O Que Ele Mudou Na Minha Vida Desde Então
38 Capítulo XXXVIII por Arthur Kirkland
Notas iniciais
5 da manhã, num sábado qualquer, sou acordado pela porra do meu celular tocando. Eu acordo de péssimo humor, se você não sabe.
– Quem é o filho da puta que me liga essa hora e por que não pode esperar até umas 8 horas pelo menos, caralho?
– Eu... eu... desculpa – era o Francis, ele estava muito sério – É que... a Joana, ela está internada e eu não sabia pra quem ligar.
Oooooh, comecei a me sentir mau por ter sido tão grosso. Levantei e procurei minhas pantufas para ir no banheiro tentar limpar o rosto com uma mão enquanto estava no telefone.
– Eu estou desesperado, nem sei porque te liguei – parecia estar chorando.
– Aonde você tá?
– No Hospital Regional, por quê?
– Daqui 10 minutos me espere na entrada, tchau.
Nem tomei banho, escovei os dentes muito mal escovados e vesti qualquer coisa – quase quase foi um pijama. Fui correndo pra parada e consegui pegar um onibus que estava passando, se não, só daqui 15 minutos. Fiquei nervoso e batendo o pé freneticamente o percurso todo, quando me peguei pensando em como eu não conversava tanto assim com o Francis. Quero dizer, depois de tão pouco tempo ele parou de insistir em mim e não fez falta e me pergunto porque ele ligou logo para mim. Talvez não fosse só porque e era carne nova que ele insistiu, então.
Quando cheguei, ele estava encostado na porta de vidro do hospital e parecia se segurar mais que tudo pra não cair e “desabar”.
– E aí, como ela es- – ele me interrompeu com um abraço muito forte e finalmente desabou de vez.
– Ela está na UTI desde mais ou menos meia noite, os pais dela me ligaram há pouco. Eu só não quero ficar sozinho, me desculpa.
– Não, tudo bem, eu tô aqui – e retribui o abraço, que se prolongou por alguns minutos. Eu não sei, ainda estava chocado por eu ter sido o escolhido pra estar lá do lado dele.
Fomos para dentro, conheci os pais da Joana mas na verdade eu nem conhecia ela direito. Uma vez ela estava na nossa escola e eu estava conversando com o Lukas sobre um filme e ela estava passando e entrou na conversa, totalmente bem vinda, claro, mas eu não a conhecia mais que isso. Nada sabia sobre ela além de que ela curtia Tarantino. Foi estranho abraçar seus pais também. Fui com Francis até a praça de alimentação e pedi dois cafés, não sabia como ele gostava mas acho que agora ele não ligaria. E também duas coxinhas, porque ele estava a muito tempo sem comer. E porque coxinha é tudo de bom.
– O que aconteceu? Se você quiser falar sobre isso...
– Ela teve leucemia – ele parou por alguns minutos para “pegar ar”, não me olhava nos olhos e não tomava o café nem comia – Na época o tratamento deu certo, destruir as células cancerígenas. Mas isso não era toda a certeza, agora tem o transplante de medula que é muito mais “seguro”, mas não tinha sido eliminada todas as células e parece que voltou. De uns dias pra cá ela voltou a ter anemia e agora ela está tendo hemorragias internas e não sei o que vão fazer. Não sei se vai funcionar. Eu não quero perdê-la.
– Nossa... Eu não sei o que dizer. Sinto muito pela sua namorada, ela é uma pessoa muito legal, não imaginava que isso podia acontecer.
– Ela não era minha namorada. Eu pensava muito em pedir ela em namoro mas estava inseguro. Quando decidi, comprei um anel bem bonitinho e tentei descobrir quais eram suas flores favoritas e tinha tudo planejado para o fim de semana. Mas agora isso já nem importa mais.
– Oh... olha, não fica assim, ok? Ela vai melhorar e eu ainda vou estar no casamento de vocês. E você vai ser obrigado a me convidar porque eu te paguei uma coxinha e você nem está comendo – ele sorriu, me senti melhor, menos “pesado”.
– Você não lembra mesmo de mim, não é? – começou a olhar nos meus olhos e o seu sorriso vacilou. Estremeci. É muito estranho quando alguém te bota assim na parede, ficar imaginando “Como assim? Lembrar de onde?”
– Eu... não tenho certeza. Me desculpe. Poderia me esclarecer?
– Ah, não foi nada demais. A gente só se casou – arregalei os olhos e quase cuspo meu café – Eu ganhei algumas batalhas de você e te fiz minha rainha.
– Então... então, seu nome realmente é Francis? Sempre achei que você tava tentando dizer que é “francês” mas seu sotaque atrapalhava! – nunca me senti tão burro.
– Honhonhon, faz sentido. Digo, faz sentido VOCÊ ter pensado assim, mas não faz sentido nenhum eu me apresentar pra você como Francês.
– Ah, cala a boca. Eu tinha 5 anos!
– E não mudou nada.
– O que você quer dizer?
– É baixinho, mau humorado e querendo ou não, ainda é minha rainha – eita porra, e agora? O que eu falava? O que eu fazia? Nem precisei pensar demais, meu celular vibrou no meu bolso e eu quase pulei da cadeira, mas de certa forma agradeci mentalmente.
– A-alô? Alfred? Por que está acordado a essa hora? – olhei de rabo de olho pra Francis que revirava os olhos e finalmente mordeu a maldita coxinha.
– Porque eu não dormi. Eu virei tentando zerar The Last of us e agora zerei, sinto que tá faltando um pedaço da minha alma. Na moral, você já jogou? Caralho, Arthur, quê que eu faço da minha vida agora? Puta jogo desgraçado, eu jogo pra me divertir, não pra ter sentimentos.
– Al... não é uma boa hora. Mas sabe o que cê faz da tua vida? Dorme.
– Te acordei, babe?
– Não, mas- pera, quem está te dando essas ousadia?
– Se eu não te acordei, o que você está fazendo pra não ser uma boa hora?
– Eu tô aqui com o Franci-
– Pode crer, já entendi – desligou. Wtf.
Era a primeira vez que ele realmente me deixou em paz quando eu pedi, achei estranho porém achei que tudo bem. Não é como se namorássemos ou nada assim. Mas isso a culpa é dele, não vê que eu sou tímido demais?
– Enfim... O que a Joana precisa mesmo?
– Medula óssea, o problema é que não conhecemos ninguém compatível e ela entrou na fila de espera.
– Entendi. Bom, confia em mim, eu sou sua rainha e tal... – não quis dizer isso com duplos sentidos, só tirar mais sorrisos mesmo – Aliás, quando ela acordar vai ficar com ciúmes.
– Acho que na verdade vocês se dariam muito bem, talvez eu que ficasse com ciúmes.
– Então fique, já conversamos, ok?
Continuamos conversando por um longo tempo, contamos as coisas que aconteceram depois que nos separamos e refleti um pouco sobre como eu não tinha raiva nenhuma dele na verdade, só que sempre preciso de algo pra reclamar e isso é feio. Inclusive, ele nunca fez nada pra mim e já eu nem lembrava quem ele era. Os pais de Joana se juntaram a nós mais tarde pra comer algo e fiquei até o inicio da tarde. Francis foi me deixar em casa.
– Hey, Arthur, me desculpa por te fazer lembrar de coisas embaraçosas de infância. Até um tempo atrás eu vivia obsecado com isso e me auto-destruía, mas depois que eu conheci Joana as coisas mudaram. Aí hoje eu fiquei com medo e procurei a ultima pessoa que me importava tanto como ela.
– Eu que preciso me desculpar... Por que você nunca me contou? Eu não iria pirar, sabia?
– Eu não sei. Achava que você queria esquecer de propósito ou que eu não signifiquei nada.
– Bom, eu passei grande parte depois daquilo pensando em me guardar para o meu “rei” mesmo sem esperanças de te ver de novo.
– E se guardou?
– Boa tarde, Francis – saí do carro e entrei em casa. Eu não poderia responder, eu não sabia o que tinha acontecido na festa do Gilbert. Eu sabia que eu comecei a beber com “me jogar no Alfred” em mente, porque se fosse dispensado teria uma desculpa pra não ferir tanto o meu orgulho. Mas bebi demais e não sou bom com alcool, não sei nem como voltei pra casa.
Quando cheguei em casa, meu pai perguntou o que aconteceu pra eu sair sem dizer nada, contei a história enquanto ele fazia o almoço e ele entendeu. Mais tarde liguei o computador e mandei uma mensagem para Alfred.
“O que você queria?” – eu.
“Tá com seu namoradinho ainda?” – ele.
“Que namoradinho?” – eu.
“Com quem você passou esse tempo todo? Desde cedo ou sabe se lá se só hoje” – ele.
“Alfred, eu tava com o Francis no hospital! A Joana está mal e ele me chamou pra ficar lá, ué” – eu.
“Sei” – ele. Quando a pessoa diz “sei” em uma discussão, é tipo admitir que perdeu/não tem mais argumentos/nada pra dizer. Logo em seguida ele voltou a falar sobre o jogo que dizia no telefone mais cedo e tudo ficou normal.
(ev te amo)

Aproveitei que estava no computador e pesquisei o que era medula óssea porque eu pensei no Sub Zero arrancando a medula ESPINHAL de alguém. Enfim, enquanto estava lendo sobre, meu pai me gritou pra ir lá na sala, isso já eram quase sete da noite. Quando eu desci, meu pai tava fazendo cachorro quente, junto com o Alfred. Wtf número 2 do dia.
– Oi, Arthie, tive que ir comprar comida porque ia ficar sozinho em casa e eu adoro essa padaria aqui perto. Aí resolvi passar pra dizer oi e seu pai acabou gostando da ideia de fazermos cachorro quente, só que eu esqueci de comprar refrigerante, vamos lá comigo? – sabe aqueles momentos da vida que você tá perto de parente e tem que forçar muito um sorriso ou alguma ação pra não voar no pescoço da pessoa na frente da sua família? Então.
– Claro.
E lá fomos nós.
– Fala sério, quê que cê veio fazer aqui, Alfred?
– Ver você.
– Por que?
– Pra saber se você é virgem ainda.
– Eu nunca te disse que eu era – sim, estávamos tendo essa conversa caminhando pra padaria. E sim, ele parou de andar quando eu disse isso – Mas a gente foi num hospital, seu doente!
– Eu já vi pornô o suficiente pra saber que isso não significa nada – e voltamos a andar.
– Falando nisso, você não me disse o quê que eu fiz na festa do Gilbert.
– E-e-eu? Não tem nada pra falar!
– Então por que você me perguntou se eu lembrava? Pára de mentir!
– Eu não estou... eu, quero dizer, assim... olha, vamos brincar de futebol com essa pedrinha aqui que eu achei? Vamos.
– Alfred!
Compramos o maldito refrigerante e voltamos. Alfred conheceu o Scott e o Peter, comemos assistindo algum filme de X-men e fomos para o meu quarto.
– Arthur, eu vim porque eu não posso mais esperar pra dizer uma coisa – EITA PORRA, ERA AGORA.
– Pois diga – me fiz de ingenuo, claro, charminho de tsundere.
– Então, desde que eu te conheci, minha vida mudou. Você fez toda a diferença que faltava – ele deu uma pausa dramática e por dentro eu já me contorcia e pensava no que diria – E eu vim te pedir uma coisa especial.
Ele se ajoelhou e segurou minhas mãos e eu não pude conter um sorriso.
– Seja minha dupla no trabalho de física? – senti minha expressão cair na hora.
– Vai se foder, seu filho da puta do caralho, como você sai da porra da sua casa e vem na puta que o pariu me pedir uma escrotice dessa? Ah, francamente, você vá tomar no olho do seu cu e-
– Arthur, calma, era brinks, eu vim te pedir em namoro, cê tá estragando.
– Oh... oh..................
– E aí, você aceita ou como é que vai ser?
– Eu aceito.
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