Eu precisei de uma hora pra entender apenas 10 minutos do meu dia. Primeiro meu antigo amigo me liga pedindo que eu o encontre na PUC, depois, uma garota invade a sala e em seguida os maiores peitos que já vi na minha vida também. Eu não sou um pervertido, a sala era muito pequena e aquilo ocupava todo o espaço. Eu comecei a olhar pela janela porque de resto, na minha visão periférica sempre tinha peitos. Mas minha mente ainda estava na garota, e nada tirava ela.

— ... será nesse dia, mas se precisar mudar pra encaixar pra você a gente dá um jeito. Laurent?

Eu tinha divagado em pensamentos durante algo importante, eu me odiava por fazer isso com mais frequência que o habitual.

— Minha mente estava muito longe amigo, desculpa.

— Te entendo. Quem te deu problema agora?

José tinha trabalhado durante anos como gestor de relações da Fiat em Betim, onde eu era o atual Diretor executivo, mas ele preferiu sair pra fazer algo mais desafiador: um quase gestor de relações numa faculdade cheia de adolescentes. Talvez eu não fosse mais velho que a maioria ali, tenho apenas 23, mas já tenho o título de Ingénieur diplomé de l'École polytechnique e um mestrado em administração. Coisa boba.

— O chefe de área demitiu um homem sem formação, mas com 10 anos de experiência, para contratar o amigo dele, que foi o melhor da faculdade mas não sabia nada da linha. – José arregalou os olhos, pois isso era extremamente incomum. – Então a produção caiu, nada muito expressivo em 1 dia ou 1 semana, mas um mês depois eu fui cobrado e eu não sabia como responder os líderes.

— Não queria delatar o chefe de área?

— Eles não queriam dados técnicos, eu até tentei explicar. Queriam saber como essa demissão passou pelas minhas mãos sem nenhum tipo de controle.

— Aquela empresa carrega muita sujeira debaixo dos panos.

– Você sabe melhor que eu disso. Ce sont des coquins!

Oui.

— Mas eu posso em qualquer dia meu amigo, vou liberar minha agenda pra isso. Será um prazer participar dessa formatura.

— Os alunos precisam ter contato com pessoas como você, ver que são acessíveis.

Eu dei uma risada:

— Acessíveis?

Então a garota entrou, com aquele cabelo tão escuro que parecia uma noite sem estrela alguma, cortado com estilo Chanel que combinava tanto que parecia que o corte fora criado somente pra ela. Seus olhos eram de um tom muito claro de castanho e sua pele era bem branca, fazendo as bochechas dela se avermelharem com mais facilidade do que o normal. Usava uma calça legging com um short desfiado, e uma bota de salto. Sua blusa da PUC estava por dentro do short, e uma jaquetinha jeans escondia o logo do campus, mas mostrava que ela era da turma de engenharia.

Mesmo tendo entrado com confiança na sala, ela agora estava paralisada na porta, uma mão segurando a maçaneta, a outra no batente da porta.

Foi então que ela disse “comparado com toda a vestimenta e seu jeito, seu cabelo é a última resistência rebelde em você”. Aquilo foi de uma doçura inexplicável. Ela parecia ter dito simplesmente porque precisava ser dito. Eu nem diferi se era um elogio ou uma crítica, podia ser apenas uma observação, mas o recado em si era idêntico o que minha irmã tinha me dito. Graduada em moda e com vários cursos complementares, ela quis mostrar que o último que ela fez foi de cabelereira, e pediu permissão para cortar meu cabelo. Eu permiti, já que sempre era eu mesmo quem o fazia, e o resultado foi maravilhoso. Eu nunca poderia imaginar que meu cabelo ficaria daquele jeito. Sendo castanho escuro e liso, sempre usei ele além da linha do ombro e solto, rebelde. Quando entrei na faculdade, foi obrigado a cortar, então passei a usar acima da linha da linha dos olhos, mas nunca daquele jeito. Toda essa lembrança veio de uma só vez, e eu também não tive reação a não ser agradecer, e ela parecia não ter entendido. Sua expressão indicou algo que não entendi de começo, mas logo depois eu expliquei sobre minha irmã e a Sra. Odete entrou, carregando Buda e Peste dentro da blusa. Eu cedi meu lugar como me foi ensinado, e aproveitei o momento pra pensar naquela garota. Que fascinação eu sentia, que sentimento adverso mesmo assim. Era só uma jovem comum, como milhares em todo o mundo e centenas naquele campus. Mas mesmo assim, sem nem mesmo olhar pra ela, sua imagem estava na minha cabeça. Então ela começa a falar novamente, com um olhar mais fixo do que eu mesmo conseguiria realizar, sobre meu terno ter vincos e meus sapatos, além do meu relógio. Mas meu pai era algo que eu não precisava lembrar naquele momento, era algo que eu não precisava e muito menos queria lembrar em momento algum. Então a Sra. Odete se retirou, e José pediu pra garota tomar o lugar e contar o que houve. Eu rapidamente saquei o celular para anotar tudo que fosse possível sobre ela. Comecei anotando suas características, e esperei pra ouvir o nome dela. Então José, como se lendo minha mente, pediu que ela dissesse. Ana Moreira Salles. Eu nem precisava anotar isso, estava mais que gravado na minha mente. Além de fazer anotações eu estava realmente ouvindo a história, e pelo que parecia a Maria que era a baderneira. Então José pediu minha opinião, talvez para que a garota não se sentisse envergonhada. Tentei ser o mais neutro possível e não envolvi nenhuma parte, apenas brinquei sobre sua amiga, e isso pareceu ajudar.

E quando ela iria se retirar, eu disse seu nome completo. O efeito foi o contrário do que eu esperava. Eu queria que ela me olhasse de novo, para que eu pudesse guardar seu rosto melhor na minha memória, com mais detalhes. Mas ela abriu a porta e correu, sem nem mesmo fechá-la. Eu olhei pra José com espanto, imaginando se foi tão ruim assim. Ele me conhecendo tão bem, as vezes melhor que eu mesmo, disse que eu deveria ir atrás dela. Eu não ponderei muito e fui.

Eu não corri como ela, mas andei a passos largos e constantes, quando a vi no pátio, debaixo da chuva olhando pro céu e respirando forte. Meu guarda-chuva estava comigo, pois mesmo querendo ir atrás dela o mais rápido possível, eu nunca deixava nada para trás, portanto eu o abri e coloquei sobre ela.

Então de novo ela estava olhando pra mim. Gotas escorriam pelas bochechas e pela testa. Seu cabelo estava colado no rosto. Ela não tinha perdido nada da beleza dela.

— Chuva. – Eu disse como quem pergunta o que diabos ela estava fazendo ali.

Ela só concordou com a cabeça e voltou para a área coberta. Na intenção de colocar o guarda-chuva nela, eu não percebi que não tinha me coberto junto, e agora meu cabelo e roupa estavam molhados, pois, a chuva estava realmente castigando Betim naquele dia.

— Você vai se resfriar. – Eu já tinha ouvido isso tantas vezes da minha mãe que ficou na minha cabeça.

— Eu... não... é que... minha aula.

Ela parecia ter dificuldades pra falar quando alguém estava olhando pra ela, mas eu não conseguia parar.

— Te acompanho. – E agora eu não conseguia sair de perto.

Ela foi andando arrastando os pés, como se estivesse envergonhada de ter corrido pra chuva. Ela não parecia estar com frio, mas usar aquelas roupas molhadas realmente a deixaria resfriada. Pensei em lhe entregar meu terno, mas não faria muito sentido, e eu gostava daquela peça. Depois de uma caminhada tão veloz quanto uma tartaruga, chegamos em sua sala. Ela parecia estar com medo de bater à porta, então fiz o favor. Dois toques simples e logo em seguida a porta estava aberta. A Sra. Odete foi logo sorrindo ao me ver e então aquela boca cheia de dentes apareceu de novo. Vou dormir de luz acessa uma semana por ter visto isso 2 vezes no mesmo dia. Eu olhei pra Ana de novo e ela estava vermelha mais uma vez, eu indiquei a entrada como um cavalheiro e esperei que ela passasse. A Sra. Odete tinha parado de sorrir quando a viu, e antes que pudesse sorrir pra mim de novo eu fechei a porta rapidamente.

A caminho de casa eu só conseguia pensa nela. O trânsito estava um horror, filas enormes de carros por conta da chuva e de uns 2 acidentes. Eu cheguei em casa 22hrs., 3 horas além do habitual. Enquanto tirava a roupa e me preparava pra tomar um banho quente, ela apareceu na minha mente de novo. Quando entrei no banho, a sensação da água em mim se assemelhava com a chuva. O rosto dela de novo. Quando andei lentamente pro meu quarto após o banho, me lembrei de como ela dava chutinhos em alguns momentos. Eu nunca tinha ficado desse jeito. Eu nunca pensava tanto em alguém. Eu precisava era de algo para ocupar minha mente. Como eu morava numa cobertura, barulho não era algo que incomodava os vizinhos, portanto fiz minha melhor e mais intensa representação de Baker Street. Eu tinha sido destaque na infância tocando saxofone. Meu professor não conseguia acreditar nas minhas apresentações e quando me perguntava, eu sempre dizia que treinava 8 horas por dia, mas eu sempre tocava a música apenas uma vez antes de me apresentar. Mas não era assim com Baker Street. Eu tocava essa música o tempo todo, eu a amava. Meus dedos não encontravam dificuldades em passear pelo sax, meus pulmões nunca pareciam sem ar para os ápices. Mas então eu lembrei porque não virei músico e eu errei uma nota, perdi o compasso da respiração e toda a música desandou. Eu olhei frustrado pro saxofone na minha mão e acabei lembrando do meu pai. Ele tinha quebrado meu primeiro violão nas minhas costas num acesso de raiva que a bebida causava. Minha mãe tinha me comprado ele, com muito esforço de horas extras no serviço. Olhando agora meu quarto de música, com paredes de isolamento acústico, um piano, guitarras e violões, saxofones e violinos, todos decorando as paredes junto com quadros de cantores famosos. O chão de madeira fria e a vista pra cidade toda abaixo de mim pela janela panorâmica, me fez sentir tão pequeno.

Eu saí do quarto de música e fui pra adega. Eu guardava não somente vinhos na adega, mas um verdadeiro estoque. Eu poderia deixar Minas Gerais completamente embriagada e ainda sobraria para o outro dia. Busquei o melhor uísque que eu tenho, que por acaso era o melhor do mundo, e fui pro escritório. Só então eu percebi que ainda estava de roupão, mas não liguei. Morar sozinho tem suas vantagens. Depois de alguns e-mails respondidos, precisei preparar meu jantar. Morar sozinho tem suas desvantagens. Meus dias se passavam assim, todos iguais, exceto por hoje. Ana Moreira Salles tinha me marcado como nada antes.

Eu já tinha acostumado meu corpo a nova rotina com facilidade. As 5 eu já estava de pé e nem precisava de despertador. Hoje tinha sido um pouco mais difícil pra levantar por causa da bebida e de ter dormido tarde, mas mesmo assim eu estava as 05:10 na rua, correndo. Sempre corria 10km, chegando em casa 06:20. Até as 07:00 eu já tinha tomado banho e café da manhã. 07:30 estava a caminho da fábrica para bater ponto exatamente as 08:00. Seguia pela recepção e dava bom dia para a Carol, depois para a Helena e pra dona Esmerila que sempre estava terminando de limpar o último ladrilho da entrada do prédio. Dentro do elevador eu selecionava o meu andar e dava bom dia pra Milena, a última pessoa com quem eu me encontrava. O resto do dia era responder e-mails, analisar gráficos, delegar funções e trabalhos, além de atender telefonemas que a Milena recebesse, já que era minha secretária.

Eu precisava tirar Ana da minha cabeça, então marquei logo no calendário o dia da formatura que eu fui convidado, o dia que a veria de novo. Assim eu poderia me concentrar no que precisava ser feito. Era o que eu pensei que aconteceria. Quando o expediente acabou, eu cheguei em casa as 19 e só conseguia pensar nela. Eu precisava ver essa garota de novo.

No dia seguinte eu pedi que Milena cancelasse todo meu dia, pois eu estaria ocupado na compra de um lote da empresa. Eu não sabia que lote era esse, mas eu sabia a sala da Ana. Quando me aproximei, a turma dela não estava lá, e eu comecei a pensar em como encontrá-la. Por sorte eu fui abordado por quem pensei ser a Maria, que tinha olhos muito azuis.

— Se estiver procurando por ela, precisa passar por mim primeiro.

Eu a olhei de cima, com meus aproximados 1,79, quase 90kg, enquanto ela devia ter metade das duas medidas e segurei uma risada porque a cara de mal que ela fazia vencia qualquer coisa.

— Sim senhora, me diga o que fazer para poder falar com ela.

Ela estreitou os olhos e fiz biquinho. Depois de 10 segundos desconfortáveis fazendo isso, ela relaxou a carranca e cruzou os braços.

— Estão na quadra, fazendo atividades físicas diversas, ou como eu chamo “Escolha sua tortura”.

— Obrigado.

Quando eu estava passando ao seu lado, ela me chamou de volta, e fez sinal de que estava de olho em mim, colocando dois dedos nos olhos dela e apontando pra mim. Eu não sabia se era piada ou se realmente precisava ter medo disso.

O campus tinha um centro esportivo completo, e pelo que parecia, todo os alunos estavam fazendo atividades físicas diversas. Ou torturas diversas, fica a critério. Eu estava com uma roupa mais despojada, uma bermuda jeans clara e camiseta branca do MIT, lembrança do meu mestrado. Um boné preto para dar contraste e tênis de corrida preto também. Logo de longe eu vi Ana tentando com todo esforço do mundo subir numa barra fixa. O sol estava tão forte quanto a chuva de ontem, e isso era o melhor em Betim. Eu aproveitei o boné para olhar pra ela sem aquela roupa de adolescente, apenas tênis de corrida, uma bermuda e camiseta, tudo do campus. O professor se aproximou de mim, e antes de dizer qualquer coisa eu estendi minha mão e me apresentei. Quando eu disse meu nome em voz alta, Ana despencou da barra. Eu imediatamente me ajoelhei ao seu lado e perguntei se estava tudo bem, mas ela nem parecia ter percebido que caiu, apenas que eu estava ali. Um outro cara fez menção a abaixar, mas se deteve quando me viu, e pela primeira vez ela desviou o olhar de mim e disse para o “Guilherme” que estava tudo bem. Eu a ajudei a levantar e a levei até a arquibancada, que estava quente por conta do sol. Ela se sentou na grama.

— O que está fazendo aqui? – Ela perguntou de maneira singela.

— Vim te ver. – Eu respondi de forma mais singela ainda.

Ela já estava vermelha por causa do esforço, mas acabou ficando mais ainda. O Guilherme estava vindo em nossa direção, e por algum motivo eu não gostei disso. Logo atrás veio o professor e eu gostei menos ainda.

— Você tá legal? – Ele perguntou diretamente pra ela, sem nem olhar pra mim. Eu controlei o impulso de dizer que ela já tinha respondido isso.

— Estou Guilherme, sério.

Só então ele olhou pra mim com uma cara fechada, e deu as costas. Foi a vez do professor dizer:

— Quem tá na área é pra treinar. Vamos playboy, quero ver o que consegue fazer.

— Playboy? – Mas ele já tinha me dado as costas, e voltava pras barras. O Guilherme já estava embaixo de uma e todos os adolescentes estavam rindo e falando entre si enquanto me olhavam. Eu odiava esses shows, essa necessidade de se autoafirmar a todo momento. Mas uma massagem no ego não ia matar ninguém.

Eu segurei o boné com uma mão enquanto tirava a camisa com a outra. Coloquei o boné de novo e deixei a camisa pelo chão mesmo. Eu praticava exercícios físicos com maior regularidade que ele, portando eu tinha muito mais músculos que ele. Como imaginei, já foi o suficiente pra ele engolir o sorriso. Eu pulei na barra e a segurei com as duas mãos. O professor deu o sinal para começarmos, e a barra queimava minha mão, mas eu não ia parar até esse garoto cair no chão. Depois de 15 eu resolvi acabar com a moral dele segurando apenas com a esquerda e mantendo o ritmo, enquanto girava o boné pra trás. Ele tentou me olhar enquanto fazia e caiu no chão. Eu me soltei também e disse que foi um bom aquecimento. Peguei minha blusa no chão e não vi mais a Ana. Isso me deixou furioso. Por conta de uma bobagem dessa ela tinha ido embora.