O Que Ele Mudou Na Minha Vida Desde Então
39 Capítulo XXXIX Mathias Køhler e Lukas Bondevik e Elizaveta Héderváry
Notas iniciais
– Eu não vou.
– Porra, Lukas!
Eu sabia que ele não ia querer ir, mas bater tanto o pé pra não ir?
– A gente só passa pra dar oi e-
– Eu não quero ir, é tão dificil assim entender? Se quiser, pode ir sozinho, eu não quero – a bibliotecária virou com uma cara feia e colocou um dedo na boca pra calarmos a nossa – Agora para de insistir, você está me fazendo passar vergonha.
Ouch. Eu posso parecer um bobão apaixonado atrás dele, mas ainda tenho meu orgulho e isso doeu. Saí sem dizer nada mas com a certeza que eu iria na porra daquela festa só de birra. Caralho, que merda. Eu via um monte de filme que eu nem entendia a moral mas fingia que gostei só pra estar do lado dele, deixava ele ganhar no Scotland Yard – se você já jogou você sabe que isso é o cúmulo do amor deixar a outra pessoa ganhar de propósito, até jogava horrores no Neopets pra ganhar NPS pra ele nos jogos que ele não era bom. Ah e eu comprei um coelho enorme rosa pra ele e nunca o vi se importar com o bichinho. Estava puto por demais.
Saí da biblioteca enfurecido e rumei para o vestiário, todos estavam se trocando porque teria treinamento um pouco mais tarde. Bati todas as portas que vi pela frente, quando finalmente bateria a do armário do vestiário Berwald me impede.
– O que aconteceu?
– Por que porras tem que acontecer algo? Não posso simplesmente ter direito a descontar minha raiva sem que ninguém seja contra?
– Lukas? – ele revirou os olhos tão discretamente que eu quase não pude perceber. Pois eu espremi os meus.
– Lukas.
Enquanto caminhávamos para o campo eu contei minhas frustrações. Ele é meu melhor amigo, tem que ouvir minha ladainha mesmo. Mas de todo modo, acho que desabafar já amenizou minha raiva.
– Ainda bem que Tino não tem dessas. Não é tão egoísta e ainda é mais sociável.
– Porra, muito obrigado. Caralho, puta conselho esse que tu me deu, viu?
– Já vai ficar nervosinho de novo? – tentei relaxar, porque era verdade que eu me exaltei demais – Na minha opinião, ele não deveria ser tão fechado assim em fazer algo simples por você. Mas você também não deve tentar forçar a ele se ele não se sentir confortável. Tantos caras reclamam de falta de liberdade e você aí reclamando de falta de grude.
– Eu nunca pedi liberdade. Vou falar para o Tino que cê me falou isso, viu? – eu falei brincando, mas quem tinha que aparecer bem na hora?
– O que ele disse? – Tino apareceu literalmente do nada com um sorriso inocente mas olhos de yandere.
– Eu disse que te amo – é engraçado como Berwald não vacilou e nem mudou de expressão. Tino pulou pra abraçá-lo.
– Aaaaaaaawn – só consegui pensar “meu Deus, tô pegando diabetes aqui” e me afastei. Na verdade foi muito bom ter falado com o Berwald por isso, involuntariamente eu pensei o quão era legal o Lukas ser mais desencanado. Claro que não tão desencanado como é, mas pelo menos não tão obsessivo como o Tino, mas pra eles funciona. Eu não sei se o conselho de Berwald foi um pedido de socorro ou uma mera simulação.
Enquanto treinávamos passes e agilidade em corrida – aqueles bagulhos com cones – olhei de relance pra arquibancada. Geralmente algumas pessoas ficavam lá pra matar aula (isso quando o Ludwig estava de bom humor e não expulsava) e outras assistiam por assistir mesmo. Mas com certeza eu não esperava ver o Lukas lá. Ele estava conversando bem engajadamente com Arthur mas ainda percebeu que eu o vi e me encarou, sem mudar muito a expressão que, mesmo que não tivesse um sorriso ainda era mais simpática, estava usando com Arthur. Lutei contra meu desejo de ir dizer pelo menos um oi, ou até sorrir e voltei o foco no que eu fazia antes. Subiu um pouco de raiva mas quando ele foi embora me senti um pouco culpado.
Ele não me mandou mensagem e não o vi o resto do dia. Lembrando que eu fiquei a tarde no colégio pelo treino e ele pela biblioteca, então assumi que já tinha ido embora. Quando terminou, todos fomos tomar banho e eu fiquei mais tempo que o necessário só com a água correndo sobre mim. Detesto ficar brigado, mas sou muito orgulhoso.
– Morreu aí? – três batidinhas na porta do meu box e a voz de Berwald me tira do transe.
– Nhé.
– Decidiu se vai na festa mais tarde?
– Claro que eu vou, se for pra ficar remoendo, prefiro fazer isso bêbado.
O resto do meu dia foi basicamente deitado na minha cama olhando para o teto e pensando. Pensando não só sobre Lukas mas sobre tudo, nesse ponto eu já estava com preguiça de viver – não, claro que eu não tava tendo pensamentos suicidas, só não queria levantar ou fazer qualquer outra coisa. O que mais tomou meu tempo realmente foi pensar em porque a resposta de tudo seria 42, foi então que criei coragem pra levantar.
Quando cheguei na casa do Antonio, não tinha quase ninguém. Praticamente só ele, Lovino, Francis e uns caras away na sala. Francis estava fazendo umas batatas fritas enquanto Antonio misturava um molho pra elas e Lovino atrapalhava os dois comendo tudo. Aí eu já tinha começado a beber. Nada muito especial aconteceu desde essa hora até Gilbert ter chegado. Depois todo mundo foi para os seus cantos e eu continuei na minha, na cozinha, sentado no balcão esvaziando uma garrafa sozinho. Até que Luciana se juntou a mim e eu não tenho certeza do que conversamos direito. Eu desabafei pra ela e ela desabafou pra mim, eu não sei sobre quem, eu nem lembro o que ela disse, só que estava super triste porque seria “impossível”. Trocamos conselhos de bêbados do tipo “esquece ela, cara” e um abraço fraternal. Como um ombro amigo. Mas eu não esperava logo da Luciana porque eu nem sou tão amigo assim dela. Acho que a tristeza aproxima as pessoas.
Algum tempo depois mudamos de assunto e paramos de falar em coisas ruins. Parece que realmente fez bem. Quando o celular começa a tocar e eu já pensei “puta que pariu, minha mãe vai encher o saco porque eu tô bêbado”.
Lukas Bondevik
Depois que eu fui embora do colégio com Arthur e nos separamos em determinada rua, comecei a pensar. Seria exagero meu? Por que Mathias não percebia que eu detestava gente? Que não consigo ficar em multidões, não suporto. Não suporto música alta e – além de ser muita gente – gente bêbada ao meu redor, não gosto de dançar e não teria o que fazer. Eu realmente não ligava e não estaria tão pensativo sobre isso se ele apenas fosse, mas ele estava me ignorando.
Tudo bem, eu não tentava fazer contato, mas ele simplesmente tinha ficado frio, o olhar dele me gelava. Achei que ele ficaria feliz e amenizasse alguma coisa quando eu fosse naquela porra de treino dele, ameaçado de levar boladas acidentais, mas com um olhar ele me sufocou. Eu não sei o que eu esperava, de qualquer forma.
No dia seguinte a gente resolveria isso, de um jeito ou de outro, então não me preocupei em encher o saco, pensei que dando um espaço ele ficaria mais tranquilo. Eu não sei, não tenho experiencias romanticas, sabia? Liguei meu DS e fui upar meus pokemons durante o resto da tarde. Quando percebi, já estava a noite e a unica luz que tinha era do pequeno console em minhas mãos, é estranho quando isso acontece. A gente fica tão concentrado que não vê escurecer. Fui jantar.
Quando voltei, tinha três mensagens no celular, abri ansioso, mais do que eu gostaria de admitir, pois achava que era do Mathias. Pois era um número desconhecido. Duas mensagens eram fotos: uma delas o Mathias conversando com a Luciana e na outra eles estavam abraçados. Eu não sei descrever o que eu senti, meu coração simplesmente pesou e eu não consegui respirar direito, depois de alguns segundos senti algo molhado no meu rosto e me recusei a acreditar que eu estava chorando. E por isso. A terceira mensagem era essa:
┎┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┈┐
► Seja menos egoísta. Pare de pensar no que ele NÃO faz por você e passe a agradecer com concessões equivalentes ao que ele faz por você.
─ um(x) amigx
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Se eu já me senti muito mal só com as imagens, imagine com aquilo. Eu não entendia o que devia significar, porque alguém faria aquilo, porque Mathias faria aquilo ou porque alguém sabe o que ele sente/pensa. Não foi Arthur, a única pessoa que conversou comigo naquele dia depois da biblioteca, porque eu não contei nada pra ele. Mas importava? Foi um tapa que eu precisei levar, mas ainda assim... oh, eu estava muito machucado. E tudo de uma vez só. Mas não ia sair fazendo barraco, porque acima de tudo eu sou racional, certo? Talvez.
Liguei pra ele três vezes antes de finalmente atender e nesse meio tempo já soluçava de tanto chorar. Não sei explicar, fiquei desesperado. Enquanto chamava tentava me acalmar.
– Alô? Mathias?
– Lukas? – desabei de novo e voltei a soluçar e gaguejar. Grande parte por falta de segurança e medo de respostas.
– O-onde você está?
– Lukas, cê tá chorando?
– Eu perguntei primeiro, caralho! – lembrando agora foi bem dramático, estava quase gritando com o celular.
– Estou na casa do Antonio, onde falei que estaria, onde você se recusou a vir e disse que inclusive tinha vergonha de mim.
– Você sabe que eu não quis dizer assim! Mas o que você está fazendo com a Luciana?
– Conversando... Por que? – desliguei o celular e mandei as fotos. Depois de alguns minutos ele me ligou de volta – Então, conversando. Lukas, um abraço não significa esse tipo de coisa.
– Não me importa o que significa pra você, alguém me mandou isso e eu nem sei quem foi...
– Não importa o que significa pra mim? Tá vendo como você quer tudo nas suas regras? Do seu jeito? E foda-se o que eu acho.
– E o que você espera que eu faça? Que eu fosse só pra ficar reclamando o tempo inteiro? E de qualquer forma, como você esperava me trazer de volta, se tá bebendo?
– A questão não é essa, é que você não me trata com um pingo de respeito ou reconhecimento.
– E por isso você já se joga em cima de menina, não é? – na hora da raiva é mais tranquilo de falar, mas quando disse isso sem pensar me lembrei e voltei a chorar, minha visão foi ficando cada vez mais embaçada e a cabeça e o coração doloridos – Sendo assim eu prefiro que esse seja o fim, se toda briguinha for assim.
Desliguei. Estava com muita raiva, falei sem pensar mas não ia voltar atrás. Talvez fosse melhor assim mesmo, afinal, eu estava muito melhor sem me apegar a ninguém. O celular voltou a tocar e eu não atendi, umas 5 outras chamadas depois eu taquei na parede e ele quebrou. Deitei na cama, coloquei o travesseiro na cara e comecei a gritar e não conseguia conter as lágrimas. Uns 5 meses da minha vida jogados fora, seria complicado esquecer tudo.
– Lukas? – minha mãe batendo na porta.
– VAI. EMBORA – tá, eu fui muito rude com a minha mãe que não tinha nada a ver com a situação e devia estar preocupada, mas me desculpei depois.
Alguns minutos depois ela voltou e eu disse que não queria ver ninguém e que não havia acontecido nada, quando minha porta foi abaixo. Sim, Mathias arrombou minha porta.
– Pode deixar, tia, obrigado – minha mãe pareceu preocupada mas ela confiava nele. E sim, ela já sabia do nosso ex-namoro.
– Vai embora.
– Não vou.
– A Luciana já se encheu de você, foi? – virei para o outro lado da cama, encarando a parede e abraçando meu travesseiro companheiro de abafação de gritos.
– Porra de Luciana. Olha pra mim e vamos resolver isso.
– Me recuso – seria tão mais fácil ter virado. Ele me levantou da cama e me segurou em seu colo, claro que eu fazia de tudo pra sair mas ele segurava.
– Agora você me escuta. Eu não tenho nada e nem quero ter com a Luciana, se eu quisesse não teria corrido atrás de você. Segundo, eu não estou exigindo que você faça nada além da sua linha de conforto, só quero que você me trate com um pouquinho mais de respeito e gratidão. Terceiro, no dia em que eu beijar outra pessoa estando com você, eu não digo uma só palavra e deixo você me esquartejar o tanto que você quiser.
Eu não queria dizer nada, eu só queria que acabasse logo. Não saía nada da minha boca, eu me sentia melhor mas ainda assim, eu estava com medo. Eu não queria falar nada e não falei, parei de lutar e me encolhi ainda mais, porque não queria que ele me visse chorar. Fail.
Mas enfim, ele me abraçou mais forte que o necessário e me deu milhões de beijos por vários lugares e disse que tava tudo bem. Acabamos dormindo juntos e sem porta. Só dormindo, okay?
Elizaveta Hedervary
– Liz, tem como me levar na casa do Lukas agora? E me emprestar um Halls.
– Tá precisando mesmo – não disse na cara, mas me referia das duas coisas – Antes eu só preciso avisar pra Lu uma coisa, só um minuto.
Enquanto Mathias esperava no meu carro se entupindo de balinhas de menta pra disfarçar o cheiro forte de alcool que ele estava, fui na cozinha realmente falar com a Luciana.
– Missão cumprida, Lu. A próxima vai ser sobre o seu caso – ela sorriu e pareceu realmente muito animada com o que viria depois, tanto pra ela, quanto para o casal da vez. Da vez eu quero dizer “da vez DE NOVO”.
Mas era isso que eu queria, né? Eu queria todo mundo feliz e se as pessoas brigam demais ou se separam isso não acontece. É feio se meter, mas as vezes precisamos esfregar na cara das pessoas até que elas enxerguem. E é engraçado como mais pra frente eu vou te mostrar como eu sempre precisei ter coisas esfregadas na cara para entender. Acho que é natural de humanos, ou só adolescentes inexperientes, tirar suas próprias conclusões e se encher de negatividade quando todo o resto das pessoas estão enxergando e você não.
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