O Que Ele Mudou Na Minha Vida Desde Então
40 Capítulo XL por Sadiq Annan
Notas iniciais
O primeiro ano do Ensino Médio foi muito tranquilo até. Não tivemos grandes richas e isso foi até estranho pra mim, mas quem sabe ele não estivesse finalmente desistindo disso, hein? Claro que não foi um “oh meu Deus, vem cá, amigão” ou “você definitivamente não existe”, mas um “hey, vamos dar um tempo nessa coisa toda porque eu cansei”. Finalmente. Talvez ele só estivesse amadurecendo, e eu também.
Enfim, de qualquer forma éramos obrigados a trabalhar juntos. Tinha o time e uma peça teatral de história no meio do ano e eu acabei sendo do grupo dele. Eu nem ligo tanto assim pra escola, não tinha lembrado dessa peça até que Alfred me pára no corredor em um dia aleatório.
– Sadiq Annan. Você já ouviu falar da Iniciativa Vingadores?
– Oi?
– Eu quero saber se você tem grupo para o trabalho do Otho.
– Que trabalho?
Até aí tudo bem, ele me explicou que o Otho passou uma peça e como seria muito elaborada o prazo era até a última semana de aula. Ficamos com Império Romano, qualquer parte que quiséssemos. Alfred me levou até o ginásio onde o grupo todo já esperava e discutiríamos o que fazer. Na arquibancada, meu grupo conversava despreocupado e enquanto ainda estava chegando mais perto fui vendo quem era. Alfred, claro; Arthur, acho que seria bem óbvio também porque Alfred; Matthew, que é outro brinde que vem com Alfred; Antonio; Lovino; Francis; Kiku e Heracles. Heracles.
– Galera, achei o nosso último membro! Mas ainda acho que podemos expulsar o Francis – o citado fez uma careta e não respondeu.
– Não, a gente precisa de nove. Se ficar faltando membros e alguém ficar sem grupo, a pessoa volta para nosso – Arthur disse. Eu ainda estava atônito encarando Heracles (que me encarava de volta) e pensando porque Alfred me chamou se ele estava lá, porque ele sabe que a gente briga pra caralho, e briga com a gente por isso. Mas deve ser só porque estava faltando. Enfim, apesar de Heracles me encarar de volta eu não conseguia desviar o olhar, parecia um bobo hipnotizado e mal ouvia a discussão.
– Mas então, o Sadiq aqui vai ficar com a gente. Só precisamos resolver o roteiro agora – Alfred praticamente ignorou o que Arthur disse.
– O roteiro. E o figurino. E os papéis. E tudo ainda.
– Calma, Lovi, dá tempo – Lovino olhou com olhos de assassino para Antonio. Seria interessante, nunca passei muito tempo perto dele e de Francis e Kiku, o resto eu já estava mais familiarizado.
Discutimos um pouco e ficou decidido que Arthur e Lovino fariam o roteiro juntos e depois resolveríamos o resto. Kiku disse que se todos comprassem seus tecidos ele fazia as roupas, Francis disse que ajudava. Matthew se ofereceu para fazer o cenário e Antonio disse que não era muito bom mas podia ajudar. Heracles passou o tempo todo só fingindo que eu não estava ali e falou bem pouco.
Alguns dias depois, voltamos ao mesmo lugar e eu nunca vi nem Arthur nem Lovino tão animados. Escolheram a época do Julio César (nada óbvio) e nos mostraram o roteiro com muita empolgação. Mas na hora de escolher quem ficava com qual personagem deu treta. Mas o que ficou confirmado foi: Antonio seria o Julio, Lovino seria Cleopatra – não, não foi fácil fazer ele pelo menos aceitar isso –; Francis seria Crasso e Alfred seria Pompeu; Arthur seria Julia, filha de Julio César – também não foi fácil fazer ele aceitar; eu seria Marco Antônio e Heracles, Caio Otávio. Mas eu não vou entrar tanto na história da peça porque isso não interessa muito.
Ah, não, tem uma coisa importante: nossos personagens meio que se odiavam. Haha, a ironia. Ou talvez tenha sido proposital. Mas enfim, os barracos eram os barracos necessários para a peça, tinha ali alguma tensão sim mas era mais fácil saber que não era real.
Quando os ensaios terminavam a gente comia um cachorro quente na tia da esquina – Francis ia embora geralmente – e no começo eu simplesmente ignorava Heracles e ele me ignorava. Depois começamos a conversar casualmente na frente dos outros mas sem muita empolgação nem muitas palavras trocadas. Não senti grandes mudanças, mas teve um dia...
– Mas eu sei que vocês viam Meninas Super Poderosas, e adoravam – disse Alfred.
– Você só está tentando fazer alguém admitir antes que você que assistia desenho de menininha – acho que Arthur não é nem um pouco sexista, só queria encher o saco do outro.
– Pára! Meninas Super Poderosas é brutaaal! Você lembra daqueles caras verdes? Eu ficava com muito nojo deles, como é o nome?
– Gangue gangrena, seu fresco.
– Hum, então você conhece.
– Argh, eu vou embora, tchau, gente – confirmado, era só implicancia de Arthur.
– Mas está chovendo, você não quer uma carona não? – oh, Matthew também estava ali.
– Eu não quero incomodar.
– Não é incomodo, a gente vai levar o Kiku também então rambora – Alfred nem esperou Arthur responder e saiu puxando ele. Matthew e Kiku se entreolharam, despediram-se de nós ao contrário dos outros dois e saíram também.
Ficamos então eu, Heracles, Antonio e Lovino. Foi meio desconfortável segurar vela pra eles. Não que eles estivessem se pegando, mas de qualquer forma, eu invejava. Coisinhas pequenas como comer o queijo porque o outro não gosta ou abrir o canudo porque o outro não consegue ou limpar o ketchup que manchou a pontinha do nariz... Se bem que observando isso eu reparei que o Lovino é um tanto quanto descoordenado e o oposto de Antonio. Mas por que eu não posso ter o Heracles se somos até que parecidos?
Continuamos lá jogando papo fora por um tempo até que a chuva parou. Meus planos eram esperar até mais a noite – eram umas cinco da tarde – e ir até um inferninho que chamam de boate ali perto porque a seca estava me deprimindo já. Antonio e Lovino se foram e eu achei que ia ficar só, batendo uns papos com a tia do cachorro quente, mas Heracles ficou também. Lembra que eu disse que foi desconfortável “segurar vela”? É porque eu não sabia que podia ser pior. E não tínhamos muito assunto. Então é claro que foi escroto.
– E então... você vem sempre aqui?
– É assim que você chega nas meninas? – não disse num tom grosso mas também não expressava brincadeira. Quer dizer, ele nunca expressava nada longe de Kiku.
– Não, mas vai que funciona com você – ele apenas desviou o olhar – Já que a gente tá aqui, você quer me contar por que você me odeia?
– Eu não te odeio! – ele virou bruscamente com uma expressão desacreditada mas 3 segundos depois já voltou a ser o estóico de sempre.
– Não é o que parece. Então o que você pensa de mim?
– Eu não penso em você.
– Viu?
– Não é ódio, é indiferença à sua arrogancia, prepotência, petulância e egocentrismo.
– Você sabe que isso não nos leva a nada, não é? Vamos fazer o seguinte. Me apaga da sua memória – ele me olhou confuso e quando abriu a boca eu contei – Finja que nunca me conheceu, me esquece. Agora sim, prazer, meu nome é Sadiq, e o seu?
– He... Heracles... Quê?
– E então, Heracles, vem sempre aqui?
– Venho... mas... eu não entendi.
– Vamos recomeçar.
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