O Que Ele Mudou Na Minha Vida Desde Então
22 Capítulo XXII por Gilbert Beilschmidt
Notas iniciais
Elizaveta. Eu conheço Elizaveta desde sempre. Quando éramos crianças, ela achava que quem tivesse cabelos curtos era menino e cabelos longos, menina. Perdoada, acho que ela não sabia o que é um pinto. Éramos um grupo, eu, ela e Roderich, mas nós tínhamos vergonha de contar pra ela que meninos tinham pipi e meninas, florzinha. Claro que eu e Roderich já sabíamos, somos meninos, espiamos fechaduras e roubamos Playboys. Mas enfim, ela acreditava que ela era um garoto e andava com a gente. Devo dizer que ela é mais homem que Roderich – qual é, todo mundo é.
Você entende então que eu sempre gostei dela, né? Pois é. Se eu já contei? Claro. Ela começou a rir e disse “boa”, me senti muito humilhado. Daí mais tarde descobri que sorteei o dia mais errado pra contar. Sim, era 1º de abril e ela achava que era uma piada. Mas já se passaram anos e eu não disse mais nada sobre. Sei lá, bateu um medo de repente, e se ela não retribuir?
Crescemos, ela descobriu que é uma mocinha – inclusive usa cabelos longos agora, kesese. Não deixou de andar conosco, mas agora também tem muitas amigAs e é bem feminina até. E não tem mais tanto tempo assim pra gente. Ah é, você sabe que eu sou do time de futebol da escola, né? Ela é cheerleader! Se não fosse por isso, nos veríamos menos ainda. Roderich “assiste” aos jogos pra dar um apoio moral – talvez para ambos, não é como se não fossemos mais amigos – mas se ocupa muito com o clube de música e o de teatro. Não sei que tempo ele acha para viver, mas ele dá seu jeito. Ou seja, não somos mais tããão unidos assim.
Mas então, nos vemos muito nos treinos. Eu e Liz, geralmente nos intervalos as cheerleaders e os jogadores descansam nas arquibancadas conversando nada útil. Uma coisa interessante das nossas cheerleaders: não são vadias. Ouvimos muito sobre outras escolas, coisas como fulana deu pro time inteiro, ciclana dá pro professor por nota, beltrana é a maior rodada do colégio – e geralmente essas “anas” todas são cheerleaders. Aqui temos Elizaveta, que, até onde eu sei, é pura e casta; Natalia, que é perdidamente apaixonada pelo Ivan e dá fora em todo o resto; Laura, ela gosta do Antonio e só ele não enxerga isso, já teve um namoradinho fora da escola pra esquecer nosso Tonhão e parece que o cara também não era muito afim dela, um tal de A... A... Alguma coisa, haha, não sei, mas era com A; Mei e Michelle são duas nerds e santinhas demais, mas estou tentando arranjar a Mei pro Kiku só porque eu acho que seria bonitinho quatro olhinhos puxados num casal; Luciana e Antonella, um “casal” de meninas – na verdade a gente que shippa – que vivem brigando mas pode crer que um dia elas vão casar; e Feliks, que tem um namorado, que eu saiba. E fora essas coisas, nada. Nem um escândalo ou fofoca sequer.
– Vem aqui, me dá um abraço, Liz – geralmente rolava esse tipo de piadinha nos intervalos, estávamos suados pra caralho e as meninas ficavam com nojinho.
– Eca, abraço não! – era ironia mas ela não é exatamente carinhosa, de qualquer modo.
– Eu aceito um abraço – wtf, isso foi a Natalia. Mas tá, me aproximei com os braços abertos e ela – De você não, idiota!
Só pra encher o saco dela, fui e abracei Ivan. Isso foi meio que sacanagem com ele porque eu sabia que ele gostava de mim, mas ela também sabia, o que no caso era conveniente. Ivan nada disse, apenas retribuiu. E em resumo aconteciam coisas bem nesse naipe, somos adolescentes e amigos, só rola babaquice mesmo. E uma informação rapidinha: a antipatia com a Natalia foi aumentando cada vez mais de acordo com o tempo que passava.
Nisso a vida seguia normal. Antonio ocupado com Lovino, Francis tentando agir normalmente mas eu sabia que ele estava muito deprimido, talvez com Arthur fosse realmente diferente pra ele, e visivelmente, Alfred estava ganhando essa “corrida armamentista”... Elizaveta começou a sair com Mathias. Pelo que eu entendi, algo como Antonio e Lovino, porque a palavra “namorado” não existia, só ficavam de gracinha mesmo. Mas enfim, o importante é que eu chamei o Francis pra encher a cara.
– Como assim você está triste, mona mi? Se você me contasse a situação, eu poderia...
– Shhhhh... Poderia porra nenhuma. Não precisa fingir que tá bem, eu vim aqui justamente pra sermos pseudo-cornos juntos, não precisa fingir que é forte pra mim – e entrei mau-humorado com a minha garrafinha humilde de vodca. Você sabe que não é difícil conseguir álcool sendo menor de idade, não culpe o Lud.
Enfim, ele me contou toda a história entre ele e Arthur e o que aconteceu na casa do Alfred e tudo mais. E eu lhe contei tudo o que você já sabe. Choramos muito, rimos do nada, prometemos “não dar mais uma foda” pra eles, dançamos, arrotamos o alfabeto... Aí você já sabe o quão longe de sóbrios estávamos. Até que a campainha tocou e Francis foi atender. Sem nem olhar direito quem era, disse:
– Bonsoir, mademoiselle, Francis Bonnefoy, o deus do sexo, está aqui pra fazer suas preces se concretizarem.
– Uh...
– Oh... Matthieu... entre.
– Você estava esperando alguém? Eu posso voltar amanhã, não quero atrapalhar – e Francis o puxou pra dentro bruscamente. Aí ele me viu, eu vi ele... – Oh, você já estava com alguém, me desculpe, eu vou ind-
– Matthieu, você conhece o Gilbert? É aquele filho da puta ali, honhonhon – eu não sei se é porque eu estava bêbado mas foi amor a primeira vista.
– Prazer, Mé-tí-ú, que nome exótico, o meu é Gilberrr... Pera, ele já disse meu nome, kesese... Uh... Oi – me levantei na hora do tapete entre os sofás o qual eu estava deitado pra ir cumprimentá-lo perto da porta. Matthew Williams foi a segunda pessoa mais linda que eu já conheci. Ele é uma versão do Francis, só que bonita. E muito fofa. Ele corava! Tirando de raiva, eu quase nunca vi ninguém vermelho de vergonha. E ele não tinha aquela barba horrorosa do Francis.
– Francis, eu o conheço, eu também estou no time, lembra?
– Oh... É mesmo, que porra é essa, Gil? Cê não conhece teus colegas? Honhon.
– Sério isso? Caô teu, eu nunca te vi.
– Tudo bem, eu estou acostumado a não ser notado. Eu sou irmão do Alfred – aí eu o abracei muito de repentemente, bem forte e acariciei seus cabelos.
– Aaaawn, fica assim não, sua vez de brilhar vai chegar. Tipo, cê vê as estrelas de tarde? O Sol tá ofuscando elas, mas a noite o Sol se vai pras estrelas brilharem ou algo assim.
– Gil, você só bebeu, não tá drogado, oui? Aprende comigo – e puxou Matthew das minhas mãos e segurou em uma das dele – Ó meu belo Matthieu, até mesmo o Sol se ajoelha para que vejamos as estrelas como você.
– Mas isso é exatamente o que eu disse, filho da puta, haha.
– Gente, vocês estão bem? Eu acho mesmo melhor eu ir...
– NÃO, PRINCESA, O QUE SERÁ DE MIM SEM VOSMECÊ? – olha, eu não disse em nenhum momento que eu sou forte pra beber ou que sou um bêbado “de boa”. Eu sou um bêbado carente e sem sentido e dadas as circunstancias eu estava mais carente ainda. E mais um abraço.
Enfim, foi basicamente isso. Matthew passou a noite com a gente e ele nem pode se explicar antes, mas ele só tinha passado pra trazer algo que o Francis o ensinou a fazer pra ele experimentar e ver se deu certo. Brincamos de mímica, desenhamos, o chão era lava, assistimos filme, quebramos a garrafa sem querer tentando acertar um aro nela, Matthew limpou e chegou sua hora de ir. Eu não queria que ele fosse, eu realmente gostei dele – e realmente não lembrava dele no time. Não é como se seu cabelo fosse muito maior que do Alfred, ok? Mas ele teve que ir, não sem mais um último abraço de urso, mas foi.
– Ei, você não pensa em nada “além” com ele, né, Francis?
– Não. Acredito que ele mereça alguém melhor, ele é um ótimo garoto. Fora que já tem concorrência, algo que já estou farto.
– Ah, eu sou alguém melhor que cê, com certeza, kesese.
Enfim, foi assim que comecei a gostar de Matthew. Mas qual é, você não vê o quanto ele parece um... passarinho? Todo amarelinho e timidozinho e sei lá, só acho. Depois comecei a passar mais tempo com ele, conversamos mais durante os treinos – claro que não como o bêbado idiota daquele dia, aliás fiquei com vergonha e pedi desculpas, mas ele não ligou – e é isso. Ficamos muito próximos, mas ainda tinha muito medo de ~declarações~, principalmente porque ele me trata tão normalmente, não sei explicar, bem “amizade e só isso”. Talvez ele gostasse do Francis, o que me dava ainda mais medo. Passou um tempo e fui criando coragem, inclusive Francis me deu a maior força. Eu estava pronto? Me iludia que sim quando na verdade tinha minhas dúvidas. Só tive certeza que não era 1º de abril.
Tá, a coragem eu já tinha adquirido – ou pseudo-coragem, como eu acho que se coloca melhor porque não é como se eu realmente tivesse virado homem de uma hora pra outra e não estivesse extremamente relutante. O primeiro passo agora era pensar em como. Francis me recomendou um restaurante bem maneirinho, só me acho muito nada a ver nesses lugares muito chiques, mas Matthew adora essas coisas meio... francesas, então, rambora. Ele também disse que o que eu diria pro Matt teria que partir de mim mesmo, dos meus sentimentos e coisa e tal. Mas o que eu diria? “Meh, nunca te notei nem na sala de aula nem no time que não é tão grande assim, mas tava com dor de cotovelo, bêbado, na casa do meu amigo e de repente você apareceu e meu mundo sorriu de novo”. Claro. Sim, foi exatamente isso que eu disse. Bizarro, eu sei, mas expliquei a situação e como ele foi uma coisa muito boa na minha vida e tal. E ele aceitou!!!!!!!!!!!!!
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