O Que Ele Mudou Na Minha Vida Desde Então
31 Capítulo XXXI por Antonio F. Carriedo
Notas iniciais
E aquilo de ainda não estar oficialmente namorando com Lovino me incomodava. Eu não precisava mais de nenhuma confirmação dele ou de autorização do Otho – quer dizer, oficialmente eu também não tinha dito nada pra ele e sim, eu queria uma permissão do mais próximo de pai que ele tinha por aqui, apesar de silenciosamente já termos trocado esse pedido com olhares. Mas eu ainda queria algo especial e Elizaveta seria um plano B. Não sei explicar, só queria que fosse ultra especial e não sentiria que foi se outra pessoa tivesse pensado.
O jogo não foi difícil, foi cansativo porque um adversário me marcava muito e de modo não tão esportivo assim. Mas tudo bem, acredito em karma, sabe? E ele acabou se machucando tentando me machucar. Fora isso, tranquilo. Depois do jogo Heracles e Kiku sugeriram pedirmos uma pizza aqui na escola mesmo e foi o que fizemos. Kiku aproveitou e fez umas perguntas e tiramos algumas fotos, para o jornalzinho da escola, sabe?
– Agora uma só de vocês – Kiku se aproximou com um leve sorriso e a câmera de mim e Lovino, posei mas Lovino...
– Pera, pra quê? Eu não sou do time... Não tem necessidade, eu nem sou ninguém de qualquer clube ou mesmo importante ou-
– Não é para o jornal, é pra vocês mesmo.
– Oh... Ah mas eu não gosto de tirar foto... – perdi a paciência e o puxei, apertando seu rosto contra o meu. Kiku pareceu entender o recado e tudo foi muito rápido, logo vimos a luz do flash e em segundos resolvemos a teimosia de Lovino.
– Perfeito, obrigado.
As mesas do refeitório não são muito grandes a ponto de uma só conseguir abrigar tanta gente – e tanta pizza. Juntamos três e ainda foi inevitável que não ficássemos todos perto um do outro, eu estava na ponta com Lovino enquanto Francis estava na outra e Gilbert estava no meio, por exemplo. Mas isso não significava que não estivéssemos que não conversássemos todos, as vezes falando ao mesmo tempo, as vezes em grupos pequenos distintos, mas na maioria todos sintonizados no mesmo assunto.
– Cês viram aquele filme novo do Superman? Ficou ó, uma bosta – Alfred dizia de um lado da mesa.
– O ultimo Superman que prestou foi Christopher Reeves, com certeza – Ivan.
– É por isso que é melhor ler HQ – apesar de Matthew falar baixo, todo mundo parava pra escutar. Ah, ele parecia um ursinho, não tem como ser rude nem querendo.
– Mas o ponto aqui é: o Batman é muito melhor – Gilbert é um grande fã do Batman e grande colocador de lenha na fogueira.
E assim passamos a noite, muito agradável, assuntos simples e despreocupados e de pouco em pouco alguém ia embora. Primeiro Mei, Michelle, Heracles e Kiku, depois Laura, depois Ivan e Natalia, depois Yao, José, e assim por diante. Acabou que ficamos eu, Lovino, Alfred, Arthur, Francis – ele tinha deixado Joana em casa mas voltou –, Gilbert, Matthew, Sadiq. Não tive mais noticias de Mathias depois que Heracles me disse que o pai dele veio aqui.
Enfim, já tínhamos dispensado as outras mesas e ficamos só em uma. Não que tenha tido algo muito diferente, só que agora Arthur e Lovino tinham sentado lado a lado e agora conversavam muito animadamente. Digo animado na escala deles. Eles conversavam os assuntos pertinentes a eles e nós os nossos até que não havia mais um pedacinho de calabresa sequer fora de algum estomago.
– Ei, está ficando tarde... – Lovino debruçado sobre a mesa só virou o suficiente pra me dizer isso, com uma cara que faz você ficar com sono só de olhar.
– Tudo bem, vamos. Hasta mañana, amigos – acenei uma despedida geral pra não ter que demorar mais que o necessário falando com um de cada vez. Lovino fez o mesmo e me seguiu para o estacionamento.
Dirigi em silencio até a casa de Otho, estacionei na frente e dei um beijo na bochecha de Lovino.
– Boa noite, te vejo amanhã.
– O que você quer?
– Oi?
– Você pode ser mais direto comigo, sabe, eu não tenho 12 anos. O que você quer comigo?
– Eu realmente não entendo o que você quer dizer com isso.
– Suas intenções comigo. Se você me quer só como seu amigo, por que me trata como uma garota estúpida?
– Minha intenção nunca foi te tratar como uma garota. Eu gosto de você, e te trato como a pessoa que eu gosto.
Ele parou de me encarar e se virou para o chão, emburrado. Ficou em silencio por alguns minutos.
– E por que não me diz logo? – não que ele tenha voltado a me encarar.
– Porque eu tenho medo de você se afastar, ué.
– E se eu não gostasse de você, aonde eu estaria agora? Depois daquele dia na sua casa que você me beijou, acha que eu ainda estaria perto se não esperasse alguma coisa? – falou ainda mais baixo, olhando pela janela e escondendo o rosto com uma das mãos, que em “desculpa” estaria apoiando seu rosto na porta do carro.
AAAAAAAAAAWNNNNNNNNNNNNHONOHONHONADHNYAAHAAAAAA. Eu queria fazer isso mas tirando a parte que eu sou gay, sou hetero. Brinks, mas sério, o que ele ia pensar de mim, haha? Me mantive sério e dei a partida no carro. Ele virou na hora pra me encarar com um olhar assustado que dizia um silencioso “MASOQ”, mas não diria nada agora. Parei na minha casa, abri a porta pra ele e fiz sinal para que me seguisse. Entramos em casa e saímos de novo pela porta da cozinha, que dava direto para o jardim. Ventava um pouco e meu guarda chuvas estava lá aberto, de cabeça pra baixo, no meio do nada. Fiz um sinal pra ele ir pegar.
– Mas que folga – mas foi mesmo assim, o segui. Quando ele pegou o guarda chuva pra levantar, estava pesado, então ele se abaixou pra ver o que era. Eram cinco tomates – Mas que porra, Antonio? Nossa, mas você é desleixad- oh.
Começou a falar num tom que pra ele é bem normal, de rabugento mesmo, mas parou bruscamente quando percebeu que não eram tomates aleatórios. Tinha algo “esculpido” neles. “Lovi, quieres ser mi compañero?”, uma palavra em cada tomate. Não me olha assim, eu pretendia só testar pra ver se ia ficar muito brega, mas como ele me colocou na parede, decidi usar isso mesmo.
– Era isso que você estava esperando, Lovi? – não precisava, ele só estava em choque, mas preferi dizer e sorrir.
– I-idiota, o que você espera que eu diga? É claro que sim!
E foi assim que eu fui responsável pelo segundo e por todos os outros beijos de Lovino até hoje.
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