O Que Ele Mudou Na Minha Vida Desde Então
29 Capítulo XXIX por Francis Bonnefoy
Notas iniciais
Joana e eu então ficamos muito amigos. Eu sei que é difícil imaginar que eu possa fazer só amizade, mas... Mas nada, veja o Gilbert e o Antonio. Se bem que o Antonio tem seus atributos.......... Parei. Mas o fato é que eu consegui manter uma amizade extremamente pura e livre de tensões sexuais com ela. Não sei como explicar, não direi que foi meu refúgio porque isso já está brega, mas era muito agradável somente estar com ela. E foi ótimo porque pouco a pouco eu não sabia mais quem era Arthur, não dava mais tempo, saímos quase todos os dias para todo tipo de lugar (digo, quase todo) e depois passávamos as noites conversando pelo MSN ou mensagem de texto.
– Meu cabelo está crescendo muito devagar – estávamos sentados num banco de um parque tomando sorvete, quando bem aleatoriamente ela me fala isso.
– E você quer que cresça rápido?
– Antes de cortar era enorme, passava do bumbum. Olha – ela me mostrou umas fotos no celular –, eu o amava demais. Ainda sinto falta do peso dele nos meus ombros, haha.
– E por que cortou? Sabe, seu cabelo era lindo mesmo. Mas poucas garotas ficam lindas como você de cabelo curto.
– Bom, eu tive câncer. Leucemia. Aí tive que fazer quimioterapia e tudo mais, e agora estou bem. Não há muito com o que se preocupar. Quer dizer, claro que pode voltar, sempre tem essa chance, mas eu acho que o importante da vida não é o tempo que se vive, é a bagagem que se leva, certo?
– Você tem um jeito estranho de ser otimista, honhonhon. Não vai voltar, eu sou seu remédio enquanto eu estiver perto de você.
Claro que para mim era grande coisa saber disso, e fico muito feliz que ela compartilhasse essas coisas comigo. Ela nunca foi do tipo que gostava de gritar suas fraquezas – pelo contrário, ela sempre foi a mulher mais forte e teimosa que conheci. Se bem que teimosia não é bem a palavra certa, talvez guerreira. Sempre teve ideais bem expressos, eu diria. Nunca vacilou quanto ao que achava certo ou errado, sempre tendo uma opinião bem coada. É engraçado como debatíamos assuntos um tanto quanto polêmicos e o sangue dela fervia de verdade como se os argumentos que ela apresentasse ali para mim e somente para mim pudessem salvar o mundo de toda a falta de ética. O que era muito fofo, na verdade. Aquele clichê do “você fica linda exaltada”, mas claro que eu não ia contar.
– Francisquinho, como que vai com aquela gatinha? Tá passando muito tempo com ela, estamos com ciúmes... – Gilbert não sabia ser exatamente convincente.
– E saudades! – ount, Tonhão.
– Veja lá como fala dela! É só uma grande amiga, assim como vocês. E tem mais, vocês já me abandonaram o bastante esse ano para reclamar.
– Ah qual é, tá solitário é?
– Não, querido Gilberto, a Joana é uma ótima amiga e não me abandona para ficar stalkeando as pessoas ou em missões suicidas tipo namorar o irmão do Alfred. Fica de olho nesse teu cu, eu sou só amigo de Matthieu e o Alfred quase que me bate achando que eu ia desvirginar o menino.
– E TU NÃO O FEZ MESMO NÃO NÉ?
– Não, eu não estaria aqui para te contar a história. E Matthieu tem tanta cara de anjinho que eu mesmo me sentiria culpado para a vida inteira.
– Acho bom. E por falar nisso, eu preciso de um conselho, ó grandioso rei da festa. Eu não sei como falar com o Matthew sobre isso.
– Não é como se você fosse virgem, Gilbert.
– E não é como se o Matthew não fosse. E eu não quero estragar, não sei, parece que ele tem medo de eu estar brincando com ele e eu tenho medo do Alfred.
– E realmente precisa ser agora? Espera mais, deixa o menino se sentir mais confortável, faça ele estar mais confiante. E saiba que é o que você quer mesmo, porque Matthieu é meu amigo também, além de Alfred você enfrenta minha ira.
– Eu não sou tão ruim assim não, sabia? E por quê que cê tá calado assim, Tonhão?
– Quê?
– O quê que você acha sobre a crise dos mísseis de Cuba?
– Por que vocês estão conversando disso, caras? – as vezes Antonio fica muito denso quando está distraído.
– Eu estava aqui pensando... Eu ainda não pedi o Lovino em namoro, né? Mas eu queria fazer uma coisa bonitinha... Mas eu não sou criativo... Ugh.
– Oxi, jurava que cês tavam juntos há mó tempão.
– Bom, Gilbert, esse negócio de fazer a pessoa se sentir mais confortável, eu queria já começar confortável.
– Ah fela da puta, cê tava ouvindo de verdade, né?
– Talvez.
– Duas palavras para você, Antonio: Elizaveta Héderváry. Vou indo, tenho que me encontrar com Joana daqui dez minutos na biblioteca, adieu.
– Pera, quê que tem a Liz, Francis?
– Gil, você a conhece. Sabe que ela adora ser cupido dos outros, ela vai ter ideias ótimas. Ou não.
– Gracias, Francis, leva camisinha.
– Vai lavar a boca, seu impuro.
– Nossa, nem de brincadeira eu imaginava o Francis falando assim, kesese.
Esses dois as vezes cansam minha beleza. Enfim, fui encontrá-la, pegamos alguns livros e fomos tomar chá num lugar aqui perto. Lembra que eu disse que esqueci até quem era Arthur? Não teria como não lembrar, admita. Chá.
– Você não parece muito bem, Francis.
– Mas eu estou.
– Não está.
– Só estou tonto, nada de mais.
– Eu sei que não é isso. Você sabe que pode me contar tudo, assim como eu te conto tudo também. Não sei se já te disse isso, mas você é o meu melhor amigo, mesmo que eu não seja a sua melhor amiga eu já me contento em ser uma grande amiga.
– Não posso dizer que você é a melhor amiga, porque tenho dois idiotas que são como irmãos. Talvez a melhor amiga mulher, mas se você está entre os melhores amigos? Oui, claro. Não é que eu não queira te contar as coisas, sabe? É que é tão bom não lembrar delas que quando a gente pára para pensar depois nos atinge como uma facada.
– Eu entendo. Você já falou disso com alguém?
– Não, eu... Acho que me sentiria muito ridículo. Principalmente agora que meus amigos viraram gente e encontraram pessoas que valem muito a pena e... Não sei, eu me sinto mal. Tenho inveja. A pessoa que eu gosto não gosta de mim.
– E você acredita que desabafar ajude alguma coisa?
– Talvez.
– Então, eu vou te dizer. Depois que eu vim para cá, não contei para ninguém sobre minha leucemia. Vivemos numa geração que crê que o humor negro é algo superior e até culto, talvez seja um pouco engraçadinho mas não é para quem sofre. Não tem nada de engraçado. Quando eu raspei a cabeça, virei a piada do colégio. As pessoas não conseguem simplesmente respeitar e quanto às regras sobre isso da escola? Professores mesmo eram os “atiradores”. Ninguém fez nada por mim. Ninguém passou a mão na minha cabeça. Apesar de eu já estar no chão só pela minha condição, as pessoas só cavavam ainda mais um buraco para me enterrar. Quando vim para cá, tive medo de se repetir. Quero dizer, eu não estou careca nem nada, mas olha, eu vejo filmes americanos, as escolas daqui sempre me pareceram o pior inferno que alguém poderia estar. E você, Francis Bonnefoy, meu amigo de não-tão-longa jornada, foi o primeiro a saber.
Fiquei alguns minutos em silêncio, refletindo. Era por isso que ela queria ser tão forte, mas ela não era. Ela não tinha se machucado tanto assim por ter câncer, mas as pessoas praticamente a açoitaram.
– Cherie, agora eu fiquei com vergonha. É uma coisa muito boba mesmo, você não precisa se preocupar assim comigo. Meu problema é amar demais.
E contei para ela toda aquela história que contei para você. Desde ter casado quando éramos pequenos até o episódio na casa de Matthieu. Eu não chorei, o que foi uma vitória. E todo aquele medo de ser zombado foi por água abaixo, eu não sei porque não queria dizer para ela antes. E ela tinha um interesse enorme e foi a pessoa que eu precisava, e não é falta de modéstia, é o que ela me dizia: eu era a pessoa que ela precisava também. Por fim eu a deixei em casa e me despedi.
– Sabe, Francis, a pessoa que eu gosto também não gosta de mim – me deu um beijo e entrou.
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