O Primeiro Amor de um Garoto
5 Cap. 5 - Sem ar.
Notas iniciais
16/10, Quinta às 14:10
Infelizmente não poderei ver a Lavínia na praia. Minha mãe me obrigou a "visitar" o psicólogo, como se fossemos amigos e ele estivesse com saudades. Juro, são as duas horas mais demoras que tem, pior que as da escola. Mas o dia não foi desperdiçado, logo de manhã eu tive um belo presente: Sara estava doente. Assim fiquei sozinho com Lavínia na ida ao colégio. Foi um pouco constrangedor, nenhum dos dois queria começar a falar, os dois lembrando o que aconteceu no dia anterior. Mas eu sou o cara, mais novo ou não, tenho que ter a iniciativa, né?
— Bom dia.
— Bom dia. – Respondeu, rindo. Já estávamos no meio do caminho, tarde demais para a educação. — Tudo bem? – Lavínia analisava meu rosto.
— Tudo... Porque?
— Ontem você ficou tão vermelho que eu me assustei!
— Mas é claro, v-você, t-toda t-toda...!
— Toda o que?
— Nada. – Eu queria dizer "gostosa". Ela sorrindo. Adoro quando ela sorri.
— Foi muito fofo você tentar me proteger do frio.
— Fofa é você! – Eu quis gritar, porém só dei de ombros sem dar muita importância. — Não foi nada.
— A gente se vê hoje na praia?
— Putz, hoje eu tenho consulta com o psicólogo! – Contei, no mesmo instante me arrependendo.
— E o que você tem? – Agora ela realmente estava me analisando dos pés à cabeça, procurando alguma coisa errada. Bem, sinceramente eu acho que não precisaria procurar muito.
— Você nem imagina... Quero dizer, na verdade nada de ruim, é que minha mãe é psiquiatra e me obrigou a visitá-los algumas vezes.
— Entendo, e o seu pai, faz o que?
— Arquiteto, daqueles passam o dia todo no escritório. Na verdade acho que os meus dois pais andam sempre ocupados.
— Hum, pelo menos eles são felizes. – murmurou baixinho.
— São. – O que mais eu poderia dizer? Não posso fazer os pais dela pararem de brigar.
Ela de repente parou e tirou da mochila um bolinho e me entregou. Aceitei, ignorando a reclamação da minha barriga. Era de mel. Só depois de uns minutos nossa ficha caiu, lembrando do gosto do nosso primeiro beijo. Lavínia ficou rosa. Chegou a hora de irmos por caminhos separados e nos despedimos, envergonhados.
***
16/10, quinta às 20:30
Cara, como é chato aquele velho! Doutor Gerúsio Não Sei Das Quantas, o pior de todos? Minha mãe não poderia ter escolhido um que pelo menos soubesse mais palavras além de "aham, e como você se sente sobre isso?" ou "Conte-me mais". Ele repetiu a segunda logo depois de eu dar bom dia! E seu caderninho de anotações? Aposto que fica desenhando nele. Por causa dele eu não a vi de biquíni na praia. Merda.
***
Você sabe que eu e Tiago somos vizinhos? Então, nossas sacadas estão de frente uma da outra. Quando tínhamos cinco anos ele fez os pais trocarem de quarto só para podemos conversar até tarde pela varanda. Ele veio correndo da praia para me contar que Lavínia perguntou por mim, se eu ainda ia passar pela praia depois a sessão. E depois da negativa, ela ficou cabisbaixa. POR MIM! Já volto, vou atender a porta lá embaixo.
***
Oh Santo Deus! Ela estava aqui! BEM AQUI! Quando fui atender a porta (sempre sou eu, porque na maioria das vezes estou sozinho em casa pelas tardes), tive uma grande e feliz surpresa. Lavínia parada na soleira da porta.
— A Sara não tá em casa. – Falei, adivinhando.
— Não importa, eu espero. – Disse, nenhum pouco surpresa pela informação, já entrando na sala.
— Mas ela vai demorar. – Insisti, não querendo acreditar que ela estava ali por mim.
— Por mim tudo bem. – Repetiu, começando a ficar nervosa.
Ficamos sentados no sofá por um tempão, assistindo ao canal de clipes de músicas. Fiquei pensando no que ela estava pensando e no que eu deveria pensar, já que ela devia estar pensando no que eu estou pensando e eu tenho que pensar no que ela pensa que eu estou pensando porque né, não quero pensar diferente do que ela pensa que eu estou pensando entende? Eu sou maluco, só pode.Coloquei num canal de clipes de música.
— Você quer conhecer a casa? -– Perguntei, não aguentando mais, as mãos suando.
— Claro! – Exclamou, seguido de um suspiro audível de alívio.
— Aqui é o banheiro. – Apontei para a porta de madeira. — Que você já conhece, é claro.
— Aham, é lindo. – Disse, rindo, lembrando da primeira vez em que a vi, trocando de roupa ali.
— E aqui, a cozinha.
— Nossa, que linda!
— E aqui trás é a piscina com a churrasqueira.
— Nossa, que enorme! – Exclamou
— Um pouco. – Tentei parecer indiferente, mas eu também achava aquela parte bem grande da casa.
— Não é meio soberbo ter uma piscina nos fundos da casa, morando tão perto da praia? – Perguntou, olhando para mim acusadoramente.
— B-bom, nunca pensei nisso... é que meus pais gostam de fazer um churrasco quando os parentes estão de visita. – Respondi, na defensiva.
— Hmmm... E seus pais vão, demorar a chegar? – Perguntou, ligeiramente preocupada.
— Olhei para o relógio, vão sim.
Então me deu um sorriso sapeca e pulou na piscina, com roupa e tudo. Ela nadou com uma sereia até a borda, depois emergiu, colocando o cabelo para trás. Chamou-me, mas não consegui responder, só encarar o sutiã branco, da mesma cor que a blusa, transparente. Belisquei o meu braço só por segurança.
— O que foi, você não quer? – Perguntou, fazendo bico como um bebê.
— E-eu... Eu... – Obriguei-me a desviar o olhar dos seus peitos. Rosa ou marrons?
— Anda, vem cá! Ou está mestruadinha? – Espetou, rindo. — Opa, você nem deve saber o que é isso!
— É claro que eu sei! – Eu fiz umas pesquisas na internet... — Quer saber? QUE SE FODAAAA!
Que se dane, pensei. Não era todo dia que eu tinha a garota mais linda do mundo nadando na minha piscina! Rimos um pouco, depois jogamos água um no outro, brincando. De repente um cisco entrou no meu olho, junto com água que Lavínia jogou em mim. Esfreguei com força, dizendo que não era nada, mesmo sentindo uma dor do caramba. Lavínia se desesperou, vindo na minha direção tentando ajudar. Andei para trás, até que minhas costas encostaram no limite da piscina e Lavínia no limite do meu auto-controle. Ela encostou seu corpo encharcado no meu e o olho ardendo perdeu importância. Eu queria abraçá-la e acho que ela também. Lavínia abaixou o rosto, a poucos centimilímetros do meu, sua boca perigosamente perto da minha. O hálito quente em contato com a minha pele fria. Tudo estava perfeito, mas aí um raio rasgou o céu e imediatamente a chuva começou a cair, pesada.
Ela também queria, sabia disso. Ela abaixou um pouco o rosto, vindo me beijar. Pude ver todo seu rostinho de perto, ela tinha buraquinhos por causa das covinhas, seu olhos de avelã... Daí uma tsunami caí!
— Nossa, que chuva! – Ela disse, se apoiando em mim para sair da piscina.
— Caramba! – Quase chorei. Preciso de um dilúvio para não conseguir beijar a garota que eu gosto? Sem esperar resposta, peguei uma toalha da corda e entreguei a ela.
— Se seca logo, se não vai ficar dodói.
— Dodói? – Lavínia repetiu, não escondendo o riso.
— Não, ham, quero dizer, doente! — Droga, mãe, porque você tem que falar assim comigo?!
Nos secamos um pouco e eu deixei no quarto da Sara para se trocar. Ela entrou no banheiro e quando eu estava saindo, ouvi o barulho de alguma coisa caindo no chão.
— Lavínia, você tá legal?
— Ahãm, t-tudo ok... — Provavelmente percebeu a transparência da blusa. Comecei a rir.
Depois entrei no meu próprio quarto e troquei de roupa, penteei o cabelo e escovei o dente, mas minha cabeça estava no outro comodo. Não consegui me controlar e fui até o quarto da Sara novamente. Sabia que estava fazendo algo errado, mas mesmo assim coloquei o olho na fechadura da porta do banheiro. Não vi nada, infelizmente. Sentei na cama da minha irmã, escutando o barulho da água caindo num corpo e imaginando tudo que estava acontecendo lá.
Fechei bem os olhos, brigando comigo mesmo. Deslizei minha mão para o fecho do short e o abri. Depois enfiei a mão e comecei a me tocar, levando a pele para cima e para baixo, pensando naquele momento na piscina, que estava tão próxima, os peitos pressionando o meu corpo. Não demorou um minuto e eu já tinha porra espalhada na mão.
— Que nojo! – Falei, surpreso.
— Lucas?! É você?
— Eu! – Meu Deus, meu coração batia mais rápido que uma locomotiva.
— Que susto! Mas o que você faz aí? – Perguntou do chuveiro.
— E-eu só vim avisar que pode pegar qualquer coisa da Sara. Ela não vai ligar.
— Ata, pode deixar! – Gritou de volta.
Saí correndo do quarto, pensando no que fiz. Tirando a parte nojenta, e o susto de matar o coração, foi maravilhoso! Fui ao céu por 4 segundos e voltei?! Não dá para descrever o que eu senti.
Fiquei a esperando no sofá da sala, e quando desceu... Jesus, que linda. Lavínia usava o vestido vermelho da Sara (que quando ela usa fica só engraçado porque é ela lisa que nem uma porta), justo nos lugares certos, fazendo ela parecer mais velha do que é. Tremi todo.
— Que banho gostoso. — disse, sentando ao meu lado. — Brigada por tudo, foi muito divertido.
— De nada... A Sara sabe que você e eu...
— Eu e você o que? – Vi um sorriso se formando no canto da sua boca.
— Você s-sabe, q-que a gente se fala... – Meu, eu devia estar roxo.
— Ahh. Provavelmente não... – Ela pareceu meio sem graça, depois apontou para o comodo adjacente. — Isso ali é uma biblioteca?
Antes de eu responder ela já estava indo até lá.
— Mais ou menos, mas se quiser dar uma olhada, vai em frente.
— Sério?! Nossa, quantos livros! – A animação dela era contagiante.
— Aqui é o escritório do meu pai, mas os dois guardam os livros aqui.
— Nossa, que inveja! Uma inveja, boa, tá? Eu adoro livros.
— Percebi. – Falei, sorrindo.
— E você? Não vai me dizer que não aproveita?
— Sim e não. Eu ia bastante porque minha mãe me forçava. Depois eu comecei a gostar, mas fiquei meio preguiçoso. Não leio muito agora.
— Hum, então é por isso... – Seu rosto se iluminou mais ainda, como se tivesse feito uma grande descoberta.
— é por isso o que?
— Que você é fala como se tivesse a minha idade. As vezes mais, se comparar com os garotos que eu conheço... Você é diferente Luquinhas. Ei, nossa, quantos livros de romance!
— ...Esses são da minha mãe, ela não me deixa ler esses daí. – Falei tardiamente, pensando no que ela disse.
— E por que não?
— Porque ela diz que não é para minha idade, aí combinamos que quando eu tivesse 11 anos e meio, eu poderia ler.
— Ah sim, entendo o por quê. Muito avançado pra você.
— Tsc. – Fiz careta.
— É brincadeira, viu? – Disse, passando a mão no topo da minha cabeça.
— Eu não sabia que você era tão palhaça.
— Idaí? Só quem me conhece sabe que não sou nenhum pouco séria. Sempre bobona... Você gosta? – Ela franziu o cenho, realmente querendo saber.
Hahaha, é que só quem passa muito tempo comigo sabe como eu sou bobona... Você gosta?
— É claro que eu gosto! – Virei para o outro lado, não querendo que ela bisse minhas bochechas ficarem rosa. — Ei, por que você não escolhe um?
— Sério?! Sua mãe não vai se incomodar?
— Não, não. Depois você devolve.
— Hum, vou confiar então! Deixa eu ver... Vou levar esse aqui. – Ela pegou um livro verde, grosso e de capa dura. — Lolita. Conhece?
— Não. Parece antigo.
— E, é. É um romance pesado, então por causa da minha idade eu não posso comprar ou alugar numa biblioteca.
— Ah, e o que tem nele que é tão pesado? – Perguntei, o curioso em mim aparecendo.
— É sobre atração sexual por pessoas mais novas. Coisas que você e eu só vamos saber daqui a um tempo. – Disse, com um sorriso querendo aparecer.
— E vai demorar?
— Talvez.
A casa ficou repentinamente silenciosa. Ela ria abertamente, segurando o livro e admirando a capa. E tive uma ideia. E se eu desse o primeiro passo? E se eu a beijasse? Ela ma daria um tapa? Mas eu nunca soube, uma voz irrompeu por toda casa.
— Querida, CHEGUEI! – Meu pai disse, imitando um personagem de desenho como ele sempre faz quando chega em casa. — Opa, olá.
— A-ah, oi! – Lavínia respondeu, surpresa.
— Pai, essa é a Lavínia. – E apontei para ela, não com vergonha, mas mesmo assim torcendo para ele não dizer algo embaraçoso. O problema mesmo era minha mãe.
— Prazer. Uma garota, hein? Amiga da Sara ou... Oh. – Ele finalmente entendeu e tentou parecer descontraído. — Presumo que sua mãe ainda não chegou?
— Ah, olha a hora! Luquinha, eu vou indo, já está ficando tarde. Depois eu falo com a Sara. — Ela interrompeu, obviamente querendo escapar dali.
Levei ela até a porta e ela se despediu com um beijo na minha bochecha, perigosamente perto da boca.
— Eu realmente adorei hoje.
Ela colocou o dedo verticalmente na frente da boca, pedindo segredo. O nosso segredo.
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