O Que Ele Mudou Na Minha Vida Desde Então
33 Capítulo XXXIII por Matthew Williams
Notas iniciais
– Alô?
– Oi, Mat?
– Ah, oi Gil. Como vai?
– Vou bem e você?
– Também – eu não sei continuar essas conversas pelo telefone, as vezes nem cara a cara.
– Ér... Escuta, você por acaso, quem sabe, talveeez, gostaria de sair comigo?
– Agora? Porque eu estou no mercadinho aqui da esquina. Alfred comeu todos os meus iogurtes e deu uma vontade...
– Não não, quero dizer mais tarde. Você já foi num restaurante chamado Beaumount? É mais perto daqui do condomínio do que daí, mas eu pensei que de qualquer forma, se você quiser é claro, a gente poderia jantar lá se você estiver afim – não sei dizer se ele falava muito rápido ou muito devagar. Acho que devagar mas na verdade sem dar pausas para virgulas, era engraçado.
– E é pra usar traje formal? Na verdade nunca fui a um restaurante chique assim – ri timidamente mas ainda audível e fiquei com mais vergonha ainda.
– Boa pergunta. Creio que sim. Mas então, você aceita?
– Claro, por que não?
– Ótimo, te vejo as oito? Quer que eu te busque?
– Gil, eu tenho carro. As vezes você é atencioso demais, não precisa, eu vou. Também não faz sentido você vir aqui, se aí é perto.
– Eu? A-atencioso? Nada, é imaginação tua. Atémaisbeijotchau – desligou.
Foi bem estranho, mas tudo bem. Fiquei imaginando se ele também já tinha ido ou me chamou porque estava curioso e precisava de companhia, no caminho de volta pra casa.
– Cheguei, vou começar a escrever com marcador permanente meu nome nas embalagens, heróis não roubam iogurtes.
– Aff, eu não roubei, eles que me imploraram pra ser comidos, ok?
– Iogurtes não falam!
– Falam sim, eles disseram “socorro, Al, o Matthew quer deixar a gente mofar aqui na geladeira, minha data de validade está quase acabando, nããããão” – muito teatral, com direito a voz fininha e expressões exageradas.
– Deus tá vendo, Alfred.
– Deus tá vendo mesmo a maldade com os pobres danoninhos. Já que cê tá aqui, vamos jogar Need For Speed? Juro que dessa vez não roubo quando você for ao banheiro.
– Não dá, vou tomar banho, tenho compromisso mais tarde.
– Cê anda muito popularzinho, viu? E pensar que você ficava em casa pra eu sair a noite... Mas usa camisinha, tá?
– Alfred! Eu vou a um restaurante com o Gilbert.
– Hum, Deus tá vendo você se encontrar com o Tinhoso.
– Não fala assim dele. E não é um encontro, só vamos comer, ué.
– Sei. Leva água benta no lugar então.
– Pra um herói você é bem racista, só porque o cara é albino – usei um tom de desdém misturado com ironia e não sei bem explicar o que isso transforma.
– VOCÊ ESTÁ DUVIDANDO DO MEU SENSO DE JUSTIÇA, MATTHEW? VOCÊ SERÁ CASTIGADO, ENTÃO – e me empurrou no sofá mais próximo e começou a fazer cócegas.
– AI, PARA UAHEU EU VOU FAZER XIXIIIII, ALFRED!
– Só vou parar porque minha mãe ia me matar se te fizesse fazer xixi no sofá novinho dela.
– Sei.
– Mas não é porque ele é albino não. Ele é meu amigo, eu conheço ele. Talvez ele seja mais safado e sem coração até do que o Francis. Acho que talvez porque o Francis ainda tem aquele charme francês molhador de calcinhas mas...
– Ele é meu amigo também. Os dois são, ok? E eles são pessoas boas, seriam incapazes de me fazer mal. Segundo, só vamos ao restaurante pra saber como é lá, já foi em um restaurante francês? Chique? Pois é – ele não disse nada, apenas fez que sim com a cabeça fiz meu caminho até os pés da escada e rumei para o meu quarto.
Tomei um banho rápido e fui escolher a roupa. E eu não tinha uma roupa social. Meu armário é basicamente constituído de camisas básicas, moletons, calças jeans e bermudas. Simples simples. Liguei para o Abel e ele me socorreu a domicilio. Acabou que fiquei com uma blusa social azul clara, um blazer azul escuro, calça jeans e um tênis preto discreto, já que ele não pode me emprestar sapato pois tem 4 números a mais que eu.
– Está lindo, Mat.
– Obrigado, Ab, eu não sei o que faria sem você.
– Eu sei o que faria com você – levantou-se do sofá e se aproximou de mim. Segurou meu queixo em suas duas mãos e me deu um beijo. Na boca. E eu quase tive um ataque do coração – Liga pra ele, diz que você não pode hoje. Saia comigo.
– Eh... E-eu eu eu não posso! Já está quase na hora e... e... desculpa, eu não posso. Eu não estou no seu nível e você pode escolher a dedo quem você quiser... E a Laura me detestaria pra sempre... V-você é cercado de garotas e-
Caso você não tenha notado, eu fiquei muito, MUITO, nervoso. Eu não sei, foi tão repentino, eu nem sabia o que pensar sobre, só fui falando o que pensei e mal mal consegui formar frases direito.
– Acontece que eu estou escolhendo você. Não posso te ter? – ele falava com a maior calma do mundo como se já tivesse antecipado que eu iria surtar.
– Me desculpa... Eu não sei como lidar com isso, eu... não sei, só isso.
– Tudo bem, te dou o tempo que precisar pra pensar. Não gosto de nãos, viu? Já vou avisando – e sorriu. Não parecia exatamente triste mas ainda sentia culpa, porque tinha quase certeza que seria um não.
Eu não estava pronto pra todo o ciúme que eu com certeza iria passar. E não é como se eu fosse ou achasse que tenho o direito de mudar o estilo de vida dele por isso. Ele é um ótimo amigo, um cara muito legal e eu até poderia relevar, se não tivesse a Laura. Laura é ex dele e nossa cheerleader, também não era exatamente por ela ser ela, mas eu não quero ser odiado por ninguém. Abel me disse pra tacar o foda-se mas eu não consigo, também não quero magoar ninguém.
Fui para o tal restaurante, enquanto estava no carro tive mil pensamentos tipo esses. E também como foi prepotente ele ter mandado deixar o Gil na mão. Isso não se faz! Mas tudo bem, não iria brigar porque já bastava o tal do não. Quando cheguei, Gilbert estava me esperando ao lado do seu carro no estacionamento ao lado do restaurante.
– Também dispensou o manobrista?
– Eu tenho ciúmes do meu carro – eu tento ao máximo não demonstrar o quão ciumento eu sou, mas com minhas coisas/pessoas que amo, sim, eu sou bem possessivo. A diferença é que eu não gosto de deixar as pessoas que amo saber, tenho medo de ser chato demais – E você?
– Tsc, eu não preciso de manobrista, foda demais pra isso – e abriu um sorriso cheio de dentes – Vamos entrando?
E entramos. Gilbert que falou com o carinha-da-recepção-que-eu-não-faço-ideia-o-nome e conseguimos uma mesa. O ambiente era bem agradável, tocava uma música bem suave e baixinha, tinha uma iluminação bem legal e as pessoas conversavam entre si mas baixo o que não provocava aquela sensação horrível de estar todo mundo falando ao mesmo tempo ou alguma voz se sobressaindo dos lugares onde já fui. Ótimo, adorei.
– Está bonitão hein, Gil. Nunca tinha te visto de terno – era uma brincadeira com fundo de verdade, conhece né? Ele estava com calça preta, camisa social preta e blazer preto. Isso destacava muito os olhos e cabelo, mas não de uma forma ruim. Acho que ele ficou com vergonha, deu apenas um sorriso nervoso mas não comentou nada.
Pedimos a comida, etc etc, nos confundimos e confundimos o garçom, pagamos alguns micos mas ele acabou rindo com a gente e depois conversamos sobre coisas aleatórias enquanto comíamos.
– Então, Matthew, eu te trouxe aqui pra contar uma coisa...
– Diga, jovem.
– E-eu te trouxe aqui... porque... por que né? Porque... porque eu queria te contar uma coisa ué...
– Gil, você está me deixando curioso!
– Tá bom, agora eu falo, pera. Então, como você notou aquele dia na casa do Francis, eu nunca te notei. Me sinto estúpido porque você sempre estava lá e mesmo que não tenha tanta gente assim eu nunca soube que você estava lá. Mas aquele dia da casa do Francis... Sabe, eu estava enchendo a cara porque justamente a pessoa que eu notava demais não me nota, entende? E quando eu te notei eu notei que foi tempo perdido não ter notado... Pera, tá ficando confuso... Enfim! Quando você apareceu, eu estava quase miserável e de repente você pareceu um anjinho enviado de quem quer que esteja a cargo lá em cima. Tanto pra me mostrar que eu sou egoísta quanto pra me ajudar a esquecer e consequentemente a ser alguém melhor. O fato é que: quando você apareceu, meu mundo voltou a sorrir. Você estava sorrindo.
E mais uma vez eu não sabia o que fazer. Estava impressionado e surpreso demais, mas dessa vez eu não tinha palavras. Ele se levantou e ajoelhou-se do meu lado, tomou minha mão e disse:
– Bom, eu não comprei um anel porque não entendo dessas coisas, mas enfim, Matthew Williams, você me daria a imensa honra de namorar comigo?
Dessa vez eu sabia o que fazer. Estava impressionado e surpreso demais, mas dessa vez eu tinha uma palavra.
– Gil, eu não sei se sinto a mesma coisa... Você é um grande amigo, mesmo. Mas... Por que não? Você também me faz muito bem. Sim.
Ele abriu o maior sorrisão do mundo e se levantou e me abraçou.
– Posso te beijar?
– Ué, Gil, não é isso que namorados fazem?
– Mas eu quero fazer tudo direitinho! – me deu um selinho e voltar a sentar. De resto se passou como estava antes, mas ele parecia mais animado e menos nervoso. Na hora de pagar a conta ele quase brigou comigo pra pagar tudo, fiquei com vergonha porque não queria que ele pensasse que eu estava me aproveitando. E de qualquer forma não era muito barato não. Mas no fundo achei isso fofo. Na hora de ir embora passamos um tempão no estacionamento encostados no carro dele trocando beijinhos.
– Eu nem acredito.
– Em que, Gil?
– Que você aceitou. Tipo, você nem gosta de mim.
– Eu gosto de você, só não tenho certeza se desse jeito, ué. Aí é seu trabalho me ajudar a descobrir.
Agora deixe-me explicar porque eu não tive dúvidas quanto ao Gilbert. Porque não é como se Abel não me atraísse também. Mas o Abel nunca sofreu, ele sempre teve quem ele quisesse na mão. Não seria por isso que eu iria rejeitá-lo, só pra ele sofrer um pouquinho. Mas era isso que me assustava, ele poderia sentir que pode fazer o que quiser, mesmo comigo. Ele pode, mas eu ficaria extremamente desconfortável. Abel gostou de mim porque eu tenho uma aparência relativamente legal e tenho mesmos interesses culturais. Gilbert gosta de mim porque segundo ele mesmo eu o ajudei. Talvez ele só tivesse se iludido na hora porque queria esquecer mas eu ainda podia ajudá-lo mais ainda. Ou talvez eu estivesse criando desculpas na hora e realmente gostasse do Gilbert, mas como você já sabe, eu não sou bom em ler nem meus próprios sentimentos.
– Escuta, posso te pedir um favorzinho?
– Claro, Matt, pode falar, eu faço qualquer coisa.
– Sei, qualquer coisa, haha. Então... Você ficaria chateado se eu te pedisse pra, por enquanto, a gente manter segredo? – ele parou, pensou um pouco...
– Não, não é o reconhecimento dos outros que me faz feliz, só de ter você mesmo já é mais do que eu posso pedir.
– Obrigado. Alfred vai ficar uma fera, haha. Precisamos acostumá-lo mais com sua proximidade de mim, ele não confia em você.
– Você confia? – fiz que sim com a cabeça – Então tudo bem. É meio que culpa minha, eu sempre tentei arrastar ele pra farra.
E foi assim que começou tudo.
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