O Que Ele Mudou Na Minha Vida Desde Então
26 Capítulo XXVI por Feliciano Vargas
Notas iniciais
Meu nome é Feliciano Vargas e o Lud mudou simplesmente tudo. Desde que eu era criança as pessoas implicam comigo. Vovô sempre disse pra eu não ligar, que eles faziam isso porque eu era ingênuo e sentimental e me importo demais, e quando você não liga eles perdem a graça. Fácil falar.
Meus primos iam me “visitar” – por visitar eu quero dizer que eu era feito de saco de pancadas, alvo de piadas e bonequinha deles. Minha mãe sempre dizia que eles estavam apenas brincando comigo e que eu devia me sentir aceito por isso. Com Lovino nunca implicaram, ele sabe se defender e me defendia quando estava em casa. Bom, dizem que Lovino é o capeta. E foi por isso que vim morar com o vovô.
Vovô – ou Otho, como sua intimidade preferir – é um cara definitivamente superprotetor. Ninguém daqui chegou a implicar comigo dentro da escola (claro, eu sou protegido do diretor) mas na rua – frizando que ninguém aqui da escola – eu era um alvo fácil. Eu não sei, alguém deve ter pintado um alvo vermelho na minha testa e eu sou denso demais para perceber (porque denso eu sei que sou mesmo). Já apanhei de pessoas de outras escolas na volta pra casa. São apenas vinte minutos a pé da escola, e por isso, sempre me recusei a voltar de ônibus, não que também fosse uma alternativa 100% segura mas mais rápida, como vovô queria que eu fizesse. Como de manhã ele e Erik vão de carro, eu vou junto, mas eles têm que passar a tarde no colégio também.
Enfim, outras escolas têm gangues – que eu saiba, aqui não tem – mas eles acham que temos também. Talvez de fora pareça que os meninos do futebol são, mas depois de conhecer eu diria que está mais pra “irmandade”. Então eles saem batendo em qualquer um com uniforme diferente do próprio. Talvez eu só tinha má sorte mesmo. E nisso eu aprendi a bater em retirada, como diz Lovi.
Acontece que em um dia desses, creio que na 8ª série, tinha uns cinco caras atrás de mim. Tudo bem, eu passei minha vida correndo, estava quase a um nível olímpico. Mas faziam apenas alguns meses que eu morava aqui, o único caminho que conhecia era o que fazia todo dia e eles me fizeram sair desse caminho (parece que estou falando que são sempre os mesmos caras, mas quase sempre era gente diferente). Me perdi, entrei num beco quase-sem-saída – tinha um portão gradeado no meio dele, de quem foi essa ideia maravilhosa? – e eu só sabia correr, nem um tipo de fuga mais requintada.
– Cadê seus amigos agora? Trituraríamos todos vocês de uma vez – o cara que pareceu ser o líder disse.
– Hã? – eu genuinamente não entendi, até porque não tinha “amigos”. Mas eu sou meio avoado e talvez ele quis dizer meus colegas e na hora não entendi, e isso pareceu o ter feito bem irritado. Ele pegou um pedaço de pau e veio pra cima, só pude fechar os olhos e rezar pro Monstro do Espaguete Voador. Mas a paulada nunca veio. Abri os olhos e agradeci ao Espaguete. Até que percebi que Lud estava lá.
Lud dava aula para o Ensino Médio, eu estava na 8ª, não o conhecia. Também não o tinha visto antes por lá, repetindo, sou meio avoado. Então eu achei que era só um estranho sendo gente boa.
– Vocês têm 5 segundos para sumir daqui, nunca mais ir atrás desse menino e espalhar isso para todos os outros por aí.
Eu também fiquei com medo dele de primeira, então entendo como eles simplesmente desinfetaram. Fiquei com mais medo que Lud me quebrasse sozinho que os cinco juntos de uma vez. Mas ele me levantou, perguntou se eu tava bem e me colocou dentro de um carro. Eu já imaginava que ele ia me levar pra um mato no meio de qualquer estrada e fazer atrocidades. Mas ele me levou pra casa.
– Ué...
– O que? – ele parecia realmente assustado com o meu “questionamento”;
– Como assim você sabe onde eu moro? Você é um espião? Faça o que quiser comigo mas não mate meu vôzinho!
– Quê? Feliciano, quem você está pensando que eu sou?
– EH? M-MEU NOME!
– Você não me conhece?
– Uh... Desculpa, deveria?
– Ludwig Beilschmidt, sou professor de matemática do Ensino Médio e treinador do time de futebol da sua escola. Filho do Erik... irmão do Gilbert... Da sua sala... Sabe?
– Ah sim, muito prazer, eu sou Feliciano Vargas, irmão de Lovino e Biancheri e-
– EU SEI QUEM VOCÊ É. – já descobri que ele se estressava fácil, mas do jeito que ele disse eu realmente achei que era pra se apresentar.
– Ah, desculpa...
Ele me levou pra dentro e cuidou do arranhado nas minhas mãos de quando caí. Realmente não precisava, mas ele até me ajudou a fazer o almoço – tá, minhas mãos estavam machucadas, mas não amputadas. Esperou até as quatro mais ou menos, que é quando as aulas de Erik acabam e ele volta pra casa. Aí quando ele chegou, Lud explicou a situação e tal.
– Só posso agradecer por você estar lá na hora e lugar certo. Por falar nisso, se você está aqui, cadê o Gilbert?
– Ele foi pra casa de Antonio, vai dormir lá. Eles estavam indo de ônibus quando viu Feliciano correndo e me ligou porque ele não podia fazer nada e me mandou “mexer minha bunda e ir ajudar”. Então o crédito vai para seu filho mais doce.
– Bom, Otho vai pirar.
Tomamos um chá, Lud foi embora, um tempo depois vovô chegou. Ele quebrou uma cadeira a jogando no chão quando soube e disse que agora eu teria que esperá-lo ou a Erik pra vir embora. Eu detestei isso, um exagero, e o que eu ficaria fazendo esse tempo todo na escola? Não me diga estudar, ok?
No dia seguinte, na escola, Ludwig passou na minha sala pra perguntar como foi e eu contei.
– Entendi. E como você vai almoçar aqui? Trouxe comida? A cantina fecha depois do lanche e só reabre para o lanche da tarde, e Otho e Erik trazem a comida deles, geralmente.
– Eh? Eu não tinha lembrado disso...
– Bom, eu fico aqui a tarde as vezes porque o futebol é no horário inverso, então você pode ficar com a gente. Tipo hoje. Eu e Gilbert almoçamos em um restaurante aqui perto, se Otho deixar você ir...
– Sério mesmo? Eu posso?
– Sim, você quer que eu vá pedir a ele contigo?
– Uhum – eu estava muito feliz. Não é como se as pessoas fossem rudes comigo, mas ninguém é tão gentil.
Vovô deixou, então fomos. Era um restaurante chamado Barrigão. Eu sei que pelo nome você imaginou algo meio “largado” mas é bem arrumadinho e aconchegante, e tem todo tipo de comida e é realmente muito muito muito gostosa.
Gilbert tem fama de desagradável, mas eu não concordo. Quer dizer, quando ele quer ser irritante ninguém pode impedir, mas de resto ele é uma pessoa como qualquer outra. Tirando a auto-estima infinita, ele é a reencarnação de Narciso. Isso, na verdade, me deixa muito admirado.
Voltamos para a escola na hora certa e eu fiquei quietinho logo atrás de Lud, só observando, até porque eu não entendia mas achava legal de se ver.
– Ei, Feliciano, eu tive uma ideia – geralmente quando as pessoas falam isso é sucedido de uma péssima ideia – Dez voltas no campo.
– Oi?
– Dê dez voltas ao redor do campo,junto com os outros.
– E-eu não entendo...
– VAMOS, VARGAS!
Claro que eu fui. Caso você não tenha notado, ele me dá medo normalmente, gritando então é ainda pior. E também não é como se eu não fosse capaz disso. Quando terminei, ele me mandou beber água e mais dez, mas agora os meninos começaram a praticar. Sabe aqueles obstáculos de cones e essas coisas? Então, ele acabou me fazendo fazer isso também, mas pra isso não tinha coordenação motora. Caí muitas vezes mas ninguém riu de mim, e me ajudaram a me levantar sem problemas. E ninguém ligou se eu era realmente pra estar ali/era do time.
Enquanto Lud os colocou pra jogar “de verdade”, eu descansava no banco – até os reservas estavam lá porque tinha ao todo 16 jogadores pra formar dois times pra praticar melhor. Depois foram todos tomar banho e eu percebi que o tempo que gastei descansando devia ter passado tomando banho. Não sei, fiquei com vergonha e esperei Erik sair pra ir tomar banho em casa. Nojento mas necessário.
Como obviamente não tem futebol a tarde todo dia – só segunda, quarta e sexta –, terça e quinta Lud tinha que ir pra casa normalmente, mas se comprometeu com vovô em me deixar em casa. E assim o ano foi passando... Tente montar um clipe de flashbacks curtos tocando “I’ll make a man out of you” no fundo, haha. Inclusive, fiz Lud assistir todos os filmes da Disney comigo. É uma troca, sabe?
– Feliciano, você não acha que está um pouco velho pra isso? Eu ainda mais.
– Nunca se é velho demais pra Tarzan, ve.
Dizendo ele que via a “contragosto”, mas eu sei que ele acabava gostando. As pessoas me acham muito burro pra ler atmosferas – o que na verdade não é tão mentira (?) – mas eu também consigo ver muitas coisas que as pessoas acham que são boas em esconder.
Ele se sentou no canto de apoiar o braço no sofá e eu assumi que já tínhamos intimidade o suficiente pra me sentar ao lado e encostar nele. Ele ficou rígido por um momento mas não me afastou. Aliás, eu sou uma pessoa muito carinhosa e já segurava isso por um tempo, mas tinha medo da resposta. Eu gosto de demonstrar por quem eu tenho apreço, sabe? E é isso, acho que esse foi o “primeiro grande contato”.
A rotina foi se estabilizando até que terça e quinta foram preenchidas devidamente. Às terças víamos filme na minha casa e às quintas eu ia pra casa dele e as vezes dormia lá. A primeira vez foi bem bizarra.
Passamos a tarde fazendo lasagna, comemos enquanto assistíamos a um desenho que Gilbert gostava – era um pouco violento mas acabei gostando – e quando me dei por mim já estava escuro. Vovô sempre vinha me buscar quando saía do colégio lá pelas seis da tarde, mas já eram oito da noite! Eu não tinha visto o tempo passar, então liguei pro vovô, algo devia ter acontecido, né?
– ALÔ? VOVÔ? CÊ TÁ BEM?
– Eh? Calma, Feliciano, estou sim, quê que aconteceu?
– É que o senhor não veio me buscar, aí eu achei que- já podia sentir minha visão embaçar por causa das lágrimas.
– Calma, ok? Pára de chorar, me passe para Ludwig.
– Eu não tô chorando! – e comecei a chorar.
– Alô? Hm. Certo. Sem problemas. Pode deixar. Meu Deus, poupe-me dos detalhes, ele é meu pai! – eu não conseguia ter uma mínima ideia do que vovô dizia para Lud reagir assim. Ele desligou, me devolveu o celular e disse – Feliciano, você vai dormir aqui.
– Eh? M-mas... Eu fui abandonado?
– Digamos que eles querem apenas... uma... folga.
– Eles estão cansados de mim? – e aí eu abri o berreiro de novo.
– N-não! Feliciano, pelo amor de Deus, não chora! – de onde ele tirou que isso basta para fazer alguém parar de chorar é um mistério. Mas aí ele me abraçou e eu parei, mais pelo susto, sabe?
– Gilbert, vai arrumar o beliche. Você vai dormir em cima pra ele dormir embaixo hoje.
– Você esqueceu que quando papai se mudou vendemos o beliche? Você ficou com a cama dele de C-A-S-A-L e me deu uma de solteiro. Portanto, Feliciano é todo seu.
E eu realmente tive que dormir na cama de Lud. E foi meio desconfortável. Quero dizer, a cama é boa e tudo mais, mas Lud estava rígido como uma pedra, devia estar nervoso porque não me queria lá... Mas aí eu acabei ficando nervoso, só que de nervosismo, também. Mas eventualmente eu peguei no sono. E acordei abraçando um Lud – acordado – mais tenso que o de de noite.
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