Notas iniciais
E aí, estão curtindo?

17/10, sexta às 15:10

Descobri que sempre que eu estiver com a Lavínia, será o sempre o melhor dia de todos. Hoje ela ficou me olhando de esguelha sem que Sara percebesse. Comecei a hiperventilar e abaixei a cabeça.

18/10, sábado às 21:40

Cara, como ela é linda... Aos meus olhos ninguém se compara a ela. Uma vez eu li num dos livros da minha mãe que quando alguém está apaixonado, essa pessoa muda totalmente. Concordo. Antes eu estava com tanto medo e meio que negando... Ainda estou com medo, mas aceito que gosto dela. As coisas estão tão diferentes e ao mesmo tempo tão igual. É estranho, na verdade.

Faz pouco voltei da casa do Tiago. Ele reclamou o tempo todo por eu estar com a cabeça lá na nuvem, e somente na Lavínia. Mas o que eu posso fazer? Quando fechos olhos, só vejo ela. Estou totalmente apaixonado. Não tem mais volta. Agora ele está incomodado, porque desde sempre estávamos na mesma onda, mas não dessa vez. Ele não gosta de ninguém ainda e não sabe como é. Acho que sua irmã é capaz de arrumar alguém primeiro do que ele.

Nina é aquele tipo de garota que as vezes é mais garoto que você. Aham, do tipo machinho. Não gosto dela porque desde que ela era bem pequena ela incomoda nos meus jogos com Tiago. Com apenas 10 anos, ela não tem peitos, e ainda veste roupas largas de garotos. Ninguém reconhece ela como uma garota. Mas ela não é importante.

Haha! E olha que a irmã dele é aquele tipo de garota que é mais garoto que você? O nome dela é Nina. Eu não fico muito de papo com ela, porque ela é meio... meio machinho e quer sempre entrar na minha brincadeira com o Tiago e atrapalha já que ela é uma menina. Ah, ela tem acho que 10 anos! E não é que nem as garotas da minha sala, ela gosta de parecer um garoto. Mas ela não é importante.

19/10, Domingo, às 21:20

Tão linda...

20/10, segunda, às 21:20

Meu Deus, por que você está sendo tão bom comigo?

20/10, segunda, às 21:30

Meu relacionamento com a Lavínia está melhorando. Conversamos mais e eu não fico tão vermelho quando antes e nem gaguejando (tanto). Estou descobrindo cada vez mais quem ela realmente é e estou gostando de tudo. Até os defeitos.

24/10, Quinta, às 21:20

Agora nos encontramos todos os dias depois da minha aula de surf. Passamos um tempo juntos, só eu e ela, conversando. Ela troca de roupa no banheiro público portátil e saímos pelas ruas, batendo papo. Embora não seja tão fácil quanto parece. Ela tem que dar um perdido na galera dela antes de irmos para o parque. O lugar é tão bonito e calmo que quando estamos lá, é como se todo o mais sumisse. Todo o som além das nossas vozes, desaparecesse. E é como se fossemos amigos desde sempre.

Lavínia me contou sobre sobre a sua família. Seu pai é um micro empreendedor. Ele tem uma loja de cosméticos, e sua mãe fica em casa quando não está ajudando o marido.

— Eu iria adorar te ter como irmãozinho.

— O que? Eu não!

— Por que não?

— Por que não, oras! – Não era óbvio?

Ela riu e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, envergonhada. Adoro quando faz isso. Não consigo parar de pensar no quanto ela é demais... Não mesmo.

25/10, Sexta, às 20:45

Cara, quem ele pensa que é?! Só porque tem 15 anos ele não pensa que pode agarrar geral?!

26/10, Sábado, às 20:00

Que droga! Como eu sou burro!

28/10, segunda, às 21:10

Eu devia ter ficado quieto, mas não consegui.

28/10, segunda, às 21:10

Na sexta, no intervalo da aula de surf, procurei Lavínia com o olhar. Ela estava na calçada com aquele Diego. Ele a tocava em seu braço, ela esquivava, mas rindo, depois ele a abraçava... Meu Deus, só de lembrar eu já fico furioso! Depois não consegui mais prestar a atenção na aula. Cheguei em casa com água no ouvido de tanto caldo que tomei.

Lavínia me deixou esperando por um bom tempo na rua. Quando eu já tinha desistido e estava dando meia volta para ir embora, ela apareceu. Não consegui fingir que estava tudo bem e fechei a cara antes mesmo de começarmos a conversar. Andamos pelo jardim em silêncio. Quando finalmente chegamos até a ponte, não aguentei mais e desembuchei.

— E-ele estava te agarrando.

— Hã?

— Aquele cara, o Diego. Por que? – Minha voz estava começando a tremer, e provavelmente eu parecia apenas um pirralho, mas eu tive que perguntar. — Ele é seu namorado?

— O Di? Não! É só o meu amigo. – Tentou parecer descontraída, mas eu vi o jeito estranho que ela segurava sua bolsa de praia.

— Então todos os seus amigos passam a mão em você?

— Não! Mas o que?! E quem é você para falar assim comigo?! – Nesse momento ela perdeu todo o nervosismo e ficou furiosa.

— Eu.. E-eu...

— Isso! Está sem palavras porque você não é nada meu! Porque você não faz nada! – Lavínia apertou tanto as mãos que pensei que iria me socar. Ela não era a única querendo socar alguma coisa.

— Droga, Lavínia! Eu só tenho ONZE ANOS! O que você quer de mim?!

— Isso mesmo. Apenas onze anos. Bom, agora eu não quero nada.

Deu meia volta e saiu correndo. Não me mexi, não vendo motivo se ir atrás dela. Se eu conseguisse acalçá-la, ainda assim não saberia o que dizer. Minha mãe sempre diz "Não tem o que dizer, então fica quieto".

No sábado ela evitou o meu olhar o tempo todo e dessa vez realmente me deu um bolo no parque. Tudo indicava que eu deveria pedir desculpas, mesmo não querendo.

— Deu ruim? – Tiago perguntou.

— Aham.

— E o que tu vai fazer?

— Sei lá cara...

— Hm, mas é melhor você resolver logo, as provas de fim de ano estão chegando e sabe o que a Tia Sandra faz. – Disse, fazendo careta.

Sandra é a minha mãe. Ela tem um método de aprendizado (ela chama assim) em que consiste em eu e Sara ficarmos presos dentro de casa só estudando. De casa para a escola e da escola para casa. "Não estou pagando escola à toa". Se eu não sair de casa, como vou poder encarar Lavínia e me desculpar? E se depois de todo esse tempo ela finalmente ver que não vale a pena me dar atenção e me esquecer?!

— Caramba, estou ferrado. – Falei o óbvio.

— Quer vir jogar um pouco?

— Valeu, cara, mas acho que não.

— Ah, prefere ficar aí de mimimi por causa de uma garota do que perder para mim?

Não pude recusar o desafio!

29/10, terça, às 20:10

Cara, eu já estou arrependido de ter começado aquela briga com a Lavínia. E pior, não posso encontrar com ela porque estou indo mais tarde para escola por causa do período de provas. Pela primeira vez na vida eu não estou feliz por acordar mais tarde.

30/10, quarta, às 17:30

Caramba, que tédio! Não fazer nada, muito menos estudar, porque não paro de pensar nela!

31/10, quarta, às 17:30

O que eu fiz de tão ruim MEU BOM DEUS?! Eu mereço isso?

01/11, quinta, às 18:00

É tudo tão chato! Eu preciso ver ela!

02/11, sexta, às 15:45

Descobri que Lavínia não está indo mais para a escola com a minha irmã. Sara me dá um olhar assassino todo dia, acho que ela pensa é minha culpa. Será que Lavínia contou o nosso para ela?

03/11, sábado, às 19:25

Não, não contou. E para a minha surpresa, isso me deixa... Sei lá, eu queria que soubesse, entende?

04/11, Domingo, às 20:10

Nada mais tem graça para mim. E caramba, sou apenas um garoto e não devia ser assim!

Consegui escapar e fui até a praça para vê-la. Assim que cheguei, descobri onde estava. Lavínia se destaca em qualquer lugar. Ela olhou para mim e eu olhei para ela. Não tive coragem e fui embora. Eu sou um idiota.

Por que nada tem graça? Fui lá rapidinho na praça ver se Lavínia tava lá, e estava. Ela olhou pra mim, eu olhei pra ela. Não tive coragem e fui embora. Eu sou um idiota.

05/11, segunda, às 15:35

Caramba, eu fiquei de recuperação em 4 matérias! Minha mãe vai me matar! Acho até que é melhor eu fugir de casa, vender balinha no ônibus e na praia. Provavelmente você está rindo de mim, mas estou me cagando de medo aqui! Tanto medo que até pensei em quanto ganham esses caras que vendem doces na rua! Sério, agora eles te dão uma pra experimentar e ver se gosta, aí geral compra um monte!

05/11, segunda, às 22:40

ABISMADO! Eu não tomei esporro nenhum. Minha levantou o dedo e abriu a boca para começar, a outra mão segurando as provas, meu sangue gelado. Mas meu pai a interrompeu no momento exato e a chamou no escritório. Como eu não sou bobo nem nada, só enxerido, colei a orelha atrás da porta.

— O que aconteceu Paulo? Não poderia esperar?

— Não. Amor, acho que deveríamos deixar essa passar.

— Passar? Ele é que não vai passar de série se deixarmos essa passar.

— Vem aqui. – Escutei meu pai rir e depois dizer. Depois ouvi o som de um beijo. — Ele está apaixonado. – Droga, pai!

— Sério, por quem? Mas isso não é motivo para-

— É a primeira vez dele e a garota é mais velha. E muito bonita por sinal. Acho que é motivo o suficiente. – Ele riu mais um pouco.

— Oh, meu filho... Mas ele é tão novo e já... Está crescendo. – Minha mãe disse.

— Sim. Estou ficando velho. – Meu pai disse, dando um suspiro.

— E eu, não?

— Você, minha querida, continua sendo um pedaço de mal caminho.

Nesse momento eu parei de escutar atrás da porta e fui para o meu quarto. As coisas iriam ficar esquisitas ali.