem de terno. Suas mãos eram enrugadas, mas pareciam muito fortes, com dedos calejados. Ele apertou umas teclas e disse “Pronto, direto pro lixo”, em seguida olhou pra mim:
— Queira se sentar e contar o que houve.
Eu olhei pro homem de terno pensando se ele me indicaria o lugar também, mas agora ele tinha abaixado a cabeça e parecia estar enviando alguma mensagem pelo celular. Eu comecei a contar toda a história pro José, sem esconder nada, mas ele me interrompeu para perguntar meu nome e eu respondi meu nome completo pra ele, terminando de contar a história. Ele fez uma cara de quem ponderava os lados e perguntou:
— O que acha? Laurent?
Eu senti o choque de novo ao descobrir que o nome dele era Laurent. Ele estava com um sorriso nos lábios de novo, e se virou guardando o celular no bolso.
— Sua amiga é ótima observadora. – Ele disse olhando pra mim. Quando olhou pro José, sua expressão divertida indicava que eles já eram amigos de longa data.
— Não se preocupe. Já tivemos 2 reuniões de professores, e nas 2 você foi indicada como uma aluna exemplo, exceto pela senhora Odete. Eu arquivei uma cópia da advertência para caso ela pergunte, mas não lancei no sistema. E diga para sua amiga anotar as piadas e te contar depois da aula. – O José me disse com toda calma do mundo, e completou: – E mesmo que esteja escrito na porta, dá dois toques antes de entrar que meu coração é fraco e você me assustou. – Ele disse com uma voz realmente suave e um sorriso, mas que indicava um pedido sério. O Laurent sorriu de novo, com aqueles dentes completamente alinhados e brancos. Seu sorriso completava a obra prima na minha frente e eu odiei aquele cara da cabeça aos pés por ser tão perfeito. Isso era um crime, idealizar o homem lindo pra mim!
— Eu... v-vou bater. – Droga de gagueira!
— Obrigado. – José sorriu ternamente pra mim.
Eu entendi a deixa e me levantei, dizendo “obrigada” e “até mais”.
Laurent me respondeu:
— Até mais Ana Moreira Salles.
Ainda chovia quando eu passei correndo pelo salão com a cúpula. Eu estava no pátio quando me dei conta, arfando por nunca fazer exercícios, mas ter saído correndo da sala depois do que ele disse. Eu nunca tinha sentido o que senti naquela hora. A chuva castigava meu rosto e algumas pessoas corriam para não se molhar enquanto me olhavam se questionando o que a maluca estava fazendo. Mas eu não importava. Pela primeira vez em 19 anos minha cabeça estava completamente limpa, meu único pensamento era nele. Pela primeira vez em 19 anos eu tinha me apaixonado.
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