O Príncipe de Amicitia
2 Visita Inesperada

Após o desjejum, Jimin decidiu caminhar pelos jardins do castelo, buscando clarear os pensamentos que lhe pesavam a mente. Talvez o ar fresco ajudasse a dissipar suas inquietações e a aliviar o peso invisível que carregava nos ombros.
O dia estava agradável. Uma brisa suave acariciava seu rosto, enquanto pássaros pousavam graciosamente sobre as fontes de pedra, mergulhando as asas na água cristalina. Ele olhou os arredores, contemplando a grandiosidade do castelo. Construído em imponentes blocos de pedra, suas paredes eram parcialmente revestidas por trepadeiras que serpenteavam pela estrutura, enquanto altas torres e muralhas se erguiam ao redor de sua casa, como sentinelas silenciosas.
Aquele jardim sempre fora seu refúgio, um santuário de paz em meio ao caos. Ali, pelo menos por alguns instantes, poderia se permitir respirar.
— Príncipe Jimin. Seu tio e sua prima o aguardam no salão principal.
Um jovem arqueiro da guarda real se aproximou de Jimin, exibindo um sorriso caloroso que, por um instante, pareceu dissipar o peso sobre os ombros do Príncipe. Sua feição amigável e a postura tranquila contrastavam com a seriedade de seu uniforme.
Os cabelos castanho-claros emolduravam seu rosto harmoniosamente, suavizando ainda mais sua aparência. Mesmo com o aljava apoiado nas costas e o traje típico dos soldados do reino, ele não emanava o sofrimento de um guerreiro treinado para a batalha. Pelo contrário, havia algo etéreo em sua presença, quase como se fosse um Elfo da Floresta. Aquele arqueiro passava um ar sereno, cheio de vida, carregando consigo apenas paz e boas vibrações.
— Meu tio? — Jimin arqueou as sobrancelhas, surpreso. A notícia o pegou desprevenido, mas, no fundo, trouxe-lhe um alívio inesperado. Talvez não estivesse tão sozinho quanto pensava
No entanto, aquela sensação logo se misturou à incerteza. Ele não via seu tio há anos, e suas visitas, quando ocorriam, nunca foram exatamente agradáveis. O relacionamento entre seu pai e seu tio sempre fora conturbado. Discordavam sobre quase tudo, especialmente sobre a forma de governar o reino, o que frequentemente levava a discussões acaloradas.
Ainda assim, era um membro de sua família. E, gostasse ou não, Jimin sabia que deveria tratá-lo com o devido respeito e todas as formalidades pertinentes por sua posição.
Inspirando fundo para conter qualquer resquício de hesitação, ele assentiu e andou ao lado do arqueiro Taehyung rumo ao salão principal.
— Tio Ethan! Como o Senhor está? — perguntou Jimin fazendo uma reverência.
— Jimin, Jimin, Jimin. Melhor impossível, Vossa Alteza — respondeu Ethan com sarcasmo.
Ethan era um homem de meia-idade cuja presença exalava elegante e nobreza, digna de um verdadeiro Lorde. Seus cabelos grisalhos denunciavam os anos vividos, mas sua postura ereta e seu físico imponente deixavam claro que a idade não o havia enfraquecido. Ele não se parecia em nada com um velho frágil, ao contrário, sua aura era majestosa e intimidadora.
Jimin nunca simpatizou com sua personalidade, tampouco com a maneira como ele olhava para seu pai. Sempre havia algo de invejoso, frio e calculista naquele olhar, algo que fazia seu estômago revirar. E agora, aquele mesmo olhar estava cravado sobre si.
— Não precisa me chamar de Vossa Alteza. Não tem necessidade dessas formalidades entre nós — respondeu Jimin secamente.
— Vejo que o pequeno Jimin tornou-se um homem ... Apesar de não ter crescido tanto — Ethan deu uma risadinha irônica.
— O que o senhor veio fazer aqui, tio? — Jimin tentava ignorar as provocações, sem entender muito bem a situação.
— Vim visitar meu pobre e moribundo irmão, mas parece que cheguei tarde — Ethan fez uma pausa e se aproximou de Jimin — Ou talvez eu tenha chegado na hora certa — ele deu um carinhoso tapinha na cabeça de Jimin, como se fizesse com uma criança — Você acha que uma criança medrosa e chorona como você está preparada para governar um país, Pequeno Jimin?
Jimin instintivamente recuou quando seu tio se moveu, afastando a mão antes que qualquer contato físico pudesse acontecer novamente. Em outro momento, talvez desejasse o amparo de uma figura paterna, especialmente em meio ao luto que consumia seu coração. Mas, diante de Ethan, tudo o que sentiu era uma inquietação sufocante, como se uma sombra pairasse sobre aquela conversa. Algo dentro dele sussurrava que nada de bom viria dali.
— Não entendo onde o senhor quer chegar, mas estou preparado. Assim como meu pai, serei um Rei digno e bondoso...
— Bondoso? — Ethan gargalhou desdenhosamente — Acha que pode governar um país sendo... bondoso? Quanta ingenuidade, pequeno Jimin.
— O poder não vale nada se não for guiado pelo amor — retrucou Jimin, tentando parecer confiante.
— Olha mas vejam só, ele sabe usar boas palavras, que gracioso. Em uma batalha, por que não solta pombas brancas em seus inimigos, pequeno Jimin? Ou quem sabe consiga ganhar uma guerra distribuindo flores. És uma criança tola e ingênua que não conseguirá governar esse país corretamente. Por isso, te pouparei desse fracasso...
A cada palavra que saía da boca de seu tio, a ansiedade se agarrava ao peito de Jimin como garras invisíveis. Seu corpo tremeu e suas pernas bambearam. Ele sabia que Ethan cobiçava o trono. Mas, enquanto seu pai governava, ele nunca ousou agir. Agora, com o rei morto e o príncipe despreparado, perdido em meio ao luto, o cenário era perfeito para que seu tio finalmente tomasse o que tanto desejava, a coroa.
O coração de Jimin disparou. Instintivamente, seu olhar varreu o salão em busca de Namjoon. Encontrou-o parado mais à frente, rígido como uma estátua, a desconfiança estampada em seu rosto. Sua mão tateava o cabo da espada, como se esperasse por algo ameaçador.
Então, seus olhos encontraram com os de Taehyung. O arqueiro o observava com aflição, o corpo tenso, como se estivesse pronto para reagir a qualquer movimento suspeito. A tensão era palpável. Algo estava prestes a acontecer.
Antes que Jimin pudesse sequer formular uma resposta, a voz firme de seu tio ecoou pelo salão:
— Prendam-no.
O comando foi como um estalo no ar, e tudo aconteceu rápido demais para que houvesse qualquer reação.
Namjoon tentou se mover, tentou erguer a espada, mas seu corpo não respondeu. O coração martelava em seu peito, a respiração falhava, e seus pés fundidos ao piso de concreto, como se mãos invisíveis o segurassem no lugar. Ele se debateu, tentando se livrar daquele aprisionamento invisível, mas era inútil.
A porta foi escancarada com violência, quase arrancada das dobradiças. Homens armados invadiram o salão e avançaram diretamente sobre Jimin. Sem tempo para reagir, o príncipe foi rendido com facilidade. Namjoon forçava seu corpo a se mover, mas cada esforço era em vão.
Foi então que ele a viu.
Ailish, filha de Ethan, permanecia a poucos metros, observando tudo com um sorriso divertido nos lábios. Seus longos cabelos negros brilhavam sob a luz do salão, e seus olhos azuis, frios e cruéis, refletiam pura malícia. Com apenas uma das mãos erguidas, ela mantinha Namjoon sob controle, como se fosse uma mera marionete. O feitiço de aprisionamento a divertia. E Namjoon, por mais que tentasse, não conseguia se libertar.
Taehyung, com uma precisão instintiva, preparou seu arco, os olhos avaliando cada movimento ao redor. Se conseguiram derrubar a feiticeira, talvez Namjoon se libertasse, e juntos poderiam enfrentar Ethan e seus comparsas. Mas antes que você pudesse erguer a arma, um arrepio percorreu sua espinha. Uma respiração quente soprou contra sua nuca, fazendo seus pelos se eriçarem.
Foi uma questão de segundos.
Uma lâmina negra e gelada deslizou contra seu pescoço, pressionando o suficiente para imobilizá-lo por completo. O frio do metal misturava-se ao calor sufocante da ameaça invisível atrás de si. Taehyung mal teve tempo de reagir. Estava à mercê de seu captor.
"Como ele chegou aqui? Nem sequer ouvi seus passos ou senti sua presença" — pensou Taehyung, surpreso e levantando as mãos em sinal de rendição.
— Devagar aí, Arqueirinho — Disse uma voz calma e baixa vindo detrás de si.
Aturdido, Namjoon sentiu-se impotente diante daquela situação. Como poderia proteger o príncipe? Afinal, não era esse o seu dever como Líder da Guarda Real? Seu coração pulsava com fúria e frustração, mas seu corpo permanecia aprisionado, incapaz de reagir. Precisava encontrar uma saída, qualquer brecha que lhe permitisse agir. No entanto, por mais que tentasse analisar o cenário, a resposta parecia negativa.
Seus olhos procuraram Taehyung, agora rendido e imóvel. O arqueiro fitava o chão, onde seu arco e suas flechas jaziam, abandonados. Atrás de Taehyung, um jovem espadachim mantinha a lâmina de sua espada firmemente apertada contra o pescoço de Taehyung. Namjoon nunca tinha o visto antes. Seu sobretudo negro contrastava com os cabelos brancos como algodão, e sua pele era tão pálida que parecia pertencer a um cadáver ambulante. Mas o que realmente o arrepiou foi o olhar, gélido e vazio. Um par de olhos que não refletiam vida, apenas um abismo sem emoção. Uma cicatriz marcava seu rosto, acentuando sua expressão fantasmagórica. Ele não era um espírito, era um humano, mas algo nele parecia mais assombroso do que qualquer criatura do além.
— Vamos fazer um teste, Pequeno Jimin. Você quer se tornar o Rei de Amicitia, não quer? Então precisa saber fazer escolhas. Vou te dar o direito de fazer uma bem simples. Um de seus amigos poderá ir embora, enquanto o outro morrerá lenta e dolorosamente. Qual será sua escolha, Pequeno Jimin? O General Namjoon ou o Arqueiro Taehyung? Qual deles viverá e qual deles morrerá? — Ethan o encarava com aquele sorrisinho maldoso e olhar afiado.
Jimin sentia como se o chão se abrisse diante de seus pés. Sentimentos como incapacidade, fraqueza e vulnerabilidade pesavam mais que a coroa, seu espírito fraquejou. Não esperava a traição de alguém com o mesmo sangue.
— P-por favor, tio — Jimin gaguejou — Deixe meus amigos irem embora, faça o que quiser comigo, mas deixe eles em paz.
— JIMIN, NÃO! — gritou Namjoon — Liberte o Tae...
Ailish se aproximou de Namjoon e enfiou um pequeno punhal em sua costela, antes que ele pudesse terminar a frase e com a mão livre tapou sua boca para que ele não gritasse de dor.
— Vejo que não tem muita educação, a conversa não é com você, escória. Não interrompa — Ailish ria vendo Namjoon se contorcer de dor enquanto o sangue manchava sua roupa.
— NAMJOON! — Jimin gritou, desesperado — Por favor, tio. Não...
— Vamos, Pequeno Jimin. O tempo está acabando, faça sua escolha.
— Tio, por favor — A voz de Jimin saiu baixa e trêmula — Por que está fazendo isso? Somos uma família.
— Não sejas tolo, pequeno Jimin. Para cada conquista precisamos fazer certos sacrifícios. Você precisa estar disposto a isso se deseja tornar-se forte — Ethan sacou sua espada e o encarou — Tempo esgotado! Como não foi capaz de fazer uma simples escolha, terei que eliminar seus dois amigos.
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