O Que Ele Mudou Na Minha Vida Desde Então
27 Capítulo XXVII por Lukas Bondevik
Notas iniciais
Mathias é um idiota. Subestimando-me assim, como pode? Eu nem ia naquele jogo mesmo mas esperava ao menos que ele me chamasse ao invés de assumir coisas assim do nada. Aí eu tive que ir, claro. Meus pais ficaram surpresos quando eu disse que iria, ainda mais quando disse que era para prestigiar um amigo, praticamente me expulsaram de casa para que eu não perdesse por nada. “Você? Sair? Como assim um amigo?”
Quando cheguei na escola, me senti perdido. Estava vazia. Completamente. Quero dizer, a escola é enorme e eu nunca fui me aventurar em nada além do meu caminho de sempre, que é reto, e ele estava vazio. Eu sabia onde era o ginásio porque aulas de educação física são obrigatórias, mas não seria lá, com certeza. Até que andando eternamente eu achei um troço enorme iluminado por holofotes gigantes e me pergunto como porras eu não vi isso antes. E me pergunto também porque investem nisso aqui na escola quando a biblioteca estava caindo aos pedaços.
– LUKAS, EU QUASE ACHEI QUE VOCÊ NÃO VIRIA! EU TENHO UMAS TRETAS PRA TRATAR CONTIGO E-
– Respira, Elizaveta – vê-la correndo até mim vestida de cheerleader agitando os pompons foi meio bizarro. Digo, eu não poderia imaginar essa cena sozinho, conhecendo-a. Não sei, só não combina. Ela me puxou até o vestiário feminino.
– LIZ! Eu não posso estar aqui!
– Relaxa, as meninas já estão no campo e ninguém vai vir aqui.
– Então você não deveria estar aqui.
– Ninguém vai notar.
– Se você diz... E então?
– Lukas, você é péssimo em esconder. Eu sei que você gosta do Mathias.
– Você prestou atenção na merda que voc-
– PÉSSIMO EM ESCONDER. E nesse ritmo, não vai dar em nada. Escuta, você conhece ele, é como um galã... Você vai precisar de um empurrão meu porque nesse seu passo não sei nem se você consegue manter uma amizade. Primeiro porque ele é jogador de futebol, segundo porque ele é lindo e gostoso e terceiro, cê sabe que tem muita menina atrás dele, né? E com essa gama de opções ele não vai estar aqui pra sempre! – aquilo me atingiu com força. Porque era verdade – Lukas, me deixa te ajudar.
– O-olha, eu... Eu não sei.
– O quê?
– Não sei o que fazer. Nem sei direito o que eu quero, o que eu sinto. Quero dizer, eu nunca senti isso antes e me assusta pensar.
– Mas é por isso mesmo que eu tô aqui, pra te saltar – e fez continência. Esbocei um sorriso – ARRRRRÁAA, você riu que eu vi!
– Não ri não. Mas o que você pretende fazer?
– Ah, Lukinhas... Estou sempre um passo a frente. Claro que eu não vou falar pro Mathias nem nada, isso você que precisa fazer. Mas precisa ser aqui e hoje.
– Sendo assim, qual é a sua participação nisso?
– Digamos que eu vou arrumar o terreno pra você. Quando o jogo começar, eu preciso que você vá para o vestiário masculino, agora não dá porque os meninos ainda estão lá, mas quando você for, espere o final do jogo. Só Mathias irá aparecer, eu te asseguro.
– Não, Liz. Isso é arriscado, eu não deveria estar aqui e eu posso fazer isso outro dia, em outro lugar.
– Não, Lukas. Você imagina o quanto ele ficaria feliz? Digo pela situação. O quanto seria especial pra ele... Fora que se eu não te pressionar, você só vai enrolar e não vai dizer. Quanto ao resto, relaxe. Eu consigo todo o tempo do mundo pra vocês, só não abuse. E me mande uma mensagem quando a barra tiver limpa pra liberar a entrada.
– É impressão minha ou você está sugerindo coisas... estranhas?
– Nunca se sabe, né? Use camisinha. Tenho que ir, vai pensando aí no que vai dizer. Té.
E saiu. Nem me deixou responder. Não que eu conseguiria formular uma resposta rápida para isso, me pegou desprevenido. Não, isso não foi um trocadilho. E só quando saiu eu me dei conta que de certa forma, me abri para ela. Não só para alguém com quem não tinha essa intimidade, mas para alguém e ponto. Mas como eu ia saber quando o jogo começasse? Assim que pensei nisso, ouvi uma manada de elefantes passando pelo corredor gritando coisas desconexas como “aeee”, sucedido por um silencio “gritante” – talvez pelo contraste rápido entre as duas situações fosse gritante mesmo – e depois um narrador apresentando a chegada do time no campo. Bom, essa era minha deixa.
Saí do vestiário feminino, que por acaso era arrumadinho. Mas eu só notei esse detalhe quando entrei no masculino – era um chiqueiro. Eu teria que ficar ali até o final do jogo. Que beleza.
Durante o jogo, andei de cá para lá, empurrei umas coisas para o canto do banco e me sentei no lugar, mexi no celular, levantei de novo, roí as unhas... E ouvir como ia o jogo me deixava mais nervoso ainda. Não sei, é contagiante, fiquei até ansioso pelo resultado final, mesmo sem gostar de esportes, torci. Mas ainda estava tudo bem, até que o narrador disse que alguém torceu o tornozelo e teve que sair de campo. E querendo ou não admitir, me veio uma preocupação, mas o filho de uma meretriz do narrador não disse quem foi.
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